
Da Chem

A MONTANHA E O RIO

Ttulo Original: BROTHERS

Gnero: romance Histrico

Orelha do livro

No auge da Revoluo Cultural chinesa, Ding Long, un jovem e poderoso general,
gera dois filhos. Um deles, legtimo. O outro, nascido de uma jovem camponesa que se atira do alto de uma montanha poucos momentos depois do parto. Tan cresce em
Beijing, cercado de luxo, carinho e conforto, ao passo que Shento  criado nas montanhas por um velho curandeiro e sua esposa, at que a morte do casal o leva a
um orfanato onde

passa a viver sozinho, assustado e faminto. Separados pela distncia e pelas condies de vida, Tan e Shento so dois estranhos, que crescem ignorando a existncia
um do outro.

A montanha e o Rio narra a saga desses dois irmos que trilham caminhos distintos, mas cujas vidas se encontram quando se mesclam inevitavelmente aos acontecimentos

que marcam a histria poltica e social da China no final do sculo XX.

Numa trama repleta de conspirao, mistrio e paixo, Tan e Shento se tornam inimigos ferozes tanto no campo poltico quanto no pessoal, pois, por um capricho do
destino, se apaixonam pela mesma mulher, o que contribui para acirrar ainda mais o dio que sentem um pelo outro.

Com esta histria envolvente, que levou oito anos para ser concluda, Da Chen, conhecido por suas obras memorialsticas,
rea da fico. A marca de Da Chen est por certo presente nesta narrativa que possui tambm traos do romance histrico e  perpassada pelas milenares tradies
do Oriente e suas relaes com o mundo ocidental.

Nascido no sul da China, em 1962, DA CHEN emigrou para os Estados Unidos aos 23 anos. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de Columbia, o autor mora
na regio do vale do no Hudson, no estado de Nova York, com a esposa, Sunny, e os filhos, Victona e Michael.


A MONTANHA E O RIO

Traduo Paulo Andrade Lemos

Nona  impresso
oTtulo original: BROTHERS

Copyright (c) 2006 by DS Studios Inc.

Traduo publicada por acordo com Shaye Areheart Books, diviso de Random House, Inc.

Direitos de edio da obra em lngua portuguesa no Brasil adquiridos pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode
ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrnico, de fotocpia, gravao etc., sem a permisso
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C447m        Chen, Da

A montanha e o Rio / Da Chen ; traduo de Paulo Andrade Lemos. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2007.

Traduo de: Brothers ISBN 978-85-209-1992-7

1. Amizade - Fico. 2. China - Histria Revoluo Cultural 1966-1976 - Fico. 3. Romance americano. I. Lemos, Paulo Andrade. II. Titulo.

CDD: 813 CDU: 821.111 (73)-3

AGRADECIMENTOS

Desejo agradecer s seguintes pessoas pela sua contribuio na realizao deste romance:

Sunny, minha bela esposa, que  tambm uma escritora brilhante: voc  essencial na minha carreira de escritor, desde plantar a semente e me estimular a escrever,
at  habilidosa reviso que deu forma final a este livro, e certamente a muitos outros que ainda viro. A palavra chinesa An - paz -  composta de duas partes:
a parte superior significa "telhado"; e a parte inferior significa "mulher". Sunny, voc  quem me traz a paz.

Nossa filha Victoria e nosso filho Michael cresceram e se tornaram meus melhores amigos e meus mais ferozes adversrios no badminton. Vocs so os melhores! Quando
comecei a escrever este livro, anotei uma frase entre parnteses: Meu filho nasceu neste dia. E agora, Michael, voc tem oito anos. O livro cresceu junto com voc.

Minha me, que veio morar conosco depois que meu pai faleceu. Sintome amado todos os dias. Todos deveriam ter uma me como voc.

Meus sogros, William e Alice Liu, que so dois dos seres humanos mais nobres e mais generosos que eu conheo, e avs extremamente especiais para os nossos filhos.
William, agora que j no tenho o meu pai, voc
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preenche este vazio para mim. Que voc e Alice, junto com minha me, vivam para sempre.

Meus agentes, o sbio Robert Gottlieb e o jovem e extraordinrio Alex Glass do Trident Media Group. Obrigado pela orientao que vocs me deram em todos os aspectos
dos meus esforos criativos.

Deborah Artman, escritora e autora de peas teatrais de grande categoria. Voc me fez perceber coisas muito profundas sobre a arte da fico e aprendi lies muito
valiosas sobre o processo criativo.

Meu pequeno mas extremamente talentoso grupo de escritores: John Bowers, Laura Shaine Cunningham, Nina Shengold, Ron Nyswaner, Mary Louise Wilson e Zach Sklar -
vocs me deram grande apoio. Agradeo a Jim Gullickson pela sua habilidade e pelo seu maravilhoso talento artstico. Meus queridos amigos, o tempo que passamos juntos
 de grande valor para mim.

Jenny Frost, presidente e editora do Crown Publishing Group. Voc  uma visionria, uma verdadeira criadora de coisas duradouras e luminosas. Sua liderana levar
a Crown ao seu pice. Foi uma sorte para mim que nossos caminhos tenham se cruzado.

Shaye Areheart, editora-chefe da Shaye Areheart Books:  uma honra fazer parte do seleto grupo de autores sob a sua tutela. Voc  um ser transcendental invejado
por ns, seres comuns. Seu brilhantismo como editora, sua sabedoria como presidente de uma casa editorial e seu esprito nobre como amiga me deixam desarmado a cada
vez que estou na sua presena. E, como diria meu pai, um homem muito sbio, esta dupla - Jenny e Shaye - so jias para serem guardadas e tesouros para serem apreciados.
Para o meu baba e para o meu tio, Wen Yuan Chen. Dois irmos separados por uma guerra fria durante quarenta anos.

 Shento

CAPTULO 1

1960

BALAN, SUDOESTE DA CHINA

PARA CONTAR A HISTRIA do meu nascimento, no vou comear pelo incio, mas pelo fim do meu comeo. Para falar a verdade, nasci duas vezes. A primeira foi quando
rasguei a passagem escura das entranhas de minha me. A segunda foi quando o velho curandeiro da aldeia me salvou.

A jovem que me deu  luz pretendia acabar com tudo, no apenas com a sua vida, mas tambm com a minha, no exato momento da minha chegada a este mundo. Tinha pressa
em se atirar do penhasco que ficava no topo do monte Balan, mas eu fui mais rpido do que suas pernas inchadas e escapei de seu ventre bem no momento em que ela
avanava para a beira daquele precipcio fatdico. As pessoas da aldeia tentariam imaginar o que a teria levado a isso, transformando-se numa espcie de mito ao
saltar do ponto mais alto da montanha, comigo ainda ligado a ela pelo cordo da vida, o emaranhado cordo umbilical.

Pulei para fora antes que ela se atirasse no abismo, nascido em pleno ar, pairando acima de tudo. Posso imagin-la lanando-se daquele penhasco escarpado como uma
guia planando em direo ao solo, liberta de seu ninho, de suas amarras, de seus pecados, em seu lamento final, para ser esquecida pelo vento que fazia esvoaar
seu cabelo vioso de moa, enquanto se
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arremessava precipcio abaixo. Ns dois, anjos geminados e sem asas, caamos em queda livre. Mas o impensvel aconteceu. A mo do destino interveio. Eu, o recm-nascido
choroso, caindo no rastro de minha me pela encosta do penhasco coberto de trepadeiras, fiquei subitamente agarrado aos galhos de um arbusto de ch que crescia na
entrada de uma gruta.

Em cmera lenta, num segundo que poderia ter durado uma vida inteira, rompeu-se o cordo umbilical. Apanhado por dois galhos flexveis, soltei um grito assustador
- minha ode ao vigoroso e resistente arbusto de ch. Minha me - o anjo de meu nascimento, de minha morte - e eu nos separamos em pleno ar, com o sangue jorrando
por todo o lado, respingando nas folhas. Fiquei balanando, suspenso nas alturas, preso nos galhos daquela planta abenoada. Minha me mergulhava em direo ao fundo,
transformada num pequeno ponto que ia ficando cada vez mais diminuto, at que desapareceu no silncio do vale que ficava l embaixo, para nunca mais ser vista. S
muito depois  que eu viria a saber o motivo de minha me ter escolhido cantar a cano da morte to cedo em sua vida. Por ora, eu estava pendendo de um galho, to
periclitantemente quanto se poderia estar.

Porm, o destino interveio mais uma vez. A misericrdia divina desceu sobre mim na forma do velho curandeiro da aldeia - magro, ossudo e cheio de f. Quando ele
me ouviu chorando e me viu preso no penhasco aoitado pela ventania, desceu como um macaco para me resgatar. Felizmente, era to gil quanto um deles, pois sua atividade
exigia que percorresse as cadeias de montanhas, passando por todos os cumes, por todos os vales, indo de caverna em caverna em busca do raro ginseng e da saliva
de andorinhas cujos ninhos eram encontrados apenas nos locais quase inalcanveis escolhidos pelas aves.

Ele desceu pela encosta do penhasco, abrindo caminho por entre os galhos das rvores, por vezes no encontrando os pontos de apoio para os ps e quase despencando
numa queda fatal. Mas, naquele dia, os cus permitiram que apenas uma morte ocorresse. Ofegante, conseguiu me agarrar. Este momento  o que eu chamo de meu segundo
nascimento, e que me foi concedido pela graa e misericrdia de Buda, pelas mos de uma pessoa que tinha praticado boas aes dia aps dia, cuidando de um vilarejo
repleto de gente pobre e doente. Digo que foi a graa e a misericrdia de Buda e foi exatamente isso, pois se fosse um outro homem que tivesse escutado o meu choro
e que, mesmo pela vontade de Buda, tivesse

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em seu corao a disposio e o desejo de salvar aquele pequeno ser, fosse ele um homem de bom corao ou no, poderia nunca ter conseguido fazer o que o curandeiro
fez, porque ao corao daquele velho faltava um filho. O grito que lancei no ar, e que foi ouvido por ele, ecoou nos recnditos de sua prpria alma, como ele mais
tarde me contaria. No era apenas o berro de um menino qualquer, mas o do seu prprio sangue.

Ele estava a apenas alguns centmetros de distncia de mim quando uma rajada de vento por pouco no me arrancou novamente das mos da vida. Mas, segurando na raiz
de uma rvore, ele estendeu um dos braos para me pegar, agarrando a minha perninha minscula a tempo de me aninhar na dobra do seu outro brao. Para ganhar tempo
e me salvar, fez o que ningum tinha ousado fazer antes, descendo centenas de metros pelo penhasco ngreme, arranhando os joelhos e os calcanhares, quase fraturando
os ossos, para logo em seguida correr de volta para casa ao encontro da mulher com quem era casado h quarenta anos, antes que os grandes felinos notvagos das montanhas
pudessem sentir o cheiro do nosso rastro de sangue.

Pegaram a cabra e a ordenharam. A mulher me alimentou com aquele leite como se viesse do seu prprio seio. Naquela mesma hora e naquele exato momento, deram-me o
nome de Shento - o topo da montanha, o cume.

- Ele vai querer alcanar o cu, como o nosso sagrado monte Balan - disse baba.

- E vai subir aos cus como o esprito de nossos ancestrais - acrescentou mama. - Ser que podemos realmente ficar com ele como se fosse nosso prprio filho?

- Mas  claro que sim! Ele  uma ddiva da nossa querida montanha, uma recompensa pelas boas aes que praticamos.

- E se encaixa to bem nos meus braos! - murmurou mama, acariciando meu rosto.

E assim termina a histria do meu nascimento e comea a da minha vida.

O SOL SE PUNHA E A LUA subia no cu, e aos poucos fui me tornando um menino da roa, robusto e forte, com o apetite de uma criana trs anos mais velha. Mama me
dava comida com uma colher de bambu do tamanho da usada pelos adultos. No precisava ficar cantando nenhuma cano infantil para que eu comesse. Eu devorava uma
colherada depois da outra at soltar
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pequenos arrotos. Meu prato predileto era bolo de arroz doce. Na nossa aldeia pobre, onde a comida de todos os dias era o inhame, arroz doce era coisa rara e preciosa.
Baba tinha que percorrer muitos quilmetros para atender pacientes em povoados distantes e ganhar um dinheirinho extra para que eu pudesse comer aqueles preciosos
bolos de arroz. Foi  antiga floresta, cortou as melhores varas de bambu e construiu um cercadinho, grande o suficiente para que eu pudesse engatinhar e dormir.
Ps o cercado perto de sua escrivaninha na enfermaria. Com o auxlio de mama, atendia seus pacientes, dava conselhos e praticava acupuntura comigo ali ao lado.

Apoiado numa das paredes da enfermaria, havia um grande armrio cheio de gavetas com medicamentos fitoterpicos que baba vendia aos seus pacientes, por grama ou
por pitada. As gavetas tinham etiquetas com caracteres chineses antigos e misteriosos que apenas os mdicos versados em textos clssicos saberiam reconhecer. Certo
dia, aos dois anos e meio de idade, surpreendi baba ao citar e localizar dez das ervas mais comumente utilizadas. Aos trs, eu j sabia reconhecer mais da metade
delas. Quando tinha quatro anos, alertei baba de que ele tinha pegado uma pitada da erva errada para uma determinada receita. O aviso, disse baba, evitou que uma
mulher grvida sofresse um aborto. Baba e mama estavam convencidos de que eu no era uma criana comum. Daquele dia em diante, baba comeou a ler para mim os textos
clssicos da medicina chinesa e me ensinou a memorizar os pontos usados na acupuntura.

Uma noite, deitado na cama antes de adormecer, escutei por acaso baba falando baixinho para mama:

- O destino do nosso filho  ser o melhor mdico que essas montanhas jamais iro conhecer. Com a sua inteligncia extraordinria, imagine s quantas curas vai descobrir!

- No! - retrucou mama.

- E por que no? Por que  que voc discorda disso?

- O destino do menino vai alm do seu desejo limitado - disse ela. - Um dia, ele vai comandar milhares e governar milhes.

- Voc no est sendo um pouco ambiciosa demais, minha querida esposa? - ouvi baba dizer.

- De jeito nenhum. Voc no percebe? O nascimento dele foi um acontecimento trgico, e sua histria no  diferente da vida de muitos imperadores que, vindos do
nada, ascenderam ao trono dourado.

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Baba ficou em silncio por um momento.

- ... j li em algum lugar que os acontecimentos trgicos formam homens extraordinrios.

-  isso mesmo, mas, infelizmente, esses grandes homens nunca foram muito felizes.

- Pois prefiro que ele seja um homem comum que viva feliz, e que tenha uma vida longa o suficiente para estar ao nosso lado, na hora da nossa morte - disse baba.

- J  tarde demais para isso. O destino dele comeou quando ele respirou pela primeira vez o ar daquele penhasco. J  uma grande sorte para ns t-lo conosco durante
o tempo que o nosso bom e misericordioso Buda permitir.

Naquela noite, infringi as regras e me aconcheguei na cama dos dois, dormindo entre eles at o sol raiar. Mas, mesmo que falassem freqentemente sobre mim, nunca
mencionavam meus verdadeiros pais. Se esse tabu fosse quebrado, o fantasma do meu passado voltaria para assombrar a nossa vida quase perfeita, ainda que simples.

 CAPTULO 2

1960

BEIJING

Sou FILHO DO GENERAL DlNG LONG e nico neto de duas famlias que gozam de muita influncia na China: os Long, uma dinastia de banqueiros, e os Xia, uma fbrica de
militares. Estas duas famlias proeminentes eram to diferentes quanto a noite e o dia.

Vov Xia no teve nenhuma instruo formal. No entanto, caminhou ao lado do presidente Mo durante a Grande Marcha, uma marca de nobreza que lhe rendeu o posto vitalcio
de comandante-em-chefe do Exrcito, da Marinha e da Aeronutica da China.

Vov Long era um paradoxo vivo, um economista comunista que estudou em Oxford e era presidente do Banco da China. Seus irmos fizeram fortuna como banqueiros na
colnia capitalista de Hong Kong. Vov Long, um homem de finanas sofisticado, que falava francs como um parisiense, que dominava perfeitamente o japons formal
e falava ingls com sotaque de Oxford, preferia ternos da Savile Row feitos sob medida, charutos cubanos, vinhos finos, Beethoven e Shakespeare - pequenos pecados
que tinha adotado desde a dcada de 1930, quando estudou na Universidade de Oxford. Durante os anos da Guerra Fria, era o nico chins que recebia diariamente o
Wall Street Journal, o New York Times

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e o Financial Times, que era o seu favorito, impresso na Inglaterra em papel rosado.

Em conformidade com a sua imagem de "o maior banqueiro da China", ofereceram-lhe uma Mercedes-Benz, modelo clssico, com um motorista uniformizado e o nico chefda
China com experincia na cozinha ocidental, vindo diretamente do Beijing Hotel. Afinal de contas, vov Long era o presidente de um dos maiores bancos do mundo, superado
apenas pelo todo-poderoso Federal Reserve dos Estados Unidos. Os demonstrativos financeiros diziam tudo. O Banco da China era dono do pas inteiro com todas as suas
montanhas e rios, com direitos sobre o espao areo, sobre as jazidas do leito ocenico e tudo o mais que havia entre um e outro.

O curioso era que vov Xia podia ser um general de cinco estrelas, mas mesmo assim era desleixado e rstico, preferindo dormir numa cama de madeira dura e com um
travesseiro tambm feito de madeira. Os colches macios de espuma e com molas causavam-lhe dor nas costas e nos ombros. Gostava de usar sandlias de palha, que foram
as melhores amigas de seus ps nos tempos de juventude, quando trabalhava como mensageiro, percorrendo as montanhas rochosas e atravessando os rios a servio do
grande presidente Mo durante os primeiros tempos do Partido Comunista Chins em Yenan, na provncia de Shaanxi. Tinha confessadamente uma mentalidade de campons
nortista e no confiava em privadas com descarga, preferindo usar o penico. Dizia que os cigarros finos eram uma ofensa para os verdadeiros fumantes como ele, cujas
clulas pulmonares s se sentiam estimuladas por um tipo especial de tabaco malcheiroso proveniente de um vilarejo prximo s montanhas do Himalaia. Qualquer outro
fumo servia apenas para entorpecer os seus pulmes.

Sua roupa predileta de todos os dias, quando tinha a oportunidade de escolher, era um short de linho bem folgado e costurado  mo. Como diverso, nada melhor do
que a pera de Pequim, com seus ganidos e cacarejos, que ele acompanhava cantarolando com sua voz gutural e desafinada, que assustava as crianas facilmente. Mas,
o mais chocante de tudo, era a sua ingesto diria de testculos de boi assados, ostras cruas, joelho de porco e cabeas de peixe - os pratos gordurosos de seu cozinheiro
particular, um primo afastado que havia sido o aougueiro da aldeia onde morava. Tudo era servido em grandes tigelas, em quantidades imensas e com enorme variedade.
Era comida da roa feita em casa, e cada refeio era um pequeno
banquete que poderia alimentar um povoado inteiro. Ele experimentava todos os pratos, arrotava e dava o restante aos seus empregados, guarda-costas e suas famlias,
como os imperadores faziam na dinastia anterior. Era como um rei na sua prpria corte e comandava o maior Exrcito da histria do mundo - dez milhes de soldados
em tempos de paz, nmero que poderia facilmente ser duplicado ou triplicado pelo contingente mobilizvel  menor suspeita de qualquer indcio de guerra. Sua piada
favorita era aquela que dizia que, se algum quisesse criar problemas, tudo o que a China precisava fazer era ordenar a seus soldados que urinassem todos ao mesmo
tempo e assim o inimigo seria inundado por um dilvio nauseabundo.

Diferentes como eram, vov Long e vov Xia representavam o plo Norte e o plo Sul do reinado feudalista que o presidente Mo exercia no pas mais populoso da Terra.
Vov Long impediu Mo de ir  falncia, pelo menos nos livros contbeis. As reservas monetrias do banco eram maiores do que nunca, com seus inmeros emprstimos.
Apoiava todos os movimentos ideolgicos iniciados por Mo e oferecia a ele todo o seu poder econmico. Vov Xia cuidava para que o presidente no sasse do poder.
E quando havia alguma ameaa contra a sua vida, o presidente Mo jamais tomava conhecimento disso porque meu av resolvia esses assuntos do jeito tradicional, ou
seja, dava sumio em qualquer um que representasse perigo.

Meus dois avs nunca se olhavam nos olhos, nem mesmo nas reunies mais ntimas com o presidente, que j estava envelhecendo. Viviam discutindo como dois meninos
de escola. Suas altercaes eram famosas e s vezes eles quase chegavam s vias de fato. O nico comentrio de Mo sobre essas discusses era que isso o fazia lembrar
de sua jovem terceira esposa, a clebre Madame Mo.

Como todos os homens de confiana do imperador, meus avs eram amados pelo lder supremo e recompensados generosamente. Moravam em grandes manses em Zhong Nan Hai,
o elegante bairro de luxo em Beijing, a capital do pas, rodeado por montanhas e lagos cinematogrficos. As casas eram circundadas por muros altos que as protegiam
dos olhares da gente do povo e do barulho das ruas congestionadas. Ganharam tambm casas de veraneio, com decorao sofisticada, situadas nas longas e desertas praias
de Beidaihe, uma rea de lazer do governo prxima ao mar da China. Um trem particular com vages-leitos, salas de majongue e provido de um cozinheiro transportava-os
da cidade para a casa de praia e vice-versa, de acordo com sua vontade.
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Devido  posio que ocupavam, os dois recebiam do governo alimentos dos mesmos tipos e qualidades, tinham o mesmo nmero de empregados, a mesma televiso a cores
e a mesma quantidade de linhas telefnicas. E, evidentemente, suas propriedades estavam localizadas na mesma rea, eram construdas e decoradas no mesmo estilo,
chegando a ter o mobilirio idntico. O tratamento igualitrio do presidente Mo significava que os dois estavam sempre juntos no trabalho ou no lazer, sendo vizinhos
na cidade e na casa de praia. O relacionamento entre eles era to intransigente que um se recusava a deixar o outro se divertir sozinho, e o seguia aonde quer que
fosse apenas para irrit-lo com a sua presena.

Apesar de tudo, as coisas corriam bem, a no ser por um pequeno acontecimento que criou razes, cresceu e floresceu no quintal destes homens como uma semente de
salgueiro que um cisne em migrao tivesse deixado cair. Hua, que quer dizer "flor", era a filha nica do vov Xia. Pianista concertista, era bonita, tmida e tinha
alma de artista. Vov Long, o banqueiro, costumava dizer que ela era uma bela flor que brotou num monte de estreo.

O filho nico de vov Long, cujo nome era Ding Long, era um jovem general do Exrcito. Desde pequenos, e sempre que podiam, Hua Xia e Ding Long fugiam s escondidas
para o jardim que separava as duas casas para brincar juntos. No vero, quando as famlias passavam as frias  beira-mar e quando seus pais no estavam por perto,
as duas crianas catavam mariscos e apanhavam caranguejos. Deixavam mensagens secretas em cdigo, escrevendo na areia da praia com os dedos dos ps descalos, marcando
encontros  noite sob a luz da lua e das estrelas, escondidos atrs das dunas e dos despojes que o mar lanava na praia. A amizade transformou-se em amor. Enquanto
meus avs dormiam e roncavam, a escurido suave e delicada era a nica testemunha do romance que brotava. As duas crianas inocentes acreditavam que o seu amor e.
o seu futuro casamento acabariam com a inimizade entre os dois homens.

Num certo dia chuvoso de vero, na praia de Beidaihe fustigada pelo vento, Ding Long e Hua Xia apareceram de mos dadas diante dos dois velhos, que estavam naquele
momento chutando areia um no outro, dis-

n o sobre a fronteira inexistente entre as duas propriedades. Os pom-

 mandaram que os dois homens parassem com a discusso e lhes

falaram que em breve seriam parentes. O general e o banqueiro quase

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tiveram ataques cardacos simultneos. Os dois precisaram ser levados por suas enfermeiras de volta s suas salas de estar.

Mame e papai se casaram sob a bandeira vermelha. Num brinde  felicidade dos recm-casados, meus dois avs, que agora eram parentes por afinidade, apertaram as
mos um do outro pela primeira vez.

No dia em que nasci, os dois estavam muito animados e com muita pressa de chegar antes do outro para ter a primeira viso do primeiro neto, o que no foi surpresa
para ningum. O banqueiro transferiu as reunies dirias com seus assistentes da pomposa sala de conferncias do banco para o estacionamento do hospital onde minha
me estava. Vov Long espremeu-se com seus assistentes dentro das limusines compridas com a bandeira vermelha, enquanto seu secretrio ficava indo e vindo, como
um mensageiro, do carro para o hospital. Ele estava se sentindo to afortunado e to generoso que, uma hora depois do meu nascimento, aprovou pessoalmente o maior
emprstimo jamais visto na histria da China para auxiliar as vtimas de uma catstrofe, uma verba colossal de duzentos milhes de iuanes chineses destinados a uma
provncia do Sul do pas. Os historiadores posteriormente registraram que este emprstimo ajudou a salvar milhes de vidas humanas.

O general, por sua vez, acordou em sua cama de mogno no dia do meu nascimento para se defrontar com a notcia frustrante de mais uma insurreio. Milhares de monges
Miao tinham sido presos por terem atirado pedras e facas em integrantes do Exrcito Vermelho. O general, geralmente propenso a pensar como um conquistador impiedoso,
mudou de atitude naquele dia. - Solte-os - disse ele. Em seguida, decolou em seu helicptero rumo ao hospital. Tendo sido informado com antecedncia por seu servio
secreto que o sogro de sua filha j se encontrava no estacionamento, emitiu uma ordem militar de emergncia endereada ao gerente geral do hospital para que fosse
proibido o uso do estacionamento por qualquer pessoa que no trabalhasse nele. Vov Long pde apenas trincar os dentes ao ver a poeira que se levantou do cho quando
o helicptero da Aeronutica pousou ruidosamente no estacionamento de onde tinha acabado de ser expulso por razes militares sem fundamento.

- Amanh, me lembre de sugerir ao presidente um corte drstico no oramento militar - disse ele a um de seus assistentes.

No entanto, quando os meus dois avs finalmente me viram e me pegaram no colo, tudo o que fizeram foi dar muitas gargalhadas, ficar rindo

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 toa como dois velhos babes e comparar quem tinha sido agraciado com a maior mancha de xixi feita por mim.

COMO ERA DE SE ESPERAR, meus dois avs competiam pela minha afeio, determinados a moldar o meu futuro ao feitio de cada um, exercendo o mximo possvel de sua
influncia pessoal no meu dia-a-dia.

Vov Xia me ensinou a engatinhar e rastejar no melhor estilo militar quando eu tinha seis meses. Todos os dias rastejvamos pelo piso acarpetado da manso, impulsionando
o corpo com os cotovelos. Quando eu tinha dez meses, o general me ensinou a marchar como uni soldado com os ps bem erguidos no ar. Nada de arrastar ou empurrar
os ps. Esquerda, direita. Duas vezes por semana, ele me seqestrava junto com a minha bab e nos levava para passear em seu jipe blindado, seguido por sua equipe,
para inspecionar a base militar que ficava fora da cidade. Eu nunca dizia "oi" ou "at logo" ao general. Solenemente, batia continncia para ele.

Ao se dar conta de que havia muitos soldadinhos de brinquedo  venda no mercado e praticamente nenhum bonequinho de banqueiro, vov Long alocou uma vultosa verba
para uma fbrica estatal de brinquedos em Beijing para que fossem fabricados alguns modelos, todos vestidos com o terninho no estilo Mo. De mos dadas comigo, inventava
canes de ninar usando as tabuadas e desenhava os grficos de flutuao de juros com lpis de cor. Aos sbados, quando as bolsas de valores do mundo inteiro estavam
fechadas, vov Long me botava sentado em sua espaosa poltrona de mogno forrada de couro, enquanto andava pela sala, ouvindo os informes econmicos mundiais da semana
apresentados por seus assistentes.

Sentia grande prazer quando percebia que eu ficava particularmente quieto durante o relatrio semanal sobre as taxas de juros dos EUA, sobre o ndice Dow Jones,
e a proposta de Ttulos do Tesouro americano feita pelo Federal Reserve, que eram anunciados na voz calma e tranqila da economista de sua equipe, ph.D. pela Universidade
de Harvard e nica mulher do grupo.

No meu quarto, os sinais do embate travado entre os meus avs eram bem visveis. Numa das paredes ficavam os presentes do general: rifles, tanques, jipes e soldados.
Na outra, havia um grfico colorido com as taxas de juros e a flutuao das taxas de cmbio mais importantes do mundo inteiro.

Mas a verdadeira competio aconteceu no meu primeiro aniversrio. Seguindo a tradio, eu, muito bem lavado, penteado e vestindo uma roupa nova de marinheiro, fui
colocado no cho rodeado por objetos variados. Aquele que eu escolhesse iria simbolizar o que eu seria quando crescesse. Para surpresa de todos, no escolhi nem
o tanque de guerra e nem o baco, que estavam estrategicamente posicionados bem diante dos meus olhos e facilmente ao meu alcance, enquanto meus dois avs, ajoelhados,
tentavam me influenciar na escolha. Em vez disso, peguei um globo terrestre em miniatura, cravei os dentes nele e o despedacei. Em seguida, com a mo direita, peguei
o baco, que descartei quase imediatamente, e apanhei o tanque de guerra. O banqueiro cantou vitria, mas o general disse que ele riria por ltimo. Ficou decidido
que, por eu ter apanhado o globo terrestre, meu destino era ser um grande lder mundial, mas que eu seria ambivalente no que dizia respeito ao instrumento a ser
usado para alcanar aquela posio. Shento

CAPTULO 3

1967

BALAN

O ANO EM QUE NASCI COINCIDIU COM A deflagrao dos conflitos de fronteira entre o Vietn e a China. A minha aldeia, Balan, aninhada na fronteira montanhosa da China,
transformou-se da noite para o dia num posto militar avanado muito movimentado, com milhares de homens e mulheres do Exrcito de Liberao do Povo ali baseados
e prontos para o combate. Um complexo militar foi construdo no centro do povoado, e ns, os moradores locais, vimos pela primeira vez um caminho trafegando por
nossas trilhas lamacentas. Ficamos maravilhados com a magia da eletricidade. O gerador barulhento que fornecia energia para o posto militar s fez ressaltar a escurido
pr-histrica que envolvia o vilarejo depois do pr do sol.

Enquanto as tropas aguardavam ordens superiores, os militares dos dois sexos organizavam festas e consumiam boa comida, com fartura, todos os dias - carne de vaca,
carne de porco, ovos, barris de toucinho. Cigarros no faltavam, os tecidos eram os que estavam na moda, e havia sesses de cinema todos os sbados  noite, no ptio.
Apenas dois lderes da aldeia foram oficialmente convidados para assistir aos filmes falados. O restante do povo do vilarejo subia no topo das rvores para tentar
ver um pouco
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daquela maravilha dos tempos modernos. Tambm havia bailes, e algumas moas de sorte da aldeia eram convidadas.

Ding Long, o jovem general no comando, montou uma escola para as crianas do Exrcito e do povoado. Por este ato de magnanimidade, era temido e idolatrado como um
deus vivo pelos habitantes do local.

No primeiro dia de aula, acordei antes do raiar do dia e vesti a camisa nova de linho branco que mama havia feito no tear e que depois tinha sido costurada  mo.
Fiquei andando pela casa usando os novos e barulhentos tamancos de madeira que baba havia comprado na lojinha do Exrcito - onde tudo era absurdamente caro -, com
o dinheiro que economizou durante meses. Assim que me vi longe da vista dos meus pais j idosos e que ficavam me paparicando o tempo todo, tirei os meus queridos
tamancos e guardei-os dentro da minha pasta da escola para que no ficassem sujos de lama.

Aos sete anos de idade, e apesar de ser o menino mais novo de uma turma repleta de filhos de militares, que conheciam mais coisas do mundo e que eram muito mais
bem-vestidos do que ns, os habitantes da aldeia, eu estava determinado a no ficar para trs. Conhecia bem os clssicos chineses que baba tinha me ensinado e fazia
redaes elegantes. Porm, a minha matria favorita era matemtica. Por ter trabalhado como caixa para baba, sabia como era importante contar dinheiro e no tinha
necessidade de usar o baco. Meu raciocnio provou ser mais rpido do que aquele instrumento arcaico com todos os seus cliques e claques.

A professora me ensinou matrias que eram do currculo das turmas mais adiantadas. Eu assimilava tudo com muita facilidade e pedia mais. Ela logo fez comentrios
sobre minhas qualidades no posto do Exrcito.

 hora do jantar, baba e mama ficavam me ouvindo recitar os textos que eu tinha aprendido na escola enquanto a luminosidade suave do sol poente aquecia o nosso alpendre.
Conversava sobre questes complicadas de matemtica com baba, que geralmente ficava acordado noite adentro tentando resolver, no seu baco, os problemas sobre os
quais tnhamos conversado.

Ao trmino do ano letivo, surpreendi a todos ao receber o primeiro prmio da escola - um saco de balas e uma bandeira vermelha de seda com cinco estrelas. Alm disso,
recebi um convite inesperado para jantar com o general e assistir a um filme de guerra dentro do destacamento. Este
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convite me deixou muito empolgado. O encontro estava marcado para a noite do Ano Novo e o tempo de espera me pareceu interminvel.

Finalmente, na virada do ano, mama ps a bandeira vermelha na parede, acima do nosso oratrio secreto, e eu dividi minhas preciosas balas com eles. As balas eram
divinas, e os papis que as envolviam eram to bonitos e coloridos que os guardei numa caixa de bambu. Para o jantar, mama preparou uma grande tigela com pedaos
fumegantes de joelho de porco, comprado a crdito por baba no aougueiro da aldeia que, por sua vez, em breve compraria de baba as ervas receitadas para o seu reumatismo.
Eu estava feliz, mas meus pais estavam calados. Calados demais.

No conseguia entender o motivo daquele silncio.

- Fiz alguma coisa errada?

- Nada disso, meu filho. Estamos muito orgulhosos de voc - disse mama em voz baixa. .   ,

- Mas vocs no parecem felizes por minha causa... Peguei no brao de baba e o sacudi.

- Meu filho, voc fez de mim o pai mais orgulhoso do mundo. S estamos preocupados com o interesse exagerado que esse general todopoderoso est demonstrando por
voc. No sabemos qual  a inteno dele - disse baba.

- Mas isso  uma honra. Ele  o general mais moo da histria militar da China e o comandante das nossas foras de defesa contra o Vietn. Vocs no vo me impedir
de ir, vo?

-  claro que no! Mas por que voc quer tanto ir? - perguntou mama.

- Um dia quero ser um general como ele - respondi.

Mama e baba balanaram a cabea e sorriram pela primeira vez naquela noite.

O GENERAL DlNG LONG ERA um homem alto, com uma basta cabeleira negra e profundos olhos brilhantes. Seu belo uniforme caa-lhe muito bem, realando os ombros largos
e a cintura estreita. s seis horas em ponto, o general me recebeu muito gentilmente como seu convidado de honra, quando fui conduzido ao seu gabinete por um soldado
uniformizado.

Eu estava usando a minha nica camisa de linho, a melhor que tinha, e os meus tamancos de madeira que ainda estavam novos, e que logo me
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arrependi de ter calado, j que faziam muito barulho ao tocar no piso de madeira de lei do gabinete do general. Pensei em tir-los, mas a elegncia do ambiente
me impediu de faz-lo.

Senti-me diminudo pela estatura do general quando ele se inclinou para apertar a minha mo com firmeza. Nossos olhos se encontraram e o general examinou meu rosto
com muita ateno.

- Voc se parece muito com o meu filho, s que  um pouco mais moreno.

- Sinto muito, general.

Meu corao galopava como um cavalo selvagem. Por que estava pedindo desculpas? Na verdade, no sentia muito coisa nenhuma...

- No h motivo para se desculpar. Sente-se - disse o general com um sorriso.

- Obrigado, general.

Sentei-me numa cadeira alta, de frente para ele, que se acomodou numa poltrona enorme coberta com uma pele de tigre.

- Quem lhe deu esse nome? - perguntou.

- Foi meu baba, e quer dizer "o topo da montanha". '

-  verdade - disse o general. - Bem ambicioso.

- Nem tanto. Eles querem que eu seja o mdico da aldeia para cuidar dos doentes. Mas quero ser general como o senhor. Quero comandar milhares de homens com armamentos
e tudo o mais, para combater os nossos inimigos e sair vitorioso em todas as batalhas.

O general parecia achar muita graa naquilo tudo.

- O que so esses quadros na parede? - perguntei, apontando para os papis dentro das molduras.

- Venha c, vou lhe mostrar.

Ele se levantou e me levou at a parede.

- Este  o meu diploma da Universidade de Beijing, onde fiz o curso de histria. Ao lado dele est este outro da Academia Militar do Leste. E voc deve saber muito
bem quem  esse que est na foto comigo.

- O nosso grande lder, o presidente Mo. E quem  esse outro senhor que est na foto?

- Meu sogro, que  o comandante-em-chefe do Exrcito, da Marinha e da Aeronutica.

- O senhor j deve ter conhecido muitos lderes importantes.

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O general Long concordou com um movimento de cabea.

-  verdade, e isso inclui voc. Voc tambm  um rapaz muito importante.

- Talvez ainda no, general, mas vou ser um deles quando crescer. Espere para ver.

- Com certeza.

O general me deu um belisco na bochecha e passou a mo pelo meu cabelo num gesto carinhoso.

- E esse aqui  o seu filho? - perguntei, apontando para a fotografia de um menino que estava entre o general Long e sua bela mulher.

O general fez que sim.

- O nome dele  Tan. Vocs dois tm a mesma idade e ele se parece muito com voc.

No desgrudei os olhos do menino durante um bom tempo.

- O senhor sente saudade do seu filho?

- Sinto sim, Shento. ;"

- Foi por isso que o senhor quis me ver?

Ele no me respondeu. Durante o resto da noite, fiquei desfrutando do magnetismo suave do general, que me ofereceu um lauto jantar com cinco pratos diferentes. Havia
frango, cabrito, carne de vaca e at patas de tigre. Devorei tudo, porm com bons modos, e percebi um sinal de aprovao nos olhos do general. O filme de guerra
a que assistimos era empolgante e cheio de cenas de batalhas, mas devo ter adormecido l pela metade da projeo. S me lembro de ter acordado nos braos do general
e de ter sido entregue a baba no porto da frente do posto militar.

Naquela noite, descobri o meu heri.

No dia seguinte, pedi a mama que fizesse para mim uma jaqueta militar igual do general com estrelas aplicadas. Baba voltou a fazer longas viagens pelas montanhas
 cata de ervas para poder comprar o tecido verde-oliva que era vendido na lojinha do Exrcito.  noite, insisti com baba para que me fizesse um rifle de bambu.
Eu marchava todos os dias no quintal da nossa casa com a minha roupa nova e minha arma, atacando com o meu rifle de bambu os homens de palha que representavam os
inimigos vietnamitas.

Quando acabavam as aulas, eu me demorava no ptio da escola, que ficava separada do posto do Exrcito apenas por um porto de ferro. Subia pelas barras do porto
e ficava espiando a vida do outro lado. Tudo l era
diferente, um outro mundo, muito distante da minha humilde aldeia natal. O rdio tocava msica enquanto os soldados jogavam futebol. As crianas ficavam sentadas
nos bancos com suas mes ou suas babs, chupando balas e torcendo pelos times. As mulheres integrantes do Exrcito, de saia e blusa brancas, riam e gritavam, lanando
latas de refrigerantes para os homens que estavam jogando.

Quando o sol se punha por detrs dos coqueiros que havia no ptio, uma voz anunciava pelos alto-falantes que o jantar seria servido. Pela chamin da cozinha subia
um cheiro delicioso de comida, que se espalhava pelo ar, atiando minhas narinas e despertando a minha fome. No era preciso ter muita imaginao para ver o que
havia naquelas mesas, com muita fartura: enormes tigelas de arroz branco fumegante, sopas deliciosas, cestas de frutas frescas, pratos de peixes e frutos do mar
com os quais eu s podia sonhar. Se algum me perguntasse como era o paraso, eu diria que ele estava ali a apenas uns poucos centmetros de distncia, do outro
lado do porto de ferro. E o general que estava l dentro do destacamento era o meu deus.

Ao FINAL DA PRIMAVERA DAQUELE ANO, o Buda do meu destino abriria uma fresta do seu cu para deixar cair no meu colo mais um divino favor, desta vez na forma de um
conhecimento secreto. Este conhecimento, amaldioado ou abenoado, daria forma ao curso da minha vida e moldaria o caminho do meu destino.

Buda era sbio e oportuno. Ar-Q, o mendigo do vilarejo, foi o seu instrumento terreno naquele dia. O mendigo estava passando fome h trs dias, no tinha sequer
uma fruta podre para comer ou uma msera cuia de sopa de arroz para tomar. Naquele ano, a poca das mones estava mais mida do que nunca, inundando a regio. As
plantaes estavam destrudas e a colheita foi mnima.

Dei de cara com o mendigo naquela decisiva tarde chuvosa numa trilha estreita quando voltava da escola para casa. Ele estava ali parado, alto e desgrenhado, olhando
para mim. Depois, inclinou-se e ficou cheirando a sacola onde eu levava o meu lanche da tarde: dois ovos de ganso cozidos, ch de jasmim e ervas. Num tom de voz
meio cantado e adulador, ele me pediu comida, citando o mesmo verso habitualmente usado pelos monges itinerantes em peregrinao: "Dem graas. Dem graas." Depois
disse as seguintes palavras, propondo uma troca:

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- Se me der os seus ovos de presente, vou lhe contar um segredo a seu respeito.

- Que segredo? - perguntei.

- Sobre o homem que  o seu verdadeiro pai e como ele abandonou voc aos cuidados do velho casal que voc chama de baba e mama.

- Voc est mentindo. Eles so os meus verdadeiros baba e mama...

- Mas tm idade para serem seus avs! - disse ele com malcia.

O toque da verdade soou alto e forte e me magoou. A idade avanada dos dois sempre me intrigou, e eu lamentava que no pudessem brincar comigo no quintal ou nadar
comigo nos rios caudalosos.

- Quem  ento o meu verdadeiro pai? - perguntei.

- Um homem poderoso do posto militar - foi a sua resposta quando entreguei o primeiro ovo a ele. Rapidamente, ele enfiou o ovo na boca e, de repente, era s ovo
e dentes. Sem quebrar o ritmo de seu relato, prosseguiu como se resmungasse:

- Sim, sim, um homem poderoso l do posto militar,  o que ele era. Na noite do Festival da Primavera, h muitos anos, convidou a sua me de verdade, Malayi, uma
rf, para um banquete. Ela era uma bela flor da aldeia que todos os homens queriam colher para sentir o seu perfume, se  que me entende... Naquela noite de festa,
aquele homem poderoso deu a ela uma bebida forte e lhe disse palavras suaves e carinhosas, fazendo-a corar.

Ele fez uma pausa para limpar a boca, engoliu em seco, como para saborear o licor da sua prpria narrativa.

- Depois, o homem poderoso a trouxe para este bosque aqui. A lua estava brilhando. O homem levantou seu vestido colorido e a possuiu, encostado naquela mangueira.
Ele enfiou o seu gengibre nela, fazendo dela uma mulher. Voc poderia me perguntar como sei de tudo isto. Sei porque estava trepado na minha rvore, cuidando da
minha vida, tentando dormir, mas os gemidos e as risadas me acordaram.

- E o que aconteceu depois? - perguntei.

- O que aconteceu foi o que acontece com qualquer moa que j esteja no ponto, com os quadris redondos e os seios despontando. Logo, logo, sua barriga cresceu com
voc dentro. Os chefes da aldeia fizeram presso para que ela se casasse com um dbil mental aleijado de outra aldeia, mas ela se recusou. Depois, tentaram forar
o seu baba a tirar a criana de dentro da barriga dela, para que a semente do mal no nascesse para enfrentar a vergonha e o
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sofrimento. Mas seu baba sequer lhes deu ouvidos. O que uma pobre moa com uma barriga de melo como aquela podia fazer, envergonhando-se a cada dia de sua vida?
No dia do seu nascimento, ela subiu ao cume mais alto do monte Balan, desejando que voc morresse junto com ela. Mas no era para acontecer. O mdico da aldeia estava
l, andando logo atrs dela. Ele salvou voc, isso  certo, embora pudesse ter salvado a sua me tambm, se tivesse sabido do seu paradeiro um pouco antes.

Eu tremia como uma folha ao ouvir aquilo pela primeira vez.

- Voc no vai desmaiar, vai? - perguntou Ar-Q preocupado. Balancei a cabea e gaguejei:

- E que-que-quem  esse tal homem poderoso?

- O malvado general, Ding Long.

Suas palavras me atingiram como um trovo ao meio-dia, fazendo meus ouvidos ficarem entorpecidos e meu corao disparar. Meu rosto pegava fogo. Minha viso se turvou.
Senti alegria e tristeza ao mesmo tempo, tudo misturado, e no sabia dizer onde comeava uma e terminava a outra. No me lembro de quase nada depois disso, a no
ser que passei o segundo ovo para a sua mo vida e ouvi seu aviso para que nunca repetisse este relato a qualquer outra alma vivente deste mundo.

- Este  um segredo que todos vamos carregar, uma verdade para ficar oculta para sempre - disse ele.

- Por qu?

- Porque o povo da aldeia ama o seu baba e tem medo do general.

CAPTULO 4

1967

BEIJING  '

A ST. JOHN'S SCHOOL, LOCALIZADA nas colinas verdejantes perto da Cidade Proibida em Beijing, tinha sido originalmente um elegante colgio catlico, fundado por freiras
americanas na dcada de 1920, para atender s necessidades crescentes dos americanos que viviam na China. Naquela poca, o colgio era famoso por seus uniformes
sem graa, pela comida pouco atraente, pelo rgido toque de recolher e pelas freiras caridosas que cantavam animadamente em coro todos os dias de manh na capela
ricamente ornamentada. Mas agora, na nova China comunista, ele representava o mximo do privilgio nacional. Os estudantes no eram mais catlicos e sim os filhos
da elite poltica e cultural do pas. Com este propsito, o vestgio de imperialismo foi mantido intacto com todo o aparato da opulncia e do luxo americanos, em
flagrante contraste com a simplicidade das outras escolas pblicas da cidade, que no paravam de crescer.

No palco de seu espaoso auditrio havia um velho piano de cauda feito  mo pela Steinway & Sons de Nova York. A St. John's School dispunha de um dos poucos ginsios
cobertos, onde havia quadras de vlei, basquete e equipamentos de ginstica. No inverno, o prdio era totalmente aquecido por um sistema de calefao a vapor. O
calor escaldante do vero era
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amenizado por vrios ventiladores General Electric, movidos pelo gerador prprio da escola. Enquanto os outros estudantes usavam como latrinas buracos fedidos abertos
no cho, nos limites do playground da escola, as crianas da St. John podiam dar a descarga nas privadas com gua corrente.

Um dia, no vero, o diretor deste colgio de elite, um educador de cabelos brancos que estudou na Universidade de Columbia, veio at a nossa casa. Sentamo-nos no
jardim, debaixo de um carvalho e em meio a penias coloridas, e minha me lhe ofereceu ch com biscoitos e salgadinhos, servidos por uma empregada. Meu pai, que
tinha chegado de avio, vindo do posto avanado do Exrcito em Balan especialmente para esta ocasio, apareceu no jardim e cumprimentou o diretor da escola. Eu,
que tinha agora sete anos, fui convidado a me sentar junto com eles. O velho senhor sorriu, mostrando a boca, at ento escondida debaixo de um farto bigode, e revelou
o motivo de sua visita. De acordo com seus registros, anotados num grande livro com encadernao de couro, que ele segurava cuidadosamente, eu, o primognito da
unio entre as famlias Long e Xia, estava preparado para cursar a primeira srie no prximo outono. Ele me olhou rapidamente de cima a baixo e prosseguiu. Eu era
um dos trinta alunos da primeira srie que ele iria visitar para fazer uma avaliao pessoal, e o segundo nome de sua lista. O primeiro nome era o do neto do presidente
Mo. Meus pais assentiram ao mesmo tempo e sorriram compreensivos. O diretor, com um gesto de humildade, entregou a eles um envelope vermelho que continha o convite.
Papai imediatamente se levantou da cadeira para receb-lo com uma reverncia. Depois, ofereceu-lhe uma torrada e um pouco de ch verde da melhor qualidade que ele
aceitou, segurando a xcara com ambas as mos. Em sinal de respeito, aps um intervalo de tempo em silncio, a reunio chegou ao fim e ns o acompanhamos at a entrada
principal da casa.

No primeiro dia de aula, eu mesmo escolhi a roupa que iria usar: uma

roupa de marinheiro com listras brancas nos ombros. Como ainda estava

fazendo calor em Beijing em setembro e o cu estava muito azul e com

nuvens brancas bem l no alto, decidi no usar bon e reparti o cabelo ao

meio, achando que era a melhor maneira de ajeitar aqueles fios rebeldes.

aPai e mame ficaram por perto para me auxiliar. Tambm estavam preenes as duas babs e o meu motorista. Recusei quando elas se ofereceram

ajeitar minha camisa e amarrar meus sapatos e declarei solenemente

partir daquele dia, queria fazer tudo sozinho. Mas iria precisar do

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carro, acrescentei, piscando o olho para o motorista, que imediatamente retribuiu a piscadela.

Olhei para o pequeno relgio de pulso que meus pais tinham me dado na noite anterior. Queria ver os meus dois avs antes de ir  escola pela primeira vez. Retidos
devido a uma reunio com o presidente Mo marcada para muito cedo naquela manh, os dois chegaram bem na hora em que eu estava sendo ajudado a entrar no jipe. Mandei
o motorista esperar e saltei do carro para abraar os dois. Meu av banqueiro me deu um pequeno baco de prata e disse que o dinheiro poderia ser meu amigo se eu
o tivesse, e meu inimigo se me faltasse. Meu av general me presenteou com uma pequena espingarda de chocolate, acrescentando que contra a fora no h argumentos,
e quem governa o mundo so as armas e no o dinheiro. Apenas sorri. Havia ocasies em que at mesmo um menino de seis anos sabia quando os adultos estavam enlouquecendo.
Botei o baco na pasta vazia e comi minha espingarda de chocolate a caminho da escola.

A escola se revelou uma coisa bem fcil para mim. No primeiro dia de aula, quando a professora de matemtica perguntou  turma qual era o menor nmero que eles conheciam,
falei sobre a existncia da vrgula decimal e de vrios outros nmeros ainda menores colocados  sua direita. Ningum da minha sala sabia ou dava importncia ao
que eu estava dizendo. Minha professora de chins no ficou menos surpresa quando recitei um pequeno poema da poca da dinastia Tang, escrito em 840 a.C., e me ofereci
para escrev-lo no quadro-negro para demonstrar que eu realmente estava entendendo o que dizia. Eu me saa muito bem em todos os esportes, com exceo do salto em
altura, atravs do qual descobri que a minha estatura no me favorecia naquela modalidade. Tudo isso me fez ser muito admirado pelos meus colegas de sala, com exceo
de um pequeno grupo que se reunia em volta de uma das mesas do refeitrio, cujo chefe era Hito Ling, o neto metido a besta do ministro do Comrcio Exterior da China.
Aquela turminha raramente falava comigo. Paravam de falar quando eu me aproximava e recomeavam com seus cochiches depois que eu me afastava, como um enxame de moscas
barulhentas. A antipatia deles no apenas me incomodava, mas, como acabei percebendo, aquilo atrapalhava a minha inteno de ser eleito o monitor da turma.

Um dia, tomei a iniciativa de cumprimentar Hito quando nos cruzamos num corredor estreito no campus da escola. Hito no somente ficou calado,
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mas virou o rosto e cuspiu no cho. Naquela tarde, voltei para casa muito zangado e perguntei ao vov Long, que estava jantando conosco, o que ele achava do ministro
do Comrcio Exterior.

-  um cretino de um corrupto que est organizando uma campanha para ocupar o meu cargo! - disse o meu av, dando uma baforada em seu cachimbo.-Alm de desviar dinheiro
do comrcio exterior, est derrubando o ministrio. No entende direito as regras do comrcio: comprar barato e vender caro. - Vov estava furioso porque o ministrio
estava chupando o sangue de seu banco e perdendo milhes de iuanes no comrcio exterior a cada ano. Vov teria continuado indefinidamente com este assunto se eu
no o tivesse distrado com uma outra pergunta qualquer.

Seguindo o modelo do vov Xia, organizei a minha campanha. Comecei fazendo uma sindicncia sobre o histrico de todos os alunos da minha turma. O resultado foi bastante
satisfatrio para mim. Dos trinta integrantes desta turma de privilegiados, cerca de noventa por cento de seus pais ou avs ocupavam cargos nos ministrios que estavam
em situao cada vez pior ano aps ano, devido  deteriorao da economia comunista e da improdutividade da Revoluo Cultural. Todos viviam solicitando emprstimos
ao Banco Central, presidido por meu av. Depois, tirei um tempo para me sentar com cada um deles para que soubessem quem eu era e por que era importante que ficassem
meus amigos. Expliquei a eles que se no entrassem mais verbas vindas do banco para dar suporte financeiro  atividade de seus pais ou avs, suas famlias iriam
rapidamente  falncia. As crianas que vinham de famlias de polticos tinham muito mais sensibilidade com relao s implicaes prticas e polticas daquela minha
ameaa amigvel. Em pouco tempo, Hito ficou completamente isolado. Para isso, bastou eu espalhar um boato de que o pai dele seria em breve transferido de Beijing
para um remoto campo-reformatrio em Xinjiang, a Sibria da China. Hito se converteu em menos de uma semana. Venci deste modo a minha primeira campanha contra um
adversrio indesejado, assim como consegui ser o monitor da turma atravs da inteligncia, sem violncia ou derramamento de sangue. Ao final da primeira srie, meu
boletim era digno de ser orgulhosamente emoldurado por qualquer pai e me. S havia notas dez em todas as matrias.

Com a chegada da primavera, minha me decidiu que eu teria aulas de piano enquanto meu pai ainda estivesse no posto avanado do Exrcito em

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Balan, perto da fronteira com o Vietn. Sensvel por natureza e pianista por treinamento, minha me estava preocupada com o fato de eu estar sendo negativamente
influenciado pelo veneno do militarismo e pela seduo do mundo das finanas. Tinha pouco interesse por estas reas de atividade e sentia uma grande repugnncia
por estas coisas, apesar de ter escolhido se casar com um general cujo pai era banqueiro. Ela alimentava a esperana de que eu me tornasse o melhor artista da minha
gerao ou que escolhesse uma outra atividade em que no houvesse manchas de sangue nem a podrido do dinheiro. Tinha expectativas mais elevadas para mim, apesar
de eu ter demonstrado um grau indesejado da agressividade do vov Xia e da ndole calculista do vov Long. Uma noite, antes de me botar na cama para dormir, ela
me disse que o meu temperamento forte era o mesmo do meu pai e que isso a assustava.

Sabendo que santo de casa no faz milagre, contratou o melhor professor de piano da melhor escola de msica da China, o professor Woo, recomendado pela mulher do
ministro da Cultura. Tive aulas em todos os meus momentos livres enquanto meu pai esteve fora.

O vero chegou com seus dias compridos e suas noites midas. Papai voltou para casa pouco antes da nossa temporada tradicional  beira-mar em Beidaihe. Para sua
surpresa, eu tinha me tornado um pianista durante os meses em que esteve ausente. Mame s falava no meu progresso e de como eu realmente apreciava e entendia o
significado das difceis peas dos grandes mestres da msica ocidental. Papai examinou minhas mos e ficou alarmado ao constatar que os calos dos meus dedos tinham
sumido e que o fogo que ardia nos meus olhos tinha sido substitudo por um olhar suave e delicado, o olhar sonhador de um sentimental.

Chegou-se a um acordo: eu passaria metade dos meus fins de semana estudando msica e literatura e, na outra metade do tempo, aprenderia a lutar na lama e teria aulas
de esgrima e de equitao. Quando papai falou naquela noite durante o jantar que eu iria conhecer meu instrutor de kung fu no dia seguinte, minha me caiu em prantos.
Usei uma das mos para consolar minha me, que se debulhava em lgrimas, e a outra para apertar a mo do meu pai em agradecimento.

CAPTULO 5

1972

BALAN

DURANTE os CINCO ANOS SEGUINTES, recebi o muito cobiado convite anual oferecido ao melhor aluno pelo gabinete do general Ding Long. Conseguir este convite tornou-se
a minha motivao secreta para ser o melhor aluno da escola. Quando fiz 12 anos, quase como um ritual, jantei com o general na vspera do Ano Novo, em sua sala de
jantar particular. Fomos servidos pelos mesmos dois empregados que haviam realizado essa tarefa desde a primeira vez em que botei os ps naquela sala. Como de hbito,
o general Ding Long e eu nos divertimos bastante batendo papo. S que desta vez, depois do jantar, o general me fez a surpresa de me mostrar uma maquete em madeira
da rea usada para o planejamento dos ataques aos vietnamitas. Havia at pequenas lampadazinhas assinalando todos os picos das montanhas e todas as barreiras nas
estradas. Examinei aquilo com o maior interesse.

- Quando vamos atacar o Vietn? - perguntei.

- Amanh - respondeu o general.

Ele tirou o cordo com a medalha de prata que estava usando e o colo-

cou em meu pescoo.

- Isto  para voc - disse. ,' --    - <

- Por qu?
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Esfreguei o metal polido com o polegar.

-  para voc usar. Isso vai ser muito importante para mim. Olhei para o ideograma gravado no verso da medalha.

- Sei o que quer dizer esta palavra! Quer dizer "drago", no ?

- Isso mesmo. O meu sobrenome, Long, quer dizer "drago". Este cordo foi um presente da minha av e tem me trazido boa sorte. Espero que traga um pouco de boa sorte
para voc tambm.

- Obrigado. Vou sempre ter muito carinho por ele.

O general me abraou por alguns instantes e depois fomos para o ptio onde um grupo de soldados o aguardava. Ding Long me botou sentado perto dele e depois, de um
salto, se levantou para subir no palanque. Fez um discurso curto e cheio de energia para os seus homens, e havia um fogo que ardia em seus olhos. Os soldados se
levantaram das cadeiras e reagiram com grandes exclamaes. Bateram continncia para o seu comandante e cantaram o hino nacional. Tive orgulho dele e, secretamente,
de mim tambm. Aquela sensao agradvel permaneceu comigo muito tempo depois de as luzes terem se apagado e o filme ter surgido na tela grande.

No dia seguinte de manh, antes do nascer do sol, todo mundo na aldeia ouviu os soldados marchando em direo  fronteira. Antes do raiar do dia, milhares de homens
atacaram um acampamento vietnamita depois de bombarde-lo com canhes. Uma fumaa negra subia no cu e o ar estava empestado com o cheiro acre da plvora. Recebemos
notcias de que o ataque-surpresa tinha sido bem-sucedido. Nenhuma baixa foi registrada do nosso lado. As tropas sob o comando do general Long penetraram ainda mais
no territrio inimigo. Tudo parecia estar correndo conforme o planejado, mas, por volta do meio-dia, o pnico tomou conta da nossa aldeia. Houve um novo tiroteio
cerrado prximo  fronteira. Os vietnamitas haviam sorrateiramente se escondido em tneis subterrneos e atacaram de surpresa pelas costas, depois que as tropas
chinesas passaram.

As maas retornavam com dezenas de soldados mortos e moribundos. Os gritos de dor e o cheiro da morte invadiram a nossa aldeia. O destacamento militar, antes uma
fonte de prazer, era agora uma viso mrbida. Debaixo de uma tenda, junto com mais dois mdicos do Exrcito, baba estava cuidando dos soldados feridos que urravam
de dor. Mama, que era uma das enfermeiras, lavava as feridas e aplicava curativos nos homens atingidos.

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Uma jovem militar reuniu todas as crianas na escola e nos abrigou l dentro.

- Se voc me deixar ir l fora, posso ajudar os soldados feridos porque sou filho de mdico e sei como cuidar deles - disse eu, ansioso.

 muito perigoso ir l fora agora. Os vietnamitas podem atacar a

qualquer momento. No quero mais ouvir falar nisso. Tenho aqui mais de cem crianas para tomar conta.

Os vietnamitas esto se aproximando! Meu corao se apertou. Onde estava o general? Ser que estava bem? Ser que estava ferido? Ser que tinha morrido? Essa idia
era insuportvel para mim.

A jovem militar comeou a nos incentivar a cantar canes escolares muito conhecidas, tentando nos distrair do caos que havia se instalado. A maior parte das crianas
estava contente pelo fato de no haver aula. Mas no me demovi do meu objetivo. Tinha que encontrar o meu general. Enquanto as crianas continuavam a cantar, abaixei-me
e fui me esgueirando para o fundo da sala de aula. Abri uma janela e pulei sem fazer barulho. Logo depois, estava espiando a tenda dos mdicos atravs de um pequeno
buraco. Vi baba curvado sobre um jovem soldado com um toco de perna sangrando. Tinha perdido o p. O soldado gritava e implorava: "Me deixem morrer! Me deixem morrer!"
Baba aplicou-lhe uma injeo e os gritos do rapaz se tornaram mais fracos. Em pouco tempo, ele adormeceu. Vi mama ajoelhada no cho, fazendo um curativo num rapaz
com o rosto todo ensangentado. Este tinha perdido um brao. Mama era uma mulher forte, mas percebi pelas suas costas que ela estava se contraindo, nitidamente lutando
para conter as lgrimas.

Chegaram mais trs maas transportadas por homens da aldeia suados e ofegantes. Quando as enfermeiras largaram o trabalho que estavam fazendo naquele momento para
atender os recm-chegados, percebi que aquela era a minha oportunidade e entrei silenciosamente na tenda, olhando com cuidado todas as fileiras de maas. Para meu
grande alvio, no havia sinal do general. Depois, fui verificar os mais de vinte corpos cobertos por lenis manchados de sangue. Trinquei os dentes, agachei-me
e levantei o primeiro lenol. Os olhos do homem estavam vidrados como os de um peixe morto e havia um buraco enorme aberto em seu peito. Rapidamente deixei cair
o lenol. O segundo homem teve o ombro esquerdo destroado por uma bomba. No era o general.
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O ltimo homem que consegui verificar no tinha cabea, o que fez o seu corpo ficar extremamente curto. Tive que sair correndo da tenda enquanto o vmito me subia
pela garganta. O homem sem cabea no podia ser o general Long. Ele era bem mais alto e bem maior, eu estava convencido disso.

Caiu a noite e os mortos e feridos continuavam chegando. Eu examinava seus rostos, um a um. E nada do general. Fui para os limites da aldeia, escolhi o coqueiro
mais alto que havia e trepei nele na esperana de conseguir ver alguma coisa da batalha que se desenrolava ao longe. Uma brisa vinda do sul balanava o tronco fino
no qual eu estava empoleirado. Aquele ar, a uns nove metros de altura acima da aldeia, era o primeiro ar fresco que eu tinha conseguido respirar durante um dia inteiro
de cheiro desagradvel de sangue e morte. Fechei os olhos e deixei o vento me embalar para um lado e para o outro.

O clima no Sul do pas era to inconstante quanto o corao de uma moa. A brisa parou de repente e os mosquitos comearam a zumbir  minha volta. Estiquei o pescoo
para olhar alm da fronteira com o Vietn, mas no conseguia ver nada alm de um povoado distante ainda envolto na fumaa e ouvir tiros disparados esporadicamente.
A batalha parecia ter se aquietado. Eu estava prestes a descer escorregando pelo tronco do coqueiro quando ouvi vozes que vinham da vegetao espessa que circundava
o nosso vilarejo. Os soldados estavam voltando. Desci um pouco, deslizando pelo tronco. Escutei mais rudos. Desta vez, ouvi gente falando a lngua do Vietn.

Estavam vindo para c para nos matar! O que eu deveria fazer? Tinha que avisar baba e mama. Berrei com toda a fora dos meus pulmes: "Os vietnamitas esto aqui!
Fujam! Os inimigos vietnamitas esto aqui!", e continuei berrando sem parar. Escutei movimentos apressados no matagal. Algum atirou, me atingiu no peito e quase
me derrubou do coqueiro. Agarrei firme no tronco. Um outro tiro me atingiu na coxa, mas aquilo tambm no me fez parar. Continuei a gritar: "Os vietnamitas! Fujam!",
mas a dor foi enfraquecendo a minha voz at ela ficar trmula. Finalmente, acendeu-se uma luz que iluminou todo o destacamento militar.

Enfraquecido pela dor, soltei minhas mos e ca de cabea de uma altura de seis metros nos braos de um soldado vietnamita que me jogou no cho e encostou uma arma
nas minhas tmporas.

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- Seu encrenqueiro! - disse o soldado, trincando os dentes.

- Se disparar um tiro, isso vai denunciar a nossa localizao. Podemos acabar com ele mais tarde. Vamos andando! - ordenou o comandante deles.

O soldado me deu um chute no estmago e eles se foram. Cado ali no cho, arfando de dor, ouvi um tiroteio prximo do destacamento e vi uma saraivada de metralhadoras
pesadas faiscando na escurido. Quase podia escutar meu pai e minha me gritando apavorados. J tinha ouvido muitas histrias sobre os vietnamitas que cortavam fora
as cabeas dos seus inimigos e as exibiam como trofus. Babai Mamai Tentei me levantar, mas senti uma fisgada de dor como se uma agulha incandescente estivesse penetrando
na minha coxa. Todas as minhas foras pareciam ter me abandonado, deixando-me mole de fraqueza. Como gostaria de poder atacar o inimigo com uma metralhadora e, com
uma chuva de balas, fazer com que eles tivessem uma morte bem sangrenta... Mas no tinha sequer uma espingarda de madeira  mo e os poucos soldados que estavam
dentro do posto militar no teriam nenhuma chance de vitria sobre os vietnamitas.

Num intervalo entre os tiros, ouvi gritos de desespero. Logo, as chamas lamberam o destacamento inteiro e se espalharam pelas vielas da minha aldeia, atingindo bosques
e casebres prximos. O redemoinho de fogo ficou ainda mais intenso, alimentado pelos tetos de bambu, castigados por meses de seca, que ruam em chamas, queimando-se
um aps o outro. O ltimo a desmoronar foi o teto da escola. Os gritos das crianas foram abafados e amortecidos pelas chamas. Depois, houve uma exploso. A tenda
onde meus pais estavam trabalhando voou pelos ares e os estilhaos caam do cu noturno como restos de fogos de artifcio. Em poucos minutos, tudo ficou em silncio.
No se ouvia o som de nenhuma criana. E de nenhum adulto. Apenas o matraquear daquela lngua horrorosa dos inimigos ecoava na noite silenciosa, acompanhado por
tiros ocasionais.

Babai Mamai Mordi os lbios para no gritar. Arrastei-me na direo do destacamento e ouvi passos que vinham na minha direo. Eles estavam vindo me buscar! Uma
chuva de balas  minha volta no acertou a minha cabea por apenas alguns centmetros. Levantei-me arrastando a perna ferida, mas no podia correr para muito longe
e nem muito depressa. Como desejei encontrar um buraco no cho onde pudesse desaparecer como um rato da
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montanha... Um buraco no cho! Subitamente a esperana de sobreviver se acendeu dentro de mim. Lembrei-me de um antigo poo que ficava perto dali, semi-encoberto
pelo mato. Agachei-me por entre a vegetao cheia de espinhos que batia na minha cintura e me arrastei o mais silenciosamente que pude at chegar  beira do poo.
Afastando o mato que crescia escondendo sua abertura, encontrei a corda da vida, amarrada na ala do balde que era usado para pegar gua l dentro.

Havia muitas histrias aterrorizantes relacionadas ao antigo poo, incluindo a de que era o ninho e o viveiro de uma cobra muito antiga, mas nada era mais assustador
e fatal do que as balas que passavam chispando e que continuavam a me perseguir.

Agarrei o balde e me atirei dentro dele. A corda rodou na polia. Depois do que me pareceu uma queda interminvel, cheguei ao fundo com um espadanar de gua. O balde
virou de cabea para baixo e mergulhei na gua gelada que chegava at o meu pescoo. Alguns momentos depois, uma lanterna vasculhou a boca do poo e fiquei parado
e quieto. Ento, o barulho diminuiu e o silncio me sepultou dentro da noite.

Segurei na corda coberta de musgo e tentei entrar no balde novamente, mas ele sempre virava e eu caa dentro d'gua, que foi ficando cada vez mais fria  medida
que a noite avanava. Eu tremia, e a minha nica companhia na escurido eram os sapos que de vez em quando pulavam de suas tocas escondidas em meio ao musgo. Um
sapo gordo bateu com a barriga carnuda na minha testa, fazendo minha pele ficar arrepiada de nojo.

 meia-noite, a lua cheia subia lentamente para o meio do cu, lanando seu brilho diretamente para o fundo do poo. Que viso gloriosa! Senti-me mais aquecido apenas
com o toque suave do luar. Como desejei que a lua ficasse ali para sempre! O pavor de voltar para a escurido me animou a correr o risco de gritar novamente.

- Socorro! Tem algum a? Socorro!

Minha voz ecoava de volta, pequenina e fraca como uma flecha ao final de sua trajetria. Repeti meu grito umas dez ou vinte vezes at perder a conta, forando minhas
cordas vocais at o limite mximo. Infelizmente, a nica resposta era a montona cano de ninar que as cigarras e os insetos entoavam l em cima, do lado de fora.

Ser que estavam todos mortos l fora? Ser que eu era o nico que tinha ficado para sofrer esta morte solitria? Senti as minhas foras se esvaindo e a
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dor na coxa aumentando. Segurei o cordo que o general tinha me dado de presente e que agora era a minha nica esperana e o meu nico conforto. Ele ainda estava
ali comigo, pendurado rente ao pescoo, mas com uma nova mossa no centro. Minha medalha da vida. Obrigado, general. Ela me deu sorte conforme o senhor prometeu.
Mas o que o est protegendo agora, meu general? Ser que vou poder v-lo novamente? Pressionei a prata fria de encontro aos lbios.

A lua deslizou para fora da abbada celeste. A escurido tomou conta de tudo. Eu sabia que se fechasse os olhos, no mesmo instante iria sofrer um colapso e adormeceria
para sempre. A dor, o sofrimento, a fome e o frio deixariam de existir. Agarrei o meu precioso cordo ainda com mais fora e, no meio da escurido, comecei a ver
o rosto do general sorrindo. "Se ele estivesse dentro deste poo o que faria?", fiquei imaginando. Iria lutar para se manter vivo em vez de morrer, porque era um
homem de coragem. Mergulhei a cabea na gua fria para despertar e berrei mais um pouco. Continuei sem obter resposta. Por fim, encostei a cabea no balde dependurado
e adormeci.

Quando acordei novamente, j era dia e um co estava latindo para dentro do poo. Olhei para cima sentindo muita dor e o vi farejando ativamente e puxando a corda
que estava presa ao balde.

- Tem algum l dentro do poo - gritou um homem. - Tragam a escada de corda imediatamente.

A equipe de salvamento do Exrcito me encontrou e eu estava frio como gelo. Minha pele estava cinza-azulada. O nico sinal de vida era o pulso fraco e a respirao
leve e superficial. Fui cuidadosamente colocado numa maa acolchoada. Semicerrei os olhos para descansar, fraco demais para falar. Meus pensamentos tremeluziam ao
longe, como num sonho. Vi gente se movimentando em volta de mim. Uma enfermeira cortou e rasgou minha roupa molhada, viu o ideograma gravado no cordo de prata que
estava pendurado no meu pescoo e comunicou o fato a um general idoso e de cabelos brancos, que veio imediatamente para perto de mim e examinou o cordo com grande
interesse.

- Esse cordo pertence ao meu genro - disse. O que esse menino est fazendo com ele?

- Deve t-lo roubado - sugeriu um de seus homens. Quis protestar, mas no tive foras para mover os lbios.
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- H uma esperana de que este menino saiba onde o general possa estar. Mande-o imediatamente para o hospital do Exrcito - ordenou o general.

Os PSSAROS CANTAVAM RUIDOSAMENTE do outro lado da janela. Uma brisa fresca entrou no quarto, fazendo danar as cortinas. L fora, o jardim florescia com uma mirade
de flores - rosas vermelhas, penias rosadas, lrios brancos e girassis amarelos que se curvavam para encarar o sol.

Onde estavam os coqueiros que tentavam alcanar o cu? Onde estavam as bananeiras que balanavam com a brisa da montanha? Onde estou agora?

Vi-me deitado no travesseiro mais macio e nos lenis mais brancos e mais sedosos que jamais tinham tocado a minha pele. Havia uma grossa atadura na minha coxa e
parecia que eu estava vivo pois olhava fixamente para uma moa bonita, vestida com a saia verde-oliva e a blusa branca do Exrcito. A pele de suas pernas era clara
e macia, diferente da das mulheres da aldeia. Ser que ela era de alguma cidade do interior? Ela segurou as minhas mos entre as suas e seus grandes olhos sorriram
carinhosamente para mim. Perguntei a mim mesmo se estava sonhando. Devo ter morrido e isso era o que existia depois da morte.

- Meu amiguinho! - disse a moa. - Voc est salvo! No tenha medo.

- Quem  voc e onde estou?

- Voc est na cidade de Qunming e aqui  o Hospital dos Oficiais do Exrcito.

- Qunming? - repeti. Eu me lembrava desse nome. Era a capital da nossa provncia. Uma vez, baba tinha me mostrado num antigo mapa onde ficava esta cidade.

- , voc est numa cidade grande agora. Lembra do que aconteceu na sua aldeia?

- Por que estou aqui?

- Aconteceu uma coisa terrvel na sua aldeia - disse uma voz de homem.

Era a voz do velho general.

- Os inimigos vietnamitas mataram todos l. Tiramos voc de dentro de um poo. > *

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- E o que aconteceu com meu baba e com minha mama? - perguntei, com as lgrimas escorrendo pelo rosto. - Eles puseram fogo em tudo, no foi? Meus pais morreram queimados,
no foi?

- A maioria dos habitantes da aldeia no sobreviveu ao incndio. Os poucos que escaparam fugiram para outras aldeias. Lamento profundamente - disse o velho general.

- Baba... Mama...

O cu desmoronou na minha cabea. O quarto do hospital, que era bem iluminado, de repente ficou escuro e minha cabea latejava de dor. No conseguia parar de chorar.
Quando acordei novamente, meu travesseiro estava encharcado e a enfermeira e o general ainda estavam na beira da minha cama, com um ar triste e preocupado.

- Est se sentindo melhor? - perguntou o general. Balancei a cabea.

- Onde meus pais esto enterrados?

- Esto junto com os outros habitantes da aldeia numa caverna nas montanhas onde h um olho d'gua muito bonito.

Comecei a soluar novamente, mas consegui me recompor. Eu era o nico integrante da minha famlia que tinha sobrado. "Tenho que ser forte, em nome do baba e da mama",
disse a mim mesmo.

- Voc tem que me contar tudo o que sabe sobre o que aconteceu naquela noite - disse o general.

Lentamente, e com a voz embargada, contei a ele tudo o que sabia.

- O general Ding Long liderou um ataque-surpresa na fronteira. Eles ficaram fora o dia inteiro. A aldeia estava protegida por uns poucos soldados. Os vietnamitas
tinham se escondido e nos atacaram pelas costas.

- O general atacou os vietnamitas primeiro? Ele tinha sado antes dos vietnamitas chegarem?

- Tenho certeza do que estou dizendo.

- Ento, pode ser que esteja vivo - disse o velho general.

- Ele tem que estar vivo.  o homem mais corajoso e o general mais competente do nosso Exrcito. Mas por que est perguntando? No sabem onde ele est?

- No. Tememos que a esta altura ele possa ter morrido.

- No, no pode ser! Ele me disse que ia invadir a cidade de Ho Chi Minh com o seu exrcito.
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- Voc o conhece bem?

Fiz que sim com a cabea, estendendo a mo para tocar no cordo. Mas ele no estava mais no meu pescoo.

- Algum pegou o meu cordo!

- Ele agora  propriedade do hospital, se  que  realmente seu - disse o velho general.

- Mas o general Ding Long me deu o cordo com a medalha de presente pouco antes de sair para a batalha. Juro pelos meus ancestrais.

- E por que ele daria isso a voc?  uma herana de famlia.

- Porque... Porque... Isso eu no posso contar.

O general fez um sinal para a enfermeira e ela saiu imediatamente do* quarto.

- Sou o comandante-em-chefe do Exrcito, da Marinha e da Aeronutica da China. Guardar segredos faz parte do meu trabalho. Voc pode me contar tudo.

- Ele  o meu pai - disse baixinho.

Ele ficou estupefato e perguntou, franzindo a testa:

- E como sabe disso?

- O mendigo da nossa aldeia me contou a histria toda em troca de dois ovos cozidos. Ele me disse que eu era parecido com o general porque era seu filho. Ele viu
o general e minha me juntos no bosque de bambus uma noite, depois da Festa da Primavera.

- E quem  a sua me?

- Ela era uma moa muito bonita, a flor da nossa aldeia. Mas morreu, atirando-se num despenhadeiro logo depois de me dar  luz.

Quando o velho general falou novamente, seu farto bigode grisalho tremia.

- Meu rapaz, ele no  seu pai. Voc foi enganado. De hoje em diante, no vai contar esta mentira para mais ningum.

- Mas no  mentira! Todo mundo na aldeia sabe disso!

- Morreram todos no incndio e a mentira tem que morrer com eles.

- Mas no  mentira! O general gosta muito de mim!  por isso que me deu esse cordo, o senhor no est vendo?...

Inesperadamente, o velho general deu-me um tapa na cara e berrou:

- Ou voc pra de dizer estas mentiras, ou vai morrer!

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E saiu furioso do quarto.

Fiquei ali, confuso e amedrontado, segurando com a mo o meu rosto que ardia.

A enfermeira voltou trazendo uma bandeja onde havia um prato fumegante com carne, legumes, verduras e uma cuia de arroz. Minha fome apertou diante da viso daquela
maravilha culinria. Ela se ofereceu para me dar a comida na boca, mas recusei. Ela ficou me olhando com os olhos arregalados enquanto eu engolia metade do que havia
na bandeja em trs grandes colheradas. Feito isso, despejei o restante na embalagem de plstico que cobria a refeio. Lambi a cuia at que ficasse completamente
limpa e escondi a comida debaixo do meu travesseiro. Disse a ela que queria guardar aquela comida para a viagem, para onde quer que eu fosse banido, e implorei que
me trouxesse mais. Logo depois, ela voltou com outra bandeja. Desta vez, havia uma montanha de arroz. Agarrei sua mo e a beijei em agradecimento. De novo, botei
para dentro metade da comida e guardei o restante. Depois, agradeci  enfermeira efusivamente. Ela trouxe as minhas roupas e me ajudou a me vestir.

- Mas onde est o meu cordo, dona enfermeira? - perguntei, depois de revistar os bolsos.

- No posso entreg-lo a voc - disse ela.

- Mas por qu? Ele  precioso para mim!

- O general ordenou expressamente que eu o entregasse  enfermeirachefe.

- Eu imploro  senhora, aquele cordo  uma herana do meu pai. No me restou mais nada como lembrana dele.

- Pare com isso! No posso ajud-lo. Assim voc vai me criar problemas.

Ela franziu a testa.

- A senhora  uma pessoa to boa! Gostaria que fosse a minha me. Por favor, deixe-me ficar com o cordo!

Parece que os meus pedidos conseguiram amolecer o corao da enfermeira e ento ela disse:

- Vou lhe mostrar onde ele est. Depois, o resto  com voc...

- Obrigado - disse eu, fazendo uma reverncia.

A enfermeira me conduziu pelo corredor at um escritrio. Mostrou-me uma caixa e a abriu com a chave.
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Fiquei escondido embaixo do balco enquanto ela devolvia a chave para a enfermeira-chefe, e depois ia embora para casa. Quando um paciente de outro quarto solicitou
os cuidados da enfermeira-chefe, peguei rapidamente o meu cordo dentro da caixa e voltei correndo para a minha cama.

CAPTULO 6

1972

BEIJING

"TODOS OS DIAS EU TINHA QUE passar pelo crivo das solicitaes e expectativas dos meus dois avs. De manh, ligava para o meu av banqueiro para discutir assuntos
financeiros e  noite, consultava o meu av general sobre questes militares e outros acontecimentos mundiais que tinha lido no jornal daquele dia.

Aos 12 anos, j tinha montado a minha prpria biblioteca. Minha coleo de livros inclua desde leituras estimulantes at ttulos mais profundos e filosficos. A
arte da guerra era um livro que eu folheava repetidamente. Outro era a verso traduzida de Davi Copperfield, do escritor ingls Charles Dickens. No primeiro, descobri
que a sabedoria de Sun Tzu tinha muitas aplicaes na vida prtica. No segundo, senti grande afinidade com a vida solitria de David. Havia algo de belo numa vida
marcada pela tragdia. Eu ansiava por encontrar a minha Emily. Comecei a ver as meninas de um jeito diferente, mas descobri que todas no passavam de pirralhas mimadas,
com exceo de uma menina magra e quase bonita, chamada Lili, filha do atual ministro da Agricultura, recentemente promovido e transferido de seu posto na longnqua
provncia de Fujian, o que explicava o sotaque sulista e as roupas simples e feitas em casa que ela usava. Quando um professor lhe
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fazia perguntas, suas respostas tambm eram simples e claras, como seus grandes olhos. Lili era uma verdadeira excluda da sociedade e eu me sentia loucamente atrado
por ela.

Quando ficava entediado com as lies dos professores, tapava os olhos com as duas mos e espiava Lili por entre as frestas dos dedos. Ela tinha o nariz empinado
e elegante e o queixo altivo, comprido e pontudo. Seus olhos ficavam bonitos quando sorria, parecendo duas flores tmidas ainda em boto, meigos e sonhadores. Seu
cabelo descia at a cintura numa longa trana presa por um elstico comum em vez dos habituais laos coloridos. Seu pescoo era longo como o de um cisne, parecendo
uma rainha que eu tinha visto uma vez num livro ilustrado. Seu silncio era alto e eloqente. Quanto mais eu olhava, mais bonita ela se tornava.

Quando nos encontrvamos no corredor, eu ficava nervoso e com as pernas bambas. O pior e o melhor momento aconteceram quando, na tenra idade de 11 anos, sonhei com
Lili uma noite, um sonho que culminou num orgasmo suado e assustador que me deixou perturbado pelo resto das longas horas escuras transcorridas at o nascer do sol.

O ano de 1972 estava sendo difcil para a populao do sudeste da China, na regio da provncia de Fujian. Uma chuva torrencial de quatro meses rompeu a represa,
destruiu as casas e fez apodrecer as colheitas. Centenas de milhares de pessoas morreram de clera e de fome e outros milhes morreriam tambm se no fossem socorridas.
Todos os dias corriam boatos de canibalismo. O presidente Mo ficou paranico com a situao. Uma multido faminta era uma multido perigosa. A ordem que foi passada
para os seus homens de confiana era simples: "O povo tem que ser alimentado, seno vai nos comer vivos."

Vov Long, o todo-poderoso presidente do Banco Central que tinha estudado em Oxford, elaborou imediatamente um plano para emitir um bilho em ttulos do governo,
a fim de socorrer as provncias inundadas. Num pas com renda limitada e sem espao para gastos inesperados, meu av tomou uma resoluo para toda a nao. Um percentual
da renda foi automaticamente deduzido dos salrios dos funcionrios pblicos, que representavam 80% da populao total da China, para este Fundo Patritico, como
foi chamado. E assim, levantou-se facilmente uma verba de um bilho de iuanes.

Uma noite, no muito depois da emisso dos ttulos em todo o pas, perguntei ao vov Long:

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- Qual  a garantia que o governo d para o Fundo Patritico? Vov franziu as sobrancelhas e respondeu orgulhosamente:

- A chancela do Banco da China com a minha assinatura. Enquanto eu estiver vivo, esses ttulos valem tanto quanto ouro.

Balancei a cabea afirmativamente e no toquei mais no assunto. Perguntei ao meu av sobre os ttulos porque ningum parecia levar os certificados a srio. O povo
no acreditava na promessa do governo de que o dinheiro seria restitudo integralmente ao trmino do longo prazo de carncia. Na escola, as crianas brincavam com
os certificados originais, fazendo de conta que eram cartas de baralho e trocando-os por brinquedos bobos e sem valor.

No dia seguinte, esvaziei o meu cofrinho que ficava em cima do piano, juntei os meus trocados e, com o dinheiro, comprei uma sacola cheia dos brinquedos mais cobiados
pelas crianas e os levei para o vestirio da escola. Coloquei um pequeno anncio no quadro de avisos dizendo que estava trocando os ttulos por brinquedos de qualidade.
Choveram ttulos na minha mo. Os meninos e meninas recolheram os certificados com seus pais e os trocaram comigo. A reao foi to boa que comecei a ir de bicicleta
para fora da escola para efetuar trocas com as crianas na rua. Cheguei a contratar alguns amigos da escola e mandei-os visitarem os bairros da cidade, pagando-os
com brinquedos. Durante os trs meses seguintes, fiquei to envolvido nesta empreitada que minhas aulas de piano ficaram prejudicadas, mas a cada dia que passava
minha mochila ficava cada vez mais cheia com certificados do fundo, que eu guardava cuidadosamente num ba de mogno, escondido debaixo da minha cama.

Todas as noites, antes de dormir, atualizava meu livro de contabilidade com uma caligrafia caprichada. Em seguida, caa no sono com um sorriso e sonhava sobre como
iria usar o dinheiro quando os ttulos fossem resgatados. Mentalmente, fazia planos de viagem. Uma das minhas viagens prediletas era para o mar azul do Caribe -
para as ilhas mgicas cheias de sol e habitadas por piratas dos quais vov Xia sempre me falava. E tinha tambm os Estados Unidos - as montanhas Rochosas, o parque
Yellowstone e o grandioso Alasca. Em meu corao havia tambm a ambio de estudar numa das universidades americanas da Ivy League. Oxford estava fora de moda -
a Amrica do Norte era o lugar do momento: Harvard, Yale ou Columbia. Consultei a expresso Ivy League no dicionrio - as oito uni-
versidades mais prestigiadas dos EUA - e fiquei plenamente convencido de que, se eu quisesse ser algum no mundo, e no apenas na China, teria que me matricular
numa dessas grandes universidades.

Todos estes sonhos eram embalados pelo dinheiro que caminhava lentamente em direo  data do resgate a cada segundo que se passava. Que idia maravilhosa: fazer
dinheiro enquanto estamos dormindo ou brincando. De acordo com as palavras impressas no verso dos certificados, e que quela altura eu j sabia de cor, os ttulos
poderiam ser resgatados no prazo de sete anos. Eu havia adquirido cada ttulo com o valor de um dlar pelo preo de um centavo. Isso geraria um lucro fenomenal que
multiplicaria o investimento por cem. Analisando as sries histricas de ttulos que meu av mantinha em sua biblioteca, o meu retorno seria o maior da histria
de todos os ttulos que j tinham sido emitidos. Marquei cuidadosamente a data no meu pequeno calendrio, 1 de maio de 1979 - o dia em que iria oficialmente me
tornar um milionrio em ttulos. Deslumbrado com este pensamento, toquei Chopin especialmente bem para a minha me, surpreendo-a e comovendo-a at as lgrimas.

Aos 12 anos, Lili, a menina de Fujian, tinha se transformado numa moa cheia de vivacidade, que regia o coral da turma, dirigia a equipe de dana e estava pau a
pau comigo em todas as matrias, exceto em matemtica, na qual eu era o campeo invicto. Minhas tentativas de atrair a ateno da garota de pernas compridas no
tinham sido bem-sucedidas at ento. Ela nem sequer olhava na minha direo e estava constantemente rodeada por suas amigas. Era inatingvel como a lua e fria como
um lago no outono. Eu estava mais apaixonado do que nunca.

E ento, um dia, eu a flagrei lanando-me uns olhares. Ondas eltricas se espalharam pelo meu corpo. Naquela tarde, na aula de educao fsica, a turma foi remar
num lago prximo. Aleatoriamente Lili e eu fomos escolhidos para formar uma dupla, amos dividir um pequeno barco e competir com os outros.

O lago, que ficava num lindo subrbio de Beijing, era cheio de gansos, tinha altos salgueiros plantados em sua borda e era rodeado por infindveis campos de trigo.
Quando nos sentamos no barco, Lili sorriu constrangida. Meu corao estava na garganta. Mal conseguia respirar. Nunca tinha me sentido to quente, nem estado to
perto dela antes daquela ocasio. Com os seios despontando, a cintura fina, o cabelo comprido e ondulante e grandes
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olhos expressivos, ela era ainda mais bonita vista de perto. Eu podia sentir o cheiro de limpeza que ela exalava.

Ficamos sentados um ao lado do outro em silncio, esperando que todos estivessem prontos. Ento, o professor de educao fsica apitou e todos comearam a remar
cegamente, chapinhando na gua do lago e enxotando os gansos. Tentando impressionar Lili com minha destreza, eu remava feito um louco. Mas Lili batia com o remo
de um jeito preguioso e deliberadamente fora do ritmo. Nosso barco ficou para trs, na esteira da dupla mais fraca que havia na gua.

- O que est acontecendo? Ande! Mais rpido! - gritei.

- No posso - disse ela sorrindo.

Por mais que eu tentasse impulsionar o nosso barco, estvamos vinte metros atrs de todo mundo.

- Voc est se sentindo bem? - perguntei.

Lili apenas balanou a cabea e seu cabelo esvoaou no vento. Todos os barcos dobraram uma curva, desaparecendo de vista. Subitamente, Lili virou-se e me encarou.

- H muito tempo que ando querendo fazer isso, Tan - disse ela, enroscando uma mecha de cabelo no dedo. - Por favor, deixe-me fazer uma coisa.

Ela se inclinou e me beijou na boca.

Seus lbios tinham o gosto de uma rosa com a fragrncia do vero. Deixei o remo cair na gua e a abracei. Ela se deixou levar, entregando-se por um segundo. Depois,
me afastou, rindo, e pousando seus braos compridos sobre o peito. Meus olhos ainda estavam fechados, num prolongamento daquele momento celestial, quando Lili deliberadamente
balanou o barco, lanando-me dentro da gua fria. Feliz, ela soltou uma gargalhada vibrante. Inclinei o barco para que fosse ento a vez de Lili cair. Ns nos abraamos
dentro d'gua, mais prximos um do outro do que nunca, at que o professor viesse remando, ofegante, para nos socorrer.

Durante o resto do semestre, meu corao estava o tempo todo com Lili. Tudo o que eu fazia era para ela. Eu lhe escrevia canes e cartas de amor, s quais ela respondia
com palavras simples e breves, que continham mais acidez do que doura. Em pblico, fingia no me conhecer. Ela me deixava segurar sua mo apenas quando estvamos
a ss. Suas observaes eram sempre crticas, nunca elogiosas ou agradveis, muito menos amorosas.
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s vezes, a misteriosa Lili me deixava bastante desnorteado; sentia-me to solitrio e magoado por no poder me aproximar dela, que chorava de madrugada, sem conseguir
pegar no sono. Ficava imaginando que ela poderia estar namorando algum menino mais velho, algum mais ao seu gosto, ou que depois daquele primeiro abrao ela simplesmente
no tivesse ficado com uma boa impresso de mim.

Pedi aos meus amigos que a seguissem depois da aula. Os relatrios que me trouxeram foram coerentes. Lili morava na casa do ministro da Agricultura e tinha uma professora
particular de dana, com quem fazia bale depois da escola. De manh, sua professora de canto a acompanhava no jardim e suas canes suaves enchiam de tranqilidade
aquela parte de Zhong Nan Hai.

Enquanto aquele meu agridoce primeiro amor me deixava frustrado, minha popularidade entre meus colegas na escola permanecia em alta. Eu era o capito do time de
futebol e o nico a ter um pster de um craque no quarto - Pel do Brasil. Tambm era o chefe de uma das equipes de debates e tinha derrotado o filho do ministro
presidente do Supremo Tribunal. O tema especfico daquele debate tinha sido o futuro econmico da China. A equipe adversria argumentava que a lei deveria ser suprema
no pas, mas o meu argumento vencedor derivou da famosa "lei do mais forte" de Darwin. No feriado nacional de primeiro de outubro, toquei "A ode ao rio amarelo"
para a escola inteira no velho piano Steinway do auditrio e fui ovacionado de p. No final da apresentao, Lili estava me esperando na coxia.

- Ser que a gente pode dar uma volta? - perguntei.

Lili ficou em silncio e fez levemente que sim com a cabea. Aliviado, peguei a sua mo e fomos correndo para uma rea perto da escola onde havia um bosque. A noite
tinha cado h pouco e a lua era uma perfeita bola de fogo que pendia baixa no horizonte.

- Sabe... tenho esperado muito por esse momento. No  maravilhoso esse lugar aqui? Eu poderia compor uma msica s por causa desse passeio - disse eu. - Olhe, estamos
perturbando os pssaros.

Agucei os ouvidos para ouvir o canto solitrio de um pssaro. Lili voltou-se para mim e sorriu.

- Voc est bonito, especialmente nessa luz.

- Voc quer dizer na luz do luar?

- E a hora do dia de que mais gosto. *
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- Eu tambm. Vamos ficar mais um pouco, ento.

- No posso.

Lili parou e, apertando os olhos, admirou pensativa o disco redondo da lua.

- Minha me no deixa. Concordei em passear um pouco com voc porque preciso saber de uma coisa antes que a nossa amizade tome outro rumo.

- Voc ficou sria de repente.

- Fiquei mesmo.  que a gente vive num mundo muito esnobe.

- Esquea o mundo. O que isso tem a ver com a gente?

- No sou filha do ministro da Agricultura - declarou Lili.

- Quer dizer que o seu pai renunciou ao cargo?

- Ele no  meu pai. Moro naquela casa porque a minha me  empregada domstica e trabalha l. Viemos junto com eles para a capital porque a famlia do ministro
tem muita confiana na gente.

- Mas no pode ser. Voc tem o mesmo sobrenome dele.

- Isso  apenas uma coincidncia. Vinte e cinco por cento das pessoas de Fujian tm o sobrenome Chen.

- Tudo bem.

- Tudo bem, o qu? Por que voc no volta agora correndo para a sua famlia rica e me deixa em paz? i* , 

- No, no vou fazer isso. , ,

- E o que pretende fazer? ."

- Vou me casar com voc quando a gente tiver mais idade.

- No tenho certeza se quero me casar com voc.         t f s >

- O que quer dizer com isso?

- Na casa do ministro, pessoas como voc e eu no se sentam na mesma mesa. No somos da mesma classe social. Sua me pianista e seu pai general vo lhe dizer a mesma
coisa.

- Isso  bobagem. Meu av, pai da minha me, veio de uma famlia bem pobre, muito mais pobre do que a sua. Pelo menos voc mora numa casa que tem aquecimento e comida
na mesa.

- Seu av pode ter sido pobre um dia, mas agora vocs so ricos e poderosos. No querem mais conviver com os pobres.  o que acontece com quem sobe na vida. '
 >    >    >

- Voc me odeia, ento?
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- Odeio, e muito.

Seus olhos se acenderam com uma luz maliciosa. Ela beliscou o meu brao e se apoiou no meu ombro.

- Voc me ama, ento? - perguntei.

- No ouso fazer isso. Vejo apenas uma tragdia diante de ns. -- Adoro tragdias.  a nica coisa que me emociona.

-- Voc  idealista demais. Tem que se casar com uma moa que possa ajud-lo na sua carreira como futuro lder desse pas. Algum com muito dinheiro ou muita influncia.
Veja bem: na sua famlia voc tem o lado financeiro e o militar. Devia se casar com a filha mais velha e solteirona do ministro da Marinha e ter como amante a filha
mais nova do ministro da Aeronutica. Voc seria o presidente do pas em dois tempos.

Lili estava sendo cruel.

- No, Lili, vou me casar com voc, prometo. Tenho talento e ambio suficientes para no precisar de todas essas influncias para ser bem-sucedido na vida. Vou
me casar com a pessoa que amo, e no com quem meus pais escolherem. Alis, j sou, a esta altura dos acontecimentos, o milionrio mais rico deste pas e o mais jovem
tambm.

- Isso  bvio, j que o seu av  o presidente do Banco da China.

-No, sou milionrio por meus prprios mritos. Por um preo baixssimo, comprei ttulos do Fundo Patritico num montante de um milho de iuanes e uns quebrados.
E tenho plena confiana de que o Banco da China vai honrar o compromisso quando chegar o prazo do resgate.

Lili riu.

- Nas ruas de Fujian, as crianas limpam a bunda com esses papis e os buracos nas ruas esto cheios deles.

- No ria, Lili. Dinheiro  um assunto srio. O nosso pas agora est vivendo uma poca em que no existe bolsa de valores, nem ttulos do tesouro nacional, nem
passivos contratuais. Um dia, vamos ser como o resto do mundo, como os Estados Unidos. Ttulos e aes vo ser como po e manteiga para o nosso povo.

- Esse dia nunca vai chegar. Mas vamos supor que voc seja realmente um milionrio. O que pretende fazer com o seu dinheiro?

- Comprar um banco.

- E pelo resto da vida vai ser como o seu av que fica no fim do dia contando dinheiro?
57

- No, isso so apenas os meios para se chegar a um fim.

- E qual  o fim?

- Vou criar um imprio financeiro na China como o J.P. Morgan.

- Mais uma vez, est apenas pensando em dinheiro.

- Claro,  o dinheiro que vai mudar esse pas, e no o marxismo. E ento, quando todos tivermos mais dinheiro, a vida vai ser melhor e a misria e a fome vo deixar
de existir.

Ela soltou um suspiro.

- ... voc de fato pensa como um lder.   <

- Isso  um elogio?

Lili mordeu os lbios e anmhou-se nos meus braos.

- Queria que o tempo parasse e que pudssemos ficar para sempre desse jeito.

- Eu tambm.

Lili ps seu dedo fino sobre minha boca para me fazer calar. Abracei-a fortemente, desejando nunca mais deix-la ir.

No dia seguinte, na hora do jantar, mame estava calada e mal mexia seus pauzinhos. Quando mame ficava calada assim, era das duas uma: ou estava com enxaqueca ou
muito aborrecida. Quando ficava chateada com papai ou com qualquer outra pessoa da casa, ela no saa do quarto por vrios dias ou ficava martelando alguma msica
clssica europia bem triste no piano que ficava ao lado, na sala de msica. Quando o alvo da sua raiva era eu, no prendia o cabelo e no se maquiava. Infelizmente,
ela hoje estava com a cara lavada e seu cabelo estava solto, caindo pelas costas.

- Mame, coma um pouco. Sua comida est esfriando - sugeri.

- Mame no est conseguindo comer. Tem uma coisa apertando o meu corao - disse ela num tom sombrio.

Aquilo no estava me cheirando nada bem. Ela tirou do bolso um bilhete escrito  mo.

- Cartas de amor aos 12 anos? Eu nunca tinha ouvido falar numa desgraa dessa. Como voc me explica isso, Tan?

Ela tinha interceptado uma carta de amor da Lili.

- Ela me escreveu uma carta de amor? - exclamei, estendendo a mo

para pegar a carta.

Mame afastou minha mo com um tapa.  "
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- Essa menina no serve para ser sua amiga. Ela  filha adotiva de uma empregada domstica na casa do ministro. Meu filho, nos seus ombros repousa a esperana e
a glria de duas das famlias mais importantes deste pas. Voc est sendo treinado para se tornar um lder. Sabe o que isso significa?

- Sei - respondi, encolhendo-me na cadeira.

- No sabe, no. Seus dois avs vo ficar muito decepcionados e seu pai nunca vai perdo-lo se fracassar. Quando ele era jovem, foi sempre o melhor em tudo o que
fez. Voc est freqentando o mesmo colgio que ele freqentou e onde h inmeras placas em homenagem a ele penduradas em todas as paredes. Muitos dos professores
dele ainda esto lecionando l. Voc vai ter que super-lo, seno isso vai ser uma desonra para ele. Essa histria com essa menina tem que acabar imediatamente.

- Sou livre para escolher o que fazer da minha vida e quem so os meus amigos.

- No , no senhor! No aqui nesta casa!

Subi correndo sem terminar de jantar. Papai veio ao meu quarto mais tarde e me disse que, na China, se eu quiser ser considerado um homem srio, no devo paquerar
ou me encontrar com meninas na minha idade. Os homens constrem coisas e governam o mundo. As mulheres eram apenas objetos decorativos e eu no deveria me preocupar
tanto por causa de uma simples menina. O amor era apenas uma iluso. Concordava com mame: quando eu fosse um homem feito, deveria me casar com a pretendente mais
adequada, algum que tivesse beleza, riqueza e poder... algum que preenchesse todos esses requisitos. Sentindo muita raiva, retruquei que no precisava disso. Papai
me disse que eu iria entender melhor essa questo quando crescesse e ficasse mais sabido. Saiu do meu quarto e passei a noite toda pensando em Lili.

Fui me arrastando para a escola no dia seguinte e no vi em lugar nenhum a saia vermelha de Lili. Na aula de teatro, minha favorita, na qual eu estudava e ensaiava
junto com ela, o professor de culos leu a lista de chamada, mas um nome estava faltando. Levantei a mo.

- Professor, o senhor esqueceu de chamar o nome da Lili.

- No esqueci, no. Ela foi transferida a partir de hoje.

Os alunos comearam a murmurar. '             t.;

- E para onde ela foi transferida? > : <

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O professor balanou a cabea.

- Vamos continuar com o terceiro ato da pea.

Normalmente, quela hora, meus olhos encontrariam os de Lili e sorriramos um para o outro. Mas agora ela no estava mais ali. Eu sabia muito bem que eram os braos
de polvo da minha me que estavam penetrando no meu territrio. Conhecia muito bem a minha me. A essa altura, Lili deveria estar aguardando a partida dentro de
algum trem na estao de Beijing. Sua me deve ter sido despedida da casa do ministro. Eles iriam arrumar uma outra empregada para botar no lugar dela e, no que
dependesse da minha me, Lili iria sumir da face da terra.

Naquele fim de semana eu completaria 13 anos. Com a ajuda dos seus amigos e conhecidos da alta sociedade, mame transformou a nossa manso numa terra encantada em
dia de festa. De manh cedo, o motorista me levou ao alfaiate para que ele me fizesse um terno novo, estilo Mo, com a melhor l da provncia de Xinjiang. Depois,
fui levado ao barbeiro particular do vov Long, treinado nas luxuosas barbearias da velha Xangai. Entrei todo desalinhado e sa de l caprichosamente arrumado e
penteado, com o cabelo repartido do lado. As moas que lavaram o meu cabelo fizeram uma massagem to gostosa e agradvel na minha cabea e nos meus ombros que acabei
entendendo porque, toda semana, o vov Long demorava uma tarde inteira de sbado para lavar, cortar e pentear o cabelo.

Quando a limusine chegou em casa ao meio-dia, conforme o horrio estipulado por mame, havia uma dzia delas estacionadas no ptio de entrada. A casa estava repleta
de msica. Mame estava sentada ao piano Steinway de cauda com um belo tenor ao seu lado. Devia haver mais de cem convidados acompanhados de suas filhas, todos amigos
de mame. Tmidas e risonhas, a maioria das garotas tinha a minha idade. Tambm muito sorridentes e me analisando de longe, havia uma dzia de meninas mais velhas
do que eu. Todas usavam belas saias e tinham enormes borboletas aplicadas nos cabelos cacheados.

Quando cheguei, mame comeou a tocar e cantar o "parabns pra voc", com todos os convidados participando da cantoria. Papai, vestido informalmente, fumava seu
charuto, prximo ao piano. Foi ento que uma professora de dana ps uma fita cassete no gravador e nos ensinou a danar valsa. Primeiro, ensinou os passos a todos
em grupo, depois me puxou para danar com uma menina mais velha e mais alta do que eu que
JJA CH.N

tinha um sorriso meigo e um busto proeminente que me fazia ficar com a respirao curta a cada passo que dava. Fomos forados a rodopiar pelo cho encerado sob as
lmpadas decorativas e os papis coloridos. De incio me senti meio sem jeito, mas a menina alta, que era uma danarina de mo cheia, foi me guiando e sorriu quando
pisei algumas vezes no seu p. Ela me fez sentir confortvel e confiante e a dana acabou fluindo direitinho. Ao final da primeira dana, ela se apresentou e me
disse o seu nome: Sha-Sha. Seu pai era o maestro titular da Filarmnica Central da China e ela estava atualmente estudando bale no renomado Conservatrio de Msica.
Sua cintura era muito fina, suas pernas eram compridas e ela tinha um par de seios redondos e protuberantes que estavam comprimidos por baixo de um suti transparente.
No pude evitar ficar com os olhos fixos neles.

Mame sorria e papai bebericava uma taa de vinho. Vov Long apareceu para participar da dana. Ele era o mximo! Todas as meninas queriam danar com ele. Vov me
desejou um feliz aniversrio e me deu de presente um grande embrulho. A festa, organizada por minha me, foi um sucesso, e ela estava feliz. Fez com que eu danasse
com uma dzia de meninas que estavam  espera. Tocar em seus corpos em desenvolvimento e lembrar do perfume exalado por elas me fez ficar com os olhos fixos no teto
do meu quarto at tarde da noite. Sentia-me meio confuso e muito excitado. Quando a festa terminou, minha me me disse que eu podia fazer amizade com qualquer uma
daquelas poucas meninas selecionadas que foram convidadas. Ela tinha preparado uma lista com os nomes de todas, com fotos anexadas para referncia fcil e rpida,
juntamente com seus endereos e telefones e,  claro, o nome de seus pais importantes. Para falar a verdade, eu me senti melhor depois de ter conhecido as garotas
na festa e tinha gostado de t-las conhecido, mais do que pude admitir abertamente para os meus pais. Mas, no final das contas, s conseguia pensar em Lili. Um dia,
voltaria a encontr-la e faria dela a minha mulher para sempre e ningum iria tir-la de mim.

AQUELE INVERNO EM QUE PAPAI voou para o sul e retornou ao seu posto em Balan foi marcado por uma grande apreenso. Pouco depois do Ano Novo, recebemos um telegrama
relatando uma situao crtica ocorrida na fronteira da China com o Vietn. Houve um ataque ao pas vizinho, mas alguma coisa tinha sado errado e papai estava desaparecido.
Mame

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tentou esconder a notcia de mim, mas sua angstia e seu olhar assustado denunciaram a sua preocupao. Insisti em descobrir a verdade, sentindo que algo estava
terrivelmente errado-j que eu no tinha recebido o meu telefonema habitual de Ano Novo do meu pai-, mas mame fechou-se em copas. Foi s por intermdio de um soldado
que vim a saber da gravidade da situao. Papai tinha desaparecido em combate. Havia a possibilidade de ele ter sido morto pelos vietnamitas. Vov Xia pegou um avio
para o Comando do Sudoeste a fim de encontr-lo.

Durante vrios dias, mame e eu, junto com vov Long, ficamos esperando por qualquer notcia vinda do sul do pas. Mame estava louca de preocupao quando o telefone
finalmente tocou no dia nove de janeiro, de manh cedo. Era o prprio papai. Tinha cado numa emboscada perto da cidade de Ho Chi Minh, mas conseguiu sobreviver
escondendo-se numa caverna. Apesar da maior parte de seus homens ter sido exterminada, eles ainda assim conseguiram infligir um severo golpe no bloqueio inimigo.

O governo aclamou meu pai como heri, como um verdadeiro soldado que ps sua vida em risco pelo seu pas e pelo presidente Mo. Numa caligrafia floreada, o prprio
presidente escreveu os dizeres "Esprito herico que empalidece o cu" numa placa em honra a papai, sobre a qual mame cuspiu, depois que o soldado que a entregou
havia se retirado.

H muito tempo que eu detestava aquele lugar chamado Balan. Para mim, aquela era uma zona indefinida e sinistra, marcada pela proximidade do inimigo. O Sul, os mosquitos,
o inimigo desconhecido, as dores de cabea de mame e a ausncia de papai: Balan era um lugar do qual raramente falvamos, era o dever que papai tinha que cumprir
e que o mantinha afastado, como se tivesse uma outra famlia mais importante do que a nossa. Desejei muitas vezes poder estar l com ele e seus bravos soldados,
lutando e bebendo aquela cerveja que ele trazia do Sul para o vov Xia. Tambm sentia uma ponta de inveja ao ver os olhos de papai se iluminarem quando ele contava
histrias das danas do Festival da Primavera - tudo soava muito romntico e cheio de liberdade.

Agora, Balan no existia mais. O posto da fronteira seria comandado por outro bravo general, pois papai havia sido promovido pelo presidente Mo ao cargo de subcomandante
do Comando Militar Central de Beijing.

A nica coisa que mame comentou foi que j no era sem tempo.
}   l

Shento

CAPTULO 7      '

1972

FUJIAN, SUL DA CHW


UM JOVEM SOLDADO LEVOU-ME de jipe  estao ferroviria de Qunming e me ps dentro de um trem de carga. Ele me disse que eu iria para uma escola do Exrcito em Fujian,
a provncia que fica no litoral leste do pas, e jogou meus poucos pertences dentro do compartimento, logo depois de eu entrar nele.

Sentado no vago de carga entre pedaos de carvo, no estmago da besta de ferro, senti-me abandonado por todos - por baba, por mama e pelo general Ding Long. A
incerteza do meu futuro me amedrontava. Quando o maquinista veio me inspecionar, fiz uma reverncia para aquele homem alto, bigodudo e com sotaque de nortista. Sentia
que tinha de ser simptico com qualquer um que cruzasse o meu caminho, agora que estava sozinho no mundo. As ondas de tristeza viriam mais tarde, mas tudo o que
eu estava sentindo naquele momento era o frio cortante da realidade e a spera necessidade de sobreviver. Na minha imaginao, eu me via com o corpo mole, bambo
e fraco, como uma marionete sendo manipulada pelas mos do destino. Iria para onde me mandassem. No tinha escolha. Mas conseguiria superar as dificuldades. Baba
e mama me criaram para que eu fosse capaz de ficar sozinho numa terra desconhecida e conseguir sobreviver.
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Eles cuidaram de mim para que eu pudesse, um dia, ser um homem. E esse dia era exatamente hoje.

O trem parecia uma metfora do meu destino: podia me levar para qualquer lugar que existisse no mundo, atravessando plancies, subindo montanhas, costeando o litoral,
vencendo longas distncias e indo ainda mais alm.

"Tenha coragem", disse a mim mesmo. "Segure firme as rdeas e vai dar tudo certo." Apesar dos pesares, tinha gratido pelo velho general, o homem que havia me dado
um tapa na cara e que estava me enviando para o colgio militar. Decidi encarar aquilo como uma oportunidade. Jurei dar o melhor de mim e fazer jus ao meu nome,
cujo significado  "topo da montanha".

A locomotiva lanou um longo guincho que pareceu rasgar o cu em pedaos. Se eu soubesse que nunca mais veria a minha querida Balan novamente, teria pulado fora
do trem, me ajoelhado e beijado o cho para sentir o gosto do solo da minha terra natal pela ltima vez.

Esperava retornar um dia e plantar um pinheiro sagrado em memria de baba e de mama para prolongar a presena deles na Terra.

As lgrimas me cegavam os olhos quando o trem saiu da estao. As cidades e as vilas iam ficando para trs rapidamente, as montanhas passavam voando, a velha Balan
se perdia na distncia como uma miragem flutuando numa nuvem por entre as palmeiras, os mamoeiros e as florestas de mangueiras. E ento, finalmente eu os vi - os
rostos enrugados de baba e mama. Eles sorriam para mim e se despediam com os olhos cheios de sabedoria. Sabiam para onde eu estava indo e estavam felizes por mim.
Seus rostos seguiram o trem, viajando no ar comigo at a luz se esvair e o dia virar noite.

Viajei naquele trem durante cinco dias, antes de chegar  remota provncia de Fujian. Quando espiei pelas frestas da porta do trem, no havia mais terra. Um vasto
oceano estava  minha frente. Era a minha primeira viso do mar. Para meu jovem corao, o oceano continha a grande promessa de todas as possibilidades, como as
montanhas prximas a Balan. Agora eu estava indo para outra escola. Talvez um dia me tornasse soldado, e talvez - apenas talvez - chegasse at a ser um general.
E o que era um general sem os milhares de navios de guerra para atacar e conquistar continentes longnquos? Para me receber, as mulheres se postariam na praia e
haveria salvas de tiros de canho. Puxei pela

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memria, recapitulando as aulas de geografia. Aquele devia ser o Oceano Pacfico, o fim do mundo. Que sorte a minha por ter nascido no sop do Himalaia e ter podido
ver, numa s vida, aquela extraordinria cadeia de montanhas e este mar infinito. Estava fascinado com o que poderia haver abaixo da superfcie resplandecente da
gua. Como desejava conhecer as guas escuras desse Oceano Pacfico to bem quanto conhecia as grandes montanhas da minha terra e os muitos segredos que elas escondiam!
Como desejava conhecer as formas de vida que existiam debaixo daquela gua, do mesmo modo como conhecia o canto dos pssaros das montanhas e os sons dos macacos
da floresta!

A viagem tinha chegado ao fim. Diante de mim, estendia-se uma faixa solitria de terra, projetando-se mar adentro. Alguns prdios cinzentos se espalhavam na ponta
da pennsula, cercados por um muro alto e ameaador. Um motorista mal-encarado veio me apanhar num caminho enferrujado e me deixou na sala do diretor, escondida
no lado oeste do campus coberto pela folhagem. O diretor era um homenzinho de um metro e meio que usava culos de lentes grossas. Parecia mesmo bem pequeno sentado
atrs de sua enorme mesa de mogno, mas aquela monstruosidade com muitos ornamentos entalhados lhe conferia um ar de autoridade.

- Mais um superdotado. Jovem demais para morrer e velho demais para mudar.

O diretor balanou a cabea e suspirou. Escolhi uma cadeira e me sentei.

- No mandei voc sentar, mandei? - ralhou o diretor. - Faa apenas o que mandarem voc fazer, nem mais, nem menos. Vai ter que seguir esta regra de agora em diante.
Sabia que apenas dez anos atrs os homens que chegavam aqui nunca saam vivos? - disse ele, sem muita expresso

na voz.

Pulei da cadeira onde estava sentado.

- No pretendo morrer aqui. Quero ser um general.

- Dei licena para que falasse, meu jovem? Segunda regra: nunca diga nada antes de algum se dirigir a voc. Entendeu bem?

Trincando os dentes, fiz que sim com a cabea.

O diretor soltou um berro e um guarda enorme apareceu.

- Leve-o ao quarto 1.234. Virou-se para mim e acrescentou:

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- Voc vai gostar do seu colega de quarto. Eu cuido para que todos vocs fiquem agrupados como num casamento perfeito. Voc vai entender o porqu.

Meu quarto era um cubo de nove metros quadrados e ficava no final de um corredor no segundo andar de um prdio retangular. Dentro dele havia um beliche que rangia.
Duas pequenas escrivaninhas, com cadeiras de madeira, estavam encostadas na parede do lado direito. Naquela luz fraca, o quarto me lembrava um cemitrio lgubre
e antigas cavernas entocadas nas montanhas. O guarda me disse para eu ficar atento ao apito que tocava na hora do jantar. Disse tambm que se eu chegasse um minuto
atrasado, ficaria do lado de fora e passaria fome at a hora do caf da manh. Depois, saiu com um sorriso perverso estampado no rosto.

Deitei-me na cama de baixo e, pela primeira vez em vrios dias, consegui me espreguiar numa cama de verdade. No me importava o quanto ela rangesse e nem que fosse
estreita e dura - ela me parecia cada do cu. Poucos minutos depois, ca num sono profundo. As horas se passaram. Fui repentinamente acordado pelo som de passos
pesados.

- Que porra  essa? Quem  voc? - perguntou com estrondo um menino de quase dois metros de altura que apareceu por cima de mim.

- E quem  voc? - retruquei.

- Sou eu quem manda aqui. D o fora! ,'.'!

- O diretor me designou para ser seu colega de quarto.   .,>-;-..

- Aquele safado! Quantas vezes vou ter que dizer a ele que no preciso de nenhum colega de quarto? D o fora, v embora daqui!

O menino, que era bem parrudo, comeou a me chutar com suas botas velhas e pesadas. Consegui deslizar para fora da cama e acabei caindo debaixo de uma chuva de socos.
Ele continuou me esmurrando at eu ficar todo encolhido num canto, como uma bolinha, perto de uma das cadeiras. Como o diretor pde ter me posto aqui junto com esse
monstro? Mas a questo mais urgente era que eu precisava me defender desse agressor ensandecido, que agora estava puxando uma faca. Mesmo na luz fraca, a lmina
reluziu.

- Venho em misso de paz. Diga o seu preo, meu amigo - falei.

- Meu preo  a sua morte. Qualquer um que ouse se aventurar no meu quarto no vai sobreviver para se arrepender disso.

- Mas acabei de chegar. No sabia de nada.

- Est pedindo compreenso? Covarde! Odeio gente covarde!

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O garoto ps a lmina debaixo do nariz e cheirou-a corno se fosse alguma coisa deliciosa. Aproximou-se de mim bem devagarinho, com a ameaa estampada no rosto marcado
por cicatrizes.

O que fao agora? O que baba faria? No adianta rezar. Esse cachorro no aceitaria isso por nada nesse mundo. O que o general faria nesta situao? A resposta me
veio quando olhei rapidamente para a direita. Mas o garoto foi mais rpido. Ele agarrou o meu pescoo com uma das mos e encostou a faca no meu nariz com a outra.
Trmulo e ofegante, peguei uma cadeira e espatifei-a bem no meio de seu rosto retalhado. Para minha sorte, uma das pernas da cadeira penetrou no olho direito do
cara, fazendo o sangue esguichar e manchando de vermelho o lado direito de seu rosto. O pequeno gigante xingou em voz alta, mas a dor perfurou sua alma e ele tombou
diante de mim. Respirei fundo e me parabenizei por minha primeira vitria naquele novo territrio. Calmamente, fui at a porta e vi uma pequena multido que tinha
sido atrada pelo tumulto. Um guarda entrou no quarto sem pressa e cutucou a cabea do meu colega de quarto

com seu cassetete.

- Ainda est vivo?

- Esse desgraado machucou meu olho - disse ele aos berros.

-  verdade isso? Voc machucou o olho dele?

- Ele tentou me matar. Foi legtima defesa. Ele tem meio metro de altura a mais do que eu e  dez vezes mais forte. Por favor, entenda a minha situao. Desculpe-me,
fiquei muito assustado.

Ajoelhei-me, agarrei os ps do guarda e os sacudi.
- Por favor, no me castigue. ,->         ;

- Voc vai ficar sem jantar hoje - disse ele. - E vocs, seus vagabundos inteis - prosseguiu, gesticulando para os curiosos que estavam parados na porta -, venham
aqui carregar o chefe de vocs para a enfermaria. O que esto olhando? A briga j terminou.

Meu colega de quarto foi carregado para fora por quatro garotos igualmente grandes. Ele berrava e xingava.

- Seu merda! Voc vai morrer logo. Meu pessoal vai cortar o seu saco fora. Espere s para ver.

- Tirem esse cara daqui antes que eu arrebente os dentes dele - disse o guarda, antes de trancar a porta e sair andando, calmamente, como se nada tivesse acontecido.
 68

 meia-noite, bateram  porta. Acendi a lmpada fraca do abajur. Abriuse uma pequena janela na minha porta. Duas mozinhas seguravam uma tigela de arroz com um naco
de carne.

- Pegue - sussurrou um menino. - Aqui esto os pauzinhos. Rapidamente peguei a tigela e sussurrei de volta:

- No sei como agradecer. Quem  voc?

- Shhhh! No tem importncia. Ns  que agradecemos por voc ter dado uma surra naquele cachorro safado. Mas tome cuidado, porque a vingana vir logo, logo. Cuide-se.

- Obrigado - disse eu. Ele se foi.

A comida estava fria, mas deliciosa. Segurando a tigela vazia, senti-me profundamente comovido pela solidariedade daquele menino. Se havia algum ali que se considerava
meu amigo sem sequer me conhecer, ento devia haver outros e talvez muitos mais. Mas, primeiro, eu precisava sobreviver ao meu colega de quarto, que voltaria em
breve, certamente querendo me matar.

- Exerccio matinal. Levantem-se! Exerccio matinal, seus preguiosos - rugiu uma voz grossa vinda do campo de futebol, ecoando no silncio da manh. O mar, que
ficava alm do conjunto de prdios murados, estava calmo. Apenas uma brisa leve agitava o mato e as copas dos pinheiros que cresciam s margens do terreno. O guarda
destrancou a minha porta e anunciou sarcasticamente:

-Meu amiguinho, vou deixar voc sair, mas voc tem que botar na cabea o que vou lhe dizer. Tem duas coisas que no se pode fazer aqui neste paraso. Ele fez uma
pausa para tragar seu cigarro.

- Primeira coisa: aqui ningum arruma briga com Hei Gou, como voc fez. Isso pegou muito mal.

- Hei Gou? E quem  esse cara? - perguntei.

-  o Co Negro, seu companheiro de quarto. Ele soltou um risinho debochado.

- Porque uma coisa  certa: ele vai querer matar voc quando estiver de volta. Se no for ele, vai ser algum da gangue dele.

Outra risada.

- Bom, agora j sabe o que o aguarda nesta escola maravilhosa. E, caso esteja alimentando a idia de fugir, devo informar a segunda coisa que voc no pode fazer
aqui.

69

Meu corao estava aos pulos e fiquei com muita raiva ao perceber o prazer perverso que o guarda estava sentindo s custas do meu medo.

- Qual  essa segunda coisa?

- Qual  a pressa, meu jovem? Ha, ha, ha!

Ele fez uma pausa para dar mais uma tragada no cigarro.

- Preste ateno. No tente fugir. Tenho certeza de que j deve ter ouvido o nosso diretor recitar seu ditado preferido: "Eles nunca saem vivos daqui". Ele est
falando srio. Nem tente fazer isso, a no ser que seja um mestre do Kung Eu e consiga pular os muros de quase sete metros de altura, ou que consiga nadar por entre
os tubares assassinos, se preferir uma fuga bem sangrenta pelo mar.

Fiquei calado, odiando cada palavra que ele dizia. Eu me sentia como se estivesse vivendo entre animais, e no entre seres humanos. A vingana est prxima, repetia
para mim mesmo. "Tome cuidado", ressoava em meu ouvido a voz do meu amiguinho.

Na luz da manh, vi pelo menos uns mil garotos enfileirados em colunas. Mais ao norte, havia uma nica fileira de meninas, todas vestindo calas compridas bem largas.
Nenhuma delas usava vestido. Um guarda mandou que eu me posicionasse no final da terceira coluna. O exerccio consistia em alongamentos dos braos e das pernas.
Os guardas se colocavam ao longo da linha lateral para disciplinar quaisquer pernas ou braos desalinhados. Assim que o exerccio terminou, ouviu-se outro apito,
desta vez causando risos e gritos animados nos jovens cheios de fome.

-- Hora do caf da manh.

As colunas se desfizeram e a multido embaralhou-se numa grande confuso, todos correndo para dentro de um galpo sem janelas. Os meninos tomaram a dianteira e as
meninas foram atrs deles. Eu no tinha pressa nenhuma em entrar no meio daquela loucura e tentei no atrair mais qualquer ateno para mim. Fiquei olhando em volta
e me mantive afastado das moitas e dos troncos de rvores, onde algum dos comparsas do Co Negro poderia estar escondido para me atacar.

Dentro do refeitrio, recebi a minha rao: uma cuia de mingau com alguns pedaos de picles boiando por cima. Meu estmago roncou de prazer ao ver aquela magra refeio.
Encontrei uma mesa vazia num canto e, de costas para a parede, comi e fiquei observando a multido, atento a qualquer sinal de confuso. Havia uma briga por comida
duas mesas depois da minha. Um
70

guarda golpeava os meninos com o cassetete, sua arma predileta. O tumulto logo acabou. O brigo foi levado embora com um enforcador apertando sua garganta.

Todos os meninos tinham o cabelo cortado rente e olhares cheios de suspeita, que no combinavam com a idade deles. Alguns eram mais agitados, correndo e perseguindo
uns aos outros, sem medo das cacetadas constantes dos guardas. Outros eram submissos e pareciam resignados s regras, quaisquer que fossem. Tinham uma expresso
mortia nos olhos, como a de prisioneiros esquecidos pelo mundo. No havia qualquer brilho de esperana neles, apenas o medo e o fardo das obrigaes dirias. Seus
rostos eram macilentos e a pele tinha um tom esverdeado. Um dos meninos usava uma cala que, apesar de remendada muitas vezes, ainda tinha buracos nos joelhos.

Olhei para a outra extremidade do refeitrio, onde as meninas estavam amontoadas ao redor de cinco mesas. Seus olhares eram tmidos, e elas pareciam fantasmas. Vestiam
blusas azul-escuras e calas largas de um pano grosseiro. Seu cabelo tinha sido cortado curto, acima das orelhas, para ficarem livres de pulgas e piolhos. As nicas
caractersticas que as distinguiam dos meninos eram seus corpos frgeis e suas vozes femininas, ainda em formao. Como eu gostaria de ver flores do campo enfeitando
os seus cabelos! E como seria bom se elas usassem vestidos estampados, ajustados s suas formas esguias, como as meninas da minha aldeia. Um guarda se aproximou
e bateu com o cassetete na minha mesa.

- Ande logo! O que voc acha que  isso aqui, algum banquete? Olhei para ele e engoli rapidamente o meu arroz. Meu rosto congelou

quando mordi uns desagradveis gros de areia que estavam no fundo da cuia. Tive que tampar a boca para no vomitar. O arroz tinha um gosto ranoso, parecendo at
que estava estragado. Mas me senti melhor depois de comer. S a boca sentia o paladar. A partir de ento, o gosto passou a no ter mais importncia. Comi para encher
a barriga e poder sobreviver. Sentir prazer em comer era algo a que no poderia mais me dar ao luxo.

O alto-falante do refeitrio fez um rudo e de l saiu uma voz, num tom bem preciso e calculado, que s podia pertencer quele safado daquele diretor.

- Alunos! Devido a uma demanda urgente do nosso governo pelo atum enlatado que produzimos, de hoje em diante todos os alunos vo trabalhar na fbrica no turno da
manh e iro  escola no turno da tarde.
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Lembrem-se, o reformatrio  a nica salvao de vocs nesse mundo, e isso custa dinheiro. Seu dever  trabalhar pela comida que acabaram de comer e pelas muitas
outras refeies que iro consumir. Nada vem de graa, e as ms aes sero punidas. Agora, peo aos guardas que por favor faam o pessoal se movimentar. Isso 
tudo por enquanto. Tenham um bom dia.

Houve um burburinho de xingamentos e palavres por parte dos alunos. Os bastes desceram novamente em cima de suas cabeas e a multido saiu do salo vagarosa e
relutantemente, todos arrastando os ps em direo ao prdio cinza, marcado claramente, em tinta vermelha, FBRICA DE ALIMENTOS ENLATADOS.

O cheiro l dentro era insuportvel e a temperatura, nauseante. Um guarda, vestindo macaco e luvas, me ps para comear no trabalho mais fcil: tirar as escamas
e os ossos dos atuns ainda vivos. Meninos e meninas alinharam-se na beira de uma pia comprida e cheia de peixes que pulavam. Recebemos facas e instrues simples.
O guarda ordenou, aos berros:

- Primeiro cortem a cabea e raspem as escamas. Depois abram a barriga e tirem as tripas. 

- Posso usar luvas?  '

- No.

Fiquei arrepiado diante da brutalidade da ordem. Depois me espremi entre dois garotos e peguei um atum de trinta centmetros com as mos. O peixe era forte e escorregadio.
Ele sacudiu o rabo e escapuliu das minhas mos trmulas. Algum riu. Um outro me chamou de idiota. Persegui o diabo do peixe pelo cho durante quase um minuto at
que finalmente consegui cravar uma facada na sua cabea. Foi a primeira coisa que matei em toda a minha vida. Quando a cabea foi arrancada, o sangue espirrou nas
calas de dois meninos que apareceram, de repente, ao meu lado. No mesmo instante, eu os reconheci como integrantes da gangue do Co Negro. Pedi desculpas com toda
a sinceridade:

- Desculpem-me,  meu primeiro dia aqui.

- Lamba o sangue da minha cala, seu filho da me! - exigiu o garoto mais alto.

- Prometo lavar suas calas quando terminar o trabalho - disse eu. O mais alto, que tinha um gog bem saliente, pegou uma enorme

cabea de peixe e a atirou na minha cara. Ela se espatifou entre os meus olhos. Cambaleei para trs at minha cabea se chocar contra a parede72

manchada de sangue. Meus ps escorregaram no cho molhado e coberto de tripas de peixe e ca pesadamente no cho. A multido urrou. Enquanto eu tentava me encostar
na parede para me estabilizar, vi o menino mais baixo virar a peixeira em sua mo cheia de calos, mirar rapidamente em mim e atir-la com a maior displicncia. Por
milagre, ela aterrissou com a ponta cravada na parede, a poucos centmetros da minha orelha. A vingana tinha chegado.

- Corta, corta, corta!

A dupla circulava  minha volta, revezando-se nos chutes que desferiam no meu peito, nas minhas costas, na minha cabea.

-Voc vai ficar como o peixe: sem cabea, desossado e enlatado - berrou o maior, ainda mais alto que a gritaria dos meninos, que, a essa altura, tinham interrompido
o trabalho para assistir ao circo.

Sentindo muita dor, limpei os olhos depressa e fiquei abaixado, quieto como um camundongo, procurando um buraco na terra onde pudesse me esconder para sobreviver.
Mas os chutes me atingiram como uma chuva de granizo. No podia me defender e tinha pouca chance de atacar com os meus ps escorregando no cho mido. No meio da
confuso, tive uma viso indistinta da faca ainda enfiada na parede. Consegui me levantar com esforo e me arrastei at a parede para pegar o cabo da faca.

- Corta, corta, corta!

Desta vez era meu grito de guerra. Ataquei, movendo a faca para a esquerda e para a direita, sentindo o impacto enquanto esfaqueava os dois grandalhes. Agora estavam
todos em silncio. O circo tinha se transformado num jogo mortal. Os dois marmanjos afastaram-se rastejando, deixando um rastro de sangue atrs deles. Mas no os
deixei ir embora to facilmente. Persegui-os como tinha feito com o atum quase morto e continuei golpeando com a faca enquanto eles uivavam como ces feridos.

Foi ento que chegaram os guardas, balanando seus cassetetes e descendoos sobre as nossas costas como baquetas num tambor. Por fim, conseguiram nos separar. Um
deles me pegou pelo colarinho e me arrastou para dentro de um banheiro fedorento, enfiando minha cabea num balde de gua suja. Prendi a respirao at quase estourar,
mas o guarda continuou empurrando minha cabea at que o borbulhar parasse. Ento me jogou no cho e saiu.

Quando abri os olhos novamente, uma rstia de sol entrava pela minscula janela do banheiro. Na minha pele toda cortada e encharcada de sangue

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e suor, a sensao era a de que eu estava sendo picado por uma infinidade de pequenas agulhas. Era o final da tarde. Ningum tinha vindo me socorrer. Se no fosse
o fedor que invadiu minhas narinas, eu teria permanecido desacordado por muito mais tempo. Talvez nunca mais tivesse conseguido acordar. Tentei me levantar com a
ajuda das mos. Meu corpo todo doa. Estava coberto de hematomas, manchas de sangue e cortes abertos, que ainda sangravam.

Escutei uma voz que vinha do lado de fora.

- Limpe-se antes de ir falar com o diretor. Est me ouvindo?

Com muito esforo, consegui me erguer e estiquei o pescoo para dar uma rpida olhada em meu rosto refletido num espelho quebrado que estava pendurado na parede.
No pude acreditar no que vi. Meu rosto, inchado, parecia o de um cadver. Meus olhos eram apenas duas pequenas frestas de luz e minha testa era uma massa de carne
sanguinolenta. Meu queixo tinha um grande corte e estava aberto em dois, e minhas bochechas pareciam dois pssegos podres. As moscas zumbiam em volta de mim, achando
a minha cabea mais apetitosa do que as cabeas de peixe jogadas no fundo das privadas. Afastei o meu olhar daquela imagem mrbida e encostei-me na pia para lavar
meu rosto com cuidado.

- Quando  que voc vai acabar com isso? Vamos, deixe-me ajud-lo a se limpar.

O guarda entrou no banheiro, pegou um balde de gua suja e despejou-o sobre a minha cabea.

- Acho que agora voc j est pronto, bonito. Siga-me.

O diretor estava sorrindo quando me arrastei para dentro da sua sala.

- Parece que voc est conseguindo sobreviver muito bem, meu amigo.

- Seu diretor, esto querendo me matar. O senhor tem que me ajudar - disse eu, quase no conseguindo me agentar em p, mas determinado a permanecer firme e ereto
at que ele me mandasse sentar. - O Co Negro e seus amigos tm que ser punidos. Eles esto contra mim desde o comeo.

- Bom, deixe eu lhe dizer uma coisa sobre esse lugar aqui, caso ainda no tenha entendido. Aqui, os alunos no so castigados nem por mim e nem por ningum. Dentro
dos muros da nossa prestigiada escola existe um sistema de sobrevivncia totalmente natural: a lei do mais forte. Veja bem, no mesmo dia em que chegou aqui, voc
acabou com um dos preciosos
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olhos do Co Negro. Ele ainda est recebendo cuidados mdicos numa base militar prxima daqui. Por acaso voc foi punido?

O diretor se mexeu em sua enorme cadeira giratria.

- Eu no disse nem um palavra sobre o assunto. Voc acha isso estranho? Talvez seja. Mas isso  bom para vocs. Daqui a seis anos, quando voc se formar nesta escola,
vai entender o que estou querendo dizer. Posso lhe garantir que ser um outro homem. Se vai mudar para melhor ou para pior, ningum sabe, mas com certeza ser um
homem mudado. Se se sair bem, vai poder ser til ao pas. Quer dizer, se conseguir sobreviver.

- Mas o senhor no vai fazer nada?

- No, e inclusive o nico motivo pelo qual queria v-lo no era para lhe dar esperanas ou consol-lo, mas para tirar da sua cabea qualquer iluso sobre obter
ajuda minha ou de qualquer outra pessoa daqui. Voc s tem a si mesmo para se defender, e mais ningum.  claro que se acontecer de ter um osso fraturado ou um corte
sangrando,  nosso dever e nossa responsabilidade providenciar o melhor tratamento para que possa voltar ao campo de batalha e continuar lutando. Agora pode ir.

Durante dois dias, tudo o que consegui fazer foi ficar deitado na cama e gemer de dor. At mesmo o curto trajeto at o banheiro era uma caminhada torturante, que
parecia no ter fim. Eu dormia no estupor de uma febre que me envolvia, es vezes me pegava falando, delirando. Minha boca tinha um gosto amargo que parecia veneno.
Minha respirao era difcil. Eu achava que estava vendo a morte. Em alguns sonhos, at via minha mama e meu baba novamente. Em outros me via sentado no colo do
general. A nica coisa que me fazia lembrar que eu ainda estava vivo era o som irritante dos apitos que pontuavam a rotina daquele lugar infernal. Mais ao longe,
vinda do cais, a buzina ocasional dos navios que atracavam flutuava pelo ar at onde eu estava.

No terceiro dia, tive fora suficiente para descer as escadas e me dirigir ao refeitrio na hora do almoo. Estava meio tonto, mas me sentia refrescado pela brisa
do mar e revigorado pela luz do sol. Parecia que tinham se passado sculos desde a ltima vez em que eu tinha visto o rosto dos meus colegas de escola agrupados
em volta das mesas que rangiam, disputando ruidosamente aquela papa que nos serviam. Mas algo de estranho aconteceu. O salo ficou em silncio e os meninos me olharam
com medo. Seus olhares me seguiram at eu entrar na longa fila do almoo. Mais surpreendente

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ainda foi o fato de alguns garotos mais velhos e mais altos do que eu terem cedido seus lugares na fila e aberto o caminho para mim, sem dizer uma palavra. Eles
sorriram e inclinaram a cabea para me deixar passar. Inclineime em resposta, desconcertado com aquela recepo inesperada. As pessoas estavam comeando a prestar
ateno em mim e a me respeitar, pensei com uma certa alegria. O que aconteceu em seguida me animou ainda mais. As garotas que estavam na fila perto de mim soltaram
risadinhas quando me aproximei. Acenei para elas e sorri, mas meus olhos pararam e se fixaram numa linda menina. Ela estava sorrindo como as outras, mas seu sorriso
tinha uma meiguice especial, que me fez ficar imvel. Ela tinha olhos grandes e inteligentes, um nariz estreito e reto, o rosto comprido e fino, com as mas altas.
Por um momento que pareceu durar uma eternidade, nossos olhos se encontraram e ficamos nos encarando at eu ficar vermelho e desviar o olhar. Mas, quando me virei
para ver de novo aquele anjo, nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Meu corao batia loucamente, quase vindo  boca. Minha fome foi substituda pela sede de
conhecer aquela garota que se destacava, alta e elegante, em meio das outras. Eu no via as cores sem graa do uniforme dela. O que via era uma linda rosa que desabrochava,
sorrindo altiva, com suas cores vivas reluzindo desafiadoramente em meio s folhas mortas do inverno. O calor da primavera ocupou todos os recantos da minha alma
vazia e solitria.

Pouco depois, a rotina foi retomada. Com seu chefe ainda longe, os companheiros do Co Negro se aquietaram. Mantnhamos distncia, trocando ocasionalmente uma olhadela
aqui e ali, nada mais do que isso. Na parte da manh, todo mundo enlatava atum. Eu tinha as mos velozes e aprendia rapidamente. Ao fim de uma semana, estava conseguindo
descarnar e desossar cem quilos de atum a cada dia, um tero a mais do que os mais hbeis da escola. Minhas mos se encheram de calos com o manejo da faca cega e
minhas unhas ficaram comidas por ter de raspar fora os ltimos pedaos da carne do peixe. Minha coluna doa por ter que ficar curvado sobre a pia, lutando com os
peixes, que no aceitavam a morte passivamente.

Em pouco tempo, fui promovido a um trabalho menos entediante: transportar a pesca do dia das docas para a fbrica. Entregaram-me uma carreta de duas rodas que guinchava
muito. A cada turno, eu fazia pelo menos vinte viagens, cinco a mais do que o garoto mais rpido naquela funo. Todos os garotos disputavam o trabalho ao ar livre,
pois ali tnhamos
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o ar fresco do mar. Nos raros momentos em que se podia descansar um pouco perto do cais, eu me perdia em devaneios sobre o mar, como j tinha feito um dia com as
montanhas do meu vilarejo. Os marinheiros e pescadores logo comearam a me chamar de Gato Montes, por causa das minhas passadas geis e rpidas. Apesar de ser magro,
eu tinha bastante fora.

De tarde, tnhamos aulas. A maioria das crianas no sabia o que odiava mais: o trabalho pesado, sujo e malcheiroso ou as aulas chatas e enfadonhas. Mas pelo menos
dava para ficar sentado e, com a ajuda da brisa, tirar um cochilo at ser rispidamente acordado pela bengala de bambu do professor. Eu, no entanto, gostava muito
das aulas. Os professores eram competentes e - o melhor de tudo - havia uma biblioteca. Eu me sentava na primeira fileira, anotava tudo com muita clareza e ficava
firme at o trmino de cada lio. Minhas matrias prediletas eram matemtica, chins e msica. Enquanto os outros levavam bengaladas por no fazerem os exerccios,
eu pedia aos professores que me dessem mais deveres de casa. Em pouco tempo, eu era o primeiro aluno em matemtica e o segundo melhor em chins, o que me deixou
bastante chateado. Desde pequeno, sentia muito orgulho da minha habilidade de me expressar de modo simples e preciso. Meu professor nunca me disse quem estava em
primeiro lugar, mas o segredo no ficou guardado por muito tempo.

No meio do ano letivo, houve um concurso de redao. O melhor aluno ganharia roupas e poderia sair do complexo para um passeio ao ar livre. Fiquei acordado at tarde
durante uma semana para trabalhar na minha redao. Depois de muitas visitas  biblioteca, apresentei ao professor, numa cpia escrita com capricho, o melhor texto
que julguei ter produzido na minha vida inteira. A redao do vencedor seria afixada ao quadro de avisos da escola para que os outros estudantes pudessem admir-la.
Quando o resultado foi divulgado, fiquei aguardando nervosamente e fui o ltimo a verificar o quadro. Certifiquei-me de que o ptio estivesse completamente vazio,
sem ningum para testemunhar minha derrota, caso meu adversrio tivesse vencido.

Para minha surpresa, duas redaes foram colocadas lado a lado: havia um empate para o primeiro lugar. Meu pulso se acelerava enquanto eu procurava pelo nome do
outro ganhador. Em grossas letras pretas, estava o nome de Sumi Wo, que devia ser minha oponente desconhecida. Uma garota! Nem nos meus delrios mais loucos poderia
ter imaginado aqui-

I

77

Io. Mas qual das garotas? Ela deveria ser mesmo brilhante para empatar comigo! Quando estava indo embora, todo envergonhado, escutei uma voz suave chamando meu nome.

- Shento, espere.

Virei-me e vi a garota cuja beleza havia chamado a minha ateno no refeitrio.

- Voc me chamou? - perguntei.

- Meu nome  Sumi Wo. Sempre quis conhecer voc.

Seu rosto era to bonito quanto eu lembrava, e sua voz fez meu corao disparar. Eu deveria ter me apresentado a ela educadamente, como um cavalheiro, mas havia
alguma coisa nela, aquele anjo lindo, que fez minhas pernas tremerem. No h coisa pior do que ser derrotado por uma menina por quem a gente se sente to atrado.
Por alguma razo, a atrao estava funcionando inversamente: eu me sentia como se estivesse petrificado. No conseguia sequer abrir a boca para conversar com meu
jeito confiante de sempre. Tudo o que eu queria era fugir da presena dela - quanto mais longe, melhor -, apesar do meu corao no desejar isso.

- Tenho que ir embora - balbuciei, inclinando-me e afastando-me sem dar as costas para ela.

- Espere um pouco. O que quero dizer  que eu gosto mais da sua redao do que da minha e acho que voc merece o primeiro lugar, no eu.

Ela sorriu e ficou com o rosto todo corado, parecendo um boto que vai desabrochar e se transformar em alguma coisa perigosa.

Corri de volta para o dormitrio como um fantasma.

Sumi. Que nome lindo! Naquela noite, fiquei deitado na cama, sem um pingo de sono, mas com o corao repleto de msicas, as mais lindas que eu conhecia. A lua estava
to dissimulada quanto o meu estado de esprito, escondida por trs das nuvens que a perseguiam, e talvez ela tambm estivesse sonhando. Eu vivia e revivia os momentos
daquele encontro, e queria poder compor uma msica para acompanhar a imagem que danava na minha cabea. Abracei meu travesseiro e s consegui cair no sono quando
a lua se ps no ocidente e a primeira luz do dia pintava de prata o universo.

No dia seguinte, conduzi minha carreta de atum mais rpido que o normal para poder fazer uma pausa para ver Sumi, que estava num prdio separado onde se fabricavam
as roupas do Exrcito. Enxuguei o suor da testa, inclinei-
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me por sobre uma janela do prdio onde ela trabalhava e fiquei espiando. Para minha alegria, Sumi estava sentada bem ali! Sua cabea estava enfiada nos tecidos,
todos de cor verde-oliva. Seus ps pedalavam velozmente para operar a mquina de costura. O salo estava repleto de meninas ocupadas nas tarefas de cortar, costurar,
bordar, pregar botes, fazer casas e embalar. Fazia um calor escaldante e havia muito barulho vindo das dezenas de mquinas de costura que zumbiam e retiniam. Quando
fiz ccegas nela com a ptala de uma flor branca, Sumi olhou para mim, muito surpresa em me ver.

- Oi - disse ela. - O que o trouxe aqui?

- S queria que voc soubesse que voc mereceu ganhar o primeiro lugar. Gostei mais de ler a sua redao do que todas as minhas juntas.

- Isso  verdade mesmo?

Ela sorriu sem abrir a boca. Seu rosto, coberto de gotas de suor, estava vermelho e corado, e a blusa encharcada estava colada  pele. Seu busto achatado revelava,
vagamente, dois montinhos que comeavam a brotar.

- Sou capaz de jurar pela minha me.

- Sabe, sempre quis agradecer por voc ter arrancado o olho do Co Negro e por ter esfaqueado dois de seus companheiros.

- Por qu?

- Ele perturbava todas as meninas daqui, e ns rezvamos para que ele morresse, at que voc chegou. Ande, saia da antes que nosso guarda veja voc e d uma cacetada
na sua cabea. <

- Posso ver voc de novo?

- Hoje  noite na biblioteca.

A partir daquele dia, passei a me encontrar com Sumi todas as noites atrs da ltima fileira de estantes da biblioteca malcuidada, escondidos por trs das prateleiras.
As semanas se passaram, e fiquei sabendo que Sumi tinha vindo do Sul e que era rf. Seus pais foram executados por terem escrito peas de teatro criticando o Partido
Comunista. O dom de escrever estava no seu sangue. Algum dia ela seria a melhor escritora ou a melhor atriz do pas. Ela tinha apenas 13 anos mas, a cada dia, parecia
estar mais madura. Todo mundo, especialmente os guardas e os cozinheiros do refeitrio, admiravam abertamente a sua beleza, que aumentava com o passar do tempo.
Sumi mantinha a cabea erguida como uma dama, mesmo diante das observaes indecentes e dos comentrios grosseiros.

79

Ela tinha lido todos os livros que havia na biblioteca e os relia pela terceira vez. Seu livro favorito era um exemplar de David Copperfield, de Charles Dickens,
com as pginas todas amassadas, que ela tinha encontrado debaixo de uma pilha de bobagens. Sumi adorava Dickens, sabia recitar de cor os dilogos e as passagens
mais comoventes e chorava facilmente por causa do pobre do David. Antes da minha chegada, ela se sentia sempre muito solitria - a melhor aluna da escola, que se
mantinha altiva e orgulhosamente acima dos outros - em meio a rfos tristes e miserveis, com pais bbados e mes prostitutas, fadados a repetir a sina deles. Mas
isso mudou depois que cheguei  escola.

Sumi me via sob a luz de um arco-ris cheio de promessas. Eu adorava ficar olhando para seus olhos grandes e brilhantes, seu nariz longo e seus lbios grossos enquanto
falava sobre minhas ambies. Ela disse que eu tinha a perseverana e a resistncia necessrias para alcanar os meus objetivos. Eu disse que ela tinha o corao
de uma escritora e a alma de um poeta. Muitas vezes, o que eu queria mesmo era fundir o meu corpo com o dela para ficarmos juntos para sempre.

 CAPTULO 8

Setembro de 1976

BEIJING

Vov XIA E vov LONG ERAM as nicas pessoas presentes  beira do leito do presidente Mo, quando ele morreu no antigo palcio da Cidade Proibida. Eles decidiram
adiar a divulgao do falecimento do lder ao Congresso at que um sucessor fosse escolhido. Naquele exato momento, o pas estava correndo o srio risco de um golpe
de Estado. Meus avs tinham que consolidar a posio que ocupavam dentro dos segmentos militar e financeiro e escolher um lder para garantir a sucesso ao poder
o mais rpido possvel. Mas o inimigo deles, que tambm tinha sido inimigo do presidente nos ltimos anos de sua vida, era a prpria mulher com quem ele tinha se
casado, sua terceira esposa, a ex-atriz Madame Mo. Para livrar-se dela, era necessrio enfrentar a Guarnio Militar, os melhores soldados da China, a guarda oficial
da capital, que estava sob o seu controle. Estes soldados poderiam dominar os rgos do governo antes que vov Xia conseguisse mobilizar os exrcitos fora de Beijing.
O pas inteiro poderia ser paralisado da cintura para baixo.

Naquela noite, meus avs no vieram  nossa casa em suas limusines, como de costume, mas num simples jipe. Eu os estava esperando ansiosamente e corri ao seu encontro
quando entraram na sala de estar.
- Vocs esto bem?

Dei-lhes uni abrao bem apertado.

Os dois apenas fizeram que sim com a cabea, passaram a mo no meu cabelo despenteado e entraram no escritrio de papai, deixando a porta entreaberta. Fiquei surpreso
ao ver papai vestindo seu uniforme de combate e examinando um mapa detalhado de Beijing.

- O que vai acontecer agora? - perguntei eu.

- Filho, venha c.

Entrei no escritrio, que tinha cheiro de couro e charutos. Papai segurou minha cabea com as duas mos.

- Mo acaba de morrer. Seus dois avs e eu temos que trabalhar porque pode haver um golpe e precisamos impedir que isso acontea.

- Posso ficar?

- No, filho. Um dia, vamos precisar da sua ajuda, mas hoje no. Papai me beijou na testa e me pediu para sair.

Na sala de msica, mame tocava suavemente o "Clair de Lune", de Debussy.

- Me, ser que pode estourar uma guerra?

-  isso que eles esto tentando evitar - respondeu ela, sem tirar seus olhos da partitura. ,

- E o que vai ser da China amanh?

- O que o prximo presidente quiser que seja.

- E quem vai ser o prximo presidente?

- Voc, um dia - disse mame.

Os trs homens levaram apenas meia hora para chegar a uma concluso unnime. Pela primeira vez na vida, meus avs entraram num acordo sem brigas nem discusses.
Deram dois telefonemas. O primeiro foi para os agentes secretos de papai. Viver e morrer pelos Long estava no sangue desses homens. Eles se moviam como sombras escuras
na noite. O outro telefonema foi para um anjo cado da causa comunista, Heng Tu, que naquele momento estava dormindo na cela fria de uma priso de segurana mxima,
na provncia de Hubei, sonhando com o prximo dia de trabalho forado que o esperava.

Antes do nascer do sol, seis homens mascarados e fortemente armados invadiram no s o quarto de Madame Mo, que foi encontrada dormindo sem peruca ao lado de um
belo bailarino casado, mas tambm a casa do

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comandante-em-chefe da Guarnio Militar da China, o major-general Wan Dong Xing. No se ouviu nenhum tiro e nenhuma gota de sangue foi derramada. Apesar de ser
um momento decisivo dentro de um captulo de suma importncia na histria do meu pas, nem sequer uma nota de p de pgina foi escrita sobre esses acontecimentos.
Num determinado momento, a coisa estava ali, no outro no estava mais - como se um meteoro tivesse varrido os cus.

Na provncia de Hubei, um jato da Marinha atravessou o cu noturno e aterrissou na pista de pouso, sobrevoando um antigo templo nas montanhas, agora transformado
em presdio para presos polticos. Uma fogueira acesa no solo escuro assinalava o local para a aterrissagem. Assirn que o jato taxiou e parou, abriu-se uma porta
e um soldado fortemente armado desceu a escada. Ele trazia uma carta assinada pelo comandante-em-chefe do Estado-Maior e um alvar de soltura para Heng Tu. O documento
foi lido em voz alta para o prisioneiro, que ficou em silncio diante das palavras graves que lhe estavam sendo anunciadas. Aquele homem, vestido com o uniforme
tosco da priso, um dos primeiros fundadores da revoluo, deveria assumir a posio de Mo como o prximo presidente da China. Ao amanhecer, um Heng Tu bem-vestido
e barbeado foi apresentado ao mundo.

No dia seguinte, papai tornou-se o primeiro homem com menos de 45 anos a ser nomeado comandante-em-chefe da Guarnio Militar de Beijing, o mais importante efetivo
militar da China. Meus dois avs, os criadores de reis, puseram de lado suas desavenas para no abrir mo do poder. Seu objetivo mtuo e comum, nunca expressamente
declarado ou confirmado, era ter papai como o prximo nome a ser considerado para a presidncia. Podiam t-lo nomeado presidente naquela mesma noite, em vez de Heng
Tu, mas ele no estava preparado, o pas no estava preparado. Portanto, no era para ser. Um lder jovem era um lder inexperiente aos olhos dos chineses. Papai
precisava ganhar alguns fios de cabelo grisalho e obter mais reconhecimento como o novo comandante da Guarnio. Ele seria o principal conselheiro militar do presidente
Heng Tu e apareceria junto a ele em todos os eventos pblicos, acompanhando-o nas visitas oficiais aos pases estrangeiros importantes, para participar das questes
que envolvessem a poltica internacional.

Meus avs sabiam que Heng Tu era o homem de confiana de que eles precisavam. Seu mandato como presidente seria apenas uma troca de favo-84

rs, algo que ficaria em seu poder at que papai estivesse pronto para assumir o cargo. E a ento, Heng Tu entregaria a presidncia sem criar problemas. Eles tinham
feito um favor a Heng Tu, que seria retribudo quando chegasse o momento apropriado. No precisavam lembrar isso a ele. Assim era o jogo poltico na China. Uma forma
delicada, sutil e silenciosa de tai chi.

Aos 16 ANOS, EU TINHA OLHOS VIVOS e penetrantes, que brilhavam  luz do sol, e as sobrancelhas em formato de espadas. Meu nariz era peculiarmente alto e fino e terminava
numa ponta que demonstrava determinao. Minha boca era a mesma de meu av Long, com lbios grossos que passavam uma impresso de confiabilidade, um patrimnio que
uma vidente me disse ser de extrema importncia para o meu futuro como lder. Eu tinha o queixo bem marcado e definido como o de meu pai, curvado no final, o que
fez a vidente prever que eu viveria at os cem anos. Meus ombros eram largos e minha cintura era estreita como a de um nadador. Eu preferia usar os moletons com
o emblema da Guarnio Militar, mas mame, que agora era a rainha da alta-sociedade de Beijing, insistia para que eu usasse calas esporte feitas sob medida numa
loja de Hong Kong e jaquetas vindas dos Estados Unidos. Como ela conseguia comprar essas coisas era um mistrio para todos. Em 1977, a China ainda era um imprio
fechado e isolado. Somente os mais privilegiados tinham acesso ao mundo colorido que ficava no exterior. Esse foi o quadro que encontrei quando entrei na sala de
aula da minha nova escola, o Colgio Dong Shan, um outro clube exclusivo para os jovens das famlias mais importantes do pas.

A primeira aula do dia era de ingls, com uma professora jovem e atraente, Miss Yu, uma voluntria de Hong Kong que tinha estudado nos Estados Unidos. Como eu j
tinha um metro e oitenta de altura, fui colocado na ltima fileira. Meus olhos ficaram pregados na professora durante a aula inteira. Havia alguma coisa nela que
me fazia esquecer o mundo  minha volta. Tudo nela tinha um ritmo, uma melodia, o que fazia aumentar o meu interesse na matria que ela ensinava. Eu cultivava a
ambio de poder ler o New York Times e o Wall Street Journal dentro de um ou dois anos. Para mim, no ser capaz de ler os jornais mais importantes do mundo, como
o meu av fazia, era como se fosse uma deficincia fsica. Eu levantava a mo pelo menos umas cinco vezes durante os 45 minutos da aula, e era prodigamente elogiado
pela professora, que achava a minha pronncia do alfabeto

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melhor do que a do resto da classe. No fim da aula, enquanto os outros alunos saam em fila indiana como se tivessem prendido a respirao debaixo d'gua durante
muito tempo, eu ia at a professora, que batia na altura da minha orelha e enrubescia com muita graa na minha presena.

- Miss Yu, quero poder ler o New York Times daqui a dois anos. O que eu devo fazer para conseguir isso?

- Estude bastante, como o seu pai - disse ela, com um sorriso.

- Como o meu pai? E como  que voc conhece o meu pai?

- Bem, o nome dele est em todos os arquivos da escola. Tenho certeza de que vai se sair to bem quanto o seu pai se se esforar.

- Voc acha que eu precisaria ter aulas particulares para anda mais rpido do que o passo de tartaruga desta turma?

- Receio que eu no tenha tempo para isso.

Fiquei bastante contrariado com aquela reao. Havia poucas coisas no mundo que eu no pudesse conseguir quando as desejava. Mame ofereceuse para contratar o melhor
professor da prestigiada Universidade de Beijing, mas seu sotaque britnico me pareceu um pouco afetado demais. Eu queria falar ingls com sotaque americano. Somente
Miss Yu poderia me ajudar com isso. Mame me prometeu que falaria com ela.

- No, mame, pode deixar que eu mesmo resolvo isso. Da ltima vez que voc se meteu nos meus assuntos, nunca mais vi 'aquela pessoa' novamente.

Mame tomou esse comentrio como um elogio.

- Filho, se precisar de ajuda,  s me dizer.

No dia seguinte, depois da aula, encontrei Miss Yu jogando badminton no gramado com um outro professor. Usava um suter vermelho justo e uma cala branca desbotada
que lhe caam como uma segunda pele. Suas longas pernas eram bem torneadas e seu busto pulava a cada golpe da raquete. Olhando mais de perto, vi que sua cala tinha
buracos nos dois joelhos. Quando me viu, ela parou de jogar e convidou-me para participar. Meu rosto ficou vermelho mas, mesmo assim, peguei uma raquete. Faria qualquer
coisa para ficar perto dessa criatura maravilhosa que exalava sade, beleza e juventude. O outro professor, visivelmente sem flego, aproveitou a oportunidade para
sair do jogo.

- Sua cala precisa de uns remendos nos joelhos, Miss Yu - disse eu, balanando a raquete na mo.        >>>        v.
     86

- Olhe, muito obrigada pelo aviso, mas isso  moda em Nova York, onde eu fiz faculdade.

- Que interessante! Nova York, hein?

Deixei minha raquete cair no cho e abri um buraco nos dois joelhos da minha cala com um canivete.

- Olha, tambm fiz dois buracos na minha cala.

- Muito bacana da sua parte!

Ela no conseguia parar de rir, e seu busto pulava a cada gargalhada.

- Gostou?

- Ficou horrvel.

- E por qu?

- Porque no  uma cala jeans.

- Quer dizer que essa sua cala branca de brim  uma cala jeans?

-  sim,  uma outra moda americana. So calas de caubi. Envergonhado, abaixei-me e enrolei a cala at cobrir os buracos. Foi

um jogo difcil, mas deixei que ela vencesse, ainda alimentando a iluso de que me daria aulas particulares. Caminhando em direo  entrada do colgio, perguntei:

- Onde voc mora? "

- Por que quer saber?

- Gostaria de lhe oferecer uma carona.

Apontei para a limusine estacionada debaixo de um salgueiro. Era um Red Flag antigo, blindado e que pesava trs toneladas.

- Que timo! Eu adoraria ter um carro aqui, como tinha em Hong Kong. Detesto andar de nibus.

Quando chegamos perto do carro, o chofer uniformizado me chamou de lado e falou baixinho no meu ouvido:

- Sr. Long, quem  essa moa?

-  minha professora. A gente vai dar uma carona para ela.

- Meu patrozinho, acho que no tenho permisso para lev-la no carro.

- Pois agora tem.

- No, no tenho, porque ela  estrangeira e no pode entrar num veculo militar.

Pode, sim, e de hoje em diante voc provavelmente vai ter que andar um bocado com ela pela cidade, talvez at todos os dias.

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Virei-me para Miss Yu e disse-lhe educadamente em ingls:

- Mulheres primeiro.

- O certo  "Primeiro as damas". Obrigada.

O motorista, de m vontade mas obediente, nos levou ao apartamento de Miss Yu no centro de Beijing, e ela estava feliz quando nos despedimos. Tudo tem um preo nesse
mundo, costumava dizer meu av banqueiro. Para a linda professora de ingls, o preo era um chofer e um acompanhante, algo que eu no achava que uma mulher como
ela fosse precisar. Meu pedido de um outro chofer para ficar  disposio de Miss Yu foi prontamente atendido. E a minha oferta, conforme o esperado, foi aceita
por ela de muito bom grado. Concordamos ento que ela me visitaria dia sim, dia no, para me dar aulas particulares. Ajudado pela eficincia de Miss Yu ao estilo
de Hong Kong, fiz rpidos progressos. Como professora, ela era bastante severa, mas quando as aulas terminavam, ficvamos batendo papo ou jogando algum tipo de jogo.

Num sbado  tarde, papai me pediu para apresent-lo a Miss Yu, pois ele queria cumpriment-la por estar contribuindo para a evoluo intelectual de seu filho. O
povo chins acredita que os professores so to importantes quanto os pais, ou ainda mais que eles, pois moldam as mentes e formam as almas dos jovens. Mas eu sabia
que ele tambm queria se certificar de que essa extica princesa de Hong Kong no exerceria nenhuma influncia negativa sobre mim.

Notei que Miss Yu corou quando fez uma pequena reverncia ao conhecer papai. Ele a conduziu ao seu espaoso escritrio e pediu que servissem ch para os dois, que
ficaram conversando durante uma hora. Ouvi risos atravs da porta. Fiquei esperando do lado de fora, ansioso para saber o que papai tinha achado dela. Felizmente,
a reunio terminou com um sorriso em seu rosto. Papai me incentivou a continuar com minhas aulas. Miss Yu tinha sido aprovada.

Mame tambm tinha as suas preocupaes. No incio, ficava espiando Miss Yu pela janela da sala de msica, fingindo tocar despreocupadamente seu piano, quando na
realidade estava observando todos os movimentos da minha professora. Qualquer mulher mais nova do que ela era automaticamente encarada com grande suspeita. Mame
sabia do gosto que papai tinha por moas jovens e impressionveis. Mas Miss Yu demonstrava apenas inocncia e dedicao em me ensinar. Depois de cancelar o ch da
tarde com
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suas amigas durante duas semanas, mame estava finalmente convencida de que Miss Yu no tinha ms intenes. Ela foi definitivamente conquistada uma tarde, quando
minha professora bateu  sua porta e perguntou se o clube de mulheres coordenado por mame aceitaria a doao de algumas revistas de moda de Hong Kong.

- A msica que a senhora toca  simplesmente de tirar o flego - acrescentou.

Com isso, mame finalmente se convenceu de que Miss Yu poderia ser uma amiga ao invs de adversria. Mesmo assim, mame botou algum para ficar de olho na minha
professora. Inevitavelmente, a tarefa recaiu sobre o motorista de Miss Yu.

Shento

CAPTULO 9

1976

BEIJING

COM UMA SEMANA DE ATRASO, li sobre a morte do temido presidente Mo, num jornal de 10 de setembro de 1976 que eu tinha encontrado na biblioteca. Que notcia incrvel!
O que mais eu estava deixando de saber do mundo que ficava alm dos grossos muros da escola? Com o falecimento de Mo, a Revoluo Cultural que ele havia iniciado
chegaria ao fim.

- Isto quer dizer apenas uma coisa - sussurrei com veemncia para Sumi -, o pas ser levado ao caos e  inquietude. Quem tiver o apoio do Exrcito vai subir ao
poder e ele vai ser de quem pegar primeiro.

- E o que ns devemos fazer?

- Tenho que me alistar no Exrcito agora, seno vou perder a minha grande chance, Sumi! Voc no est vendo? Uma dinastia acaba de terminar. O nosso pas, o maior
do mundo, est aguardando a chegada de um novo lder. E eu no vejo nenhum lder entre os que esto l sentados nos gabinetes. O pas est no seu momento mais fraco
agora. O caos assusta os fracos e produz os poderosos. Ah, como eu queria poder entrar para o Exrcito!

- Entrar para o Exrcito? E eu?

- Voc  uma escritora! No  isso que voc quer fazer? Existe melhor momento para escrever do que uma poca de grande comoo e agitao?
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- , voc tem razo - disse ela, pensando nos seus heris. - Charles Dickens escreveu durante a Revoluo Industrial da Inglaterra. O Sonho do Pavilho Vermelho,
de Co Xueqin, nasceu quando o feudalismo morreu. Muito obrigada pela inspirao!

Ela encostou seus lbios nos meus pela primeira vez, e logo depois estvamos nos beijando com a loucura e embriaguez da juventude. Sumi afastou-se dos meus braos
com relutncia. Ela tinha que esperar, e eu tambm. Eu tinha exrcitos para liderar, batalhas a vencer e ela tinha romances picos para escrever. Mas Sumi pertencia
somente a mim, no importa onde estivssemos e nem para onde escolhssemos ir.

Com muita emoo na voz, murmurei baixinho:

- Eu a amo muito.

- E eu o amo ainda mais.

- No pode ser. Nada pode se igualar ao amor que sinto por voc.

- Ah, pode sim, o meu amor com certeza pode se igualar ao seu.

- Vou me casar com voc quando for general.

- E eu com voc, quando o pas estiver aos meus ps.

As juras de amor eterno levaram a outra longa rodada de beijos que me fizeram sentir ao mesmo tempo fraco e forte. Felizmente, a biblioteca estava vazia, como de
costume.

Com o quadro poltico em transio, eu tinha fome de notcias sobre os futuros lderes. Comecei a ler todos os jornais que havia na biblioteca, apesar de chegarem
com semanas de atraso quela remota cidadezinha porturia da provncia de Fujian. Eu lia cada palavra e tentava interpretar o significado que havia por trs delas.
Os principais jornais, como o People's Daily e o Guangming Daily, mantiveram uma abordagem calma sobre o sbito fim da tumultuada Revoluo Cultural. Eu continuava
me perguntando quem estaria no comando da situao. E, se no havia ningum no comando, ento quando ocorreria o golpe? Seria apenas uma questo de tempo at que
um novo lder aparecesse. Seria isso, ou ento derramamento de sangue. Alm do currculo normal da escola, e pelas breves noes de histria que eu vinha adquirindo
nas minhas leituras noturnas, sabia que uma dinastia raramente sobrevivia ao seu criador e que o poder nunca mudava de mos sem ficar manchado de sangue.

Eu quase no dormia. Pensava apenas em entrar para o Exrcito, agora que tinha 16 anos. Estava perdendo tempo ali. Entretanto, na

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realidade, havia muitos obstculos impedindo-me de alcanar o meu objetivo. Mesmo que conseguisse sair da escola, ser que o Exrcito me aceitaria com a idade que
eu tinha ou com a minha passagem pelo reformatrio? Sabia que havia uma base naval a cerca de 15 quilmetros dali e tinha ouvido boatos sobre projetos nucleares
secretos escondidos nas montanhas. Fiquei cada vez mais ansioso, e minha agitao deixava Sumi preocupada.

- Voc no est fazendo os seus deveres de casa. O que est acontecendo? - perguntou ela um dia, depois da aula.

- Eu queria poder voar para o cu como um pssaro - respondi, encostando-me no parapeito da janela e olhando para os aglomerados de nuvens de formas irregulares
que havia l fora.

- Voc no est comendo direito e est com uma aparncia horrvel.

- Tenho que conseguir voar, seno vou morrer.

Sumi veio por trs de mim e, com o dedo, desenhou asas nas minhas escapulas. - Ento voe, meu pssaro. E eu direi adeus daqui, da terra para o cu.

- S voc me entende.

Encaixando sua cabea debaixo do meu brao, puxei-a para junto de mim.

- Quando voc estiver planando no vento, lembre-se de que fui eu que lhe dei asas - disse ela, sorrindo.

Como sempre, acabamos nos braos um do outro, em beijos demorados, s que desta vez tentei avidamente tocar em seus seios, que estavam despontando. Ela soltou um
leve suspiro, mas me repeliu e me mostrou um exemplar da Revista Militar, uma revista mensal sobre a vida no Exrcito, que tinha encontrado.

- Tem uma reportagem sobre um jovem general que foi heri de guerra em Balan e agora foi promovido ao posto de comandante-em-chefe da Guarnio Militar.

- Mais um privilegiado promovido por nepotismo - dei minha opinio displicentemente. - Qual  o nome dele?

- General Ding Long.

    -Qual  mesmo o nome dele?

- Ding Long. O que  que tem? Voc  conhece?
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T

No, no,  claro que no.  s porque eu j tinha ouvido esse nome

antes - falei.

- Ento, por que voc ficou plido de repente? Nada escapava  intuio de Sumi.

- Voc est bem?

- Estou. Tem alguma foto do general a?

- Ele  bonito, no ? - disse ela, passando-me a revista.

- Bastante.

Meus olhos correram sofregamente pela pgina.

- Tem alguma coisa nele que me lembra voc - sussurrou Sumi e mordeu o lbio.

Fiquei parado por um instante antes de murmurar:

- No me diga que voc sente atrao por homens mais velhos?

- Seu bobo, eu vou lhe dar uma surra.

Socou meu peito com os punhos e caiu nos meus braos novamente.

- Sabe, eu consigo imaginar voc daqui a dez anos com esse uniforme. Vai ter a barba escura e o olhar inteligente, perspicaz e penetrante. Um dia voc vai ser o
general Shento - disse Sumi, sonhadora.

Li o artigo com muita ateno. Havia uma foto do general junto de sua bela e sofisticada esposa e de seu filho adolescente, que tinha as mesmas feies perfeitas
do pai. O artigo dizia que ele era um pai dedicado ao seu filho e um marido fiel  sua adorvel esposa.

Guardei a revista, escondendo-a debaixo do meu travesseiro, lendo-a e relendo-a inmeras vezes. Durante vrios dias, fiquei como que flutuando num estado de esprito
cheio de excitao, oscilando entre a euforia e a tristeza. Ele est vivo, repetia para mim mesmo. Ele est vivo! Ser que eu deveria entrar em contato com o grande
general e procurar sua ajuda para me livrar deste buraco infernal? Ding Long havia alcanado o posto mais alto da hierarquia militar. Bastava ele dar uma ordem e
a minha vida mudaria para sempre. Eu no ousava levar este sonho adiante. Havia tantas cores e matizes nele, que eu temia que um dia tudo estourasse feito bolha
de sabo e desaparecesse no ar. Recordava as coisas que eu e o grande general tnhamos compartilhado. Em muitas ocasies, aqueles pequenos momentos ntimos vividos
no passado deram alento  minha triste e rida existncia atual. Ding Long era um homem generoso, um homem de bom corao, um homem sonhador, que sabia lidar com
os

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outros homens e com as mulheres tambm, caso contrrio minha me no teria se apaixonado por ele e eu no teria nascido. Com a sua generosidade, ao receber notcias
minhas, certamente abriria os braos e me aceitaria no seio de sua famlia amorosa. Como eu ansiava por aquele momento, o momento divino com que sonham todos os
filhos ilegtimos da Terra, quando o general moveria os lbios para pronunciar amorosamente a preciosa palavra: "Filho."

Como seria maravilhoso! Que alegria divina isso me traria! Eu ficava todo arrepiado, imaginando um passeio excitante numa estrada asfaltada, dentro de um jipe do
Exrcito, com o vento batendo forte no meu rosto, sentado ao lado do meu pai, vestindo uma roupa da mesma cor que a dele, talvez at usando o mesmo uniforme. Como
seria reconfortante entrar finalmente com ele no quartel, um mundo muito distante deste aqui...

Se a famlia dele, por algum motivo que eu desconhecia, me considerasse indesejvel (o que era possvel, pois houve infidelidade, traio e coisa e tal), isso seria,
na pior das hipteses, um desconforto temporrio, pois sendo ele quem era, suas palavras de ferro nunca seriam desobedecidas dentro ou fora do seu ncleo familiar.
Eu poderia morar - temporariamente,  claro

- em algum lugar longe da famlia, mas ainda assim convenientemente prximo, para que pai e filho recm-encontrados pudessem se ver freqentemente, talvez para jogar
xadrez ou apenas para conversar. A esta altura, o general, depois de perceber que cresci forte e determinado, me mandaria

-  claro - para um colgio militar de verdade, talvez o mesmo que ele tinha freqentado nos seus tempos de rapaz, a Academia Militar do Leste, localizada na cidade
litornea de Da Lian.

Se o general - celebrado pelos jornais, revistas e outras publicaes oficiais como um homem de famlia - achasse que o seu novo filho poderia atrapalhar sua brilhante
carreira militar (afinal, a retido de carter era uma exigncia do cnone comunista), ento ele nem precisaria me chamar de filho. Ele poderia ser um pai oculto
e no-declarado, mas que estaria sempre do meu lado, que me amaria e me ajudaria quando eu tropeasse, que me reergueria quando eu casse, como qualquer pai o faria.
Para mim, no haveria necessidade de cham-lo de pai, isso seria mera formalidade.

Eu confiava tanto na generosidade e na bondade do general Ding Long com relao  minha pessoa que, duas semanas depois de ler aquele artigo, decidi lhe escrever
uma carta, enviando-a ao Comit Central da Guarnio
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Militar, Beijing. Optei pelo endereo do Comit Central, e no pela casa do

general, que ficava na conhecida Zhong Nan Hai, para evitar que a esposa

do general recebesse a carta antes dele.

Na luz fraca do meu quarto, depois de morder o lpis durante um bom

tempo, escrevi a seguinte carta: Caro general,

Estou lhe escrevendo depois de ter lido sobre sua promoo ao mais alto posto na carreira militar do pas. Quero lhe oferecer as minhas humildes felicitaes com
relao a esta promoo, que, mesmo cinco anos atrs, nunca duvidei de que o senhor obteria. O senhor deve estar se perguntando quem sou eu e por que estou lhe escrevendo
esta carta. Bem, meu nome  Shento, e sou o filho do mdico do vilarejo de Balan, que, num golpe de infelicidade histrica, foi arrasado pelo fogo, deixando-me como
nico sobrevivente daquela tragdia que, para o bem ou para o mal, me trouxe at onde me encontro no momento.

Se meu nome lhe parece apenas mais um dentre tantos outros com boa sonoridade e um belo significado, gostaria ento de lhe dizer que eu era aquele menino esperto
que, por seis anos, obteve o prmio mais cobiado da escola e a muito ambicionada oportunidade de jantar com o senhor em seu magnfico gabinete, dentro do destacamento
militar em que seu exrcito estava sediado. Os filmes emocionantes a que eu assisti, a esplndida comida e, o mais importante de tudo, o senhor, com seu firme aperto
de mo e a estima dispensados ao menino que eu era, foram os nicos motivos que me incentivaram a querer me superar na escola e na vida. No me envergonho de lhe
dizer que os nossos breves encontros foram os momentos mais preciosos da minha curta existncia. Mais de uma vez, desejei abandonar minha humilde choupana e pular
a cerca do destacamento para estar l todos os dias e merecer a sua ateno.

O senhor moldou meu destino ao me presentear com o tesouro supremo que  o seu cordo. Desde aquele dia trgico em que minha aldeia foi destruda, minha vida mudou
seu curso como o de um rio. Ns dois atingimos um outro patamar na vida. O senhor chegou merecidamente ao pice de sua carreira e eu, vergonhosamente, ao ponto mais
baixo do meu destino, jogado num orfanato que ostenta o nome de escola e que , na melhor das hipteses, uma senzala, condenando a todos aqui, meninos e meninas
na flor de sua juventude, a uma vida de trabalho exaustivo, de tortura, de

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vergonha, de insignificncia e de desesperana. Neste isolamento onde o brilho do sol no nos alcana, o amanh  sempre um dia cada vez mais escuro. Ns de fato
fazemos trs refeies por dia, se  que podemos cham-las assim, o que eu no faria. Trabalhamos muito, embora o trabalho no me assuste, pois sou forte como os
homens nascidos nas montanhas, e o trabalho exaustivo apenas torna o corpo mais firme e a vontade mais determinada. Mas trabalhar para qu? Aqui no h futuro. Estamos
aqui apenas para labutar e sermos torturados, ou pior, para torturarmos os outros em nome da sobrevivncia. Estamos acorrentados a esta escola, condenados  escravido
por toda a vida. Somos punidos, apesar de jovens e inocentes. Punidos, ainda que sem merec-lo. Por favor, tire-me daqui ou sucumbirei nesta vida de desgraa.

A razo pela qual fui compelido a escrever esta carta  para implorar que o senhor me liberte deste inferno. O senhor pode ter mil motivos para no atender ao meu
pedido, pois sei que  um homem importante e muito ocupado, mas tenho que escrever esta carta porque meu corao ainda guarda a inocente lembrana da minha juventude:
a de que o senhor tem carinho por mim e me libertaria desta escravido, se pudesse. Se o senhor no se comover com a situao em que me encontro, ento pense na
promessa que me fez, aquela promessa tcita e silenciosa que acompanhou o presente que me deu, o cordo com seu nome gravado que, alis, j me salvou uma vez ao
impedir que uma bala atingisse o meu peito. Ainda que parea imprprio o que estou prestes a lhe pedir, sou f orado a faz-lo, pois no tenho ningum neste mundo
(meus pais adotivos morreram queimados naquele dia terrvel). O senhor se lembra de Malayi, a bela da aldeia, a quem o senhor amou num certo Festival da Primavera?
Ela era a minha verdadeira me. Eu sou sangue do seu sangue.

Meu querido pai, por favor faa o que for possvel para me tirar daqui, para que algo de bom possa resultar de mim. Prometo que no serei uma mancha na sua histria.
Sou inteligente, como o senhor mesmo pde perceber. Graas a Buda, com um pouco do seu cuidado e do seu amor paterno, serei o que o senhor desejar que eu seja, e
ainda mais, muito mais.

No  minha inteno soar digno de pena, mas a vida de fato deixa suas marcas sem que se perceba. Sou um homem forte. Escrevo ao senhor no apenas para pedir ajuda,
mas para lhe oferecer minha mo, pois creio
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que no futuro, podendo contar com acomodaes e instruo apropriadas, poderei me desenvolver e me tornar uma fora til, como o senhor sem dvida espera que seu
outro filho seja. Seguindo meus instintos,  farei tudo para auxili-lo em suas ambies de subir ainda mais alto na torre da vida.

Por favor, meu querido pai, me liberte - se no for por mim, ento por minha querida me, que morreu to jovem e a quem o senhor um dia deve ter amado.

Assinado com sangue, Shento

Mal se passou uma semana quando, uma noite, uma carta foi abruptamente jogada pela pequena abertura que havia na porta do meu quarto. Que alegria! Fiquei to excitado
que me senti tonto. O endereo do remetente era o do escritrio do Comando Central, com o emblema da bandeira vermelha, a foice e o martelo. No havia dvidas. Pisquei
vrias vezes para dissipar as lgrimas enquanto rasgava o envelope, e depois fechei os olhos para me acalmar um pouco. Quando os abri novamente, as palavras frias
me saltaram  vista:

Camarada Shento

Por intermdio desta carta, ordeno que pare com quaisquer falsas acusaes contra mim com relao ao fato de ser meu filho ilegtimo. O que voc cometeu ao me escrever
 comparvel a um crime de cena capital que, de acordo com os termos do Cdigo Penal Nacional, artigo 1462, o condenaria  morte na forca. Na reincidncia de mais
algum outro ato criminoso deste teor, voc ser punido com a morte por decapitao. Eu no recomendaria esta punio a um menino to novo e to inocente.

Minha conscincia est limpa. Tenho e reconheo apenas um filho. No h a menor possibilidade de haver outros filhos, ou filhas. Isto  algo absolutamente impossvel,
pois sou praticante das virtudes elevadas dos valores comunistas e vivo com moderao, seguindo a linha adotada por nosso Partido. Isto no significa que voc no
tenha um pai ou que no tenha o direito de t-lo. Pode ser que voc tenha me confundido com algum outro general, com quem sua me de moral pouco rgida tenha se
relacionado, dando a voc uma vida de pecado na ilegitimidade. Entendo a dor que h em seu corao. Uma vida sem esperanas onde o dia de amanh

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 lhe traz desesperana. O desespero gera atos desesperados, e a sua carta um deles. Eu lhe dou esta advertncia,  qual voc deve atentar, se for to inteligente
como declarou ser, e se tiver o desejo de continuar vivo. Sob quaisquer circunstncias e em nenhum momento voc dever repetir tal declarao infundada para quem
quer que seja, ou uma ao legal ser movida contra voc. A Suprema Corte de Justia Popular e o Supremo Tribunal Militar j esto cientes dos seus atos e continuaro
a observar seu comportamento no futuro.

Meu rapaz, por favor, desperte do seu devaneio, que  o que isto , na melhor das hipteses. Pensando assim, recomendei que no se movesse uma ao contra voc.
Livre-se da imaginao e da iluso, e aprenda a viver uma vida independente e, acima de tudo, honesta.

DingLong, comandante-em-chefe " ''' Selo oficial

Durante vrios dias, senti-me como um cachorro que tivesse levado uma surra e fiquei dolorido no no corpo, mas no esprito. Como pde o general ser to cruel, apagando
as minhas mais queridas recordaes e a minha esperana mais acalentada - minha nica esperana? Ser que eu no era to brilhante quanto o seu outro filho, to
perfeito quanto ele? Reli a carta vrias vezes. Aquela ameaa de morte - que injustia! E ainda por cima, citando o Cdigo Penal?

O mundo tinha virado de cabea para baixo. Ento, aos poucos, fui entendendo melhor as coisas. Naquela imagem de perfeio, o cl dos Long sorria com seus dentes
brancos, cabelos penteados e bem-vestidos, enquanto eu, o filho ilegtimo, nunca deveria ter nascido. Apesar de ter sobrevivido (e s Buda sabe como), tendo que
conviver com a mentira vergonhosa de um destino infeliz, eu nunca teria o direito de ter um pai de verdade, aquele que tinha desonrado a bela da aldeia. Eu era apenas
uma fatalidade da vida, um filho no-planejado e desnecessrio. Certamente no era amado e no era querido: um indesejado. Eu no era nada! Era o sexto dedo de um
p, um segundo umbigo. Uma anomalia, uma anormalidade, uma nuvem escura maculando o cu azul.

Como Ding Long contrastava com meu baba e minha mama, o mdico da aldeia e sua mulher, que me amaram e me criaram. Eles  que eram os
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meus verdadeiros pais. Mas a morte os tinha levado e agora ningum me queria, a no ser eu mesmo. Sendo assim, tenho que confiar completa e integralmente em mim.
Tinha apenas a mim mesmo. Como eu era pattico, indesejvel, solitrio, uma rvore sem floresta! No tinha absolutamente nada. Seria melhor se, daqui para a frente,
eu me referisse a mim mesmo como "o filho do arbusto de ch". Pois foi l que fui encontrado e salvo da

morte ao nascer.

Pelo tom da carta, ele no somente no me queria, como tambm me considerava um fardo do qual queria se livrar, uma mancha escura a ser removida. Certamente o sogro
de Ding Long havia tentado fazer isso, mandando-me para esta priso em forma de escola, ao saber do deslize cometido pelo general e ao reconhecer o maldito cordo.
E agora, isso! Os dois estavam de comum acordo quanto a me deixar apodrecer aqui, junto com os outros rfos e enjeitados.

Mas eu no ia sucumbir a isso. Pelo contrrio, eu me ergueria, altivo como uma montanha, como o nome que me foi dado por aqueles que foram os meus pais de verdade.
Sobreviver, no por mim mesmo, mas por causa daqueles que desejavam o contrrio, que queriam que eu desaparecesse, que sumisse, apagando os vestgios da minha existncia.
Eu, o filho maldito dos Long, cuspiria na cara deles, e eles ficariam cobertos pela lama do arrependimento e manchados pelo sangue do remorso.

Daquele dia em diante, era eu e mais ningum. Um Shento sozinho no mundo. Um homem que no era de ningum, que no vinha de lugar nenhum. No havia nenhum general
Ding Long na poca de ouro da minha infncia. No houve nenhuma me que se atirou do penhasco. Havia apenas a memria de meu baba e de minha mama que tinham morrido.
Havia apenas eu mesmo, sozinho, enfrentando o mundo. No cais, antes de encher outra carreta de peixes, rasguei a carta em pedacinhos e a atirei no mar. Os pedaos
de papel foram engolidos pela gua e uma parte de mim afundou junto com eles.  medida que eles desapareciam, nascia um novo Shento.

CAPTULO 10

1977

BEIJING

A MORTE DO PRESIDENTE MO marcou o fim da desastrosa Revoluo Cultural. Quando Heng Tu tomou as rdeas do pas, a primeira coisa que fez foi restaurar a educao
universitria. O slogan popular "Conhecimento  veneno" foi atirado ao lixo. Agora havia grande demanda pelos "abominveis intelectuais". De repente, milhes de
pessoas que, durante dez anos, tinham se formado apenas no segundo grau, estavam tendo oportunidade de fazer o vestibular em mbito nacional, disputando uma quantidade
limitada de vagas nas universidades. Houve uma verdadeira febre por maiores conhecimentos nas cincias e nas artes. Em todas as casas, as luzes ficavam acesas at
tarde da noite. Uma outra revoluo despontava no horizonte, permitindo que a juventude tivesse a chance de um futuro melhor.

Eu achava que o Colgio Dong Shan era um antigo clube metido a besta e cheio de personagens esquisitos e excntricos, verses modernas da realeza, e da nobreza da
China que, por isso, lanavam moda tanto no jeito de vestir quanto no de pensar. Estavam na moda as calas boca-de-sino, que varriam a poeira do cho por onde passavam,
e os rapazes usavam o cabelo comprido e ensebado. Nos banheiros, os alunos do ltimo ano revendiam cigarros livremente-mas apenas marcas estrangeiras; as nacionais
eram automaticamente descartadas.

Como papai tinha sido um dos fundadores do grmio estudantil mais restigiado do colgio, o Clube da Foice e do Martelo, fui convidado a participar dele. Sua foto
ainda estava pendurada na parede do salo. O estatuto original do clube previa pesquisas e estudos sobre a essncia do comunismo, conforme a teoria elaborada por
Karl Marx. Porm, eu quase no consegui acreditar no que ouvi na primeira reunio. Para eles, Karl Marx era uma aberrao, um estrangeiro esquisito e barbudo. Algum
disse que ele era um mendigo, um pedinte que no tinha vergonha de ser sustentado por um amigo rico. Os rapazes argumentaram sobre todas as opes, tentando encontrar
o sistema poltico mais adequado para a China. Mais cedo ou mais tarde, a conversa acabava invariavelmente na democracia americana.

Durante a primeira reunio, fiquei sentado em silncio o tempo todo. Quando terminou, no pude deixar de pensar como era paradoxal ver os filhos da elite comunista
discutindo alternativas para o mesmo regime que nos deu privilgios e tudo o que tnhamos. De pronto, isso me assustou, j que durante a Revoluo Cultural essa
reunio teria sido considerada um ato contra-revolucionrio e ns todos seramos jogados numa cela escura e ficaramos l por vinte anos sem a menor chance de recorrer
judicialmente. Mas, quanto mais eu pensava nisso, mais a discusso fazia sentido - se ns no nos preocupssemos com o futuro, quem o faria?

Nas semanas seguintes, tornei-me um participante fervoroso, orador apaixonado e debatedor convincente. Pela primeira vez na vida, estava questionando seriamente
o sistema no qual eu vivia. Minha exposio precoce ao mundo financeiro e minhas longas conversas com Miss Yu abriram-me os olhos. Cheguei  concluso de que no
havia democracia na China porque nenhuma democracia teria permitido que meus avs escolhessem o presidente do pas. A eleio de um lder deveria ser feita pelo
povo, e no

pelos polticos. O governo deveria privatizar as empresas e abdicar do controle sobre as grandes indstrias. As pessoas deveriam ter direito  propriedade privada
e a realizar seus negcios como melhor lhes conviesse. Somente deste modo, todo o potencial desta grande nao poderia ser aproveitado. Imagine um bilho de empresrios!
O futuro da China era aqui e agora. Senti-me bastante confiante no fato de que um dia, talvez num futuro prximo, eu poderia pr em prtica minha viso poltica
e ajudar o meu povo.

Certa noite, o Clube da Foice e do Martelo desafiou para um debate o Clube Lnin e Stalin, que ainda dominava o segmento estudantil mais con-

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servador. Fui escolhido para representar o meu clube, uma honra concedida a apenas um calouro antes de mim. Meu adversrio era um veterano cujo pai era ministro
da Propaganda. Ele argumentou que a China nunca seria um pas capitalista porque seu povo no saberia o que fazer na economia de mercado. Mas usei o exemplo dos
cinco tigres asiticos - Cingapura, Hong Kong, Coria, Malsia e Indonsia - para atacar os pontos fracos de sua argumentao. Venci o debate com todos batendo palmas
de p. Daquele dia em diante, fiquei conhecido no campus como "Mister Democracia". No meio do ano letivo, fui eleito presidente do clube, uma honra que nem papai
obteve antes do seu ltimo ano.

Uma tarde, o diretor da escola me pediu que eu fosse  sua sala. Normalmente, os alunos ficavam de p na sua presena, mas ele me convidou a sentar no sof e me
ofereceu uma xcara de ch.

- Meu rapaz - disse ele -, a poltica  como uma nuvem. Voc pode persegui-la, mas no pode agarr-la. Seus avs no se tornaram polticos importantes porque falavam
sobre poltica o tempo todo. Por mais brilhante que voc seja, tem que saber que a vida  feita de coisas concretas. Por exemplo, seu av Long foi meu colega de
turma em Oxford. Sua rea era economia, que  um ramo da cincia, e o que ele se tornou depois no  to importante. Se ele no estivesse na presidncia do banco,
poderia ter sido um professor brilhante. E o seu av Xia, um verdadeiro soldado, venceu mais batalhas do que qualquer outro de sua gerao. Primeiro foi um bom soldado,
depois um comandante-em-chefe.

- Entendo perfeitamente o que o senhor est querendo me dizer. Vou dedicar mais tempo aos meus estudos.

- Eu sabia que voc entenderia.

- Obrigado, senhor diretor.

- No precisa me agradecer. Eu estou aqui para garantir que a Universidade de Beijing, onde seu pai se formou, no faa cara feia diante do seu histrico escolar
e seja forada a aceit-lo com base nos seus antecedentes familiares.

Sa da sala determinado a no envergonhar meus pais em minhas provas finais. Estudei dia e noite, suspendendo temporariamente minha atividade como presidente do
clube e at minhas queridas aulas de ingls, em que eu estava fazendo grandes progressos. Minha mdia foi maior do que a de papai por 25 dcimos.

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Naquelas frias de inverno, vov Xia sofreu um srio derrame durante uma reunio com o presidente Heng Tu. Tratavam de uma questo militar espinhosa e delicada quando
ele caiu no cho, desmaiado, e foi levado ao Hospital Popular de Beijing. Ficou em coma durante cinco dias, e fui visit-lo diariamente. Na primeira vez em que o
vi, sua figura cadavrica tinha pouca semelhana com o meu querido e vibrante av. No segundo dia, levei meu teclado Casio e, na esperana de acord-lo, toquei suas
melodias favoritas da pera de Pequim. O velho no se moveu. No terceiro dia, passei dez horas seguidas ao seu lado e s fui para casa depois de ser enxotado pelo
diretor do hospital. Nos dois dias seguintes, recusei-me a sair do lado do meu av e dormi numa pequena maa, acompanhando mame, que tinha chorado at as lgrimas
secarem.

No sexto dia, acordei no colo de mame. - Ele se foi - disse ela.

Seus olhos estavam marcados por olheiras escuras. No podia acreditar que meu grandioso av tinha morrido, mas l estava ele, irritantemente imvel. Apoiei minha
cabea carinhosamente em seu peito. A ausncia do movimento de subida e descida de sua respirao era to chocante, que rapidamente me engasguei com as lgrimas.

O funeral aconteceu num pequeno salo ao qual compareceram os lderes civis e militares do pas - ministros, membros do Politburo, adidos militares de embaixadas
estrangeiras. Vov Long fez uma homenagem bem-humorada e merecida quele homem. Chorei novamente quando vov Long concluiu dizendo que a natureza p-no-cho do general
Xia - simples, humilde, um pouco bruto - tornava-o ainda mais elevado espiritualmente. A cerimnia terminou comigo ao piano, tocando sua pea predileta, "Clair de
Lune". O velho general dizia que essa era a nica composio musical do mundo ocidental que podia ser comparada  pera de Pequim.

Dois velhos amigos do general, em suas cadeiras de rodas, atiraram-se sobre o caixo e no saram de l at que suas enfermeiras os levassem embora. Eles tinham
caminhado lado a lado na Grande Marcha e participado juntos de centenas de batalhas. O presidente Heng Tu, notadamente ausente, havia apenas enviado uma coroa de
flores junto com alguns poemas do presidente Mo escritos numa faixa.

Em casa, vov Long, muito pesaroso, telefonou para o gabinete do presidente. Exatamente uma hora depois, a Rede Central de Radiodifuso

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do Povo e a TV Central transmitiram um comunicado especial informando que o presidente havia nomeado papai como comandante-em-chefe do Exrcito, da Marinha e da
Fora Area da China.

Vov Long comentou, ao ouvir a notcia:

- Estou decepcionado por ter que lembrar isso a ele.

Eu no estava particularmente impressionado com aquele processo em que o poder era oferecido como um presente. Dei os parabns a papai, abracei-o e depois voltei
ao meu quarto. Fiquei olhando para uma velha fotografia do meu av morto que, no fundo, era apenas um homem simples que gostava de fumar o seu cachimbo.

Nos meses que se seguiram, era possvel sentir o clima de tenso dentro de casa. Papai estava irritadio e gritava freqentemente. Parou de me levar ao quartel-general
e no falava muito de sua nova funo. Eu sentia que, apesar de no extern-las, havia dentro dele muitas coisas que ele lamentava. Certo dia, ficou enfurecido e
atirou coisas na parede e no cho do escritrio.

' - Por que isso? - perguntei a mame. ' - Nunca pergunte nada sobre os assuntos dele.

No demorou muito para eu saber pelos jornais o que estava ocorrendo: crticas cidas de Heng Tu ao Exrcito e a promessa de cortes no oramento militar. Papai desapareceu
durante vrios dias. Mame disse apenas que ele estava fazendo uma visita oficial a seus comandantes regionais e que tudo estava bem. Nada disso me afetava muito,
ou pelo menos assim eu pensava.

No vero de 1977, antes do semestre do outono se iniciar, decidi dividir meu tempo entre os negcios bancrios do meu av e os assuntos militares do meu pai. Eu
me sentava com vov Long em seu imponente escritrio na sede do Banco da China, prximo  Praa Tiananmen, a Praa da Paz Celestial, ouvindo os executivos discutirem
os assuntos do dia. Emprstimos e mais emprstimos - grandes executivos os solicitavam insistentemente. Era uma poca atordoante para a China recm-aberta. os empresrios
estavam por toda a parte. Parecia que, se voc tivesse algum capital, era s chacoalhar uma rvore e recolher as moedas. Vendo isso, o conselho de vov Long ao presidente
Heng Tu foi cautela e mais cautela, seno a instabilidade dos novos tempos e a inflao matariam a economia em desenvolvimento. Mas suas palavras entraram por um
ouvido e saram pelo outro, enquanto bilhes em emprstimos eram processados sem nenhuma verificao de
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crdito ou anlise de risco. Comecei a ver muitas caras novas no banco. Nas reunies, eles comearam a afirmar o seu poder e a realizar mudanas sem a aprovao
do meu av. Um dia, ele ficou to irritado quando um novato lhe pediu que se acalmasse que espatifou seu bule de jade predileto na mesa e saiu da sala. Fui atrs
dele.

- Quem so essas pessoas? - perguntei, preocupado, depois que ele abriu furiosamente a porta do seu escritrio e parou ao lado da mesa, respirando fundo.

- So todos discpulos do Heng Tu. Vov sentou-se pesadamente na poltrona.

- E eles esto aqui para tir-lo do cargo?

No vou permitir que eles faam isso por enquanto. Eles no sabem

nem diferenciar um dlar de um marco.

Ele deu um sorriso forado antes de olhar em outra direo. Ao observ-lo, percebi que meu av tinha se tornado um homem idoso de cabelo grisalho e olhos sem brilho.
No havia mais aquela animao que coloria muitas das nossas conversas sobre o mercado financeiro. Eu achava que era por causa da morte do vov Xia, pois sabia que,
no fundo, os dois se amavam e tinham admirao um pelo outro. Seus egos que haviam atrapalhado. As coisas no eram mais as mesmas depois da morte do general.

Um dia, publicaram um relatrio no jornal oficial do governo dizendo que a vultosa quantia de vinte milhes de dlares tinha desaparecido do Banco Central. Depois
disso, vov parou de ir ao banco. Sua Mercedes ficava estacionada na garagem e, para passar o tempo, de comeou a ler histrias japonesas em quadrinhos, uma paixo
de sua juventude. Mame e papai me avisaram para no perturbar o meu av com perguntas sobre o capital extraviado. Isso apenas ofenderia sua dignidade e sua honra
de economista mais confivel de toda a sia. Alguma coisa deve ter acontecido, algum deve ter roubado aquele dinheiro, ou talvez fosse apenas uma grande mentira
a fim de expulsar vov de seu cargo. Em tempos passados, ele teria ligado diretamente para o presidente Mo e tudo se resolveria, mas no havia mais o presidente.
As coisas no eram mais as mesmas, e isso me preocupava.

Durante o resto do vero, fiquei insistentemente na cola do meu pai. O quartel-general do maior exrcito do mundo era exatamente o oposto do Banco Central. L, tudo
estava mais morto do que a prpria morte. Em todas

A MONTANHA E O RIO

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as reunies com os principais homens de papai s quais eu podia assistir, a expresso "reduo de escala" no parava de aparecer.

Os generais sonham com as guerras. Faz parte da natureza deles sentir o cheiro do sangue, que os impulsiona de uma batalha para outra. O som penetrante do clarim,
o rudo dos tanques, as ccegas do capim roando no rosto durante uma emboscada e o brinde impetuoso da vitria, tudo isso agora eram ecos distantes. Um exrcito
ocioso  o pior dos exrcitos. Fiquei surpreso, mas no chocado, ao ver alguns dos homens de confiana de papai aparecerem de ressaca nas reunies. Eles no tinham
nada para fazer. Nenhum conflito de fronteiras. At mesmo o pior inimigo, Taiwan, queria fazer negcios com a China continental. A Guerra Fria tinha acabado. Ento
vamos beber e comemorar. E, como papai me disse, alguns militares no pararam mais de comemorar.

As reunies agora giravam em torno de como lutar contra a nova safra de legisladores que tentavam cortar o oramento militar.

-  o nosso fim - lamentavam os militares. - Construmos este pas. Agora que eles no precisam mais de ns, esto nos descartando. Quem foi que sugeriu o corte
no oramento? Diga-nos quem foi, general Long, e daremos um jeito neles.

- Eu participei daquela porra da Grande Marcha com o nosso falecido presidente Mo. Isso no significa nada? - exclamou um dos veteranos do Exrcito.

- Meu exrcito se transformou num bando de operrios do Estado envolvidos em tarefas insignificantes - disse o comandante regional do Nordeste da China. - Outro
dia, pediram que varrssemos as ruas para um desfile que celebrava a fuso entre a Ford e a maior fbrica de automveis da China. O que  que somos agora? Zeladores
do capitalismo que fomos ensinados a combater h apenas alguns anos, quando Mo ainda estava vivo?

Ele olhou para os outros, indignado.

- Meus homens agora so especialistas em pesca submarina - disse o comandante naval, em tom de brincadeira.

- E os meus esto fazendo acrobacias areas como atrao turstica na regio de Guilin - acrescentou o comandante da Fora Area.

Todos os dias havia as mesmas reclamaes. Notei que papai ficava cada vez mais desanimado. O moral de seus homens o afetou profundamente, pois ele era a soma de
todos eles. Seus homens eram agora zeladores, p-
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Ihaos de rua e operrios de construo. Eles comearam a ser insultados. As pessoas nas ruas, especialmente as crianas, os xingavam de patetas. H apenas alguns
anos, quando no havia faculdades, o exrcito era o sonho de todos. O uniforme verde-oliva, um tamanho maior do que o necessrio, era um smbolo de sucesso para
qualquer jovem. O Exrcito cuidava de voc. Os poucos sortudos que subiam de posto passavam do uniforme de dois bolsos para o de quatro. Logo depois mandavam buscar
suas esposas caipiras para as cidades onde os exrcitos estavam sediados e transformavam-nas em damas. Seus filhos eram crianas mimadas e bem-alimentadas. Mas agora
no havia mais nada disso. Seus salrios eram patticos. Mal dava para comprar a marca de cigarro mais barata do mercado negro. Papai sentia a dor deles mais profundamente
do que eles poderiam imaginar. Ele era um soldado que nunca abandonaria os seus homens, mesmo na situao mais calamitosa. Eu me perguntava at onde ele conseguiria
agentar.

Como j era de se esperar, um corte substancial no oramento militar foi anunciado nos jornais. Quando entrei correndo no seu escritrio com o jornal nas mos, papai
trincou os dentes. Logo depois, ele sumiu novamente durante vrios dias e voltou com um ar ainda mais perturbado. Eu o vi andando para l e para c no escritrio
at tarde da noite.

- O que est acontecendo com a gente? - perguntei a mame, que estava lendo uma revista de moda.

- Como eu j te disse, a poltica no presta para nada.  por isso que eu queria que voc fosse artista ou alguma outra coisa. Qualquer atividade seria melhor do
que isso. Meu filho, lamento muito que voc tenha que presenciar tudo isso.

- Pelo contrrio, mame. Estou curioso para ver qual ser o prximo passo do papai. No tenho dvidas de que ele vai conseguir dar um jeito nisso tudo.

- Volte para os seus estudos. Isso no  para voc.

- Mas  claro que  - retruquei. - Ainda me lembro de voc me dizendo para eu me preparar para ser um lder algum dia.

Mame apenas balanou a cabea e apontou para mim com seu queixo orgulhoso.

Shento

CAPTULO 11

1978

FUJIAN

MINHA VIDA FOI PERTURBADA NOVAMENTE quando Co Negro retornou ao campus da escola, aps anos de ausncia. O boato que corria era que, aps terem extirpado seu olho
estragado e a ferida ter cicatrizado, ele tinha fugido do Hospital do Exrcito para vagabundear pelas provncias do litoral, roubando os vivos e saqueando os tmulos
dos mortos. Todas as suas aventuras e os seus roubos resultaram em terrveis fracassos, o que o convenceu de que no conseguiria conquistar o mundo e que o nico
lugar que lhe restava era aquele que abominava, o orfanato onde tinha sido abandonado aos trs anos de idade. Ento, um dia, ele se entregou  guarda costeira, que
o transportou de caminho, atravessando as fronteiras de trs provncias, para trazer o canalha de volta ao seu lugar.

Co Negro j no andava com a mesma arrogncia, embora ainda usasse a mesma jaqueta de couro. Um acrscimo bastante perceptvel ao seu guarda-roupa de rebelde foi
um tapa-olho preto sobre o olho direito. A vida l fora deve ter sido uma maravilha, pois ele parecia radiante e mais forte do que nunca. Devido ao sistema viciado
da escola, Co Negro retornou ao quarto 1.234, onde se alojara no passado. No dissemos nada um ao outro. No houve nenhum aperto de mo e nenhuma troca de olhares.
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Apesar de tudo estar calmo como o mar da manh, eu sabia que os problemas estavam  minha espera. Tinha visto os dois amigos aleijados do Co Negro lanando olhares
maldosos na minha direo depois da volta de seu chefe caolho.

Naquela noite, Co Negro burlou o toque de recolher e s voltou  meia-noite. Peguei no sono com uma faca debaixo do travesseiro e acordei com a porta rangendo e
o beliche balanando.

No dia seguinte, no caf da manh, vi Sumi no refeitrio, rodeada por suas amigas. Estavam todas juntas e sussurravam umas com as outras, parecendo tensas como uma
ninhada de pintinhos assustados. Sumi correu para mim quando me viu. Puxou-me para um canto discreto e apertou meu brao com fora.

- Est tudo bem com voc? - perguntei.

- No, com a volta do Co Negro, as meninas comearam a ter problemas de novo.

- O que aconteceu?

- O Co e seus amigos vieram ao nosso dormitrio, levaram uma das meninas para o jardim e a estupraram ontem  noite.

- O qu? E no tinha nenhum guarda?

- Eles no so muito melhores do que o Co. Ano passado, duas garotas ficaram grvidas e foram mandadas para um hospital para abortarem. Elas foram estupradas pelos
guardas.

- Mas isso  horrvel!

Senti o sangue me subir  cabea. \

- E como est a garota? Quem  ela?  uma das suas amigas?

E Ai Lan. Ela perdeu muito sangue e agora s pensa em morrer. Eu fiquei cuidando dela a noite toda.

-Aquele filho-da-puta! Se ele ousar tocar em alguma de vocs de novo, eu arranco o olho esquerdo dele fora.

Ela comeou a chorar.

- No chore, Sumi. Eu estou aqui. Voc no tem com o que se preocupar.

O alto-falante estalou e a odiada voz do diretor ecoou pelo teto do refeitrio.

- Dois navios acabam de chegar. Durante os prximos dias, as aulas estaro suspensas at todo o atum ser descarregado. Meninos e meninas,

lembrem-se, a mensalidade da escola e a alimentao que vocs comem tm que ser pagas. Agora chegou a hora do pagamento.

Ouviram-se vaias e xingamentos no meio da multido, que s se calou quando os cassetetes dos guardas caram sobre suas cabeas. De qualquer modo, eu no estava com
vontade nenhuma de ir  escola naquele dia. Estava fervendo de dio pelo Co Negro. A brisa do mar e a maresia eram mais adequadas para eu apaziguar as minhas emoes
e esquecer a crueldade do mundo. Naquela manh, transportei um total recorde de cinqenta carretas de atum do cais para a fbrica sem nenhum descanso. Ao meio-dia,
um marinheiro de um enorme navio, o Stars, jogou do convs um doce para mim e disse que eu tinha feito um bom trabalho. Ele tinha a barba cerrada e um sorriso bondoso.
Comendo o doce, acenei para ele e inclinei a cabea em agradecimento.

Continuei a trabalhar durante o horrio do almoo. Quando o sol se ps, eu havia transportado um total de 150 carretas. Quando eu levava o ltimo carregamento, os
marinheiros estavam sentados no convs admirando o pr do sol, tomando cerveja e fumando charutos. Irromperam em aplausos e me saudaram com uma rodada de assobios,
o que me deixou vermelho da cabea aos ps e fez sumir todas as dores que eu estava sentindo. Ao baixar a cabea e empurrar a carreta para longe do cais, ouvi uma
voz que vinha do convs.

- Venha c, garoto, e junte-se a ns para tomar um trago. Vamos tirar voc deste buraco!

Os marinheiros soltaram mais gargalhadas.

No sei se ele estava falando srio, mas a ltima parte do convite me fez estancar. Virei-me e olhei para o convs l no alto. Os marinheiros acenavam para mim com
as garrafas. No mastro, a bandeira ondulava com a brisa do mar e as gaivotas circulavam, tentando encontrar um pouso, mas eram impedidas pelas rajadas de vento.
Durante um bom tempo, deixei o pensamento voar para aquela idia perigosa na qual eu tinha evitado pensar desde que recebi a carta do general Long.

Longe, bem longe!

Dei as costas para eles e me forcei a caminhar de volta para o dormitrio. Quando voltei ao meu quarto, Co Negro estava fumando, todo esparramado na cama. Ele tinha
tirado o tapa-olho. O buraco vermelho da rbita de seu olho parecia o oco deixado na terra depois que uma rvore  arrancada.  -  ; i
E a, escurinho? O que  que voc achou do meu olho furado?

- perguntou.

- Fico feliz por voc.

- Ha! E por qu?

- Por que voc ainda tem o outro olho.

- E o que quer dizer com isso? Voc acabou com a minha vida e agora vai ter que pagar por isso! - vociferou Co Negro e pulou da cama, espalhando perdigotos por
todo o lado.

Enfiei a mo debaixo do travesseiro, com o olhar fixo no nico olho do Co.

- Espere s para ver - disse ele, com um olhar malfico. - A gente vai comear pela sua garota, e depois vamos cuidar de voc, um de cada vez.

- Se tocar em Sumi, mato voc. Eu juro.

Puxei uma faca com a lmina toda dentada que estava embaixo do meu travesseiro e mostrei-a para o Co, que a arrancou da minha mo com um soco.

Co Negro, maior e mais alto do que eu, me agarrou pela garganta, apertando com fora. Usei uma das mos para pressionar o seu gog. Ao mesmo tempo, acertei-lhe
uma joelhada na virilha, fazendo-o voar de encontro  porta, segurando o saco. Ele fugiu pela porta agachado, berrando e xingando. Depois do trabalho extenuante
daquele dia, eu me sentia como um saco de areia molhada. Desabei e logo peguei no sono, ainda segurando o cabo da faca.  meia-noite, ouvi uma batida na porta. Era
Mei-Li, uma das amigas de Sumi.

- Shento, voc tem que vir comigo! Aconteceu uma coisa terrvel! Pulei da cama.

- O que foi?

- O Co e os amigos dele levaram a Sumi. Esto l debaixo do pinheiro agora.

Sa do quarto em disparada, com a faca enfiada no cinto, e disse a Mei-Li que voltasse a seu quarto e no fizesse barulho.  luz do luar, corri at a fbrica de
atum enlatado, quebrei a janela e peguei um rolo de corda molhada, que pendurei no pescoo. E ento, o mais silenciosamente possvel, corri agachado pela grama macia
at alcanar a beira do jardim. O velho pinheiro parecia um homem idoso com uma barba comprida dependurada em seus galhos e ramos, fazendo com suas folhas uma rea
de sombra  luz da lua.

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De quatro, engatinhei costeando o muro baixo que cercava o jardim, com as orelhas em p, atento a qualquer rudo. Vi trs brasas de cigarro que danavam na escurido,
mas no conseguia localizar Sumi. Ento, eu a ouvi. Seu choro era abafado e indistinto. Era Sumi, a minha querida Sumi! Quase saltei em cima deles. Meu sangue fervia
e minhas tmporas latejavam com o fogo do dio, mas forcei minha mente a deix-lo de lado. Eu s teria alguma chance se os surpreendesse. Tinha que atac-los onde
eles estivessem mais vulnerveis. Ouvi novamente seu dbil pedido de ajuda.

- Cale a boca! - disse uma voz, rudemente.

- Vou primeiro. Meu piroco no consegue mais esperar para comer essa bundinha linda.

Era a voz do Co Negro. ,'   '

- , vamos comer ela - disse uma terceira voz.       , Eles pareciam meio bbados. >    '

- Seus animais! - gritou Sumi com a voz esganiada.

Ao ouvir o som de punhos socando, pulei por cima do muro. Trs figuras estavam de p sob um galho baixo do pinheiro. Abraando o tronco com as pernas e os braos,
subi por ele e fui rastejando galho abaixo sem fazer barulho. A brisa fez farfalharem as folhas, encobrindo os meus movimentos.

Eu estava quase por cima daqueles canalhas quando a lua surgiu por detrs das nuvens. O que vi me apunhalou como mil facas. Os dois aleijados estavam segurando Sumi,
forando-a a se curvar com o rosto abaixado sobre o muro. O Co estava por trs dela, movimentando-se numa velocidade frentica, soltando uivos animalescos de prazer.
Suas calas estavam baixadas at o joelho.

Eu tremia, meu corao disparou e minha cabea ardia. Fiz um n corredio com a corda molhada, pulei como um gato montes e aterrissei na cabea do Co. Camos ambos
estatelados no cho. Enlacei a cabea do Co com a corda, apertei e dei um puxo. Com um movimento rpido, puxei a outra ponta que pendia do galho, levantando-o
no ar. Rapidamente, amarrei a corda em volta do tronco. O Co se debatia pendurado no galho, chutando e berrando furiosamente, arranhando a corda desesperadamente
com as unhas e os dedos, mas sua respirao se interrompeu e logo depois ficou com a lngua pendurada para fora da boca, espumando.

Persegui os dois aleijados, que conseguiram correr apenas alguns metros. Alcancei um deles e cravei minha faca nas suas costas. O outro havia corrido at um pouco
mais longe, mas no conseguia superar as minhaspassadas largas. Alcancei-o e fiz ele se virar de frente para mim. Sem dizer uma palavra, enquanto o aleijado implorava,
cortei seu pescoo com a faca e empurrei-o para fora do meu caminho.

Lentamente, andei trpego at onde Sumi estava deitada e ca ao seu lado.

- Mantive minha palavra, Sumi - disse em voz baixa, mas firme. - Matei todos eles - acrescentei, como que encerrando um ritual.

Numa voz trmula e quase sumida, ela murmurou:

- Obrigada.

- No precisa me agradecer. Voc est bem? Peguei sua mo e a segurei na minha.

- Por favor, v embora - disse ela, com a voz rouca. - Estou suja agora. V para algum lugar bem longe daqui.

- Amo voc! Amo voc do mesmo jeito!

Irrompi em soluos doloridos, lamentando aquela perda inestimvel, a perda que a menina mais bela e inocente tinha sofrido.

- Shento, voc sempre ser o meu primeiro amor, eternamente, mas pode retirar a sua jura de amor. Vou perdoar voc por isso. Est livre para encontrar um novo amor
nesse mundo.

Eu a aninhei nos meus braos e beijei seus lbios frios e trmulos.

- Preciso de voc - disse eu, numa voz sofrida.

- Eu me sinto to suja!

As lgrimas escorreram pelo seu rosto.

- Faa-me ficar limpa, por favor. Se me possuir, juro pela me-lua que, pela graa do seu abrao, me unirei a voc.

Sumi tirou a blusa rasgada, ajudou-me a desabotoar minha cala e tocou hesitantemente no meu sexo. Apesar de tudo, suas mos me fizeram ter uma ereo. Cuidadosamente,
ela me colocou dentro dela. Agora ns ramos um, com os olhos fechados e nossas mos buscando um ao outro. Eu tremia com o seu toque, estonteado pelo prazer e pelo
amor que podia advir daquela unio. Nossos movimentos tinham um ritmo e uma harmonia suaves enquanto a lua brilhava timidamente, at que eu acelerei a intensidade
e desmoronei em seus braos. Dormimos enrascados.

A vida poderia ter se acabado e isso no teria a mnima importncia para ns. No tenho idia de quanto tempo se passou. Foi Sumi quem acordou primeiro. Ouviu passos
na areia do campo de futebol.

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- Shento, Shento - sussurrou ela insistentemente, sacudindo o meu ombro. - Voc tem que se esconder em algum lugar. Tem que fugir, os guardas esto vindo a!

Esfreguei os olhos e me sentei. O som distante de passos apressados aproximava-se a cada segundo que passava.

- V embora! - insistia Sumi.

- Para onde?

- Para algum lugar longe daqui!

- Eu no posso abandonar voc, Sumi! <

- Mas tem que fazer isso! Por mim! Por ns!

Ela me deu um abrao apertado. <

- Se eu no vir o seu corpo boiando no mar, vou sempre pemar que voc est vivo e vou ficar esperando pela sua volta.

- Um dia eu venho busc-la. " Sumi me beijou pela ltima vez antes de me repelir.         -
- V embora. Vou distrair os guardas.

Vestindo rapidamente suas roupas rasgadas, Sumi foi mancando at o outro extremo do jardim onde acenou com os braos e gritou. Os guardas acorreram na sua direo
com lanternas e ces. Ela comeou a falar ainda mais alto, relatando de um jeito incoerente o que tinha acontecido. Quando os homens finalmente compreenderam, Sumi
tombou nos braos deles e teve de ser carregada para onde estavam os cadveres. Os guardas viram o corpo do Co Negro pendendo do pinheiro, seus dois comparsas mortos
e uma faca ensangentada jogada no cho, ao lado dos corpos. Um deles imediatamente reconheceu a faca. Sabia que era minha. Apitaram. Aquele som estridente ecoou
pelo campus. Subitamente, todas as luzes se acenderam.

- Onde est o assassino? Onde est Shento?

Sumi disse aos guardas que eu tinha voltado para o meu quarto. Alguns deles foram l me procurar, mas voltaram de mos vazias. Quando os guardas iniciaram uma batida
policial na escola e todos os alunos acordaram, eu j havia me esgueirado por um descampado e alcanado o muro alto construdo em torno da escola,  beira do mar
aberto. Eu sabia muito bem que o mar seria o caminho mais certo para a morte, mas no tinha escolha. quela altura j sabia que, em terra firme, com os guardas e
os ces, havia ainda menos chances de escapar pela estreita faixa de terra que ligava apennsula ao continente. Tentar escapar por terra seria fracassar. Apenas
fazendo o impensvel eu teria chance de sobreviver.

Comecei a escalar o muro alto, feito com grandes blocos de pedras speras, extradas de uma pedreira prxima. Eram uns bons seis metros de escalada. Meus msculos,
bem desenvolvidos pelo trabalho rduo, me permitiram ficar suspenso e me impulsionar de um ponto a outro muro acima. Quase perdi o ponto de apoio quando ouvi mais
apitos estridentes. Se eles me vissem no muro, as rajadas de balas fariam de mim uma massa sanguinolenta. Num esforo nervoso, escalei os ltimos trs metros no
dobro da velocidade e furei os dedos no arame farpado do topo do muro. Chupei o sangue que escorria e fiquei abaixado l no alto, tentando visualizar onde estariam
os barcos pesqueiros de atum. Meu corao quase pulou fora do peito quando vi uma luz acesa no Stars. Uma brisa refrescante acariciou o meu rosto.

Quando estava prestes a mergulhar, as luzes do muro se acenderam. Eu tinha pouco tempo para pensar ou reagir. Baixei a cabea e mergulhei no mar escuro, numa queda
de nove metros. O contato com a gua foi doloroso, pois eu no tinha experincia em mergulho. Dentro da gua negra, afundei uns trs metros que pareciam no terminar
nunca, antes de emergir e me reorientar em direo ao navio, que estava a algumas centenas de metros dali. A gua estava incomodamente fria. Enfiei na boca os dedos
que estavam sangrando e consegui nadar com o brao que no estava ferido. Meus dedos dos ps foram mordiscados algumas vezes por criaturas inimaginveis que nadavam
abaixo da superfcie. Chutei com fora para me livrar delas e pensei no que o diretor tinha dito sobre os grandes peixes e os mamferos devoradores de homens que
habitavam aquelas guas.

Ofegante, alcancei a sombra do navio e boiei na gua, pensando em algum meio de entrar nele. Parecia impossvel. O navio tinha cerca de nove metros de altura e no
havia nenhum modo visvel de fazer a escalada. Nadei ao redor at ver um pequeno barco salva-vidas preso ao navio por uma corda grossa. Olhei para cima e tentei
ouvir algum rudo vindo do convs. Nada. Agarrei a borda do barco e entrei nele. Segurei na corda que parecia slida o bastante para eu subir os prximos nove metros
por ela. Embora meus msculos estivessem doendo pela escalada do muro e meus dedos estivessem em carne viva, impulsionei-me para cima, segura e lentamente, e tive
que descansar apenas uma vez na metade do caminho, antes de alcanar o

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convs. No pulei para dentro logo de imediato. Poderia haver guardas ou marinheiros acordados. Fiquei pendurado na corda por um segundo antes de estar com o convs
ao nvel dos olhos. Nada. Ningum. Enquanto passava uma perna para dentro e a enganchava, dois ps surgiram no meu campo de viso. Rapidamente, deixei-me escorregar
para trs e fiquei pendurado ao lado da corda. Um marinheiro cantarolava, caminhando com uma espingarda nos braos. Quando ele virou para o outro canto, pulei para
dentro sem fazer barulho e desapareci num poro que estava aberto.

 CAPTULO 12

1978

BEIJING

Os VENTOS DE DEZEMBRO, VINDOS DAS estepes da Monglia, tornaram Beijing rida e inspita, envolvendo-a num manto de areia. A comida no tinha gosto e tocar piano
tinha se tornado uma atividade tristonha. Eu sentia saudade do vov Xia. Minha vida ficou vazia sem a sua gargalhada forte e barulhenta e seu humor rude e simples.
Nunca fiquei muito empolgado com o cheiro de alho que saa muitas vezes de sua boca, mas agora sentia falta at disso.

Revendo suas fotografias antigas, encontrei a que era a favorita do meu av: eu o perseguia empunhando uma espingarda de brinquedo e ele erguia os braos em sinal
de rendio. Eu sorria e meus olhos brilhavam, cheios de lgrimas. Somente um neto que ele amava muito era capaz de fazer com que aquele homem orgulhoso se rendesse.
Em sua carreira militar, ele havia sido capturado vrias vezes e preferiria morrer a se entregar. No era de surpreender que tivesse perdido a maioria dos dentes
ainda antes dos trinta anos. Sempre brincava a respeito do fato de nunca ter perdido a lngua. Eu lhe perguntava o porqu, e aquele homem cheio de sabedoria me dizia
que a lngua era mole enquanto os dentes eram duros, e que algumas vezes no fazia mal ser um pouco mole, um pouco mais flexvel, em vez de ser duro o tempo todo.
Eu sentia saudade de todas as coisas relacionadas ao vov Xia. Lembrei-me de um feriado nacional na praa Tiananmen, quando ele passou em revista as tropas. Ele
me levou orgulhosamente at o palanque, e ficamos beni ao lado do presidente Mo, cuja pana parecia uma pequena montanha. Lembro-me muito bem desse dia - aquele
mar de uniformes verdes, dezenas de milhares de homens que passaram marchando por ns exclamando: "Viva o presidente Mo!" Perguntei por que ningum dizia: "Viva
o general Xia!", e fui imediatamente silenciado por meu av, que me avisou para eu nunca mais repetir essa pergunta para ningum. Mo era o escolhido, disse vov,
enquanto ele era apenas um servial, um soldado que trabalhava pelo nosso povo. Eu j era bem esperto naquela poca. Sabia que no era verdade, mas no disse nada.

Num impulso, pedi ao motorista que me levasse ao porto sul da praa Tiananmen. O ms de dezembro em Beijing era frio e ventoso, especialmente em espaos abertos
como o da antiga praa. Mas era exatamente o que eu queria. Caminhei at chegar ao porto norte que dava para a Cidade Proibida. Fui andando calmamente, contando
os passos, quando vi um grupo de cerca de cem pessoas, paradas ao p da muralha da cidade, todas vestindo pesados casacos acolchoados de algodo. Estavam todos muito
atentos e pareciam no se importar nem um pouco com o frio intenso que vinha da Sibria.

Curioso, soprei o ar quente da boca nas mos e caminhei em direo ao grupo. Na beira do muro, fiquei na ponta dos ps e estiquei o pescoo, vendo de relance uma
moa extremamente atraente, com o cabelo comprido e ondulado e a silhueta esguia. Ela estava com um jeans azul e um suter vermelho de gola roul que se ajustava
ao seu corpo. Suas mos elegantes se agitavam no ar para enfatizar o que ela estava dizendo com um ligeiro e quase imperceptvel sotaque sulista.

- A democracia  o ar que vocs respiram. Todos os homens nascem iguais... - O vento soprou para longe o final de sua frase. -... ns precisamos de uma constituio
que estabelea que somos todos iguais perante a lei, e no de um ditador que nos diga o que fazer e o que no fazer...

Ao me aproximar, fiquei surpreso ao perceber que a moa era nada mais, nada menos, do que Miss Yu, a minha professora de ingls. Pelo pouco que consegui ouvir, pude
perceber que ela falava sobre a democracia dos Estados

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Unidos e de como a China deveria seguir aquele exemplo, concedendo a liberdade de expresso ao seu povo. Quando terminou, ela colou seu discurso ao lado de outros
cartazes numa grande rea do muro denominada Ming Zu Chiang, o Muro da Democracia. Depois, foi-se embora com um rapaz numa moto antes que eu pudesse chamar por ela.
Percebi que estavam fugindo - um grupo de policiais se aproximava.

Corri para o local e passei os olhos pelo discurso. Miss Yu tinha assinado seu nome em ingls como "Virgin", com uma traduo chinesa ao lado.

Um grupo ainda maior me rodeou para ler o que ela tinha escrito. Alguns at pegaram lpis e canetas e esticaram a cabea para copiar o texto palavra por palavra.
Perguntei a uma moa:

- Por que voc est copiando isso?

- Meu pai no dorme sem ler a mensagem do dia. Virgin  uma boa escritora.

Meu corao se aqueceu com aquela demonstrao de afeto por algum que eu conhecia bem.

- Eu a conheo pessoalmente. *

- Voc conhece a Virgin?

- Conheo. }

- Ningum sabe quem ela . Ela chega e sai misteriosamente. Ns nem mesmo sabemos qual  a profisso dela.

Quando eu estava prestes a tentar convencer a moa de que eu, de fato, conhecia Virgin, os policiais comearam a dispersar o grupo com seus cassetetes.

- Voltem para casa! Vocs no podem se reunir em locais pblicos sem permisso! - disse um deles em voz alta.

- E por que no? - perguntou algum.

-  o regulamento! Quem perguntou isso? Qual  o seu nome? - indagou o policial, assustando a pessoa que tinha falado.

Ele arrancou todos os papis do muro, rasgou-os em pedaos e disse, sorrindo:

- Agora podem ir para casa. No h mais nada aqui para ser copiado. Sa do local, mas a imagem de Virgin permaneceu na minha cabea por

muito tempo ainda. No dia seguinte, durante nossa aula, passei a ver Miss Yu de um modo completamente diferente. Com um sorriso misterioso, escrevi a palavra "virgin"
num pedao de papel e perguntei:
- Qual  o significado dessa palavra?

- Por que est perguntando isto?

- Eu a vi escrita no Muro da Democracia.

- Viu?

- Vi sim, e gostei muito do texto. Miss Yu sorriu e baixou a voz.

- Existe um motivo para eu escrever usando um pseudnimo. Voc entende, no ?

- Pode ficar  vontade comigo.

- Eu sei que sim.

- Mas com uma condio.

- Qual?

- Pode me levar s suas reunies? Eu gostaria de saber mais sobre democracia.

- Logo voc, o filho do comandante mais conservador da China? Fiz que sim com a cabea.

Ela sorriu e me deu um abrao. Naquela noite, sonhei com Miss Yu de um jeito ntimo e constrangedor demais para comentar com ela ou com qualquer outra pessoa.

APESAR DE MAME ACHAR QUE Miss Yu tinha o defeito fatal de ser jovem e atraente, sentia, de algum modo, que no havia nada de mal com ela. O esprito de caridade
de Miss Yu como voluntria, abandonando o conforto de Hong Kong, tambm era admirvel. O motorista que vinha busc-la de manh e a levava de volta para casa  tarde
sabia apenas uma coisa ou outra de sua vida em Beijing, mas nada que pudesse levantar as suspeitas de mame que, a essa altura, estava muito satisfeita com o progresso
de seu filho. Assim, na vspera do Ano Novo chins, quando Miss Yu me enviou um convite para uma festa a fantasia, obtive prontamente permisso para comparecer.
Decidi ir vestido de caubi, uma imagem que minha professora tinha pintado para mim numa das aulas sobre Bfalo Bill e o faroeste. Botei um jeans desbotado, um chapu
Stetson preto e um colete que um dos colegas de papai havia feito com a pele de um tigre branco das montanhas do sul da China. Mame amarrou um leno vermelho no
meu pescoo, e papai me deu um coldre para pr na cintura.
121

Miss Yu veio me apanhar de txi. Estava de salto alto e com um minivestido vermelho. Nos ombros, usava um xale de seda da mesma cor. Ns nos olhamos e rimos.

- Ol, caubi! Voc est muito bonito - ela disse. ,. -"

- E voc est muito... mulher. Ela riu.

- Voc quer dizer sexy?

- ... mas est fantasiada de qu?

- De mim mesma.

- Mas voc me disse que era uma festa a fantasia e que a gente tinha que se vestir como se fosse outra pessoa.

- Certo. Mas, sabe, no mundo ocidental, as mulheres tm a prerrogativa de serem caprichosas e mudarem de idia livremente. Os homens  que seguem as regras.

Havia algo de meigo e infantil nela naquela noite. Ela estava com o

esprito aberto e ria muito.

- Tan - disse ela, enquanto o txi acelerava -, tenho certeza de que voc vai gostar da festa de hoje  noite. Quero que voc conhea pessoas interessantes.

- Mal posso esperar.

O txi abandonou as ruas congestionadas de Beijing, que estavam com um ar de festa, apesar do vento forte que passava assobiando. As varandas estavam enfeitadas
com lanternas coloridas e as bombinhas estouravam sem parar no ar frio da noite. A neve caa delicadamente no cho, desaparecendo rapidamente sob os ps das crianas,
que faziam algazarra e corriam umas atrs das outras pelas ruas estreitas. Percorremos uma estrada de terra bastante acidentada que atravessava um campo de trigo
e ia em direo a um vilarejo afastado. No meio do nada, surgiu um stio. Duas lmpadas fraquinhas tremeluziam. Um homem idoso estava de p ao lado da porta, fumando
seu cachimbo.

Andamos de mos dadas pelo quintal de terra batida. A palma de sua mo era quente e macia. A escurido disfarou o meu rubor.

O velho fez uma reverncia para Miss Yu e abriu a porta. L dentro, era um outro mundo - luz baixa, uma penumbra agradvel e, ao fundo, uma msica ocidental bem
suave. Os mveis eram de madeira rstica. Encostada na parede, havia uma tpica cama nortista chamada kang, feita de barro, 122

com um forno aceso por baixo dela. Umas vinte pessoas estavam descalas, sentadas na espaosa kang. A atmosfera era confortvel e misteriosa. Em cima da cama havia
tambm uma mesa baixa com comida e bebidas. Todos se levantaram para nos cumprimentar.

- Venham conhecer o Tan, pessoal. Este  Ko, professor de Direito da Universidade de Beijing, vestido de Lincoln. Esta  a famosa cantora Lu, o escritor Lin, e...
- ela continuou me apresentando a todos na sala. Quando terminou, Miss Yu disse: - Tan  um rapaz muito inteligente e algum para prestarmos ateno num futuro prximo.
E ento, vamos comear nossa reunio?

Enquanto nos sentvamos, perguntei rapidamente a ela:

- Por que  que voc no me disse que era uma reunio poltica e no uma festa?

- Foi uma mentirinha para poder enganar a sua me. Voc se importa?

- Nem um pouco.

Grande parte da reunio discorreu sobre a formao do Partido Democrtico e a elaborao de suas diretrizes polticas. Eles discutiam animadamente todos os detalhes:
uma revista, um informativo, as futuras sedes do partido em outras cidades. Por unanimidade Miss Yu foi eleita presidente e editora-chefe da revista, sobre cujo
ttulo o grupo discutiu acaloradamente. Quando foi levantada a questo do oramento, o silncio tomou conta do ambiente. De qualquer maneira, todos foram instados
a dar a sua opinio. Havia muita energia no ar e todos estavam corados e radiantes. No pude deixar de considerar aquilo uma experincia quase religiosa. A China
do futuro podia estar nascendo bem diante dos meus olhos. Ainda assim, senti uma ponta de desconforto ao ver que esse grupo de livres-pensadores idealistas poderia
estar destruindo os alicerces sobre os quais minha famlia tinha sido construda. Rapidamente rejeitei esse pensamento inadequado e me permiti admirar a bela Miss
Yu com um toque de possessividade.

- Agora, vamos festejar - disse ela, puxando-me para fora da kang. Danamos, bebemos e conversamos. Miss Yu estava particularmente

luminosa. Ela danou com o professor Ko e encostou a cabea em seu ombro enquanto giravam suavemente. Senti uma ponta de cime. Ser que o professor era seu amante?
Seria esse o motivo pelo qual ela estava vestida daquele jeito to sexy? Os dois pareciam descombinados, como a Bela e a

123

Fera, mas a expresso do olhar no rosto de Miss Yu me convenceu de que ela estava apaixonada por aquele homem.
Ao voltarmos para casa,  meia-noite, Ko veio no txi com a gente. Miss Yu beijou-me no rosto, eles me deixaram em casa e foram embora juntos. Toquei carinhosamente
o ponto onde seus lbios haviam roado minha pele, enquanto via pela janela traseira suas sombras se fundirem. Senti-me feliz e triste ao mesmo tempo. Uma sensao
de perda me acompanhou naquela noite at eu adormecer.

 Shento

CAPTULO 13

1978

ILHAS JIUSHAN, LESTE DA CHINA

O PORO ESTAVA MOLHADO E ESCORREGADIO e ainda fedia ao atum fresco que havia sido descarregado. Ca de bunda no cho e corri para um canto escondido na sombra. Assim
que me instalei, descobri que eu no era a nica criatura viva naquele poro de nove metros quadrados. Meia dzia de enormes ratos de navio, armados com olhinhos
brilhantes e bigodes que espetavam, confundiram-me com um ltimo pedao de atum e comearam a mordiscar furiosamente meus ps, mos, ndegas e coxas molhadas. As
manchas de sangue pelo meu corpo acrescentaram um frenesi quela atividade. Um deles chegou a subir no meu ombro e fitou-me olho no olho com uma curiosidade perigosssima.

Os ratos no me assustaram. Em vez disso, decidi me mostrar amigo deles. Estendi um brao e deixei aquele que tinha escalado o meu ombro andar at a ponta do meu
dedo e voltar. Quando a criatura repetiu o curto trajeto at minha mo, cerrei o punho e atirei o rato na parede. O bicho soltou um guincho sonoro e triste antes
de cair no cho, morto. Percebendo que havia uma fora maior do que eles em atividade naquele lugar escuro, os ratos correram em direo de um buraco que ficava
na base do poro e desapareceram.
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No silncio, eu ouvia apenas o som distante das ondas e os latidos ocasionais dos ces policiais farejadores. Ainda devem estar procurando por mim. Ser que viriam
ao navio investigar se eu estava escondido aqui? Se me encontrassem neste poro minsculo, bastariam duas balas e eu estaria to morto quanto aquele rato estendido
ali no cho.

Rezei para Buda, pedindo-lhe que me deixasse sobreviver por aquela noite e que me levasse, ao raiar do dia, para qualquer porto que houvesse na face da terra, qualquer
um, no importando que a viagem fosse longa e difcil. Com as mos postas em orao, apoiei-me, combalido, na parede gosmenta e fedendo a peixe do poro de carga.
O medo e a solido tomaram conta de mim.

O tempo passou e a brisa do mar tornou-se mais forte, embalando o navio como um bero sobre as ondas suaves. O mastro rangeu e cantou como se fosse um moinho girando
a toda velocidade. A serenata da natureza confortou-me como a um beb cansado e minhas plpebras foram ficando cada vez mais pesadas. Tentando permanecer alerta,
belisquei minhas coxas, fiz ccegas no nariz com uma mecha de cabelo, e finalmente lambuzei o rosto com a substncia gosmenta e pegajosa que havia no cho de madeira
e que tinha um cheiro to forte que, em circunstncias normais, poderia matar um cachorro. Mas, mesmo assim, s consegui manter os olhos abertos por apenas mais
alguns minutos antes de mergulhar num pesadelo fantasmagrico e assustador.

Quando o dia despontou, fui acordado por um som ensurdecedor que vinha do convs acima de mim. Entreabri os olhos e deparei com uma quantidade enorme de cascalho
e areia sendo despejados por um guindaste no fundo do poro onde eu estava. O p que se levantava na luz brilhante dos raios de sol quase me sufocou. Cobri a cabea
com a camisa e rastejei velozmente para um canto mais seguro. Atravs das casas dos botes da minha camisa pude ver, cada vez mais alarmado, a velocidade com que
o cascalho estava se amontoando no centro do poro e preenchendo todo o espao. Em pouco tempo, o poro estaria cheio at a borda; eu ficaria exposto aos marinheiros
e eles me pegariam. Ou ento, ficaria sepultado para sempre debaixo dos calhaus pontiagudos.

Por um momento maravilhoso, o cascalho parou de ser despejado e consegui ouvir o que pareciam ser instrues lacnicas fornecidas ao operador do guindaste. Quando
o carregamento foi reiniciado, tive que me desviar

127

rapidamente para evitar ser soterrado pelas pedras que voavam para todo lado e pelo p que se levantava, cegando-me. Num outro intervalo, o operador do guindaste
mencionou o nome de um lugar, a Base Naval das Ilhas Jiushan, mas no entendi o que havia sido perguntado anteriormente.

Por conta das aulas de geografia, uma das minhas matrias preferidas, eu sabia que as Ilhas Jiushan eram um grupo de ilhas localizadas no mar do Sul da China, como
um punhado de prolas atiradas aleatoriamente ao mar, configurando um posto estratgico ideal para a provncia costeira da China, onde estavam situadas. L ficava
a base naval da mais respeitada frota chinesa no Pacfico, dominando sobranceira o Estreito de Taiwan, o Arquiplago das Filipinas, o Japo, a Coria do Sul, e Hong
Kong.

Devia ser este o destino do navio! Isso fazia sentido, pois Jiushan tinha o melhor mar para pesca de toda a costa asitica do Pacfico. O atum vinha de l e os navios
voltavam com material de construo - um escambo perfeito para a nossa economia estatal, que era totalmente ineficiente. No consegui conter minha animao. Talvez
l eu pudesse entrar para a Marinha e viajar nos navios. O perigo que me rondava ficou temporariamente diminudo com esta nova perspectiva, e minha vontade de sobreviver
aumentou.

Quando despejaram o ltimo carregamento e a cobertura do poro foi fechada, pensei que fosse morrer. O espao que restou l era apenas suficiente para eu poder ficar
deitado. No havia nenhuma fresta na cobertura. A luz tinha sido completamente bloqueada. Na escurido, tentei respirar devagar e superficialmente. Quando senti
o ar que entrava vindo no sei de onde, respirei mais fundo. Senti o cheiro do mar. Eu ia conseguir viver! Estava conseguindo respirar!

Continuei estendido, imvel, esperando pacientemente que o navio iniciasse a viagem. Depois de horas de espera, o navio comeou a vibrar e tremer, e finalmente se
movimentou lentamente num ritmo uniforme, chocando-se contra as ondas que batiam no casco. Deitado de costas, com as pontas do cascalho espetando a minha pele, eu
no sentia dor e nem desconforto. Pelo contrrio, meu corao estava cheio de gratido a Buda. Um filete de lgrimas escorreu pelo meu rosto. A escola-orfanato tinha
ficado para trs, assim como Sumi, minha querida namorada.

Nunca tinha sentido o seu amor to prximo e to forte quanto naquele momento. Prometi a mim mesmo que um dia voltaria para busc-la, no majestoso estilo aventuresco
dos heris, do jeito como eu tinha lido nos128

livros. Isto , se eu sobrevivesse e me tornasse algum na vida,  claro - algo de que duvidava muito pouco, mesmo naquelas circunstncias.

Dormi, acordei e dormi novamente. O vento do mar se acelerava e o navio topou com uma forte tempestade. A chuva batia na tampa do poro como se fossem pedras caindo
numa lata vazia. Algumas gotas escorreram pelas frestas da tampa e molharam minha camisa nos ombros. Levei algumas gotas de gua  boca. O navio se arremessava contra
as grandes ondas causadas pela tempestade e eu era jogado de um lado para o outro, o que me dava nsias de vmito embora no tivesse nada no estmago. Quando a tempestade
cessou e o vento abrandou, a viagem prosseguiu com seu balano suave por sobre o mar calmo.

Quanto  fome e  sede, tive de seguir o velho princpio de controle e tolerncia que me foi ensinado, quando criana, por meus velhos pais. Quando estiver com fome,
desenhe um bolo na sua mente e finja que o est comendo. Quando estiver com sede, imagine que est caminhando num campo verde repleto de amoras maduras. Mas ficar
imaginando o inalcanvel apenas intensificava o meu desejo, fazendo meu estmago roncar em vo.

Muitos dias e noites se passaram at eu sentir que o navio ia parando lentamente. Ouvi as vozes dos marinheiros. Eles logo abriram a tampa do poro. Um velho marinheiro
ficou de queixo cado ao me ver espremido num canto, coberto de areia. Acenando freneticamente com os braos, o velho gritou, chamando pela tripulao, que acorreu
ao local. Tiraram-me do poro. O capito deu ordem para que um grumete me jogasse um balde d'gua, mas eu tentei fugir. Os marinheiros me cercaram e me aquietaram
enquanto o jovem grumete lanou um balde ao mar, iou-o, e despejou a gua em cima de mim, o que provocou uma rodada de assobios. Fiquei encharcado, pingando, e
tremendo de prazer ao contato com a gua refrescante.

- Ei, voc no  o garoto do reformatrio? - exclamou o capito.

-  o matador dos outros trs! Ele conseguiu escapar no nosso navio! - berrou um marinheiro.

- Vamos entreg-lo.

Implorei aos marinheiros que me ajudassem mas, em vez disso, eles me escoltaram para fora do navio at um prdio de trs andares, todo de tijolos, e vigiado por
dois fuzileiros navais. Os marinheiros me entregaram

129

a um oficial bem alto, que me levou para uma pequena cela com as palavras DETENO TEMPORRIA pintadas na porta. Entregaram-me um uniforme de presidirio e fui levado
para uma sala de audincia, onde um oficial idoso da Marinha estava sentado, fumando e empesteando a sala com aquele cheiro forte. Sobre a mesa, numa placa, estava
escrita a palavra juiz.

- Qual  a acusao? - perguntou o juiz obeso dirigindo-se ao oficial.

- Fuga do reformatrio de Fujian depois de matar trs colegas de turma.

- Bela faanha para algum to jovem - disse o juiz, com ironia. - O que voc tem a declarar, meu jovem?

- Sou inocente - respondi com firmeza. - Eu tive uma justificativa para as mortes. Eles estavam estuprando uma menina inocente, senhor juiz!

-  claro que estavam.

O homem, aborrecido, fez um gesto com a mo, como se aquela fosse uma mentira que ele j tinha ouvido inmeras vezes. Balanou a cabea e anunciou com displicncia:

- Voc no tem nada que o trabalho pesado no possa curar. Reviso do processo daqui a trs meses. At l, o caso est adiado.

Bateu com o martelo e a audincia estava encerrada.

Eu deveria ter levado um tiro na cabea no dia em que cheguei a Jiushan. Na justia a ferro e fogo do comunismo, eu era culpado e tinha mais que morrer. Minha fuga
at dobrou minha pena. Mas havia uma postura municipal que passava por cima at da Constituio da China e estabelecia que a execuo poderia ser adiada indefinidamente,
at mesmo para os rus de pena capital. O motivo estava longe de ser humanitrio: era mais por fora da grande escassez de mo-de-obra na regio. Um porto da Marinha
em mar aberto estava sendo construdo e outras obras de infra-estrutura, como estradas e ferrovias, vinham sendo feitas. Os prisioneiros eram os escravos perfeitos
- por que mat-los?

No dia seguinte, bem cedo, e logo depois de um caf da manh que consistia num po dormido, embarquei num caminho repleto de trabalhadores. O motorista deu um tapinha
no meu ombro e disse:

- Voc no vai curtir essa onda, no, garoto.

Ele estava certo. Eu era um dos milhares de trabalhadores que cavavam o solo e carregavam a terra em cestos de bambu por uma distncia de um quilmetro e meio, para
despej-la numa rea perto do mar, formando130

um aterro para servir de fundao para um porto. As horas eram longas e o trabalho opressivo. O sol era quente e mido e, ao longo das fileiras em que os trabalhadores
marchavam, guardas rspidos e encolerizados ficavam postados com chicotes, prontos para us-los a qualquer momento em que detectassem algum fazendo corpo mole.
Havia muitos trabalhadores, mas ns ramos minsculos diante da incumbncia que havamos recebido, parecendo formigas correndo para l e para c, ocupadas em transportar
comida para dentro do formigueiro antes da chuva cair.

Na primeira semana, fiquei vermelho como um siri cozido. Na segunda, minha pele descascou como a de uma cobra. Na terceira semana, eu ostentava um bronzeado escuro
e parecia uma enguia do mar, especialmente quando o suor me encharcava da cabea aos ps. Eu tinha apenas 17 anos, mas media um metro e oitenta e tinha ombros largos
e a cintura estreita, como meu pai. Minha cabea tinha sido raspada como a dos outros prisioneiros e minha careca fazia minhas feies fortes se destacarem ainda
mais. Mas o que mais impressionava as outras pessoas era o meu ritmo de trabalho. Enquanto o resto dos homens andava, eu corria, e quando eles corriam, eu voava.
Bati o recorde no carregamento da maior quantidade de terra para o aterro das fundaes do porto. Depois de observar a marcha lenta dos trabalhadores cansados, indo
e voltando, num processo de trabalho que no tinha a menor eficincia, arrisquei-me a sugerir ao guarda que, se todos se alinhassem e passassem o balde de mo em
mo em fileiras arrumadas e ordenadas, seria tudo muito mais rpido, e ningum poderia ser indolente sem causar uma interrupo no processo. No dia seguinte, formaram-se
dez fileiras do morro at o mar. O mesmo trabalho foi realizado trs vezes mais rpido. Eu incentivava todos eles com cantos de trabalho do povo das montanhas enquanto
passava cuias de ch para os trabalhadores enfileirados. Meu entusiasmo chegou at a contaminar os guardas, que geralmente batiam em ns. Eles cantaram junto com
a gente, e alguns at me ofereceram cigarros durante o meu intervalo.

Nove meses depois, fui julgado novamente. O promotor pblico leu a acusao sem nenhuma expresso na voz:

- Trs assassinatos e uma tentativa de escapar da justia. O juiz bocejou diante da acusao. Depois, usando o mesmo tom de voz do empertigado promotor, elogiou
meu esforo no trabalho. Fiquei feliz em ter minha tica de trabalho ressaltada e decepcionado quando o

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juiz declarou que o caso seria reaberto dali a trs meses. Enquanto isso, ele entraria em contato com o reformatrio para obter mais informaes sobre o meu delito.

Quando faltavam apenas algumas semanas para a terceira audincia, o fogo da ansiedade queimava a minha alma como um sol escaldante em todo o seu fulgor. Eu estava
passando pela maior provao de toda a minha vida. Acreditava firmemente que tinha matado aqueles criminosos, fazendo justia e com todo o direito de faz-la, do
mesmo modo que a mo de um ladro deve ser cortada fora e os olhos de um estuprador devem ser arrancados para que eles no possam repetir seus pecados. Acreditava
que os meus motivos eram justificados e, se pudesse apresent-los de um jeito convincente diante daquele juiz gordo, talvez - no, com certeza - ele daria ouvidos
 razo e proferiria a sentena a meu favor, depois de avaliar as provas do crime.

Usando meu poder de persuaso, implorei ao guarda da minha ala que pegasse emprestado todos os livros da biblioteca sobre o Cdigo Penal chins e qualquer texto
sobre direito criminal. O que ele trouxe de volta foi ridiculamente escasso. Um Cdigo Penal desestimulantemente fino e que parecia ter sido rodo pelos ratos e
habitado por cupins. Mas o que encontrei em seu contedo foi ainda mais perturbador. No prefcio, fiquei sabendo que um criminoso, uma vez estando sob custdia com
base em suspeita ou evidncia circunstancial, teria como nus provar a sua inocncia. Ele era considerado culpado at conseguir provar que era inocente. O argumento
da legtima defesa era uma ttica incipiente que no era apreciada pelos juizes. Alm do poder de julgamento do juiz para chegar a um veredicto final, tambm era
sua atribuio a capacidade investigatria para coletar provas e construir o caso como melhor lhe aprouvesse. Naquela situao, os juizes eram como deuses. Eu viveria
ou morreria conforme os caprichos daquele porco obeso vestido de juiz. Este pensamento me deu calafrios.

Examinei a parte das questes processuais e logo fui para a seo das penas de morte. No me surpreendi ao saber que, se fosse considerado culpado por trs assassinatos,
minha sentena seria a execuo imediata, com duas balas na cabea. E tambm teria que pagar o custo das balas. Descobri ainda, para meu grande alvio, que um estuprador
era, do mesmo modo, passvel de ser condenado  pena capital. Surgiu uma esperana dentro de132

mim. Eu havia de fato matado aqueles trs desgraados num ato herico para salvar uma vtima de estupro. Deveria ser enaltecido pelo sistema judicirio, j que havia
no apenas poupado algumas balas para o pas e que poderiam ser usadas nos seus inimigos, mas tambm evitado os morosos e entediantes procedimentos legais. Eu estava
confiante de que o juiz daria ateno a esta argumentao e me absolveria, se lhe fossem apresentadas provas vindas de Sumi, a vtima do estupro neste caso. Mas
como eu poderia obt-las?

Na tnue luz da lua, peguei um toco de lpis que havia surrupiado de um funcionrio enquanto ele cochilava. No papel higinico spero, escrevi uma carta para a garota
de quem eu sentia saudade noite e dia. Querida Sumi,

A milhares de quilmetros de distncia, depois de uma viagem por mar dentro de um poro escuro e que me pareceu durar uma eternidade, aqui estou eu trancado na cela
escura e mida de uma priso. Este no  o lugar de onde eu tencionava escrever para voc. Tambm no  este o tom que eu teria escolhido para me dirigiro meu querido
amor, mas aqui estou eu, implorando que voc me faa um favor que poder me salvar da crueldade da morte aos 17 anos, antes que todos os nossos sonhos possamse tornar
realidade.

Em breve, estarei enfrentando uma audincia no tribunal, acusado possivelmente do assassinato daqueles trs animais que a atacaram com selvageria naquela noite que
no consigo esquecer. Se puder provar ao juiz que as mortes foram provocadas pelo justificvel mpeto de defend-la, minha querida, no vejo porque o honrado juiz
no poderia se apiedar de mim que, ultimamente, tenho sido elogiado como um excelente trabalhador num grande projeto de construo da Marinha.

Por favor, descreva da forma mais clara e fiel  realidade os acontecimentos daquela noite, que sei que so constrangedores e difceis de serem relembrados, e envie
o seu relato ao gabinete do juiz.

No importa a distncia que me separa de voc, eu sinto seu amor bem prximo do meu corao. No importa a medonha condio em que eu mesmo me coloquei. Sinto que
foi apenas uma honra e uma sorte poder ser capaz de salvar voc. Amor  apenas uma palavra, Sumi. O que sinto por voc  o maior de todos os amores. Expressando
o meu sentimento em palavras simples, se eu tiver que morrer por voc, morrerei sorrindo.

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Ah, que saudade sinto de voc! Especialmente diante das trevas do desespero e do possvel fim da minha vida!

Para sempre seu, Shento

P.S.: Se eu soar pattico e exagerado, por favor me perdoe por isso. E tambm, lembre-se de escrever ao juiz, e no a mim. Aqui vai o seu endereo.

Acrescentei esta ltima informao e adormeci com a carta sobre o peito. No dia seguinte, usei todas as minhas parcas economias do trabalho mal pago - vinte fens
por dia - e comprei cigarros para subornar um guarda e, assim, poder enviar a carta.

No dia do julgamento, pedi para levar o Cdigo Penal junto comigo e mantive a postura firme e ereta diante do juiz obeso, que desviava o olhar.

- O que o indiciado Shento tem a dizer sobre as acusaes? - perguntou o juiz.

- Eu sou inocente - respondi com firmeza.        ' s , ,

- Voc sabe que o nosso Cdigo Penal  indulgente se houver sinceridade e franqueza na confisso, mas a punio ser severa se houver mentiras para evitar a condenao.
- O juiz me fitou. - Agora que voc entende o procedimento, por favor me diga. Voc se declara inocente baseado em que fato?

- Com base na defesa de uma vtima de estupro, senhor juiz. Eu matei aqueles trs porque eles estavam estuprando uma moa chamada Sumi Wo, minha colega de turma
no orfanato-escola. De acordo com o Cdigo Penal da Repblica Popular da China, o estupro tambm  um crime passvel de pena capital. Se o indivduo tiver a justificativa
de ter causado a morte de estupradores em flagrante delito, ele deveria ser absolvido pelas mortes que

ocasionou.

O juiz foi apanhado de surpresa por tal colocao da lei penal. Franziu as sobrancelhas e perguntou-me em tom grave:

- Voc tem alguma prova para substanciar tal defesa?

- Eu creio que o senhor a tem, senhor juiz. - Meu tom de voz era calmo e confiante. - H um ms, consegui enviar uma solicitao  vtima do estupro, pedindo que
ela escrevesse um relato e o enviasse  sua pessoa. De acordo com o sistema jurdico da China, o papel de um juiz no  apenas
134

o de julgar, mas tambm o de investigar. - Citei a frase que havia lido no Cdigo Penal.

- De fato, eu recebi uma carta.

Ele semicerrou os olhos e franziu a boca.

- Ento, por favor, absolva-me, meritssimo - supliquei, cheio de esperana.

O grupo na sala normalmente silenciosa ficou ainda mais silencioso. O juiz olhou em volta, recomps-se e golpeou seu martelo vigorosamente.

- Meu jovem, fico revoltado ao ver voc mentir diante do tribunal sobre os acontecimentos que se passaram na noite em que ocorreram as mortes. A srta. Sumi Wo realmente
escreveu uma carta endereada a mim. - Ele ergueu a carta com seus dedos de lingia. - Mas ela nunca foi atacada ou estuprada. Na verdade, declara que voc os matou
por vingana pessoal.

- No, senhor juiz - disse eu, chocado. - No pode ser. Isso  mentira. A escola inteira pode testemunhar a meu favor.

- Onde esto as provas, meu jovem, j que voc parece ter feito suas leituras sobre a lei? A regra nmero um so as provas. Provas convincentes e cabais. Sua amiga
Sumi o entregou nesta carta assinada por ela e enviada a mim, a pedido seu. Este caso est portanto encerrado. Guardas!

- No, por favor, senhor juiz. Sumi no mentiria desse jeito sobre mim.

- No, ela no mentiu. Ela disse a verdade. Nos termos do Artigo 99 do Cdigo Penal, voc est condenado  morte e ser executado hoje, ao meio-dia, em alto-mar.


Foi como se uma bomba tivesse explodido na minha cabea.

- Senhor juiz, o senhor entendeu tudo errado. Sumi no mentiria assim. Por favor, deixe-me ver a carta.

- Guardas, retirem o ru do recinto!

Meus joelhos ficaram bambos e minha vista turvou-se. As palavras da sentena de morte soaram como um trovo. Debati-me como um animal apanhado numa armadilha e lutei
para me desvencilhar. Senti uma pancada na cabea ao ser golpeado pelo guarda com seu pesado cassetete.

DESFALECIDO, FUI JOGADO NO CONVS DE um barco da Marinha e, em seguida, algemado e acorrentado  balaustrada da popa. Quando despejaram gua fria na minha cabea,
com o intuito de me despertar para enfrentar

135

os momentos finais da minha vida, atirei-me de um lado para o outro, debatendo-me como um peixe apanhado na rede. Agora realmente chegara a hora da minha morte.

- Viajei essa distncia toda s para morrer assim desse jeito? Como um pirata, um ladro? - berrei, com meus pulmes estourando de raiva e desespero.

O oficial enfiou trs balas no tambor de um revlver antigo e mirou na

minha cabea.

Agora est tudo acabado - pensei. Mantive os olhos abertos, querendo morrer olhando para o mundo, por mais desgraado e miservel que ele fosse. Mas o oficial abaixou
sua arma e berrou:

- O que  isso que voc est usando?  um cordo?

Ele deve ter escapado para fora da camisa enquanto eu esperneava. Dois marinheiros se aproximaram para retir-lo. Eu os chutei e lutei ferozmente com eles, vociferando:

- No toquem nisso! Quero morrer com ele!  do meu pai.

- Do seu pai? - perguntou um marinheiro. >

- No d ouvidos a ele - disse o outro marinheiro. - Arranque o

cordo.

- No! - urrei, mas fui dominado pelos dois homens, que arrancaram

o cordo do meu pescoo.

- O ideograma Long est gravado nele - disse um deles.

- Deixe-me ver isso.

O oficial examinou o cordo.

-  pesado e parece de prata mesmo. O que quer dizer este ideograma,

prisioneiro?

-  o sobrenome do meu pai.

- E quem  esse seu papai? - perguntou o oficial, curioso.

- O general Ding Long.

- Ah, muito bem, e eu ento sou filho do presidente Mo! - escarneceu o oficial.

- Ele est amaldioado! Pode ficar com ele - esbravejei. - Ding Long matou a minha me e me abandonou como um filho enjeitado.

- Mas, ora, vejam s! E quem acreditaria em voc?

- No espero que vocs acreditem em mim. Ningum acredita em mim. Agora s quero morrer. Ande, atire! 136

Mas os marinheiros pareciam ter ficado intrigados com a histria que contei. O oficial sentiu o peso do cordo de prata em sua mo e um sorriso maldoso assomou aos
seus lbios.

- Mas, por outro lado, talvez voc esteja dizendo a verdade. Ns todos admiramos o teso do general Ding Long, no  mesmo?

Os marinheiros caram numa gargalhada maliciosa.

O oficial desceu a uma cabine abaixo do convs para se comunicar pelo rdio com o Comando Central da Marinha no litoral. Quando voltou, tinha uma expresso grave
no rosto.

- Deixem-me morrer! Atirem em mim! - gritei, me debatendo novamente e chutei um balde, fazendo-o rolar.

- Sinto lhe informar que no podemos fazer isso - disse o oficial, virando-se depois para os marinheiros. - Desamarrem-no.

- Por qu? - perguntou um marinheiro.

- O comandante em pessoa est vindo aqui para lev-lo embora. Depressa!

Imediatamente, os marinheiros fizeram o que lhes foi ordenado.

No se passou nem meia hora e aproximou-se um grande cruzador militar, de onde saram apressadamente trs mdicos carregando uma maa do exrcito. Eles me recolheram
e retornaram rapidamente.

- Para onde esto me levando? - berrei. - E por qu?

- Voc faz perguntas demais - disse um dos mdicos, injetando um lquido amarelo no meu brao.

No instante seguinte, tudo ficou escuro. v

CAPTULO 14

1979

BEIJING

TODOS os MESES, Miss Yu ME ENTREGAVA um envelope na escola que continha o ltimo nmero de Incio da Primavera, a revista mensal do seu grupo, que eu lia na privacidade
do meu quarto. Os textos de Miss Yu eram poticos e comoventes. Num dos nmeros, ela defendeu a criao de uma editora que publicasse ensaios, textos tericos e
at mesmo de fico para ampliar o leque de leitores da organizao. Alguns meses mais tarde, foi publicado o primeiro romance, escrito pela prpria Virgin, sobre
uma moa que luta contra as restries impostas s mulheres pela sociedade. Devorei o livro durante uma noite inteira sem conseguir dormir e chorei pela herona.
O romance logo causou grande sensao. Era comentado  boca pequena e distribudo em cpias feitas  mo.

Um dia, Miss Yu apareceu na sala de aula com olheiras escuras em torno dos olhos. Ela havia chorado.

- O que houve? - perguntei, depois da aula.

-Voc ainda no sabe o que aconteceu? - perguntou ela em voz baixa, depois que todos os alunos tinham sado da sala. - A polcia derrubou o Muro da Democracia e
o professor Ko est desaparecido.  ,

- O que pode ter acontecido a ele?

- Deve ter sido seqestrado e assassinado secretamente. - Havia muita raiva contida na sua voz. - Existe outra maneira melhor de o governo acabar com a nossa organizao?

- Sinto muito.

- No  culpa sua - disse ela. Baixei os olhos.

- Mas sinto como se fosse.

No dia seguinte, ficamos sentados na sala de aula sem a presena da nossa professora de ingls. Aguardamos durante muito tempo, at que o diretor entrou na sala
para nos dizer que Miss Yu tinha sido detida e que no deveramos esperar que ela retomasse suas atividades. Atordoado, sa da sala imediatamente e pedi ao meu motorista
que me levasse ao escritrio do meu pai no quartel-general do Exrcito, que ficava a poucas quadras da escola. Passei por vrias fileiras de guardas armados, que
acenaram e me deixaram passar sem nenhum impedimento. A placa do carro - de nmero cinco - dizia tudo. A do presidente Heng Tu tinha o nmero um. Arrastei papai
para fora da sala de reunies.

- Filho, o que h de to urgente assim que no possa esperar pelo fim da reunio? - indagou ele bruscamente, agora em seu gabinete.

- Preciso de uma ordem sua por escrito para liberar Miss Yu imediatamente.

- Meu filho, sinto lhe dizer que a coisa no  to simples assim.

- Mas  claro que , papai! Ela s est sendo usada como bode expiatrio. Ela  cidad de Hong Kong, e seus direitos ainda so protegidos pela lei internacional.
Vocs no podem fazer nada com ela.

- Deixe-me verificar com o Ministrio de Segurana Pblica. Papai caminhou em direo ao telefone.

- No, pai, no h tempo para isso. Estou lhe pedindo um favor. Liberea e mande-a de volta para seu pas de origem. Voc pode proibi-la de retornar ao nosso pas,
mas no a maltrate de jeito nenhum. Ela  minha professora e minha amiga. E  sua amiga tambm, papai. Temos que proteg-la.

- Deixe-me pensar sobre isso hoje  noite.

- Hoje  noite poder ser tarde demais. Por favor, diga em que local ela est detida.

Papai respirou fundo.

- Ela est a caminho de Xinjiang.

139

- A Sibria chinesa?

- No h nada que eu possa fazer no momento. Foi uma ordem do

prprio Heng Tu.

- Mas ele ouve o que voc diz, no ?        , Papai parecia confuso.

- Voc no est entendendo direito.

- Estou muito decepcionado com voc, papai-disse eu, com tristeza

na voz, e sa.

Pedi ao meu motorista que me levasse  Delegacia Central de Beijing. Falei com o prprio chefe de Polcia, mas ele tambm no podia liber-la e me disse que, a esta
altura, o caminho j deveria estar em Xibei. S havia uma coisa a fazer.

Corri para casa e fui ao escritrio de papai. L, numa gaveta, estava o carimbo de jade do oficial mais graduado das Foras Armadas. Usando o papel timbrado de papai,
escrevi com muito cuidado e em seguida carimbei a carta com o selo oficial. Analisei rapidamente minha escrita. A letra poderia facilmente passar pela de papai,
mesmo para olhos bem treinados, pois desde criana eu tinha me esmerado em imitar a sua caligrafia no estilo fluido e cursivo conhecido como "Co". Sa em disparada
para interceptar o caminho militar na estrada para Xibei, a nica que seguia na direo oeste. Passaram-se muitas horas at que minha limusine finalmente alcanou
o caminho empoeirado. Meu motorista deu uma guinada brusca na frente do caminho, forando-o a parar no acostamento. Saltei do carro, tendo nas mos uma ordem oficial
do comandante-em-chefe. De incio, fui ignorado pelos soldados.

- Vocs sabem quem eu sou? - gritei. - E sabem o que tenho aqui

nas mos?

Isto chamou a ateno deles. Eles analisaram o documento e, em seguida, o meu rosto.

- Se no me entregarem esta prisioneira, vou fazer com que meu pai, o comandante-em-chefe, mande vocs para a Corte Marcial.

O motorista leu o papel. Reconhecendo o famoso carimbo, ele dobrou o documento, colocou-o no bolso e, relutantemente, entregou-me a prisioneira.

Miss Yu estava com um ar solene e pensativo. No havia medo em seus olhos, embora ela estivesse com um aspecto mais envelhecido. Abracei-a, mas ela ficou como que
congelada na minha presena. Rapidamente, insisti140

para que entrasse na limusine e levei-a para a estao ferroviria de onde partiam os trens para Canto. De l para Hong Kong, bastava atravessar uma ponte. Mas
o trem s sairia dali a uma hora. A noite j tinha cado. Miss Yu estava chorando. Ela me pediu para dispensar o motorista por alguns minutos. No banco de trs,
ela se despiu. Lentamente, tirou meu suter e abriu o zper da minha cala.

A princpio, aquilo me chocou, mas depois fiquei excitado. Seus seios eram firmes e fartos e sua pele tinha o toque da seda. Ela ps seus mamilos na minha boca e
eu os chupei avidamente. Meu corao pulava de desejo e meu sexo parecia que ia estourar. Miss Yu montou em cima de mim. Penetrei-a bem fundo e ela me cavalgou,
gemendo com total abandono, como se estivesse morrendo. Ns dois gememos e gritamos de prazer. Miss Yu aconchegou sua cabea no meu peito e soltou um suspiro profundo.
Passei os dedos pelo seu cabelo e abracei-a com fora.

Depois de termos recuperado o flego, ela fez um movimento e murmurou:

- Agora voc  um homem.

- Tem algum problema um aluno amar a sua professora?

- J no sou mais sua professora. Ela me beijou com ternura.

- H muito tempo que amo voc - disse eu, acariciando seus seios. - No queria que fosse embora.

- Vamos, meu amante, faa-me gritar de prazer novamente.

As palavras que vinham de sua boca delicada me deixavam tonto. Fizemos amor mais uma vez e ainda com mais paixo. Nosso orgasmo foi to prolongado que ela quase
perdeu o trem. Vestimo-nos com rapidez, corremos para a plataforma e nos abraamos. Ela subiu no vago. O trem saiu da estao e sumiu dentro da noite.

Shento

CAPTULO 15

1979

ILHA NMERO NOVE

MINHA CABEA LATEJAVA DE DOR, e as paredes do meu estmago pareciam coladas uma na outra, tamanha era a minha fome. Eu devia ter dormido durante muito tempo. A cama
rangeu quando me virei. Meus olhos embaados distinguiram um homem sentado numa cadeira, de frente para mim. As paredes brancas, sem janelas, tinham o p direito
alto.

- Quem  voc?

Olhei para ele, franzindo os olhos, e examinei seu uniforme com

ateno.

- Isso no importa. Voc no est feliz por estar vivo?

'    - Acho que sim. De quem veio a ordem para me salvar? >

- No sei.

    - Onde est o meu cordo? " >  v

- No sei. Assine aqui - ordenou o homem, estendendo"lfte uma prancheta com um pedao de papel.

- O que  isso?

- Uma declarao formal. Sem mais perguntas. Depois explico. Olhei fixamente para o homem misterioso por um bom momento, e

depois, esticando o brao direito, assinei o papel. 142

- Ainda sou um prisioneiro?

- A partir de agora, voc vai trabalhar para ns.

- Que tipo de trabalho vocs querem que eu faa?

- Um trabalho digno - respondeu ele.

- E se eu no quiser trabalhar para vocs?

- Voc nos deve a sua vida. Tenho em meu poder uma ordem pendente para a sua execuo, emitida pelo Supremo Tribunal de Justia Popular e que pode ser cumprida a
qualquer hora e em qualquer lugar. Alm disso, voc acaba de assinar uma declarao em que se compromete, por escrito, a dedicar sua vida  nossa causa, com um voto
de silncio no que diz respeito ao trabalho digno que o aguarda.

-  bastante reconfortante saber disso!

- O sarcasmo no  bem-vindo aqui.

Ele tirou uma arma de dentro do seu coldre e colocou-a na mesa que estava ao seu lado.

- Por que voc no atira em mim de uma vez?

- Eu poderia fazer isso.

Displicentemente, o homem disparou dois tiros para o teto. Os tiros ecoaram com grande estrondo.

- E agora, garoto, vamos falar mais um pouco sobre o nosso trabalho digno. Sua nova vida acaba de comear. Daqui a pouco, estaremos de sada.

- E para onde estou indo?

- Para a Ilha Nmero Nove.

v

NOSSA EMBARCAO NAVEGOU PELAS guas azuis do Pacfico, em direo ao mar aberto. O vento fustigava a minha pele, deixando-a insensvel como se fosse de cera, mas
o cheiro do oceano me revigorou. Eu j no me dava mais o trabalho de fazer perguntas sobre a vida misteriosa que tinha pela frente. Sabia que o homem que pilotava
o barco no me daria respostas. Eu queria apenas viver, pois sabia como a vida era preciosa, e como ela podia me escapar de um momento para o outro.

Depois de um longo percurso sobre o mar calmo, avistamos uma pequena ilha montanhosa que cintilava  frente de um enorme sol poente, cor de gema de ovo. O barco
diminuiu a velocidade e atracou num pequeno cais oculto no meio de um bosque de rvores muito antigas. Um jovem soldado me conduziu a um prdio de tijolos de estilo
militar, onde um oficial de

meia-idade com o cabelo grisalho, cortado rente, me aguardava. Ele fez um gesto para que eu me sentasse.

- Sou o sargento La, seu instrutor particular - disse ele. - Essa  uma unidade especial do servio secreto chins chamada Jian Do, ou Adaga Afiada, e que pouca
gente sabe que existe. De agora em diante, voc  um de ns. Fora dos limites desta ilha, ningum mais poder saber disso, e voc ter que carregar este segredo
at o tmulo.

O sargento fez uma pausa antes de continuar.

- Este lugar est cercado por minas aquticas e pelo torvelinho das poderosas correntes ocenicas profundas. Temos integrantes das Adagas Afiadas espalhados por
todos os cantos do mundo.  de seu prprio interesse manter o nosso cdigo de sigilo. Cada cadete  treinado individualmente de acordo corn suas habilidades e, 
claro, com o seu potencial. Voc receber instrues sobre todos os aspectos de sua vida, isto , de sua nova vida, e sobre todas as formas de combate. E tambm
aprender a usar os melhores e os mais novos armamentos que esto sendo desenvolvidos e aperfeioados. Algum dia, quando estiver preparado, voc ser de um valor
inestimvel para o seu benfeitor.

- E quem  ele?

- No tenho permisso para revelar o seu nome, nem agora e nem no futuro. Todas as suas perguntas sero inteis. Vamos dar incio ao treinamento ao nascer do sol.

A Ilha Nmero Nove acordou ao raiar do dia. A bruma do mar parecia uma camada de vapor na beira da ilha, como se ainda estivesse presa  serenidade da noite. Coloquei-me
em perfeita postura militar diante do meu treinador, sargento La, que vestia uma camisa sem mangas e uma cala larga amarrada por uma faixa de cetim na cintura de
vespa.

-Voc tem quatro anos de treinamento  sua frente.  apenas o sucesso ou o fracasso, est entendendo? (

- Sim, senhor. - f

    - No escutei direito! Diga novamente at sentir seu estmago doer! >   - Sim, senhor! Eu entendi, senhor! - berrei a plenos pulmes.

- timo.

O sargento La continuou:

1 - Cresci na Provncia de Henan, ao p do Templo Shaolin. Meu tipo de Kung Eu , portanto, no estilo Shaolin. Posso ser brando como a gua. - Ele movimentou seu
corpo como uma cobra. - Ou rijo como o ao.

- O sargento La postou-se com as pernas afastadas. - Agora d um soco bem no meu dung tien, no baixo ventre.

Hesitei, observando atentamente os olhos de La.

- Isto  uma ordem! D-me o soco mais forte que puder dar! Arregacei as mangas, encontrei meu ponto de equilbrio com os ps

bem posicionados no cho, cerrei o punho, e ataquei o meu mestre. Meu soco era como uma pedra dura e era famoso por causar um grande estrago em quem merecesse receb-lo.
Mas, desta vez, senti alguma coisa diferente no contato. Sua pele era macia como massa de po e os msculos da sua barriga sugaram o meu punho, liberando em seguida
um rebote de energia que me fez rolar trs metros para trs no gramado.

- Tome cuidado. Eu poderia ter quebrado o seu brao se tivesse usado um pouco mais da fora do meu intestino. Se no for treinado adequadamente, voc se torna rgido
e intil como um pedao de pau. Pela sua estatura, cerca de um metro e oitenta, voc deveria ter a potncia de um touro enraivecido, mas tem apenas a fora da arremetida
de um carneiro. Vamos comear desenvolvendo mais a sua fora. Flexes.

Ele afivelou na minha cintura um cinto pesado e volumoso, cheio de areia, e apontou para o cho.

- Voc tem uma hora de exerccios. Nos primeiros 15 minutos, cinco quilos. No segundo quarto de hora, dez quilos. Nos dois ltimos, 12 quilos e meio. Vou ficar observando
l do meu gabinete. No me decepcione.

Nos primeiros 15 minutos, foi moleza. No segundo quarto de hora, eu j estava com os batimentos cardacos bastante acelerados e urrava de dor. No terceiro quarto
de hora, quase desmoronei e comi a poeira do cho. Mas persisti. Quando a hora finalmente se esgotou, fiquei meio morto, estendido na terra mida durante uns bons
vinte minutos.

- De p!

La estava de volta, sorrindo.

- Limpe-se e v para a aula agora. Hoje  tarde, vamos subir a escadaria que vai at o cume da montanha sem nome que existe aqui na ilha. Lembrese de levar os pesos
de cinco quilos para amarrar nos ps.

- Obrigado, mestre.

Consegui apenas esboar um dbil sorriso no meu rosto suado. Cambaleei de volta ao meu quarto para preparar-me para o meu primeiro perodo de aula da manh: A arte
da guerra.

145

A aula foi ministrada por um professor j idoso, o sr. Wang, que havia sido conselheiro snior do Exrcito. Ele usava cavanhaque e fumava continuamente um cachimbo
d'gua. Seus livros didticos eram amarelados e costurados com linha, e as pginas estavam rasgadas e gastas nas beiradas. Suas mos tremiam enquanto ele lia o clssico
A arte da guerra, de Sun Tzu, um texto muito antigo e de leitura obrigatria. Eu era um dos cinco alunos de sua turma, e achei a explanao do professor muito simples,
mas esclarecedora. Sua primeira lio foi o ensinamento chamado Um Forte Vazio. Zhu Guo Liang, clebre estrategista militar, estava certa vez rodeado por oito mil
soldados inimigos que cercavam as muralhas da cidade. Ele estava encurralado e sabia que enviar um sinal de fumaa a um aliado distante em busca de ajuda apenas
convenceria o inimigo de que ele estava se sentindo fraco e desesperado. Ento, abriu os portes da cidade e sentou-se numa cadeira, no ptio de entrada vazio, dedilhando
seu pipa, um instrumento semelhante a um alade, e cantarolando msicas de sua terra natal, de olhos fechados. Os batedores do exrcito inimigo ficaram surpresos
ao depararem com Zhu se divertindo, indiferente ao assdio avassalador que ocorria naquele momento. Silenciosamente, saram da cidade mais rpido do que haviam chegado,
acreditando que o astuto Zhu tivesse preparado um contra-ataque de surpresa e estivesse apenas esperando que eles entrassem afoitamente. Ningum poderia acreditar
que Zhu contava com apenas duas dzias de soldados dentro dos muros da cidade.

Aquilo foi to inspirador que corri imediatamente  biblioteca com a inteno de consultar todas as obras escritas por Sun Tzu. Fui informado pelo bibliotecrio
que este autor havia escrito apenas aquele livro. A obra deveria ser lida lentamente para ser degustada com vagar e digerida com cuidado. Somente aps muitas leituras
 que a verdade se revelaria em sua ' totalidade ao leitor.

 tarde, o sargento La me fez percorrer a famosa escadaria que subia por trs da montanha que se erguia no centro da ilha. Onze quilmetros subindo e mais outros
11 descendo. Naquela noite, dormi um sono absolutamente sem sonhos at ser despertado ao nascer do sol pelas badaladas de um sino, que ecoava na distncia.

No dia seguinte, um rapaz com doutorado em informtica, obtido numa universidade americana, me deu uma aula introdutria em uma sala equipada com dzias de terminais
de computadores. No espao de uma hora,

T

147

apaixonei-me por aquela mquina que processava inmeras informaes ao toque de uma tecla. Ao fim da aula, ofereceram-me um terminal porttil para meu uso pessoal
que podia ser conectado com a rede da ilha. Lutando contra o sono, fiquei acordado at de madrugada digitando lentamente no teclado de teclas macias, maravilhado
com a mgica que se desdobrava ao toque dos meus dedos.

O tempo parecia escorrer como a gua de um riacho. O vero logo chegou ao fim e o outono trouxe o ar fresco. Meu corpo tinha se fortalecido com o rigoroso programa
dirio de exerccios, e meu corao recobrou novamente a leveza que eu no sentia desde que tive que me separar da minha querida Sumi. Ficar isolado do meu passado
e do resto do mundo parecia ser uma boa cura para mim. Mas a gente nunca consegue ficar totalmente livre dele.

De manh, eu mergulhava de corpo e alma na disciplina e na prtica das artes marciais, aprendendo nan chuan, bei ti (socos ao estilo sulista, chutes ao estilo nortista),
e xi ro, donggong (flexibilidade ocidental, rigidez oriental).  noite, dedicava longas horas ao aperfeioamento das minhas habilidades como atirador. Preferia armas
grandes como a AK-48 automtica e a beleza negra de aparncia rude chamada Uzi. No restante do tempo, eu recebia instruo em reas de conhecimento e campos de estudo
como poltica marxista, pensamentos do presidente Mo, histria do comunismo e relaes internacionais. Mas no havia um s momento em que eu estivesse longe do
meu amor, do meu querido amor - Sumi. Cada soco que eu desferia, cada chute que dava, cada bala que disparava, cada quilmetro que percorria, tudo aquilo para mim
era secretamente um passo, uma acelerao rumo  meta final cujo objetivo era ser bem-sucedido naquele trabalho digno para o qual eu estava sendo preparado, com
o nico intuito de poder voltar para exigir o que era meu de direito - a minha Sumi.

Com trs meses de treinamento, fui chamado a uma sala, onde um alfaiate tirou minhas medidas para confeccionar um terno muito elegante e uma camisa com punhos duplos
para ser usada com abotoaduras. O alfaiate me mostrou um vdeo com vrios estilos de roupas - todos os tipos de grifes, marcas, cortes e tecidos. Num perodo de
cinco horas, fiz um curso intensivo sobre o mundo da moda. As palavras de despedida do professor foram:

- Voc  o que voc veste.

Minha vida monstica de disciplina e ordem foi interrompida uma noite quando uma mulher atraente de trinta e tantos anos apareceu no meu quarto. Ela tinha un corpo
maravilhoso que me deixava tonto s de olhar. Disse-me que tinha sido bailarina de uma famosa companhia de bale de Xangai. Somente um tempo depois  que fiquei sabendo
que ela estava cumprindo pena de priso perptua por duplo assassinato, envolvida num tringulo amoroso, e agora fazia parte da equipe de professores da ilha.

Ela me disse que estava ali para me ensinar alguns passos de dana de salo, coisa que eu poderia ter necessidade de usar em futuras misses. Eu aprendia rpido
e, ao fim da noite, j conseguamos valsar fluentemente, sem atropelos. Como era uma aula particular que se estenderia at que o aluno estivesse bem preparado, sugeri
que ela ficasse mais um pouco para repassar alguns passos bsicos comigo. Ela aceitou alegremente.

Por volta de meia-noite, na nossa ltima dana, a professora pressionou suas curvas macias contra o meu peito. Quando ela deu um passo para trs, vi seus mamilos
marcando seu vestido fino e esvoaante. Havia uma melodia em seus olhos. Ela sorria e sussurrava ao p do meu ouvido e algumas vezes seus lbios roavam levemente
no meu pescoo suado. Quando a msica terminou, fiquei meio chocado ao sentir que uma de suas mos agarrava a minha bunda enquanto a outra alisava meu sexo, que
pulsava e que chegava at a doer, de to duro que estava desde que eu tinha posto os olhos nela. Estvamos colados um ao outro. Puxei-a para a minha cama. O aroma
feminino do seu corpo maduro era mais do que eu podia suportar. Logo fiquei arfando de desejo e ejaculei na minha prpria cala. Que dedos diablicos! Porm, minha
juventude me permitiu uma segunda ereo em poucos minutos. Ela se despiu, subiu em cima de mim, e me cavalgou, olhando de frente para os meus dedos dos ps, que
se contorciam de prazer. Com a viso de suas belas ancas, em meio minuto eu gozei loucamente dentro dela.

- Puxa! Com essa voc podia ter quebrado o recorde dos cem metros rasos - disse ela, fazendo beicinho, com a bunda ainda rebolando em cima do meu membro j amolecido.

- Voc no curtiu tanto quanto eu? - perguntei, chocado.

- Eu estava apenas comeando - respondeu ela, bocejando.

Pela primeira vez, minha virilidade tinha sido desafiada, mas mesmo que ela me atiasse e me incentivasse com suas mos habilidosas e com sua
148

lngua lasciva, a minha cobra continuava enroscada, incapaz de dar um novo bote. A professora se levantou, declarando com autoridade:

- Para um principiante, voc est indo muito bem. Com o seu potencial, estar no ponto num piscar de olhos.

Na noite seguinte, na segunda aula, minha professora de dana me ensinou algumas tcnicas para controlar minha tendncia a gozar rpido demais, que ela chamava de
"estrangular a cobra" e de "puxar-segurare-enfiar", mas sua musculatura interna e suas ndegas giratrias logo me deixaram inutilizado, apesar de tudo.

Na terceira noite, ela me disse, no comeo da aula, que isso era um assunto muito srio e que eu precisava me concentrar mais na tcnica e no controle das minhas
emoes. Em certas ocasies, a habilidade de satisfazer uma mulher poderia significar uma questo de vida ou morte. Eu no apenas a levei ao orgasmo como tambm
fiz com que lgrimas de gratido lhe viessem aos olhos.

Na quarta aula, a professora entregou-se completamente ao ato. Fiz amor com ela cinco vezes. Quando terminei, ela tinha gritado, xingado, gemido e berrado e tinha
repetido tudo isso de novo, embora no necessariamente na mesma ordem. Por fim, camos no sono nos braos um do outro at o final da tarde, quando minhas novas investidas
a acordaram e ela ficou uma hora a mais alm do tempo. Algumas aulas foram perdidas, mas, no fim das contas, ganhou-se muito mais.

Naquela noite, finalmente sozinho, fui consumido pela culpa at concluir que o que eu sentia no era amor, mas apenas desejo. Portanto, nenhuma traio estava sendo
cometida contra Sumi. Alm do mais, eu acreditava que a minha recm-adquirida experincia - onde  que a lngua devia tocar e onde  que as mos deviam acariciar
- fariam de mim um amante ainda melhor para Sumi, e que seramos um casal mais feliz quando estivssemos finalmente juntos. Mas, durante os dias que se seguiram,
raramente deixava de pensar no perfume, no som da voz e no toque da pele da professora.

Minha primeira tarefa no trabalho digno para o qual estava sendo treinado aconteceu um ano depois da minha chegada, numa noite de muita neblina. O sargento La escoltou-me
num barco at o continente. Depois, fui colocado num trem que ia para a provncia de Hunan, viajando num compartimento especial com uma placa que dizia: DOENA RARA.
Entrei no trem carregado, numa maa, com o rosto todo enfaixado como o de uma

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mmia, apenas com os olhos e a boca de fora. Na estao ferroviria, fui transportado por dois atendentes, em meio a uma multido enlouquece dora. Assim que embarquei
no trem, um enfermeiro retirou as ataduras e me ofereceu um ch. O trem saiu se arrastando da estao. Uma hora mais tarde, chegamos ao sop de uma montanha, e o
enfermeiro voltou com um mdico de jaleco branco. O doutor, um homem de bigode com um olhar maroto, fez um sinal com a cabea e o enfermeiro se retirou. Ele mediu
o meu pulso e auscultou as batidas do meu corao.

- Est tudo bem - disse ele. - Aqui est o meu diagnstico. E me entregou uma folha de papel.

- Este  o medicamento.

O mdico apontou para uma maleta que tinha colocado aos meus

ps.

- Voc tem que usar o suter amarelo que est a dentro.

Assenti com a cabea e o mdico se foi. Dentro de dez minutos, dizia o papel, o trem ia entrar num tnel, onde pararia repentinamente. Eu tinha que pular pela janela,
correr pelos trilhos, entrar no vago adiante do meu, matar o passageiro que estava na cabine-leito e depois saltar do trem.

Fiz o que estava escrito na receita. Primeiro, vesti o suter amarelo, que coube em mim surpreendentemente bem, e me sentei de olhos fechados, buscando a tranqilidade
interior atravs da meditao. Com o terceiro olho, imaginei fisionomias variadas - rostos jovens e velhos, simpticos e antipticos, ossudos e rechonchudos. Mas
tive dificuldade em escolher um rosto em particular para o meu primeiro servio. Como seria o rosto daquele indivduo que ia morrer? Ser que teria o rosto plido?
Ser que ficaria triste, ou chocado? Ou ser que ficaria feliz em morrer? Ser que imploraria por sua vida?

Rezei, como numa orao: Querida Sumi, deixe-me executar este trabalho digno ao qual me propus para que eu possa viver para v-la novamente.

O trem entrou no tnel e, com um guincho, parou subitamente. Pulei pela janela, tropecei nas pedras, abri uma janela do vago que estava  frente e saltei para dentro.
Para minha surpresa, sentada sozinha na cabine, havia uma moa. Seus olhos assustados se arregalaram com a minha apario repentina. Uma mulher! No podia ser! Isso
estava absolutamente fora das minhas cogitaes. Meu pulso se acelerou e minhas tmporas comearam
150
a latejar. Sargento La, como o senhor foi cruel em testar a minha coragem com uma vtima to jovem!

O que a moa fez a seguir me surpreendeu ainda mais. Em vez de correr, ela se levantou com uma exclamao, seu olhar se enternecendo com um lampejo de reconhecimento.
Veio na minha direo, abrindo seus braos finos.

Voc est aqui para matar um inimigo! A voz do sargento La ressoava na minha cabea. Este  um teste pelo qual tem que passar. No havia tempo para pensar. O trem
estava comeando a se movimentar novamente. Com a cabea anuviada e tonta, saquei meu revlver e disparei bem no meio de seus grandes olhos inocentes. Um filete
vermelho escorreu de sua testa antes que o impacto da bala a jogasse de volta ao leito.

Subitamente, um facho de luz se acendeu na parede, cegando-me como um relmpago. O que foi isso? Umflash de uma mquina fotogrfica? Ser que algum tinha me visto?
Minha misso estava cumprida. Eu tinha que sair dali. Mas havia alguma coisa no jeito como ela tinha cado, com os olhos abertos, que me apertou o corao. Inclinei-me
sobre ela e fechei suas plpebras com a mo trmula. Ento, pulei pela janela e corri pelo tnel, no me permitindo nenhum outro resqucio de sentimento. Na outra
extremidade do tnel, um jipe estava estacionado num declive com o motor ligado. Ao volante, estava sentado o prprio sargento La.

- Por que demorou tanto?

No respondi. Sem dizer mais nada, ele conduziu o jipe por uma estrada movimentada, desaparecendo por entre caminhes, mulas E crianas que pedalavam em suas bicicletas.

CAPTULO 16

VIRGIN, VIRGIN... QUE IRONIA! MINHA iniciao, minha primeira viagem, foi um passeio tumultuado com uma virgem. Que palavra! Parecia to bela, to simples! Mas minhas
lembranas de Virgin eram apenas parcialmente fiis  definio. No banco de trs da minha limusine Red Flag, Virgin era linda, sim. Era potica, e at espiritual.
Mas no era nada inocente. At recordei vivamente algumas cenas excitantes de O sonho do Pavilho Vermelho-, obra-prima da literatura ertica, passada na dinastia
Ch'ing. Excitao - uma palavra poderosa - era algo que eu estava vivenciando com freqncia cada vez maior naqueles dias. Tudo me excitava. Tudo  minha volta tinha
um significado mais profundo.

Deitado na cama, com a cabea ainda confusa, ouvi uma batida  minha

porta.

- Pode entrar.

Papai estava de p na soleira da porta, completamente uniformizado, algo completamente fora do comum quela hora da noite - dez horas. Surpreso, levantei-me para
cumpriment-lo. Ele estava ali por algum motivo. Caso contrrio, jamais viria ao meu quarto to tarde. Com um pequeno movimento de cabea, eu disse: 152

- Boa noite, papai.

Papai ignorou o cumprimento e perguntou firmemente:

Voc andou falsificando a minha assinatura no meu papel timbrado

hoje?

- Sim, mas fiz isso por um bom motivo.

Sinceridade era o que se esperava de mim desde pequeno, e eu sempre encontrava nela a minha melhor arma quando todos os argumentos falhavam. Fazia muito efeito quando
era necessrio tocar no lado emocional da questo.

- Meu filho, no h motivo que seja bom o suficiente quando se trata de passar por cima da minha autoridade!

Papai levantou a voz.

- Voc no entende? Tem conscincia de que eu sou o chefe do EstadoMaior das trs Foras Armadas?

- O senhor se recusou a ajud-la, e ela  inocente! - protestei.

- Voc ainda no consegue ver o que fez de errado, no ? H um mandado de priso contra voc. A Polcia do Exrcito est aqui para lev-lo.

- O qu?

Eu devia ter ouvido errado.

- Arrume as suas coisas. Eles esto esperando por voc l embaixo. O tom de voz de papai era calmo e seguro. Ele falava a srio. Eu no

conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.

- A Polcia est aqui para me prender? A mim, seu prprio filho? Silncio inabalvel.

- Mame! - berrei, correndo para o andar de baixo e deparando-me com ela, que chorava desesperadamente.

- Mame!

Ela apenas balanou a cabea, desolada.

Papai estava parado perto da balaustrada ornamentada da grande escadaria e disse:

- Tan, trata-se de uma ordem militar. Ningum pode nem deve impedir isso.

Ele se recolheu ao escritrio e fechou a porta.

Quando vi os dois soldados armados, entendi que era para valer. Tudo com meu pai era para valer. Mame me abraava com fora, como se no fosse nunca mais me soltar.

153

- Estou aqui - disse ela. - O que voc fez? O que voc fez? Diga  sua me que voc no fez isso. Voc no fez isso, fez?

- Mame, o que eu fiz foi para salvar Miss Yu. No posso ir para a cadeia. Agi corretamente.

- Meu filho, enquanto eu estiver viva, voc no vai para a cadeia. Pai, saia do seu escritrio e faa alguma coisa com relao a isso! Voc  o comandante-em-chefe!
Tire esses soldados subalternos desta casa. Saiam!

Ela abanou os braos para os dois soldados como se estivesse enxotando

dois animais.

- Sabem quem sou eu e quem foi o meu pai? - disse ela, num tom imperioso. - Quando ele estava lutando por este pas, os pais de vocs ainda estavam usando fraldas,
seus recrutas desclassificados! Saiam j desta

casa!

Os dois soldados recuaram alguns passos empunhando as armas, levantando os ombros e balanando a cabea.

- O que foi que ele fez? Ele tem apenas 17 anos! Vo embora daqui!

- insistiu ela.

- Temos conosco uma ordem de priso - disse um dos soldados.

- Temos que lev-lo conosco.

Papai desceu as escadas lentamente. Ps as mos em torno dos braos de mame e lentamente afrouxou o seu abrao.

- Deixe que eles o levem.

- No! E para que voc serve? O comandante-em-chefe! No pode revogar a ordem de priso? O que ele fez de to errado e de to criminoso? Ns, essa famlia inteira,
que lutamos por esse pas, no podemos ser desculpados por uma pequena travessura cometida por um menor de idade? Que espcie de justia  essa?

- Solte-o. Esta ordem vem de um escalo acima de mim - disse papai

finalmente.

- Danem-se eles! Dane-se voc! Ningum est acima de voc. Quem

emitiu esta ordem de priso? Quem?

- O presidente. ,

- O presidente Heng Tu, aquele ano?

- Shhh. No fale assim na frente destes homens.

- Voc no quer que eu fale assim na frente desses homens? Pois vou  Rdio Popular e vou informar ao mundo inteiro que espcie de154

sanguessuga esse homem . Meu pai o tirou da priso e fez dele o presidente. Vocs sabiam disso, soldados? Ele estava morrendo como um co, apodrecendo naquela priso.
Que homem ingrato e sem corao! O que ele quer de ns? Ele nos usou de todas as formas que podia e agora emite um mandado de priso para o nosso filho? Ele vai
queimar no inferno durante muitas vidas pelo que est fazendo com a minha famlia. Vocs esto ouvindo bem, soldados? Ele nem sequer compareceu ao enterro do meu
pai, aquele desgraado!

Ela irrompeu em lgrimas novamente.

- Onde est o meu av? Preciso telefonar para o meu av! Era a minha ltima cartada.

- Meu filho, voc tem que ir - disse meu pai. - Eu resolvo isso depois.

- No, papai. Voc no pode deixar que eles me levem. Ligue para o

vov

- Vamos indo, Tan Long - ordenou um dos soldados.

- Esperem, preciso telefonar para o meu av Long.

- Por que  que ele no pode telefonar para o av dele, seus animais ignorantes? - esbravejou minha me.

- Comandante-em-chefe, por favor, ajude-nos a cumprir as ordens do presidente - pediu um deles.

Papai fitou-o com um olhar severo.

- Voc no tem que obedecer a este soldado raso! - vociferou mame, furiosa.

Papai mordeu os lbios e puxou-a para longe de mim, enquanto eu chutava e socava os dois soldados.

- Tan, voc tem que parar com isso ou ns o faremos parar. D-me suas mos - exigiu um deles, com voz firme e tranqila, segurando um par de algemas.

- Isso  alguma espcie de brincadeira? Algemas? Afastem-se de mim e me dem o telefone. Vocs sabem quem  o meu av?

O soldado me empurrou, o que me deixou estupefato. Ningum jamais tinha ousado fazer isso comigo antes.

- No sabemos quem ele  e isso no nos importa. Estenda as mos ou eu vou for-lo a fazer isso.

- Socorro! Mame! - gritei, olhando para a grande escadaria.

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Mas papai j a havia afastado dali. Meus gritos ecoaram de volta, rebatendo nas portas que tinham se fechado.

- Socorro!

Ningum ia me socorrer. Com brutalidade, os soldados seguraram os meus braos, juntando-os nas minhas costas. As algemas cucaram e se fecharam em torno dos meus
pulsos.

Andando lentamente e arrastando os ps, segui os homens porta afora. Onde estava a liberdade? Onde estava a democracia? Onde estavam as pessoas quando eu precisava
delas?

Senti medo e raiva ao mesmo tempo. Deixar o prprio filho ser preso, em nome de qu?

Eles me empurraram para dentro do jipe. Nem sequer me virei para olhar para a casa que eu chamava de lar - nem uma nica vez.

O jipe sumiu dentro da noite escura.

UMA PRISO-FORTALEZA ASSUSTADORA erguia-se  frente do macio monte Sishan. Todos os anos eu visitava esta parte dos subrbios de Beijing, especialmente no outono,
quando o Parque das Colinas Perfumadas estava atapetado com as folhas cor de fogo dos pltanos vermelhos. Uma vez, quando fui at l no helicptero de papai, o parque
parecia um mar vermelho ou um incndio que se alastrava pelos campos. Mas hoje, eu era um prisioneiro detido por alta traio. Que acusao ridcula! Tudo que fiz
foi permitir que uma moa inocente retornasse ao seu prprio pas. Sim, ela tinha publicado uma revista. Ela havia organizado reunies polticas. Ela podia at mesmo
ter disseminado as sementes da democracia. Mas o que fazia ela ser to ruim assim? Na realidade, era maravilhosa com suas idias, seus sonhos e sua beleza. Deveria
ser elogiada como uma herona. Eu ainda no sentia nenhum remorso por t-la ajudado, e muito menos por am-la.

Eles me conduziram atravs de ptios, muros e escadas at finalmente chegarmos a uma cela escura. J no sentia mais medo, e sim orgulho. Sentia-me como um heri
romntico.

A priso ficou silenciosa depois que o carcereiro bateu a porta na minha cara. E tambm ficou escura, exceto pela luz fraca que havia no corredor, de onde se podiam
ouvir os passos arrastados do vigia da noite. Fechei os olhos para que eles pudessem se adaptar  escurido, mas no conseguia nem mesmo localizar a minha cama.
156

Tateando como um cego, encontrei um travesseiro fino e quase tropecei num balde, que presumi que fosse o meu penico. As paredes eram speras, como se estivessem
inacabadas. Quem estava preso no merecia coisa melhor. A cela era mida e estava at mesmo molhada. O cho era liso e frio, e devia ser de lajotas de cimento, pois
podia sentir os rejuntes irregulares. Na parede do fundo, ao lado da minha cama, havia uma mesinha. Deitei-me e pousei a cabea sobre os braos. A cama era de madeira
dura, coberta por um colcho fino de bambu que estava encharcado de suor, e cheirava aos prisioneiros que haviam estado ali antes.

Desde que me entendo por gente, cresci ouvindo as pessoas me dizerem que eu no era um menino comum. Agora ento, naquela noite, confinado numa cela fedorenta, eu
ainda sentia que era especial, diferente do presidirio da cela ao lado, fosse ele quem fosse. Quando viesse o dia de amanh, o sol nasceria novamente e eu seria
libertado. Ou, se no fosse amanh, seria daqui a alguns dias. No momento, eu era como um rato temporariamente preso numa gaiola de um laboratrio cientfico. Estava
ali para alguma experincia, para testar a minha constituio. Todos os grandes homens tinham que passar uma temporada na priso. Isso est em todos os livros de
histria. As prises punham os homens  prova e os fortaleciam.

Alis, no ficaria surpreendido se a minha querida me - e eu me sentia to culpado pela angstia que tinha lhe causado nesta noite - viesse correndo at aqui no
dia seguinte, me trazendo algumas das comidas de que eu mais gostava ou at mesmo alguns livros. Meu av banqueiro, todo sorridente e cheio de orgulho, poderia tambm
vir me trazer alguns jornais, como o New York Times e o Wall Street Journal.

Eu no havia esquecido o meu pai que, sentindo-se tardiamente arrependido por no ter me ajudado logo de incio, j tinha provavelmente planejado tudo para me liberar.
Com seu jeito rgido e srio, viria com seu secretrio para me pedir desculpas. Possivelmente, estava tendo insnia por causa da minha ausncia e devia estar redigindo
o mais sincero pedido de desculpas para vir pessoalmente entreg-lo ao seu filho.

Nenhuma das minhas expectativas tornou-se realidade nem no dia seguinte e nem no outro. Fui deixado ali sozinho sem nenhum contato humano. Minha me no entrou na
cela correndo e chorando. Meu pai no me enviou seu pedido de desculpas, nem mesmo por escrito. E, o pior de tudo, vov Long tambm no se manifestou. O que  que
estava acontecendo? Eles tinham

157

me abandonado. O mundo inteiro tinha se esquecido de mim. Ningum se importava mais com o nico herdeiro das dinastias Long e Xia.

Depois de trs dias inteiros na priso, comecei a sentir falta de ar, o silncio tornou-se enlouquecedor, o desespero se intensificava e a solido invadia todo o
meu ser. Se tivesse que ficar mais um dia nesta antiga fortaleza sem sentir pelo menos uma leve lufada de ar fresco, enlouqueceria.

Por fim, um soldado com cara de cavalo abriu a porta com um molho de chaves que tilintavam e ordenou:

- Prisioneiro nmero 17, vire-se para a parede e coloque as mos para trs.

- Para onde estou indo?

- Detento 17, fique com a boca fechada at que lhe seja dirigida a palavra, ouviu bem?

- O bastante para ficar surdo.

Pegando-me desprevenido, o soldado me deu uma cotovelada e um chute nas costas com suas botas de couro.

- Ai! - grunhi. - Por que voc fez isso?

- Ofensa verbal  uma infrao prevista no artigo nmero nove do regulamento interno da priso.

- Seu animal! Espere s eu sair daqui.

O soldado bateu com as algemas de ferro na minha cabea. Ca no cho, segurando com as mos o ferimento, que sangrava.

- Qual foi a infrao desta vez?

- Na verdade, o regulamento que diz que eu posso encher voc de porrada no existe. Acabei de inventar agora, neste momento.

O soldado me algemou com um gesto brusco e me arrastou atravs do longo corredor, enquanto eu gritava por socorro.

Um enfermeiro foi chamado ao pequeno cubculo da sala de interrogatrio, onde fez um curativo na minha cabea com trs pedaos de gaze grossa. Eu ainda estava fumegando
de raiva quando os meganhas entraram e se sentaram de frente para mim, no outro extremo da mesa.

- Que espcie de tratamento  esse? Quero falar com o meu pai, o general Ding Long.

- Cale a boca e oua - disse um deles.

- No vou mais calar a boca! Sou inocente. No fiz nada de errado. Deixem-me sair daqui! Tirem essas algemas de mim! - exigi.

- Meu jovem, o negcio talvez seja um pouco mais complicado do que isso.

- Complicado por qu? Voc no vai poder mencionar nem ao menos um crime que eu tenha cometido contra o povo!

- Voc  um rapaz inteligente. Por que no conta pra gente o que aconteceu?

- No tenho nada para contar.

- A confisso vai atenuar a sua pena, e a mentira s vai servir para aumentar a sua culpabilidade. Voc deve conhecer muito bem o nosso cdigo penal, sendo filho
de uma grande famlia revolucionria.

- No tenho nada para confessar.

- Bem, se no confessar e no nos contar a verdade agora, talvez tenhamos que entreg-lo s autoridades de Hong Kong e deixar que o Tribunal Criminal Internacional
se encarregue do caso.

- Seria timo se vocs fizessem isso. Eu sei que os juizes desse tribunal concordariam que Miss Yu merecia a liberdade e no a priso ou um campo de concentrao
na Sibria chinesa.

- Meu jovem, voc no est entendendo direito.

O mais alto deles estendeu o brao e jogou uma foto na mesa diante de mim.

- D uma olhada nessa moa e me diga a verdade.

Era uma foto horripilante de uma moa cada numa poa de sangue, com um buraco enorme na testa.

- Quem  ela? - perguntei. v

- Virgin!

- Ela est morta? ,,    ' Senti nuseas.

- Completamente.

- No, no pode ser!

- O mdico legista confirmou que a hora do bito foi quando voc esteve com ela pela ltima vez, lembra?

- No, no... Comecei a tremer.

- Temos uma foto sua copulando com ela, e o legista confirmou a presena do seu smen escorrendo em abundncia da vagina da moa.

159

Minha cabea ficou quente como se eu estivesse com febre alta, meus braos ficaram dormentes, meu pescoo enrijeceu.

- Quem fez isso, quem faria tal coisa com ela?

- J encontramos o nosso suspeito. O homem sorriu, triunfante.

- E acreditamos que ele tenha agido sozinho.

- E quem  ele? , >

- Voc! ,,

- Eu?

- Sim, voc. Ns tambm encontramos a arma que foj( usada para

mat-la.

- No, eu no fiz isso!

A acusao abriu subitamente um claro na minha cabea. Eu j tinha ouvido falar muitas vezes como uma pessoa inocente podia ser forada a confessar um crime que
no havia cometido. Sou forte e no vou deixar esses safados virem com essa para cima de mim.

- Isso  uma grande mentira. Eu no fiz isso! Pelo contrrio, eu a libertei e a vi entrar no trem. Vocs no vo me implicar neste caso. Eu a amava e ela me amava.
Ns fizemos amor. Como pode algum to apaixonado matar o outro?

-Nunca se sabe. Cime? Talvez voc tivesse descoberto que ela no o amava. Descobrimos que ela era uma mulher de vida desregrada, que dormia com qualquer um que
compartilhasse sua crena na democracia. Voc tinha motivo para mat-la porque ela estava fugindo, no das autoridades, mas de voc, e com outro homem. As agresses
verbais ento se transformaram em agresses fsicas. Voc a estuprou e a matou.  assim que interpretamos o caso.

- Seus assassinos! Vocs a mataram! E eu vou fazer com que o mundo inteiro saiba disso. Farei um apelo  mais alta autoridade deste pas para provar a minha inocncia
e vocs sero todos mandados  Guilhotina do Povo. Preciso falar com os meus pais. Deixem-me sair daqui.

- Sinto lhe dizer que no podemos fazer isso, seno o governo de Hong Kong vai nos responsabilizar pela liberao do principal suspeito.

- Deixem-me sair daqui!

Eu nunca havia me sentido to enfurecido assim. Era como se o cu tivesse desabado na minha cabea. Tinha que sair de l. Precisava dos meus pais. . , 160

Pulei da cadeira, mas fui impedido por um soldado. Dois guardas me arrastaram de volta  minha cela. Retiraram as algemas, bateram a porta e a tranca fez um clique
sinistro.

Virgin estava morta. Como podia ser? Como  que Buda pde permitir isso? Como podia aquela perfeio ser destruda por uma reviravolta to cruel do destino? Ser
que foi o meu ato que ocasionou a sua morte prematura? Ela tinha sido yiaozhe, como uma rvore jovem que tivesse seu tronco brutalmente cortado ao meio. E todos
os seus sonhos, que prometiam florir na primavera, tinham cado por terra junto com a rvore. Tudo o que Virgin tinha sido jazia agora na terra para o descanso final,
para apodrecer e virar p.

Permaneci onde eles haviam me jogado, no cho de cimento frio, respirando ofegante, em espasmos, como um animal ferido - eu no era mais um menino. Um tnel escuro
e frio estendia-se diante de mim, ao fim do qual eu no enxergava nenhuma luz, apenas trevas cada vez mais escuras, me puxando e me sugando para dentro e para baixo.

Acordei com uma luminosidade tnue na cela. No consegui me lembrar por quanto tempo eu tinha dormido. Devo ter chorado, porque a gola da minha camisa encardida
estava ensopada. Havia manchas de sangue nela. O rosto de Miss Yu aparecia na minha mente. Seus lbios quentes, suas mos macias... Seus olhos sorriam e choravam,
brilhando atravs das lgrimas.

Eu me sentia exaurido pelas emoes mrbidas que me consumiam por dentro. Minha cabea, to gil e to esperta, estava entorpecida e cansada. A desesperana intensificou
a saudade que eu sentia da minha famlia. Devia haver um motivo do tamanho do Yang Ts para que eles ficassem tanto tempo longe de mim. Mas qual era? A falsa acusao
deve ter trazido nuvens escuras que agora pairavam sobre a cabea deles.

Mais um dia passado na escurido, no silncio, no desespero. Tudo o que podia fazer era me sentar, dormir, pensar e chorar. Sabia que no tinha feito nada de errado,
mas agora entendia aqueles que confessavam crimes que no tinham cometido simplesmente porque precisavam respirar, comer e se sentir vivos. Este pensamento fez com
que eu me encolhesse todo e sentisse calafrios. Para me aquecer um pouco, levantei-me da cama e comecei a fazer flexes. Uma, duas, trs, quatro... Eu ainda conseguia
fazer cinqenta. Meus msculos ficaram doloridos e minha respirao ficou ofegante, mas me senti melhor depois do exerccio. Quase me senti novamente como era
antes. Minha energia voltou e, com isso, tambm a minha convico de manter a cabea fria e de ficar alerta. Como era maravilhoso estar vivo aos
17 anos! Eu tinha certeza de que seria ainda melhor aos vinte, aos trinta, e a cada dcada que se passasse depois disso. Eu no queria que minha vida acabasse ali.
Queria continuar para sempre, para sempre...

No nono dia, o mesmo guarda com cara de cavalo me levou novamente  sala de interrogatrio. Minha mente estava lcida, mas permaneci com os olhos baixos, movimentando-os
mais lentamente. Colocaram uma folha de papel diante de mim. Algum j tinha comeado a escrever uma confisso, e tinha at mesmo iniciado a primeira linha com "Meu
nome  Tan

Long...".

- Voc sabe para que serve este papel? - perguntou o oficial.

- O senhor poderia repetir a pergunta?

-  uma confisso. Voc pode confessar agora e depois pode ir para casa, de volta ao seu maravilhoso lar.

- Minha casa... Quero ir para casa.

-  claro que sim.

- E o que eu devo escrever aqui?

- Que voc matou a garota de Hong Kong por cime. Que teve relaes com ela. Ela no pediu, mas voc a forou contra sua vontade porque ela era sexy e o vestido
dela era muito curto.

O oficial riu descaradamente.

- Mais alguma coisa? - perguntei pausadamente, corno se minha lngua estivesse enrolada demais para se movimentar na velocidade normal.

- Adicione tambm alguma coisa que o seu pai ou o seu av tenham feito para ajudar voc a matar a moa.

Meu corao se acelerou. Eles no s queriam me pegar, mas queriam envolver minha famlia tambm.

- Mais alguma coisa?

- No, isso  tudo por enquanto.

- Posso comear a escrever?
O oficial fez que sim com a cabea.
Peguei a caneta e comecei a escrever.
Depois de alguns minutos, virei a folha de cabea para baixo e levantei-me da cadeira.
- Posso voltar para a minha cela?

- Claro, se voc tiver terminado a sua confisso.        .>   -

163

- Terminei, e vocs vo gostar muito dela.

Enquanto estava sendo levado de volta  cela, os trs oficiais leram o que eu tinha escrito. No era bem o que eles queriam. No papel, eu tinha desenhado um enorme
pnis com dois colhes, acompanhado por trs palavras bem picantes e explcitas: "Vo se foder!"

Eles no acharam nem um pouco engraado.

Desde que tinha chegado  priso, aquele foi o primeiro sorriso que consegui esboar. Era uma pequena vitria, mas serviu para provar que eu ainda estava vivo e
que tinha inteligncia e humor.

Naquela noite, foram me pegar na cela e me empurraram para dentro de uma sala de tortura. Havia vrios chicotes pendurados na parede. Um homem sem camisa e com o
peito cabeludo dava longas tragadas num cigarro grosso, enrolado  mo. O lugar tinha um ar suspeito e cheirava a sangue. Mas no fui chicoteado. Em vez disso, tiraram
a minha roupa e me penduraram pelos dois polegares, com os ps mal tocando o cho fedorento e ensangentado.

- Nos velhos tempos, ns faramos de voc um eunuco. Mas vamos experimentar alguma coisa nova.

O homem peludo me agarrou por trs. Um outro homem se apresentou como sendo o mdico. Ele se inclinou e agarrou o meu pnis. Na mo direita, segurava um pedao de
arame com a ponta afiada.

- O que  que voc vai fazer? - berrei.

- Vou fazer voc sentir um pouco de dor para ficar mais sabido. Em vo, dei chutes no ar e esperneei, sem nenhum resultado. O homem

do peito cabeludo era um gigante de fora.

O mdico mirou e enfiou o arame na minha uretra, como um acupunturista, e girou o arame l dentro. Eu corcoveei com a dor que disparou direto da minha virilha at
o meu corao. Mas o horror do que estava acontecendo ainda era o pior de tudo. O arame girou novamente. Gritei. Nunca tinha sentido uma dor to lancinante. Debati-me
e tentei chutar. O diabo do mdico rodou o arame uma terceira vez, e foi to fundo que atingiu a base do meu sexo, queimando como fogo.

- Confesse agora!

- No tenho nada para confessar! O arame girou novamente. Urrei de dor.

- No tenho nada para dizer!

- E agora?

O mdico remexeu e cutucou o interior do meu sexo com o arame, enviando choques eltricos por todo o meu corpo.

- Por favor, pare com isso - solucei.

- Voc tem alguma coisa para confessar?

- No...

O mdico deu mais algumas cutucadas com o arame.

- Sim!

- E o que  que voc fez?

O mdico girou o arame e o enfiou ainda mais fundo. O sangue comeou a escorrer do meu pnis.

- Eu confesso! Matei a Virgin...

Sem retirar o arame, desamarraram-me e puseram uma caneta na minha mo direita. No papel, manchado com o meu prprio sangue, escrevi uma confisso que eu nunca imaginaria
que fosse capaz de fazer. Quando tive um momento de hesitao, o torturador movimentou o arame novamente. Foi quando meu ltimo resqucio de fora de vontade caiu
por terra.

CAPTULO 17

MEU QUERIDO SHENTO, MEU CORAO, minha alma:

Estou escrevendo estas palavras, no para que voc as leia, mas para que sua alma as sinta.  um pedido de perdo. Perdo  uma palavra muito leve, e est longe
de conseguir aliviar o peso da minha culpa.  um pedido de perdo carregado de tristeza, um pedido de perdo indigno e ignbil.

Fui eu, maldita seja eu, que desviei voc do caminho da vida e o condenei morte ainda to jovem. Eu devia ter avisado. Ou melhor, o meu criador, seja l quem for,
 que deveria ter avisado ao mundo sobre a minha chegada, minha chegada amaldioada a este mundo.

Certa vez uma vidente me disse que ela via trs facas assassinas e ensangentadas no meu destino. A primeira delas estava destinada ao meu pai. Ele aceitou o seu
destino corajosamente quando foi executado, baleado na nucapor um soldado de uniforme verde, o agente do meu destino. Uma testemunha da ocorrncia relatou que o
crebro do meu pai se esfacelou em mil pedaos que se espalharam por sobre o uniforme do carrasco, fazendo com que seu peito ficasse todo vermelho, como se o assassino
tambm estivesse sangrado. A segunda faca foi cravada no corao de minha me. Foi o agente de segurana da Comuna que executou este ato. Minha me havia censurado
os lderes comunistas por166


167

terem erroneamente rotulado ela e seu marido de "direitistas". Quem semeia ventos, colhe tempestades. Eles escolheram par a ela uma morte lenta e dolorosa, deixando-a
agonizar com o sangue jorrando da boca at ela se engasgar com seu prprio fluido vital.

A vidente me disse que a razo de eu ter nascido para carregar no meu destino as trs facas era alguma dvida obscura, oculta nas vidas passadas dos meus pais. Todos
temos um ciclo de nove vidas, cada uma delas representando uma recompensa ou uma punio pela vida anterior, conforme as boas aes realizadas ou os pecados cometidos.

Eu, a portadora das facas, seria o anjo da bondade, pois deveria salvar as almas condenadas dos meus pais.

Eu tinha seis anos de idade. Acreditava naquilo. Substitu as lgrimas da culpa por esta convico. Depois, cresci, vivendo esta vida desgraada no orfanato. Uma
clareza me iluminou, a clareza que vem com o sofrimento - o sofrimento que nos fortalece. Questionei a sabedoria, a lgica doentia, a escolha aleatria, a insensatez.
Eu no era a portadora escolhida daquelas facas assassinas. No! Como poderia ser isso? Se as pessoas pudessem saber como eu amava meu baba e minha mama, e como
sentia saudade deles, mortos to brutalmente, pouco depois de terem me dado a vida. Ah, maldito seja o criador! Malditos sejam os cus! Maldito seja voc, Buda sorridente!

Ento voc apareceu e - ah!-como me deu foras! s vezes, eu me sentia inundada pela sua luz, pelo seu calor, fazendo com que eu me sentisse segura, ou pelo menos
assim eu acreditava que fosse.

Sonhei com uma vida ao seu lado. Voc era uma das rodas da carreta e eu, a outra. Juntos, lado a lado, superaramos os altos e baixos da nossa estrada, suportando
qualquer carga que a vida nos impusesse.

E ento, naquela noite fatdica, quando meus gritos de pavor rasgaram o silncio do campus, meu modesto sonho tambm ficou em pedaos.

Foi naquela noite fatdica que voc os matou.

Foi naquela noite fatdica que voc foi embora.

Foi naquela noite fatdica que uma outra vida comeou a se agitar nas profundezas do meu ventre.

Meu amado, agora voc j est avisado. Se voc j se foi deste mundo, agora deve saber quem  realmente o assassino - sou eu. Sim, aquela que tanto o adora. Por
eu o amar tanto, voc foi escolhido para receber a terceira e ltima faca do destino manchado de sangue. E, como relata a Antiga Crena, no fui

eu, a portadora da faca, a culpada, mas foi voc mesmo. O pecador engendra o seu prprio castigo. O que foi que voc fez em sua ltima vida para merecer este golpe
da ira divina? O que foi que voc fez, meu querido e maldito amante,

meu corao?

Mantenho os olhos bem abertos, todos os dias, observando o mar. Meus ouvidos nunca se fecham, ouvindo sempre o barulho das mars e o sopro do vento. Nenhum corpo
apareceu boiando na superfcie do mar. Nenhum osso foi trazido  areia da praia. No entanto, existem mares alm deste mar, e praias que ficam muito alm destas praias.

Onde est voc, meu amor?

Onde est voc, meu Shento?

Sumi

CAPTULO 18

MAL CONSEGUI ABRIR os OLHOS DIANTE do sol ofuscante. Eu queria abralo por inteiro com os meus braos doloridos como se estivesse vendo um velho amigo. Tinha esperado
muito por este momento. Uma eternidade que durou dez dias.

Mancando e sentindo muita dor, afastei-me da fortaleza. Minha me correu ao meu encontro, com um leno azul na cabea e culos escuros cobrindo os olhos.

- Me! - disse eu em voz alta, apertando o passo pela estradinha de paraleleppedos para encontr-la. Cada passo que eu dava desencadeava uma dor aguda dentro de
mim, causando fisgadas insuportveis na minha virilha. A leso no meu canal urinrio foi grave e a infeco que se desenvolveu tornou o ato de urinar um castigo
intolervel e sangrento.

- Me! - gritei com a voz engasgada, enfraquecido pela dor.

- Tan, meu querido. Sua voz estava rouca.

Ficamos abraados e em silncio. No havia necessidade de dizer nada. O que no foi dito foi compreendido. O que precisava ser dito j tinha sido percebido. 170

O motorista, vestido com o uniforme verde do Exrcito, buzinou al-

gumas vezes.

- Vamos logo! - bradou ele.

Olhei por cima do ombro de mame, estarrecido com a sbita grosseria do soldado que estivera trabalhando conosco durante os ltimos anos.

- No d ateno a isso. As coisas no so mais as mesmas - disse mame. - Em casa a gente conversa.

Entramos no carro. Mame enxugou as lgrimas do meu rosto, fitandome por um bom tempo.

- Tudo vai ficar bem daqui por diante, meu filho.

Ela me fez um sinal para ficar calado, apontando com o dedo indicador para o soldado que estava ao volante.

Franzi a testa. Alguma coisa de muito alarmante estava acontecendo. Minha me, a rainha de Beijing, estava com medo de qu? E por qu? No tive que esperar muito
tempo para obter a resposta.

O sentinela na entrada de Zhong Nan Hai no nos cumprimentou. Pelo contrrio, cuspiu no cho ao nos ver e assobiou para os seus camaradas dentro do quartel. Um peloto
de soldados se espremeu nas janelas do alojamento, rindo e espiando com curiosidade. Mame desviou o olhar. O jardim, com os salgueiros que danavam ao vento e o
lago tranqilo, estava tomado pelas folhas compridas de capim. O mato, sempre muito bem podado pela tesoura zelosa do velho jardineiro, agora brotava em todas as
rachaduras e tinha at mesmo rastejado por sobre os sulcos que delimitavam os canteiros de lrios e rosas, invadindo-os. Os gansos bicavam os brotos das penias
e, no lago, que antes era um osis, agora havia lixo e garrafas boiando na superfcie. O carro parou, mas ningum veio abrir a porta para ns. O motorista permaneceu
sentado ao volante, acendeu um cigarro, e deixou que a fumaa tomasse conta do interior do veculo.

- Vou chamar algum para ajudar voc - disse mame, saltando do carro.

A rainha da alta sociedade de Beijing fazendo tudo sozinha em sua prpria manso! Era degradante.

Ela trincou os dentes e me puxou para fora do carro com uma fora que eu no sabia que ela possua.

- Meu velho, venha buscar o seu filho! - disse ela em voz alta quando entramos em casa. .. <

171

Para minha surpresa, encontrei papai abatido, com a barba por fazer e sem uniforme, vestindo apenas uma camisa branca, a cala verde-oliva, e calando sandlias.
Sua cabea estava curvada e seus olhos, semicerrados, como se temesse a luz do sol.

- Pai!

Dei um passo  frente. A onda de amor que tomou conta de mim me fez esquecer a dor que eu sentia entre as pernas, e tropecei. Papai apressouse escada abaixo ao meu
encontro. Eu nunca o tinha visto antes com uma aparncia to envelhecida e cansada. Ser que estava doente?

- Meu filho, bem-vindo de volta ao lar.

O toque das mos de papai ainda era firme como o de um soldado. Eu me encolhi. Ele me olhou preocupado, detendo-se com o olhar aqui e ali, como se tivesse localizado
alguma coisa de diferente ou fora do lugar.

A pele do seu rosto, antes bem esticada, agora estava flcida. Seus olhos j no possuam aquele brilho que era como a chama de uma fogueira - estavam injetados,
reflexo de um estado de esprito inseguro e perturbado. O general Long, que h apenas alguns dias era um monumento de dignidade e de princpios, tinha desmoronado
e estava reduzido a um espectro, assombrado por suspeitas e dvidas.

- Pai, voc est doente?

- No, estou bem.

Conseguiu esboar um leve sorriso, sombreado por uma pitada de

constrangimento.

- E voc? Estivemos todos to preocupados com voc!

- Eu estou bem. Estou muito bem.

Percebi que tinha a obrigao de parecer alegre e bem disposto, apesar de no saber exatamente por qu.

- Pai, sinto muito por ter causado problemas a voc e a toda a famlia.

- Meu filho, vamos entrar e conversar l dentro.

Ele conseguiu dar mais um dbil sorriso, muito aqum da sua habitual gargalhada retumbante, que agradava aos homens e encantava as mulheres, e ajudou-me a subir
as escadas at o seu escritrio, enquanto mame me amparava pelo outro lado.

Quando a porta se abriu, vi uma cena que jamais esperei ver. Todos os mveis estavam amontoados numa das paredes e uma dzia de bas estavam empilhados uns sobre
os outros. . (
172


- Vamos nos mudar desta casa? E quem so estas pessoas? - perguntei ao ver cinco jovens soldados trazendo mais coisas para dentro do escritrio.

- Vamos at a sala de msica na ala oeste - disse mame.

- Quero ir para o meu quarto.

- Ele est vazio. Ns pusemos tudo o que era seu dentro dos bas. Verifiquei para que nada fosse deixado para trs.

- Estamos sendo despejados por causa da minha confisso?

- Meu filho, a situao  bem mais complexa do que isso. Sentados no escritrio, papai fungou e estava com a voz fanhosa, o que

me espantou.

- Por favor, contem-me o que aconteceu - pedi.

- Talvez seja melhor voc ler isso.

Papai me entregou o People's Daily. Na primeira pgina, em letras garrafais, a manchete alardeava: COMANDANTE-EM-CHEFE, GENERAL DING

LONG, RENUNCIA AO CARGO.

O sangue me subiu  cabea. O escritrio rodava.

Meu pai renunciou ao cargo? O mais promissor jovem general do Exrcito chins?

- Papai, sinto muito. Foi tudo minha culpa.

- No foi, no. Voc foi s o estopim da coisa. Camos em desgraa aos olhos de Heng Tu. Tem havido uma guerra declarada contra ns esse tempo todo - disse papai.

- Que guerra?

- Leia a manchete seguinte.

Passei os olhos pelo jornal e exclamei, ofendido:

- Eles esto dizendo que o vov deu um desfalque de vinte milhes de dlares?  mentira! Vov nunca faria uma coisa dessas. Como  que podem ter posto a culpa nele?

- Pois eles o fizeram, apesar de o dinheiro ter possivelmente sido desviado h muito mais tempo. No havia nenhuma auditoria sistemtica no Banco - disse minha me.
- Mas o motivo  muito simples: seu av no concordou com algumas das polticas reformistas de Heng Tu e isso no agradou a ele.

- Mas por que voc teve que renunciar ao cargo? - perguntei a papai. Ele ficou em silncio, olhando pela janela.

173

- Seu pai renunciou ao cargo para salvar a sua vida e a do seu av - disse mame. - Eles estavam ameaando extraditar voc para Hong Kong para ser julgado l e tambm
prender o seu av pela acusao infundada de desvio de verbas.

- No sei como agradecer, papai - exclamei. - Voc desistiu da sua vida e da sua carreira por mim.

Ele sorriu.

- Lembra daquele poema que diz: "Montado nos ombros de seu pai como se fosse um cavalo"?

- Claro que sim! "Na esperana de que seu filho um dia se torne um drago" - conclu o poema.

- No precisa me agradecer, meu filho. Basta apenas que voc realize os meus sonhos.

- E que sonhos seriam esses?

- Os seus sonhos  que vo definir os meus - respondeu papai. Com a garganta apertada pela generosidade do seu amor, fiz um esforo

para me levantar e o abracei novamente.

Algum bateu  porta. Era o vov Long, com uma roupa caqui e um cachimbo pendurado na boca, um novo acessrio para compor a sua imagem de grande banqueiro. Ele correu
na minha direo, me abraou, e me deu dois beijos no rosto.

- Vov, me desculpe.

- No precisa se desculpar. No vamos mais falar sobre este assunto desagradvel. Estamos indo embora daqui. Vamos nos mudar para Fujian.

- Por que Fujian?

- Porque foi onde meu av viveu e morreu. Vamos morar na antiga propriedade rural da minha famlia.

- E quando  que vamos para l?

- Assim que voc estiver em condies de viajar - disse mame.

- Ah, meu neto, tenho tanta coisa para lhe mostrar na minha cidade natal!

Aquele homem de cabelos brancos estava entusiasmado como uma criana. Papai sentia-se aliviado e estava radiante. Mame ficava tocando no meu corpo aqui e ali, com
lgrimas nos olhos.

Depois de um repouso de duas semanas, a infeco foi debelada e o meu andar voltou ao normal. Agora, estava preparado para enfrentar a viagem
174

de trs dias para o sul do pas. Na hora da partida, os antigos empregados, remanescentes dos tempos da revoluo, foram embora de manh bem cedo, sem nem ao menos
se despedir, transferidos e realocados para servirem a outros revolucionrios importantes.

Ajoelhei-me no meu quarto por um breve instante, no para me entregar a reminiscncias e nem por um sentimento de nostalgia, mas para me despedir da minha infncia.
Adeus, Zhong Nan Hai, nmero 16.

Perguntei sobre o colgio. Mame me disse laconicamente que tinha recebido uma carta do diretor comunicando a sua deciso de no me aceitar de volta, sem dar nenhum
motivo para isso. No havia necessidade de nenhum motivo.

Os prmios que eu tinha conseguido e o trofu de bronze do time de futebol - o primeiro do gnero na histria da escola - seriam retirados das prateleiras. No haveria
mais nenhum vestgio de um rapaz chamado Tan Long. Para todos os efeitos, eu nunca tinha nem sequer andado pelos corredores da venervel escola. Meus dedos nunca
tinham passeado pelas obedientes teclas de marfim daquele antigo e melodioso piano Steinway que ficava no palco do auditrio.

Eu me sentia como um estranho. Se a vida fosse um espelho, minha imagem teria me chocado. Agora eu era uma pessoa ressentida, consumida pela culpa de ter causado
mudanas catastrficas naquela vida que eu conhecia to bem. Nada mais era certo e seguro, muito menos eu. A minha fortaleza - ou melhor, a suposta fortaleza do
poder, da riqueza e do privilgio - tinha rudo, como um pagode que houvesse desmoronado num cho de areia. Finalmente entendi que tudo aquilo que era impossvel
de acontecer tinha se tornado possvel.

Meu pai, o poderoso dos poderosos, tornou-se de repente apenas um pai amoroso, separando algumas relquias dos seus velhos tempos de chefia, tentando pr coisas
demais dentro do espao limitado de um ba. Mame, um furaco de temperamento difcil, a intocvel rainha da elegncia, estava sentada num canto da sala, batucando
com os ps no cho, esperando impacientemente que o transporte chegasse. Ela vestia uma cala caqui bem confortvel e adequada  longa e cansativa viagem que teramos
que enfrentar num trem superlotado e cheirando a morrinha, segundo suas palavras. Mas, no fundo, eu sabia que ela estava vestida daquele modo para no se destacar
do restante dos passageiros. Aquela no era uma ocasio em que

175

quisesse ser notada. Queria passar despercebida. De uma hora para outra, ela desceu da Lua e pousou na Terra.

Meu av, que j tinha visto as suaves ondulaes das montanhas da Inglaterra e a Trinity Church em Wall Street, estava sentado na escada, enroscando os fios de sua
barba, balanando-se levemente ao ritmo do relgio antigo. No havia nele nenhum sinal de preocupao. Pouco se importava se a reserva de moeda estrangeira de seu
pas tinha cado a um ponto assombrosamente baixo ou se o governo talvez nunca fosse conseguir se recuperar de seu dficit oramentrio avassalador. Ele era o velho
sentinela pronto para fazer a ronda na areia das praias de Fujian. Seu nome poderia ainda estar na nota de dez iuanes, mas sua cabea estava muito longe, na casa
onde ele tinha passado a infncia. Ele sorriu, balanou o corpo e esperou. Parecia que no tinha perdido nada.

Uma van do Exrcito, normalmente usada para entregar as compras na residncia dos Long, finalmente chegou. Mame levantou-se de um salto, batendo palmas. Sentei-me
nos bancos duros junto com minha famlia. O motorista no nos cumprimentou, nem mesmo com um "oi". Assobiando, pisou no acelerador, dando guinadas bruscas e cantando
pneus pela estrada esburacada que conduzia  estao ferroviria. Mame exibia um sorriso forado e tolerante. Em outros tempos, teria repreendido o motorista se
ele, acidentalmente, deixasse o carro passar por um buraco. Agora, na viagem mais cheia de solavancos que eu j tinha feito, mame sorria contente. Ela se segurava
em papai, enquanto eu escorava o vov, que cochilava e deixava a cabea cair para a frente. Ele era a paz e a calma em pessoa.

Quando estvamos nos aproximando da estao ferroviria de Beijing, virei-me para mame e perguntei:

- Mame, por que  que voc est se sentindo to feliz em deixar tudo isso para trs?

- Meu querido filho, estou feliz por ter todos vocs perto do meu corao. Nada mais tem importncia agora.

Ela sorriu, e suas lgrimas brilharam  luz da tarde. "

Shento

CAPTULO 19

DUAS SEMANAS DEPOIS DE TER RETORNADO  Ilha Nmero Nove, fiquei chocado ao saber da renncia do general Ding Long e da exonerao de seu pai banqueiro. Apesar de
ter vibrado com a notcia, fiquei frustrado pelo fato de algum ter me privado do prazer de me vingar do homem que me gerou e me abandonou. Senti um alvio, porm,
ao saber que Ding Long ainda estava vivo. Assim, no dia em que eu escolhesse, ele seria justiado pelo seu filho renegado. Fiz uma saudao ao retrato do presidente
Heng Tu pendurado na parede e disse em voz baixa:

- Voc foi o meu vingador involuntrio.

Um ano depois da minha chegada, que caiu no dia do Festival da Lua - 15 de agosto, dia em que se celebra a deusa lunar do amor -, sentei no meu ponto predileto da
ilha, uma pedra plana voltada para o Oeste, onde o pr do sol pintava o mar de mbar. O cu daquele lado da ilha me fazia sonhar. Meus pensamentos voaram para Sumi,
que estava no Sul, onde o mar Amarelo se encontra com o mar do Sul da China e as guas passam de uma colorao parda a um azul profundo. Pensei na minha querida
Sumi e no seu cabelo negro, escorrido e brilhante, segurando seus livros, com a cabea apoiada na mo, enquanto lia e pensava em mim. Lembrei-me de178

como ela estava sempre mergulhada em seus pensamentos, com aqueles grandes olhos fitando o horizonte. Ela era a minha lua recatada.

Ser que ainda era a noiva que me foi prometida naquela noite inesquecvel? Ser que eu ainda era o seu marido, os dois unidos em matrimnio pelo ato do amor? Onde
ela estaria agora? Pensar que ela poderia estar nos braos de outro, amando outro homem, me dava um aperto no peito. Eu achava que, se ela ainda fosse to bonita
como sempre foi (o que era de se esperar) e tivesse se desenvolvido com o tempo, tornando-se uma mulher cheia de curvas e sensualidade, agora deveria estar rodeada
por todo tipo de homem. Se eu no estivesse por perto e, principalmente, se ela achasse que eu tinha morrido, poderia muito bem se apaixonar novamente, mesmo sem
querer. Faria isso devido a um enfraquecimento de sua fora de vontade, rendendo-se  tentao. O que eu poderia fazer ento? Minha cabea estava a mil por hora
em busca de uma resposta, e nenhuma delas vinha de uma forma que no fosse de natureza criminosa.  claro que eu teria que matar esse amante. Em meio a estas cogitaes,
saquei minha arma do coldre e atirei numa gaivota que passava. O pssaro caiu rodopiando do cu, soltando grasnidos de mau agouro e perturbando o silncio que reinava
no cume da montanha.

- Eu detestaria ser aquele pssaro - disse o sargento La, pondo a mo no meu ombro. Num salto, fiquei de p e fiz uma grande reverncia ao meu instrutor.

- Peo desculpas, mestre.

- E por que razo? Alguma coisa deve ter feito voc ficar com raiva.

- No foi nada disso... Estava s usando o pssaro como alvo.

- Duvido. A professora de dana no deve ter conseguido mudar voc tanto quanto eu imaginava. Est sentindo saudade de algum l do Sul?

- Como o senhor adivinhou?

- Conheo esse olhar. Tambm j me apaixonei, mas ela se casou com o meu melhor amigo.

- E o senhor sente falta dela?

- No, mas sinto falta dele. As mulheres so como flores que brotam da terra. No importa onde voc esteja, l esto elas, e cada uma  diferente das outras. Mas
os grandes amigos so difceis de encontrar. Deixe disso, Um homem como voc pode ter todas as mulheres que seu corao desejar. Tire essa mulher da cabea. Corte
todos os seus relacionamentos do passado.

179

Dedique a sua mente e a sua alma ao grande lder. Transforme-se na Adaga Afiada que est predestinado a ser. O seu futuro - um futuro brilhante - est ao seu alcance.

Suas palavras me acalmaram e aquela promessa me aquietou. Tenho que trabalhar com afinco, pensei com os meus botes, para que um dia possa cumprir o pacto que fiz
com Sumi de encontr-la novamente, agora como adulto, homem feito, um homem com substncia e coberto de glria

 CAPTULO 20

1979

BAlA LU CHING, FUJIAN

O SOLAR DOS LoNG ERGUIA-SE grandioso como uma divindade local, de frente para o mar, ao p das colinas de contornos arredondados da Baa de Lu Ching, cobertas de
flores do campo em formato de sinos, de pagodes e de gongos, algumas do tamanho de um chapu de palha, outras to pequenas como as patas de uma formiga. Suas cores
tinham a variedade do arco-ris que tantas vezes enfeitava o cu azul depois de uma sbita pancada de chuva. Algumas tinham cores vivas e brilhantes de um dia de
vero tropical. Outras eram discretas e melanclicas como um lago tranqilo no alto de uma montanha.

Era difcil definir se a casa fazia parte da encosta do morro ou se as flores eram uma extenso da casa. Em plena harmonia, uma comeava onde a outra terminava,
em total entrega. O lugar tinha um perfume permanente que se misturava com o cheiro do solo rico. Mas aquele aroma permanecia no ar apenas quando no havia nenhuma
brisa e quando nada no universo se movia, o que era um fenmeno passageiro, pois em Fujian, terra do mar e da montanha, quase nunca as coisas se mantinham imveis.
Vida  movimento e o movimento reala a vida.

Ao meio-dia, quando o sol fulgurava a pino e sem sombras, as ondas perseguiam galantemente a areia branca das praias da baa. Siris vermelhos
183

de grandes patas e corpos diminutos corriam furtivamente para dentro de suas tocas, no ousando voltar  praia at que a lua se erguesse por sobre a mar vazante.
Pequenos camares pululavam na alegria do sol e depois eram levados pela gua de volta ao nascedouro ondulante que era o mar azul.

As mars produziam um vento suave que fazia as folhas das palmeiras farfalharem. Estas, por sua vez, traziam o rico aroma para a terra, empurrando-o morro acima,
para alm dos cumes, subindo as montanhas da regio oeste, onde os tigres vagavam e os macacos lanavam seus gritos.

Na varanda espaosa, de olhos fechados, vov estava sentado numa cadeira de bambu aspirando o primeiro sopro da brisa do meio-dia, como se estivesse absorvendo o
esprito da deusa Mazu que, na mitologia local, cuidava dos pescadores que flutuavam em suas pequenas sampanas, na superfcie agitada do oceano.

- Ostras... no... camares grados e enguias... sim Ah, aqui esto eles, os mexilhes, daqueles pequenos e coloridos que voc suga depois de quebrar suas caudas
- disse vov animadamente, analisando as criaturas do mar com o seu nariz. Depois, abriu subitamente os olhos e declarou aborrecido: - Agora o vento mudou e s sinto
o cheiro do lodo.

Vov era novamente um menino da aldeia. Sentir o cheiro do mar era para ele um ritual dirio. Sua autonomeao como homem do mar e filho das montanhas fortalecia
sua deciso de tornar-se um recluso, sem se importar com a vida, sem se importar com nada. Mas isso mudou poucos dias depois da nossa chegada, quando a famlia acordou
ao som da banda de msica folclrica local - o ldia-dia" da trombeta de bionze, o "gu-gu" da flauta de bambu, o "wa-wa" de um erhu, o violino de duas cordas, o
"ta-ta" dedilhado do pipa, o "cuan-cuan" penetrante de gongos do tamanho de panelas woks, e o "tum-tum" dos tambores feitos de couro de bfalos da regio. Enormes
varas de bambu estalavam como foguetes e morteiros. Nas rvores prximas, os pssaros alavam vo de seus ninhos.

--  filho dos Long, que h muito tempo no vemos por aqui, por favor, chegue at a porta para aceitar nossas boas-vindas - disse em voz alta um homem gordo de cerca
de cinqenta anos, liderando o que parecia ser a aldeia inteira num cortejo organizado em duas colunas.

Vov alinhou a famlia na varanda e ns todos fizemos reverncias ao povo da aldeia, que tambm fazia o mesmo. Esfreguei os olhos, ainda no totalmente desperto,
quando o homem se apresentou. >,

- Meu nome  Fu Chen, e sou o lder da aldeia. Estamos muito honrados que o senhor tenha escolhido se aposentar em sua cidade natal. Estamos aqui para lavar seus
ps - declarou ele com muita sinceridade, fazendo reverncias o tempo todo.

- No precisa - disse vov, meio mal-humorado, e inclinou-se ainda mais do que o homem gordo.

- Precisa sim. Sou neto dos Chen. Meu av cuidava dos porcos da fazenda Long.

- E eu sou bisneta dos Tang, que administravam o stio da regio oeste, prximo ao rio. Minha famlia inteira foi alimentada pelos seus antepassados - disse uma
velhinha sem dentes. Ela vestia uma blusa vermelho-fogo e limpava as mos continuamente no avental.

- Ns somos descendentes dos Liang, os pescadores que alugavam as redes de pesca de sua famlia - disse um rapaz forte, bronzeado pelo sol implacvel do mar.

- Silncio! - anunciou o lder gordo, antes que todo o restante da vila continuasse se apresentando. - Agora daremos incio  cerimnia do lava-ps.

Pegou um balde cheio de um vinho local de cor marrom-escura, conhecido como Fujian lao jiu, e o despejou sobre os ps de todos os membros da minha famlia. O cheiro
ativo da bebida fermentada atacou as minhas narinas como se fosse uma vingana, e a textura grudenta do lquido penetrou por entre os dedos dos nossos ps.

- Os habitantes daqui acreditam que a melhor forma de dar as boasvindas a um filho da terra  limpar os seus ps da poeira coletada durante a viagem de mais de mil
quilmetros - explicou vov.

- E qual seria a melhor maneira de se despedir de algum que vai embora?

- Tambm  despejar um balde desta bebida nos seus ps.

- E por qu?

 - Para fortalecer os ps, pois eles acreditam que esta bebida espanta o frio dos ossos. Voc conseguiria agentar at mesmo a tempestade mais violenta.

- E o que mais se faz com o laojiul

- As mulheres grvidas bebem um barril inteiro disso para fortalecer o beb e mais outro barril depois que ele nasce. E os siris tambm o bebem para que os homens
possam com-los embriagados e crus. 184

- E tem alguma coisa que essa bebida no faa?

- No.

A msica continuou a tocar e pouco depois comeou a fazer sentido at mesmo para mim. Ela tinha uma sonoridade do tipo iei-iei-ia-ia, repleta da energia e da vida
particulares daquela regio do interior do pas. Tinha o ritmo do mar e o contorno escarpado das montanhas. As melodias floreadas me fizeram pensar nas canes entoadas
pelos animais ocultos na folhagem espessa das colinas, nos sussurros do mar calmo e no troar do oceano quando ele se agitava em tufes encolerizados. Entendi tudo:
a msica, as pessoas que cantavam e a beleza da terra que lhes servia de inspirao. Todos esses elementos eram um sonho, uma vida, uma cano chamada Fujian.

Os habitantes da aldeia trouxeram para a varanda tigelas e vasilhas com o seu melhor tofu (e o mais fedorento tambm), polvo em conserva, macarro de arroz e um
barril de lao jiu. No perguntaram por que a minha famlia havia retornado quela casa. Podia ser que soubessem, mas no pareciam se importar com isso. S se importavam
com o fato de sermos representantes do puro sangue dos Long. Quando se nasce um Long, morre-se um Long, assim como os Chen, os Liu, os Liang e os Chang do vilarejo
permaneciam sempre dentro de seus cls. Podia-se vagar pelos caminhos da vida pelo tempo que fosse, contanto que se retornasse, vencido ou vencedor. Voc era um
bom filho porque tinha honrado a sua terra natal - e seu retorno a ela dizia tudo.

O gordo Chen convidou vov para uma refeio leve que consistia de gua-viva recm-pescada, temperada com fatias de cebola e gengibre colhidos em sua prpria horta.
Os Liang convidaram-no a ir  casa deles para comer mexilhes frescos, dos coloridos, cozidos no fogo de barro construdo sobre o penhasco, na direo do sol nascente.
O pescador Lao perguntou se vov gostaria de comer, ao pr do sol, ostras cruas, apanhadas na hora; eles poderiam sug-las vivas, de dentro de suas conchas. O povo
da aldeia fez tantos outros convites que vov no conseguiu se lembrar de todos.

 tarde, um grupo de mulheres, cantando, fez fila diante da nossa porta com vassouras e esfreges, oferecendo-se para limpar a casa que h muito no era habitada.
Todas estavam vestidas com roupas vermelho-fogo. Quando perguntei qual a razo de tantas roupas vermelhas, elas sorriram timidamente e explicaram:

-  porque somos mulheres casadas.

185

Era um distintivo de honra. Apenas as mulheres casadas podiam se vestir de vermelho. As vivas no tinham essa sorte. As moas em idade de casar evitavam a cor vermelha,
com receio de serem confundidas com as mulheres casadas, afastando assim a visita de possveis pretendentes. As vivas usavam apenas cinza e preto. Elas andavam
pelos limites da vila, falavam apenas em sussurros, nunca encaravam um homem e nem falavam com ningum, a no ser que lhes fosse dirigida a palavra. Eram as sombras
e as trevas, pois os habitantes da aldeia acreditavam que elas haviam contribudo para a morte prematura de seus maridos. Elas  que tinham afundado os barcos dos
seus homens, elas  que tinham feito com que os raios atingissem a cabea de seus maridos, e at mesmo atiado as ondas do mar para afogarem seus companheiros embriagados.
Era sua prpria falta de sorte, e no a falta de um marido, que as fazia serem o que eram. Cobertas de vergonha e humilhadas, elas continuavam a viver para sofrer
e sofriam para viver. Sua prxima chance de sorrir novamente seria quando um filho homem se casasse, se tivessem sorte de ter um. E, durante a cerimnia, as vivas
deveriam se afastar dos que festejavam, pois, mais uma vez, acreditava-se que elas poderiam destruir o que houvesse de bom reservado para seus filhos rfos de pai.
Elas s tinham permisso para alimentar os aleijados, os leprosos, os cegos e os surdos da vila, que apareciam na festa para mendigar uma boa refeio em troca de
uma cano de boa sorte para o casal. Assim era aquele pequeno mundo para onde eu havia me mudado.

Compareci a muitos dos convites feitos ao vov, que agora passava os dias visitando cada casa como se fosse um dever, como descendente que era do cl dos Long que
um dia tinham reinado como os maiores proprietrios de terras e de empresas pesqueiras da regio. Se deixasse de visitar alguma casa, aquela famlia se sentiria
ofendida e guardaria rancor por ter sido menosprezada. A visita podia ser curta, apenas para uma xcara de ch ou para uma tigela de macarro de arroz, mas era a
tradio naquela localidade.

Mame transformou-se numa dona de casa exemplar. Limpava todos os cantos da antiga casa enquanto cantarolava sua sonata de Chopin favorita. Levantava-se com o sol,
vestia seu avental colorido, apanhava gua fresca no poo profundo do quintal, limpava a cozinha e areava o fundo do wok antes de preparar o caf da manh. Caso
eu estivesse l embaixo, na praia, ou do lado de fora da casa, nos campos coberto de flores, sabia que a comida logo estaria pronta quando a chamin soltasse fumaa.
A ento, era hora
186
de voltar correndo, porque, se eu me atrasasse e a comida esfriasse, mame me lanaria imediatamente um olhar severo.

Papai estava tentando encontrar uma nova vida. Ele ouviu dizer que, no muito longe dali, na pennsula de Lu Ching, havia um quartel do Exrcito abandonado que tinha
sido utilizado durante algum tempo como um orfanato, mas o governo cortou as verbas e o estabelecimento foi fechado. Papai estava interessado em explorar a possibilidade
de montar uma empresa no antigo complexo. Alguns funcionrios da municipalidade lhe informaram que ali tambm havia uma fbrica de atum enlatado que poderia estar
 venda. Ser que deveria pesquisar sobre isso? Mas onde conseguiria o dinheiro para financiar a compra?

Os dias tornaram-se compridos e as noites eram ainda mais longas. Eu estava sentindo falta do meu colgio, mas esta situao no perduraria por muito tempo. Um belo
dia, um homem de quarenta e poucos anos, vestindo uma tnica estilo Mo muito bem arrumada, veio mancando at  nossa porta e se apresentou como o diretor Koon.
Seu sorriso revelava dois reluzentes dentes de ouro, mas seus modos logo demonstraram que ele era um homem instrudo, diferente dos pescadores da vila. Escolhia
cuidadosamente as palavras, talvez com um pouco de cautela demais. Achei engraado conversar de maneira to educada enquanto olhava para o mar e sentia o cheiro
das montanhas.

- Ficamos sabendo que voc est na ltima srie do ensino mdio. Gostaria muito de ter a honra de convid-lo para ser o vigsimo estudante do nosso honrado Colgio
da Baa de Lu Ching.

- Muito obrigada, senhor diretor - disse mame animadamente. Papai e vov tinham descido ao primeiro andar para conhecer o meu

futuro educador. A presena deles deixou o homem nervoso.

- Devo dizer que, apesar de termos o nvel de uma escola oficial, existem lacunas em algumas das matrias principais.

- Por qu? - perguntou mame.

- Bem, muitos professores tiveram que abandonar a escola devido aos baixos salrios e abriram seus prprios negcios. Os senhores entendem, a nova poltica de reformas
do nosso governo est acabando com a educao, apesar de ser uma questo de suma importncia.  por isso que alguns dos alunos nunca se formaram e nenhum deles jamais
ingressou numa faculdade. Mesmo assim, quero estender as mais calorosas boas-vindas a voc

pelo seu comparecimento s aulas - disse ele, olhando para mim. - A nica outra escola fica muito longe, a quilmetros de distncia. Devo dizer, no entanto, que
ela  bem maior do que a nossa.

O sr. Koon baixou os olhos, fitando os prprios ps.

- Sinto muito ouvir isso. Como  que vocs poderiam compensar essas matrias importantes que faltam? - indagou mame, interessada no assunto.

- Bom, precisamos de mais professores. *,

- E vocs tm? >

- Um.

- E, com o senhor ento, so dois?
- perguntou ela.

- No, sou s eu mesmo.

- S o senhor?

- Sim, e me desculpem por ter demorado tanto para vir v-los.  que eu estava fazendo uma mesa e uma cadeira para o seu filho.

Senti-me lisonjeado por este ato.

- E de que professores o senhor precisaria? - insistiu mame.

- Eu dou aulas de chins, ingls, geologia e cincias polticas. Tenho rezado por um professor de Matemtica e, se tivermos sorte, esperaremos apenas at o prximo
semestre para termos um professor de msica.

Vov sorriu e disse:

- O senhor aceitaria alguns voluntrios? Eu posso ensinar matemtica. Meu filho  formado em histria pela Universidade de Beijing, e minha nora  pianista concertista.
Tan ficaria orgulhoso em ser o seu vigsimo aluno.

O diretor Koon ficou profundamente emocionado.

- No consigo nem acreditar no que estou ouvindo.

- Se o senhor no fizer nenhuma objeo - disse vov -, podemos comear amanh mesmo.

Balancei a cabea, olhando para a minha famlia; os trs se cumprimentavam alegremente.

- Eu poderia tambm completar os estudos em casa.

- Tan, queremos fazer de voc o primeiro universitrio da Baa de Lu Ching - disse o diretor Koon.

- E no pode ser em qualquer universidade - disse mame.

- Tem que ser na Universidade de Beijing - acrescentou papai.

- Na Faculdade de Histria - completou vov. 188

Eles tinham ficado durante muito tempo em silncio com relao ao meu futuro, mas agora estavam tagarelando como um bando de passarinhos ao nascer do sol. A esperana
era algo palpvel no ar salgado que vinha do mar.

No dia seguinte, quando minha famlia e eu comparecemos ao Colgio da Baa de Lu Ching, conhecemos as trs figuras mais importantes da cidade de uma tacada s: o
diretor da Escola, o secretrio do Partido Comunista e o monge-abade do templo da vila. O sr. Koon detinha todos os trs ttulos. Ele sorriu e explicou:

- Minha formao  de professor, o destino me fez ficar vivo, e sou poltico porque ningum mais queria ocupar o cargo. E assim ganho em dobro para compensar o
minguado salrio de professor.

Deu de ombros e prosseguiu:

- Isto aqui j foi um templo. Durante a revoluo, a Comuna queria destru-lo, mas o povo supersticioso da vila resistiu. Ento, numa soluo conciliatria, eles
o transformaram em escola e puseram uma tabuleta na porta, fazendo daqui tambm a sede do Partido Comunista.

Com orgulho, ele correu os olhos pelo bangal de seis cmodos que estava sob sua responsabilidade.

Fiquei pasmo com a mentalidade de loja de convenincia do comunismo popular de uma cidade do interior. O que  que Mo acharia de dividir o travesseiro com o bom
e velho Buda? Um pensamento chocante. Como  que Buda se sentiria com relao a adaptar um homem vestido com uma tnica no estilo Mo e transform-lo num sacristo
do templo?

O sr. Koon mostrou a papai os livros de histria, indicou ao vov o gigantesco baco para ser usado na sala de aula e apresentou a mame um rgo vertical de madeira
que estava
acumulando poeira, silenciosamente, atrs do altar dourado de Buda. Quando Mame pisou nos pedais, um som cheio e forte como um rugido saiu apitando dos tubos ocos.

- Shhh! Aqui no, por favor. Assim vamos perturbar Sua Santidade. O monge Koon juntou as mos e inclinou a cabea.

- Por favor, vamos levar o rgo para a sala que estiver mais afastada de Sua presena.

- Por qu? - perguntei, curioso.

Mas o monge agora estava ocupado, rezando de olhos fechados. Captei apenas o final da orao. . ,

- Por favor, perdoe-nos por nossos pecados.

189

Ele era um monge de verdade.

Prometi a mim mesmo que ficaria em silncio durante o resto da visita. Ocupei-me em ver, ouvir e aprender. Tudo aquilo era novo para mim. A escola era, ao mesmo
tempo, o templo e a sede do Partido Comunista. Ento, por qualquer delito, voc podia ser expulso da escola e j estava encarcerado na priso comunista.

A nova equipe de professores da famlia Long dava aulas para as turmas mais novas, enquanto o sr. Koon supervisionava os alunos antigos. Ele entrou sorrindo e mancando
na sala de aula, parecendo uma sampana sendo jogada de um lado para o outro pelas ondas do mar. Deu incio  aula de um modo no-convencional - fazendo uma orao
silenciosa.

Perguntei-me qual seria a sua tendncia mais forte - budista ou comunista. Uma parte deste homem manco deveria contradizer a outra, mas de um jeito ou de outro elas
coexistiam em harmonia dentro dele.

- Turma, eu tenho boas notcias para vocs. Temos aqui um timo aluno que veio da cidade de Beijing para juntar-se a ns a partir de hoje. Por favor, dem as boas-vindas
a Tan Long.

A turma a que ele estava se dirigindo contava apenas com seis alunos, e no havia nenhuma menina. Os meninos estavam sentados desleixadamente, como um grupo de soldados
totalmente  vontade. Assim como seus pais e irmos, eles fediam ao peixe que pescavam, armazenavam e depois comiam e com que tambm sonhavam. Suas roupas estavam
rasgadas e remendadas, e seus modos eram de pescadores cansados. Um deles cuspiu na minha direo.

Fiquei de p educadamente e me inclinei. Pensei no conselho que mame tinha me dado: em qualquer situao, sempre vale a pena ser o mais bem-educado possvel.

- Qual  o problema? Vocs trabalharam muito para descarregar a pesca de ontem  noite? - perguntou o professor, fazendo um sinal para que eu me sentasse.

Foi coxeando lentamente at um dos alunos. Puxando-o pela orelha, ele o fez abaixar at os seus ps.

- Ai! Pare com isso! - gritou o menino que era alto, esfregando a orelha, que ficou vermelha.

Um segundo aluno foi agraciado pelo professor com uns belisces no nariz para que se sentasse direito. Um terceiro levou um tapa com as costas
da mo. No foi preciso dizer nada ao quarto aluno para ele saber o que fazer. Este ficou de p e disse educadamente:

- Tudo bem, tio, o senhor no precisa me bater.

- Muito bem, meu filho, da prxima vez levante-se quando houver um convidado na sala de aula - disse o monge.

O quinto pulou da cadeira reclamando, depois de levar um chute com o p aleijado do professor.

Agora devia ser o comunista se manifestando dentro do professor, pensei. O monge que havia nele tinha voado pela janela. Eu nunca tinha visto ningum encarnar tantos
personagens diferentes.

O professor deu um sorriso malicioso e ordenou:

- E agora, alunos, digam: "Bem-vindo  nossa cidade, sr. Long." Silncio.

O professor esbravejou:

- Ser que eu vou ter que pegar as minhas agulhas de acupuntura para dar um jeito em vocs?

Num instante, os cinco alunos balbuciaram suas boas-vindas.

- Agora podemos iniciar a nossa aula de ingls. Um sorriso emoldurou o seu rosto.

- Hoje vamos aprender as formas dos plurais irregulares de alguns substantivos. Primeiramente, qual  o plural de fish?

Nenhuma resposta.

- Que histria  essa? Por que  que vocs todos esto calados? Vocs no conhecem a palavra fisK - perguntou ele  turma.   ,

- Voc! Responda! , Ele apontou para o menino alto.                   ,,

- No sei.

-  claro que no. Voc nunca abre o livro. Mas deveria saber, porque voc tem cheiro de peixe. Quem  que sabe a resposta?

- Eu sei - disse eu, levantando a mo. - O plural defish tambm  fish, f-i-s-h.

- Muito bem. Por isso  que eu disse que era uma boa notcia o fato do Tan estar aqui com a gente, caso contrrio essa turma no ia nem sair do lugar. Viram como
a pronncia dele  boa?

Pouco antes da aula terminar, uma menina alta e esbelta abriu a porta e sentou-se na cadeira ao lado da minha.

191

- Ora, ora, ora! Vejam quem est aqui agora.

O professor dirigiu sua ateno para a menina. Arrastando o p aleijado ele foi mancando at perto dela e pousou a mo no seu ombro.

- Qual foi o problema? Tomar conta do nenm anda atrapalhando os seus estudos?

- Desculpe o atraso.

- Desta vez voc est desculpada. Deixe eu lhe apresentar o nosso novo aluno: Tan.

Estendi a mo para ela. Ela levantou os olhos, conseguiu abrir um pequeno sorriso, mas no apertou minha mo. Em vez disso, inclinou-se o suficiente para esconder
o rosto, que ficou vermelho que nem a flor que ela usava na trana.

Titubeei um pouco, sem saber bem qual era o costume da terra quando se  apresentado a uma moa que no aperta a sua mo. Inclinei-me duas vezes. Na terceira vez,
percebi que ela olhava furtivamente para mim. Que rosto ela tinha! Afilado, com as mas salientes e um nariz reto e alto. Seu rubor, to tmido, apenas realava
o seu encanto difcil de descrever em palavras, e ela exalava um perfume embriagador. Inspirei. Seu perfume penetrou nas minhas narinas e me inebriou. Esqueci-me
de desviar o olhar que, de acordo com as regras locais, era o que se esperava que um homem estranho fizesse. Mas ela tambm se esqueceu disso. Nossos olhares permaneceram
fixos um no outro, comunicando-se atravs do brilho que havia neles. Esquecemos do tempo. Esquecemos do mundo. E, no entanto, isso durou apenas um breve instante
do tempo real, o que ficou comprovado pelo fato do professor no ter percebido nada de extraordinrio.

- Caso voc esteja curioso para saber, esta  Sumi Wo, a nica aluna daqui que poderia competir com voc - disse o professor, com um sorriso orgulhoso e paternal.
- Para lhe dar um exemplo, enquanto o restante da turma ainda est no plural de fish, ela, a nossa dona sabe-tudo est no sexto livro de ingls. Sumi, voc poderia
dar as boas-vindas ao Tan em ingls?

Sumi... Que nome!

Ela sacudiu a cabea ligeiramente para afastar a franja de sua testa estreita enquanto um olhar tmido, porm desafiador, insinuou-se nos seus grandes olhos. Seus
lbios se abriram lentamente e, com uma pronncia quase perfeita, ela disse:
- Bem-vindo ao Colgio da Baa de Lu Ching, camarada Tan Long.  uma honra conhec-lo.

- A honra  toda minha - respondi, tambm em ingls.

- No, por favor, a honra  toda minha.

- O seu ingls  muito bom.

- E o seu  melhor ainda.

- Voc sabe elogiar.

- Voc merece.

Sumi e eu tnhamos nos esquecido da sala inteira, inclusive do professor. A turma, boquiaberta, ficou nos ouvindo conversar num idioma que, para eles, era muito
estranho, porm agradvel de se ouvir.

Quando o dilogo - Sumi com um sotaque britnico perfeito, e eu com o sotaque americano - terminou, estvamos os dois tremendo de excitao. Ela sorriu, e seu rosto
parecia uma daquelas flores exticas das montanhas. Retribu com outro sorriso, como um rapaz bobo e desajeitado procurando pelo fio de raciocnio que tinha se perdido.
Sentado ao lado de Sumi o dia inteiro, o tempo voou.

Ela parecia absorta em seus estudos, enquanto eu ficava procurando algum pretexto para falar com ela. Ela apenas sorria, e todas as minhas tentativas falharam, como
mosquitos voando na direo de um lampio de querosene. Mas como era muito teimoso, consegui enfiar um bilhete na sua mo antes do fim da aula. Ela o ps no bolso
e fez um aceno de despedida. Com vontade de ir falar com ela, fiquei olhando-a afastar-se na luz do dia que esmaecia.

CAPTULO 21

MEU QUERIDO SHENTO,
Mal consegui disfarar meu rubor ao pousar meus olhos num rapaz que veio da cidade, chamado Tan Long. Suas covinhas, seu rosto largo, seu nariz, sua masculinidade
- eu s tinha visto isso antes em apenas outro rapaz do meu passado: em voc, meu amado.
Por que voc e esse rapaz da cidade so to parecidos, no s fisicamente, mas tambm no esprito? Ele tambm tem uma generosidade que  como um sol brilhante nascendo
para todos, com sua luz iluminando at os que no tm nada.

Por que estou ficando vermelha novamente ao pensar nele? Por que estou sentindo o mesmo n na garganta que senti quando bati os olhos em voc pela primeira vez,
meu querido Shento?

Parece que o amor busca as suas prprias sombras. Ser que Tan Long seria a sua sombra, um gmeo que voc me enviou para me consolar? Se isso for verdade, voc estaria
renunciando ao seu direito sobre mim? Lembre-se que me disse que nunca nos separaramos, na vida ou na morte.

E agora estou aqui, viva, e voc est morto, como foi publicado no informativo da escola, executado com trs balas na nuca pelas trs vidas que voc tirou. 194

Por que este rapaz veio da cidade para c? Isso  coisa sua? Eu no deveria ficar vermelha.  uma coisa imprpria, no  mesmo? Voc matou por mim, e eu estou viva,
e fico corada na presena de outro rapaz. Ser que isso  justo? Ser que estarei presa ao seu domnio para sempre? Ou ser que no?

Sumi

CAPTULO 22

COM A CHEGADA DA FAMLIA LONG, o Colgio da Baa de Lu Ching, antes to sem vida, pareceu ter tomado um novo impulso. O som do concerto de Chopin flua como seda
dos foles do rgo, preenchendo todos os espaos do ambiente at o teto de bambu, subindo pelo telhado com beirai em curva do templo-escola e pairando por sobre
as palmeiras que se erguiam displicentes e margeavam aquele ponto panormico da baa.

Mame lustrou cada centmetro do rgo, que reluzia  luz do sol filtrado pela janela, depois fez a msica jorrar do interior do instrumento. As crianas banguelas
do vilarejo - com o corao repleto de uma alegria que no conheciam antes - se amontoavam ao seu redor, esfregando o nariz, cocando o bumbum pelado. At mesmo seus
irmozinhos de colo, amarrados s suas costas, ficavam em silncio.

Papai redescobriu sua paixo pela histria, a gloriosa histria da China, na qual a nossa famlia teve uma participao considervel. Seus alunos o acompanhavam
durante a hora do almoo  beira do penhasco, caminhavam com ele pela borda do lago e o seguiam at mesmo ao banheiro externo onde as varas de bambu bloqueavam o
vento, mas no a viso. Aquela era
197

basicamente uma escola de meninos, onde as meninas raramente estavam presentes, mesmo que no houvesse falta delas na vila.

Os nativos no acreditavam em instruo feminina. As mulheres eram patrimnio de seus pais at que estes encontrassem maridos para elas que, depois do casamento,
se tornavam patrimnio dos maridos. No caso da infelicidade de uma viuvez, elas se tornavam propriedade dos seus filhos homens, que iam mandar nelas e us-las at
o dia em que morressem. As mulheres daqui vieram ao mundo para suar, sofrer e morrer felizes mesmo assim. O estudo, para elas, seria um completo desperdcio.

Carregando seu baco para todo lado, vov fez da matemtica uma matria to divertida que todos os seus alunos foram para casa e pediram a seus pais pescadores que
lhes dessem alguns trocados. Vov montou um banco simulado e pediu aos alunos que fizessem depsitos nele. Ele os ajudava a calcular os juros acumulados a cada dia.
Quando um dos meninos perguntava como  que o banco gerava rendimentos, vov fazia uma analogia dizendo que era como plantar sementes de arroz. Uma semente plantada
seria multiplicada em cem gros. E por a a coisa ia indo. Os meninos captavam rapidamente o conceito, no entanto ficavam sem entender por que seus pais sempre guardavam
o dinheiro - difcil de ganhar - debaixo do travesseiro. Por que  que ningum abria um banco aqui, para que seus pais no precisassem trancar o quarto quando sassem
para o mar?

Franzindo as sobrancelhas espessas, vov muitas vezes se perguntava a mesma coisa. Um banco para a prspera aldeia de pescadores no seria m idia. Conversou conosco
sobre isso, mas todos ns o desestimulamos. A idia, porm, havia se enraizado na cabea dele. O velho banqueiro tinha ainda mais teimosia do que anos de vida. A
culpa, alis, era da idade, pois quanto mais velho ficava, mais cabea-dura se tornava. A semente conti-

nuava a crescer.

Sumi, a menina misteriosa, tambm tinha plantado uma semente na minha cabea. Eu pensava muito nela, especialmente quando o mar se acalmava e murmurava suavemente,
e quando a lua brilhante tocava o universo com sua luminosidade.

Durante alguns dias, no a vi na escola. Ento, um belo dia, ela chegou atrasada e voltou correndo para casa mais cedo. Tentei atrair sua ateno, mas ela apenas
sorriu. No respondeu ao meu bilhete que dizia apenas, em ingls, que deveramos estudar juntos. Eu no podia perguntar aos outros

alunos por ela. Todos pareciam muito ocupados com as suas prprias vidas. Chegavam  escola cheirando a peixe, depois de terem ajudado seus pais a descarregar a
pesca da noite anterior, e pegavam no sono durante a aula, sendo volta e meia acordados pelo professor.

Eu estudava dia e noite, tentando recuperar o tempo perdido. Meus colegas de Beijing estavam bem encaminhados, rumo ao sonho de ingressar numa universidade. Alm
de professores particulares, para orient-los com as matrias do currculo, tambm tinham empregados para lhes servir ch. Eu no tinha nada disso, e esse nada era
provavelmente o que me incentivava, pois eu queria ter tudo de volta. Comear do zero  ter que lutar com as costas para a parede num beco sem sada. No h espao
para erros, nem  possvel dar-se ao luxo de bater em retirada.

No precisava que meus pais me dissessem isso. Eu sabia. Seus gestos e olhares me diziam que este povoado era apenas uma miragem e que eu tinha apenas uma opo
na vida: a Universidade de Beijing. Qualquer coisa menos do que isso seria uma vergonha para meu pai, para o pai do meu pai, e para todos os meus antepassados. Eu
queria mostrar aos meus pais que eu podia me reerguer, como a mtica fnix que ressurgia das cinzas, para voar ainda mais alto. Eu compreendia, e eles tambm, que
estvamos nos escondendo ali, e que aquilo representava apenas uma segurana temporria. Se os partidrios de Heng Tu quisessem nos perseguir, poderamos nos refugiar
nas montanhas a oeste ou pular dentro de um barco de pesca e viajar at as ilhas do arquiplago de Taiwan que cintilavam por sobre o mar. A idia era essa - uma
bela idia.

Aquele era o momento de testar a minha fibra de homem. Para isso, deixei de lado meus pensamentos com relao a Sumi - minha nica fraqueza - e tentei ocupar a cabea
com as frmulas de matemtica, qumica, fsica e tambm com o ingls. Mas, a cada dia de aula em que ela no comparecia, ficava enormemente decepcionado. Apesar
de estar bastante ocupado com os meus estudos, muitas vezes me perguntava quando a veria novamente.

Certo dia, l em casa, me pediram para ir comprar o molho de peixe preparado por uma senhora com sardinhas midas modas num pilo, o molho mais saboroso que minha
famlia jamais tinha provado. A lojinha ficava na rua principal do vilarejo, pavimentada com seixos rolados - outro presente do mar - e polvilhada com areia trazida
pelos ps dos pescadores que retornavam da pesca. Os comerciantes de cereais colocavam grandes
199

boies contendo trigo, aveia, arroz agulha e gordos inhames na entrada de suas vendas. O dono da loja de doces era tambm o ferreiro, e a barbearia ostentava grossos
feixes de incenso e maos de cdulas de dinheiro para serem queimados em louvor a Buda. A loja de bebidas exibia os maiores barris de beberagens coloridas que eu
j tinha visto. Surpreendentemente, no havia nenhuma peixaria. No entanto, havia trs aougueiros, cada um apregoando suas mercadorias mais alto do que o outro
quando passei na frente de suas lojas. Um deles veio correndo at onde eu estava, no meio da rua, entregou-me um pernil de cordeiro envolto numa folha de bananeira
e disse:

- Pague quando puder.

Aceitei o pernil e paguei a ele ali mesmo, na hora. No entanto, o que eu mais gostava era ensopado de carne de cabrito bem macia, fatiada, servida com molho picante.
O aougueiro, vendo em mim um comprador em potencial, e que alm de tudo pagava  vista, ofereceu:

- Que tal uma cabea de carneiro?  muito nutritiva, e o miolo do carneiro  muito bom para os homens... se  que me entende... - disse ele, piscando o olho. - Aposto
que sua me ia gostar de preparar este prato para o seu pai.

Dei um sorriso e sa andando. No caminho, vi crianas correndo na minha frente carregando seus irmos menores. Cheguei finalmente  lojinha onde se comprava o molho
de peke e que tambm vendia legumes e verduras. Vi-me diante de uma senhora que franziu o rosto e tinha o nariz todo enrugado.

- Para voc  de graa, jovem Long - disse ela, movendo a boca desdentada como se estivesse mastigando o ar.

Isso foi outra coisa que reparei. Havia muitas pessoas sem dentes. Onde estavam os dentistas?

- No precisa, tenho dinheiro. Diga quanto , por favor.

- Sei que pode pagar. Seu av foi banqueiro.  s um gesto de agradecimento por vocs estarem ajudando na escola.

-  nossa obrigao contribuir para a melhoria da comunidade - disse eu, com sinceridade.

- Gosto de ver um rapaz to novo e to bonito falando como o pai. Escute s, meu filho, j que est pagando, vou lhe dar a garrafmha com o molho mais fresco que
tenho aqui. A mo dessa velha j no presta mais. No estou conseguindo moer a sardinha com a mesma rapidez de antes.

Ela balanou a cabea e seus brincos de prata tilintaram.

Agradeci fazendo uma reverncia, segundo a tradio local. Todos faziam reverncias, e tudo era preparado com o molho de peixe. Afinal de contas, tratava-se de uma
vila de pescadores. Ao me virar para ir embora, ouvi uma algazarra e uma gritaria na rua onde as crianas estavam brincando.

- Essas crianas!

Ambos esticamos o pescoo para fora da loja para ver o que estava

acontecendo.

- Deve ser uma cobra de novo. <'

Ela voltou para dentro e sentou-se novamente

- Mas no estou vendo nenhuma cobra.

- Os cachorros devem t-la comido.

- Parece que esto correndo atrs de algum.

- Ah, aquela menina rf, coitadinha! Deve ser ela que esto perseguindo.

- rf?

- , a menina... Como  mesmo o nome dela?

Vi um grupo de crianas jogando areia numa menina que tentava fugir e cobria a cabea com um leno.

- Ai, que cabea intil a minha! No consigo me lembrar do nome da pobre menina.

Ela deu um tapa na prpria testa.

- Ah!... Sumi. Esse  o nome dela!

- Sumi Wo?

- Isso mesmo, aquela coitadinha da menina rf. Ela foi confiada  administrao da nossa vila depois de terem fechado a escola-orfanato que ficava perto do mar.

- E ento?

- Por que est to interessado?

- E ento? - insisti, sem olhar para a velha, que parecia gostar de
conversar.

As crianas eram cruis. Atiravam pedras na menina que corria pela sarjeta na direo do fim da rua, onde havia uma pilha de melancias. Ela parou por um instante
para ver se as crianas ainda a estavam perseguindo. Era ela mesmo. > *

- Por que perseguem essa menina? - perguntei.
200

- Assim como as vivas, os rfos so considerados uma maldio para a nossa aldeia. Mas eu no penso assim. Nossos antepassados daqui diziam que as vivas e os
rfos trazem m sorte e maldio para as suas famlias, e que so metade diabo, metade gente. Tambm no concordo com isso. Quanto mais velho voc fica, mais estranho
voc se torna. No acredito mais em nada disso. Eles so apenas seres humanos. E a menina... como  mesmo o nome dela?

- Sumi.

- Isso mesmo, Sumi. Ela  um doce de pessoa. Quando chegou aqui na vila, morava no templo onde hoje  a escola. Disseram que foi estuprada, ou coisa assim. O lder
da aldeia, o sr. Chen, o comerciante gordo, queimou cem iuanes em incenso e em cdulas de dinheiro e contratou um grupo de pera local para oferecer uma apresentao
a Buda, na esperana de livr-la da maldio. Mas Chen tinha um pensamento mau com relao a ela. Sabe... ele tem um filho maluco que s vezes come o prprio coc,
e ningum - ningum mesmo - nesta cidade ou em qualquer outra deixaria que sua filha se casasse com ele, no importa quanto dinheiro seu pai tenha. E acredite, ele
tem bastante. Basta olhar para a sua pana, uma pana daquele tamanho  um claro sinal da riqueza de uma pessoa, no  mesmo, meu rapaz?

-  tambm um sinal de pssima sade.

- Menino, de onde voc tirou essa idia? Bem, de qualquer modo, ele a aceitou em sua casa e botou a menina para cuidar do seu filho, que  uns cinco anos mais novo
do que ela, na esperana de que um dia o rapaz ficasse melhor e dormisse com ela. Ento ela teria um filho, de preferncia um garoto, para que a famlia Chen tivesse
continuidade, sabe como , no?

-  inacreditvel. Como algum pode comprar uma menina e faz-la sacrificar a vida por algum assim?

Caminhei um pouco pela loja.

- Bem, o gordo achou que estava fazendo isso por generosidade. O dinheiro pode comprar tudo.

- Mas no os seres humanos.

- Ah, pode, sim! No comeo, ele deixava ela freqentar a escola. Ouvi dizer que  boa aluna, mas agora andam dizendo por a que ele no quer que ela fique andando
na rua, porque seus seios j esto do tamanho de
201

uma concha grande, e seus olhos ficam olhando para todo lado. Os homens sentem que a fruta j est madura a quilmetros de distncia. Seus quadris esto ficando
mais largos... Voc sabe do que estou falando, no ?... Talvez no devesse lhe dizer isso. Quantos anos voc tem, alis?

- J tenho idade suficiente.

- Vou confiar em voc. Pois ento, ele a mantm trancada dentro de casa, e ela no gosta disso. Ele bate nela e ameaa cas-la com aquele seu filho retardado, arrumando
uma certido de casamento com o malandro daquele professor que vocs tm l na escola.

- Mas isso  desumano!

- Eu diria que sim, mas a questo ainda  um pouco mais complicada do que isso. O gordo achava que estava fazendo um grande favor em sustentar o filho dela. Foi
uma espcie de barganha, um acordo, por assim dizer. Caso contrrio, o beb teria morrido.

Ela movimentou os lbios novamente como se estivesse mastigando o ar, e seu pescoo, com toda aquela pelanca pendurada, parecia o pescoo de um peru.

- Sumi tem um filho?

- Tem, ela foi estuprada em algum lugar por a e ficou grvida. Todos queriam que ela se livrasse do beb, mas ela se recusou a abortar e se escondeu nas montanhas.
A ento, o gordo lhe disse: "Vou criar o seu filho e voc cuida do meu", e  claro que ele nunca falou nada sobre casamento.

- Como  que a vila inteira pde aceitar isso?

- Ah, a vida deles se resume a respirar. A nica coisa que querem  que esse tipo de coisa no acontea com eles. Cada um segue o seu caminho. Principalmente porque
o gordo  dono de uma empresa de pesca e contrata os habitantes da vila para trabalhar para ele. E fica de olho na menina todos os dias. Acho que ela no est conseguindo
mais ir  escola escondida. E o pessoal daqui tem medo dele porque ele empresta dinheiro a juros, e se disserem alguma coisa e ele no gostar,  o fim.

- E como a senhora sabe de tanta coisa?

- Estou viva e respirando. As fofocas me mantm ativa. Olhe s para mim, tenho noventa anos e ainda no morri. A deusa da vida ainda no est precisando de mim,
mas esse dia vai chegar, tenho certeza.

Ela sorriu, e seu rosto parecia um feixe de gravetos encarquilhados. Seus olhos desapareceram, e s dava para ver suas narinas e seu pescoo de peru.
202
- A senhora poderia me fazer o favor de dizer onde ela mora?

- No tem erro.  naquela casa com as paredes de pedra e o telhado vermelho.

Andei tropegamente de volta para casa com o corao apertado, sentindo o peso do drama de Sumi. Fiquei muito triste por ela. No, a palavra tristeza no exprimia
sequer uma frao do meu sofrimento. Como podia uma moa linda como ela estar subjugada a um destino feudal ridculo? O que me chocou ainda mais foi que, aparentemente,
a vila era muito calma, no se percebia nenhuma marola, nem a menor crispao. Ningum parecia se importar ou perceber que entre eles havia alguma coisa de errado.
Dentro de mim, o mito de Sumi se aprofundava e se ampliava a cada dia.

Sumi. Pronunciei seu nome com ternura para o vento do mar. Sumi! O que sinto por voc  uma mistura de milhes de pequenos sentimentos, um sem-nmero deles. Ah,
Sumi, minha pobre menina!

As montanhas suspiram e o mar geme de dor

O corao de quem ama parte-se  noite

Apanhe os seus sapatos )   Pois a viagem de mil quilmetros

Vai comear sob seus ps

Uma alma que anseia no sop da montanha

Um poema bastante irregular em termos de ritmo, forma e sonoridade. Uma atrocidade que vov rasgaria em pedaos num rompante. Mas o poema me satisfez. Fiquei aliviado
por ter conseguido me expressar daquele modo, e a sensao era a de ter tirado um peso do meu corao. No dia seguinte, ia esper-la na beira da estrada e lhe entregaria
o poema. Se ela no aparecesse, ento seria no outro dia, ou no outro. O sol poderia se pr para sempre e o mar poderia se aquietar de vez, mas estava determinado
a entregar a ela aquele pedao de fogo ardente que saiu de dentro de mim, do jeito como foi escrito, sem reviso, com todos os erros que pudesse ter, para lhe mostrar
o fundo do meu corao naquele momento particular, e o horizonte das grandes esperanas que eu depositava nela.

O POLIVALENTE SR. KOON ME PREPAROU, com aulas particulares, como o nico aspirante deste lugarejo que poderia disputar o trofu de uma vaga numa universidade. Ele
tinha enviado um requerimento para a adminis-
203

trao do municpio, que ficava a quilmetros de distncia, pedindo o material didtico preparatrio e as diretrizes para a importantssima prova do vestibular em
mbito nacional. Percebendo que eu fazia grandes progressos, o sr. Koon ficou muito entusiasmado. Sua perna defeituosa agora dava passadas um pouco mais largas,
e s vezes ele esquecia que era monge e soltava palavres como um pescador para elogiar os meus esforos.

Um dia, depois que todos os dorminhocos j tinham ido embora, o sr. Koon me disse:

- Inscrevi dois alunos da nossa escola para participar do vestibular deste ano. Aqui est a confirmao da inscrio.

Sua empolgao transparecia claramente em seus olhos e na perna manca, que ele ficava balanando o tempo todo. Ele me mostrou o papel da Comisso Nacional do Vestibular
Unificado.  ;

- Devo ser um deles. Quem  o outro? - perguntei.
- Sumi Wo.

-- Mas eu no a vejo h semanas. Por que o senhor fez a inscrio dela?

- Vou fazer uma visita a ela e conversar com Chen - respondeu ele.

- tima idia.

Meu pulso se acelerou. O sr. Koon me surpreendeu. Ele no estava apenas respirando para viver. Ele se importava com as coisas que aconteciam ao redor dele. Mas ser
que teria coragem de fazer isso? <

- E o senhor no tem medo do Chen? - perguntei. *'>

- No se esquea de que eu sou o secretrio do Partido Comunista desta cidade.

- Mas isso no quer dizer muita coisa nos dias de hoje, no  mesmo?

- Bem, quando o gordo quer que eu ponha o selo oficial nos seus documentos para fazer negcios fora do municpio, isso significa bastante coisa. Ainda somos um Estado
comunista.

Nunca tinha visto o sr. Koon to animado. '

- Posso ir junto com o senhor?

O sr. Koon pensou um pouco, e em seguida fez que sim com a cabea.

- E por que no? Vamos l agora mesmo.

Coloquei meus livros na pasta, levantei da cadeira num salto e segui o homem manco pela trilha estreita que conduzia  cidade. Meu poema estava dobrado entre as
pginas do meu dicionrio de ingls. O telhado204

vermelho, smbolo dos meus desejos e da minha pacincia, abriria agora suas portas proibidas, porque o camarada comunista mais importante da vila assim o desejava.
Fiquei divagando sobre a minha boa sorte, e no pude deixar de sorrir ao ver as duas sombras que projetvamos no cho da estrada: a minha, alta e ereta; a do sr.
Koon, gingando num ritmo seguro e determinado. A poeira se levantava em volta dos seus ps, e havia um leve molejo nas suas passadas.

A casa de pedra era slida, e a fachada lavada pelas chuvas tinha uma colorao verde-esbranquiada. As telhas vermelhas que revestiam o telhado pareciam escamas
de peixe com um colorido vibrante. A construo tinha dois andares e ficava encravada no aclive do terreno, como uma tartaruga marinha agarrada  terra. Nem mesmo
o tufo mais avassalador conseguiria arrancar aquela carapaa de pedra da encosta. O precavido proprietrio tinha plantado bailem, rvores de folhagem espessa, como
um escudo para proteg-la contra o vento. E a porta da frente, emoldurada pela rarssima pedra verde das montanhas, era feita de madeira de lei da melhor qualidade,
tratada e trabalhada na direo dos veios.

Koon bateu na porta e, de uma pequena abertura na parte inferior, surgiu um cachorro que ostentava um saco com duas bolas de tamanho considervel entre as patas
traseiras. Aquela imagem parecia significar que ele era o garanho da cidade, e que todas as cadelas da redondeza eram suas namoradas. Ele tinha o mesmo ar do dono
- gordo, rico, bem-alimentado - e no o de um cachorro vira-lata  cata de siris e peixes na praia ou de cobras no meio da rua. Era um co impaciente. Seus olhos
faziam as perguntas, e no sua boca. Ele nos olhava de um modo preguioso e vago, como se fssemos apenas mais duas pessoas que tivessem vindo pedir emprstimo,
dois pobres pescadores da cidade, que ele muitas vezes tinha de expulsar da propriedade. Caiam fora daqui, que eu quero voltar a dormir, parecia dizer.

- Tem algum em casa? - perguntou Koon.

O co comeou a rosnar, obviamente irritado com a nossa inteno de quebrar o protocolo. Revirou seus olhos, lanando o mesmo olhar dominador com que fazia suas
cadelas se agacharem no cho, reduzidas  submisso.

Dei dois passos para trs, ao contrrio do aleijado, que bradou novamente:

205

- Tem algum em casa?

A voz do sr. Koon pareceu irritar o animal, que investiu contra ele. Mas Koon no se intimidou. Cuspiu, abaixou-se e chutou a terra com a perna aleijada, levantando
um semicrculo de poeira que fez o co espirrar e cocar o focinho com a pata. Uma voz de mulher respondeu por trs da porta fechada.

- Quem ?

- O secretrio do Partido Comunista.

- Ah, s um segundo.

A porta se abriu. Uma mulher rechonchuda de uns quarenta anos, com um vestido vermelho-fogo, sorriu com a flor das montanhas presa ao seu cabelo untado de brilhantina.

- Bom-dia, sra. Chen. <  .

Koon fez uma reverncia. > j.

- Sim, em que posso lhe ajudar?

Devia ser a mulher do gordo, pois tinha a cintura grossa e os ps e mos pequenos. A saia e a blusa justas que usava marcavam os seios fartos e a bunda avantajada.
A gordura era valorizada nesta cidade. Os outros habitantes da aldeia eram pees magros, trabalhadores, que comiam trs Hangs de comida por dia, cerca de 250 gramas,
e perdiam quatro nas idas e vindas para o trabalho. Ela devia ser a mulher mais glamorosa e sensual da cidade. Uma mulher bem-cuidada era uma mulher gorda e maquiada.

- Estou aqui para falar com o seu marido sobre Sumi.

- E o que o senhor tem para falar com ele sobre um assunto a respeito do qual ele j lhe deu todas as respostas?

Ela era baixinha, mal-educada e falava com as mos na cintura.

- Eu no sei a resposta. E  por isso que ns estamos aqui.

- Ela no vai mais  escola. i

-- Quem foi que disse? >

- Ela mesma.

- Ser que posso perguntar isso a ela?

--No, ela est ocupada agora.

- Antes de ir embora, eu tenho que perguntar ISSO a ela. Preciso de uma resposta dita por ela.

- E quem foi que disse isso?

- Sou eu mesmo que estou dizendo.
 206

- E quem  o senhor para vir  nossa casa com esse estranho, filho dos Long, para me ameaar, eu, uma pobre dona de casa? Saia j daqui!

- Sumi, aparea - disse Koon em voz alta, sabendo que no chegaria a lugar nenhum com aquela gorda.

- O senhor est perdendo o seu tempo. Vou contar ao meu marido o que est acontecendo e o senhor vai se arrepender.

- Quem vai se arrepender  a senhora. Vou fazer um relatrio sobre isso para a administrao do partido e vamos ver quem vai ganhar essa parada.

- Meu marido conhece todos os to kai da Comuna e desta provncia. O senhor no nos mete medo. O Gordo faz o que bem quer, e ningum o incomoda por isso. Entendeu
bem?

- Sinto lhe informar que o caso no vai ser to simples assim - retrucou Koon.

-  sim, o caso  muito simples. Se ela freqentar a escola, quem  que vai cuidar do filho dela? Me diga ento agora.

- Ela pode levar o nenm para a escola, e ningum vai se incomodar com isso - disse eu, intrometendo-me na conversa para ajudar. <"

- E quem  voc para me dizer isso?

- Sou um colega de turma de Sumi.

- Sei muito bem quem voc  e de onde veio. Voc est fugindo do governo, todo mundo sabe disso. A famlia inteira est coberta pela vergonha e caiu em desgraa.
 por isso que voc est aqui. No se meta a engraadinho comigo. Ponha-se no seu lugar, seno vai sofrer por isso.

Fiquei estarrecido com aquela revelao. Ento, quer dizer que eles sabiam de tudo a meu respeito? E por que todos agiam como se tudo estivesse correndo normalmente?

- Deixe-o em paz. Ele no veio aqui para discutir com ningum.  comigo que a senhora vai ter que discutir - disse Koon. - Deixe-me falar com Sumi ou vou registrar
uma queixa.

- Desapaream daqui!    .<' Ela deu meia-volta e bateu com a porta na nossa cara. ' -  Ficamos sem saber o que dizer. Enquanto pensvamos sobre o que fazer,

a porta se abriu novamente. Era Sumi. Um dos lados de seu rosto estava coberto de hematomas e seus olhos estavam vermelhos de chorar. Nos braos, segurava um belo
garoto robusto de olhos grandes e nariz arrebitado, que

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esperneava muito. Ele chorava porque sua jovem me tambm chorava. Ela se inclinou e disse, quase implorando:

- No vou poder ir  escola. Obrigada por vir me convidar novamente.

- Voc est inscrita para prestar os exames do Vestibular Nacional Unificado. Veja, aqui est a confirmao - exclamei.

Ela levantou a cabea, limpou as lgrimas para clarear a viso e olhou fixamente para o papel que estava na minha mo.

-  mesmo? Estou inscrita para fazer a prova? - perguntou, mais animada.

- . Veja voc mesma.

Com sofreguido, ela leu a breve descrio do teste e viu o seu nome escrito no documento.

- No acredito.

- Voc tem que acreditar. Ns vamos ajudar voc a se preparar-disse eu.

Koon balanou a cabea, concordando.

Foi ento que vi um adolescente vindo por trs de Sumi, correndo em sua direo, com uma cadeira de madeira erguida no ar para golpe-la. Seguindo o rapaz, estava
a gorda, que obviamente tinha ido l dentro para instig-lo.

- Vamos! Acerte ela! Eles vieram aqui para levar a sua noiva embora! - berrava a mulher.

- Ningum pegar minha noiva! Ningum pegar minha noiva!

O rapaz retardado no conseguia pronunciar as palavras direito, mas entendi o que ele disse e me adiantei, empurrando Sumi para o lado, bem a tempo de ela se esquivar
do golpe. Mas o rapaz era forte. Ergueu novamente a cadeira do cho e investiu contra mim. Agarrei a cadeira no ar e apertei o brao direito do garoto com tanta
fora que o capeta gritou que nem um bezerro desmamado, berrando por sua me.

- Mama, mamai Dodi, dodi!

- Vocs so gente ruim e vieram para c s para nos fazer mal.  guerra o que querem? Esperem s at o Gordo voltar para casa. Voc machucou o seu nico filho. Ah,
vai pagar por isso!

A mulher socava o meu peito, chorando e gritando.

- Por favor, vocs tm que sair daqui! Por favor, vo embora - implorou Sumi, com seu beb aos prantos. Mas segurou firmemente o carto de inscrio na mo.
i    <          . 208

Koon empurrou a mulher gorda para dentro e disse:

- Estamos indo, mas a senhora tem que mand-la de volta para a escola.

- Nunca! O senhor no  monge coisa nenhuma! O senhor  muito grosseiro e mal-educado. No devia se intrometer nos nossos assuntos de famlia. Ns compramos a garota
e ningum tem nada a ver com isso. Saiam daqui! E voc, jovem Long, no toque na noiva do nosso filho, seu desgraado!

Koon me puxou e samos correndo feito dois soldados batendo em retirada. Eu sabia que tinha arrumado confuso com o homem mais temido da cidade, mas tambm ganhei
alguma coisa com isso: consegui ver Sumi novamente e, alm do mais, consegui fazer o meu poema chegar s mos dela.

- Temos que fazer alguma coisa - disse Koon. - Sinto muito ter envolvido voc nesta questo.

-- A gente fez o que tinha que ser feito, mestre Koon.

- Mas voc precisa tomar cuidado com o Gordo. Ele vai contra-atacar e dar o bote como uma cobra venenosa.

- Eu no tenho medo dele.

- timo. Tudo bem. Mas ele vai dar o bote quando voc menos esperar.

Ainda dava para ouvir o cachorro latindo e a gordona gritando. -- Estou preocupado com a Sumi.

- E eu tambm.

- O que vai acontecer com ela? i

- No tenho a menor idia.

- O senhor acha que a gente piorou a situao para ela?

- No, acho que fizemos o que tnhamos que fazer. s

- Mestre Koon,  realmente uma sorte ter o senhor como nosso professor.

- A sorte  minha de ter voc aqui ao meu lado.

Trocamos um aperto de mo. Olhei para trs. O telhado vermelho agora parecia uma fortaleza, uma priso.

No dia seguinte, o muro da escola, onde geralmente havia cartazes de propaganda poltica, estava coberto com um enorme cartaz verde to chamativo e deslocado quanto
uma verruga no rosto de algum. Ele anunciava que o sr. Koon estava oficialmente destitudo do cargo de secretrio

209

do Partido Comunista da Vila da Baa de Lu Ching. O cargo remunerado seria assumido imediatamente por Lou Fu Chen, o Gordo. O cartaz dizia ainda que o sr. Chen,
um influente homem de negcios, tinha se filiado ao partido a partir daquela data, e que administraria as questes polticas da vila conforme estava estabelecido
no manual do partido. O sr. Chen tinha aceito o cargo sem receber remunerao, um gesto altrusta merecedor de todos os elogios. Quase como uma nota de p de pgina,
o cartaz mencionava que o sr. Koon havia sido exonerado do cargo pelo possvel desvio de verbas do partido. A comunicao estava assinada pelo chefe regional do
partido no municpio, acompanhada de um extravagante selo oficial no canto inferior direito.

Eu sabia do poder do sr. Chen, mas no poderia prever que sua reao seria to rpida e hostil. Vi meus colegas de turma no meio da aglomerao que se formou diante
do cartaz. Eles riam e davam tapinhas nos ombros uns dos outros.

- Eu no disse que o aleijado escondia o jogo? - comentou um dos estudantes.

- Essas notcias do partido so sempre a mesma merda. Que diferena faz se o nosso lder poltico  o Gordo ou o Aleijado? - disse um outro menino.

Fui correndo para a sala de aula. L estava o sr. Koon sentado no seu canto de sempre, com o olhar pacfico de um monge em estado de beatitude. Fumava seu cigarro
de palha, deixando a fumaa azulada subir em espiral pelos raios de sol da manh que brilhavam atravs das janelas. Cantarolava uma cano local, de um jeito muito
parecido como quando estava oficiando no altar. Sua cabea estava raspada, apesar das razes do cabelo no estarem cauterizadas como as de um verdadeiro monge. Ele
parecia o Koon de sempre.

- Mestre Koon, lamento muito que tenham demitido o senhor - falei. -  verdade o que eles disseram?

- Sim e no. <

- Como assim? <> ',

- Sim, eles me demitiram. No, eu no embolsei o dinheiro. As contribuies do partido que coletei foram usadas para comprar madeira para fazer novos bancos e carteiras
para os alunos.

- Eu acredito no senhor. E o que vai fazer agora? - perguntei, preocupado.
 210

- Sempre posso sair boiando na gua rasa dentro de uni cesto de madeira para catar mariscos no meu tempo livre. O que mais me di  que tiraram de mim o maior salrio
que eu tinha, dentre os trs cargos que eu ocupava. O Gordo sabia que se eu perdesse o emprego no partido, eu naturalmente ficaria em uma situao ruim e me sentiria
inclinado a aceitar a oferta do pai da minha falecida esposa para vender caixas de incenso numa outra cidade. Mas quer saber de uma coisa? Quanto mais ele tentar
fazer isso, mais quero ficar aqui e garantir que Sumi volte para a escola. Ele pode at comprar o emprego no Partido Comunista, mas ningum vai me botar para fora
desta cidade.

- Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar o senhor?

- Voc j me ajudou bastante. No quero que se envolva ainda mais neste assunto. O Gordo  conhecido aqui por essas bandas por ser ruim como uma cobra, um po-duro,
um capeta. Ele joga sujo. Como acha que ele conseguiu ser proprietrio de uma frota de barcos de pesca?

- O que foi que ele fez?

- Nada que Buda aprovasse. No me admira que todo aquele dinheiro no tenha podido comprar um filho saudvel para dar continuidade ao nome dele. Lembre-se de que
a virtude  a melhor cura para qualquer mal, mas apenas os virtuosos sabem disso.

- Ento o senhor vai continuar aqui?

- At que voc e Sumi consigam entrar para a faculdade.

- Muito obrigado. Vou ajudar em tudo o que puder.

-Meu filho, a sua nica misso  entrar na faculdade. No perca tempo. O seu destino  ser algum importante, sabia?

Diante daquele homem aleijado com estatura de gigante, eu me sentia pequeno e insignificante. Foi ento que comecei a me preocupar com a punio que o Gordo me aplicaria.

PAPAI TINHA CONSEGUIDO OBTER MAIS informaes sobre a fbrica de atum que ficava no litoral. Um outro veterano do Exrcito lhe informou que, mediante um pequeno
investimento, ele poderia exportar qualquer coisa atravs de canais no-oficiais, nos barcos que trafegavam pelo Estreito de Taiwan ou que iam para o sul, na direo
da colnia de Hong Kong - em outras palavras, fazendo contrabando. Certo dia, papai teve uma idia brilhante: medicamentos fitoterpicos  base de ervas medicinais.
O negcio

211

era comear vendendo barato, um comrcio bem popular, arrumando alguns mdicos da localidade para receit-los. Mas vov dizia que a medicina moderna havia progredido
muito no exterior, e que no havia muito mercado para medicamentos  base de ervas. Por que no tentar criar ostras, ou montar uma fazenda de cultivo de prolas?
Papai poderia reunir todos os veteranos do Exrcito da regio e montar uma sociedade de participao nos lucros. Havia uma grande demanda por prolas em Hong Kong
e Taiwan, conforme papai me contava todas as noites quando estvamos sentados na varanda. Imagine s o brilho nacarado de uma prola verdadeira! Papai comeou a
ler sobre o cultivo e o comrcio de prolas e visitou as fazendas de criao de ostras que tinham se instalado ao longo da costa.

Vov continuou a dedicar-se  sua idia de abrir um banco para prestar servios s cidades costeiras da provncia de Fujian, e foi ao governo do municpio para se
informar sobre como obter uma autorizao para fazer isso. Aquela cidade pesqueira de atividade crescente estava precisando de um banco. Disseram a ele que a nica
condio para obter uma autorizao seria uma reserva de capital obrigatria de 250.000 iuanes. Ele suspirou, desapontado. Onde poderia conseguir esse dinheiro todo?
Se ele fosse dono de um banco, poderia financiar a empresa de comercializao de ostras de seu filho, mas sem o capital inicial, ele no poderia sequer pensar em
abrir um banco.

 medida que os homens da famlia Long iam ficando cada vez mais envolvidos com seus diferentes empreendimentos, passavam a suspirar mais e a falar menos. Muitas
vezes, vov ficava olhando para o atracadouro distante, onde os peixes eram descarregados e comercializados. Todas as noites, os caminhes transportavam carregamentos
de peixe para a cidade. Ele contava nos dedos o nmero de carregamentos a cada dia. Todo esse dinheiro poderia ser colocado no banco para gerar mais dinheiro, e
ele poderia us-lo para financiar outros empreendimentos, e logo uma economia de mercado se instalaria na localidade e se alastraria como um incndio num campo aberto.
E ningum poderia impedir isso.

Vov lembrou-se do importante conceito que havia aprendido em Oxford sobre capitalizao. No demorou muito para que encontrasse a resposta. Um dia, ele se levantou
de um salto da mesa do jantar, geralmente silenciosa, e declarou:

- Eu quero hipotecar essa antiga casa para conseguir o capital inicial.

- A nossa casa? - perguntei.
 212

- . Vou falar com o Gordo para pedir um emprstimo, oferecendo a nossa casa como garantia. O que  que vocs acham?

- tima idia. Mas ser que ele vai concordar em emprestar o dinheiro? - Papai se empolgava com qualquer coisa que pudesse injetar algum dinheiro vivo em sua ostreicultura.

Mame permaneceu sentada em silncio, sorrindo. Ela ficava feliz ao ver os homens da casa felizes. A ltima coisa que queria era v-los definhando em silncio.

- No, no - protestei com veemncia. - Eu no acho que isso seja uma boa idia. Alis, acho uma pssima idia. Veja bem, ele no lhe emprestaria o dinheiro porque
o senhor competiria com a sua atividade de agiota, ou ele lhe cobraria juros extorsivos, o que no seria lucrativo para o senhor. Ele  uma cobra venenosa, o senhor
sabia?

- Uma cobra venenosa? Eu nunca tinha ouvido falar isso dele. Todos dizem que ele faz emprstimos a juros razoveis - disse vov.

- Pode ser, mas o senhor tem que tomar muito cuidado.

Eu no tinha contado nada a eles sobre meu atrito com a esposa tinhosa daquele homem. Vov, ignorando a questo, estaria apenas instigando a vingana que estava
demorando a chegar. S havia uma soluo para o problema. Alis, a oportunidade parecia cada do cu. Era agora ou nunca.

Shento

CAPTULO 23 '
1980

ILHA NMERO NOVE

TREINE UM SOLDADO DURANTE MIL DIAS e o avalie em apenas um. Este era o lema da Ilha Nmero Nove. Um ano havia se passado, as mars tinham enchido e baixado, as folhas
das rvores da ilha tinham cado e brotado novamente.

A cada dia, eu executava uma bateria de exerccios avanados de artes marciais, formulados especialmente para se adaptarem ao meu progresso e aos meus msculos que
se desenvolviam. A mente pune o corpo. O corpo aperfeioa a mente. Neste crculo vicioso, a mente se fortalece e o corpo enrijece, independentemente das tempestades,
dos raios e troves, do calor escaldante ou do frio do inverno. No final, minha mente se rendeu a um entorpecimento, desconectando meu corpo da terra que estava
debaixo de mim, do cu que estava acima e do mar que me cercava. Eu era um monge purificado, sem peso, livre dos fardos terrenos.

Esta era a essncia das artes marciais, elevando-me acima de tudo, sem me deixar conspurcar pela lama da vida, distinguindo-me como uma esguia flor de ltus que
paira acima da mediocridade e da banalidade. O tempo, quando no era levado em considerao, flua livremente como um rio que no  observado ou medido por minutos
e horas decorridos, mas pela fora de vontade que se formava e se afirmava. Minha fora
214

de vontade era como nenhuma outra, uma vontade de ferro, de ao temperado.

No segundo ano depois da minha chegada, o sargento La me informou que eu tinha atingido o nvel da Leveza, a terceira mais alta honraria na sua disciplina e estilo
de Kung Fu, depois da Transcendncia e da Superao.

Eu poderia at ter atingido o nvel da Leveza, mas ainda no havia conseguido superar meus sentimentos. Continuvamos separados, Sumi e eu, e a declarao que eu
tinha assinado, jurando me dedicar ao trabalho digno de uma Adaga Afiada, me obrigava, pelo cdigo de honra, a evitar escrever para ela ou perguntar sobre ela.

O cdigo de honra era uma coisa; a saudade de Sumi era outra. Em alguns dias sombrios e melanclicos, eu chegava ao ponto de fazer a dbil tentativa de enviar uma
mensagem dentro de uma garrafa. A idia no era to absurda. Eu achava que se pusesse algum dinheiro com a carta, o pescador ou garoto de vila de pescadores que
a encontrasse boiando na gua do mar teria algum lucro ao envi-la ao endereo designado. E Sumi saberia que eu tinha sobrevivido. Isso era pedir demais? Escrevi
no apenas uma, mas muitas vezes. Enrolei cdulas de dinheiro por fora da carta de poucas pginas, procurei garrafas com tampas que se fechassem hermeticamente para
que a gua no entrasse e nem borrasse a tinta. Mas o ato de lanar a garrafa ao mar nunca era concretizado. O cdigo de honra e os olhos argutos do sargento La
me impediam de fazer isso. Eu era um Jian Do, e a lmina tinha dois gumes. Ento, as garrafas vazias ficavam alinhadas no parapeito da minha janela.

CAPTULO 24

Ao RAIAR DO DIA, DESCI, GIL COMO UM gato, as escadas que rangiam do antigo solar da famlia, carregando o pequeno ba que mantinha escondido debaixo da minha enorme
cama de madeira. Peguei emprestada uma bicicleta do sr. Koon, que me deu um dia livre na escola e concordou em me dar cobertura caso meus pais perguntassem onde
eu tinha ido.

A bicicleta era praticamente uma antigidade; faltavam at alguns raios da roda. Imaginei que, se a estrada no fosse to esburacada e cheia de pedras, os raios
que ainda restavam seriam suficientes para agentar o meu peso. Botei um chapu de palha na cabea e uma camisa branca de manga comprida abotoada at o pescoo.
Minha cala de algodo estava bem passada e meus sapatos de couro tinham sido recentemente engraxados. Tudo isso era raro na Baa de Lu Ching, e tambm um possvel
motivo de risos na vila, onde a roupa habitual dos homens era a pele bronzeada, um short de brim rstico e os ps descalos. Os homens daqui preferiam morrer a serem
vistos usando tanta roupa.

Meu destino, Linli, a sede administrativa do municpio, ficava a uns trinta quilmetros de distncia. Para minha infelicidade, o calor do sol ardia na pele como
picadas de abelhas e, alm disso, soprava tambm o vento sul, o que me
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obrigava a pedalar com determinao contra a ventania. O bauzinho que eu tinha amarrado no bagageiro da bicicleta s fazia aumentar o peso. Quando cheguei  agncia
do Banco do Povo, situada num prdio de tijolos de dois andares no meio da cidade, estava encharcado de suor. Meu traje formal parecia as penas de uma gaivota depois
de cair dentro d'gua. Mas continuei vestido. Uma entrevista com o gerente de um banco estatal, como qualquer outro contato profissional, exigia que eu agisse com
toda a educao e propriedade, especialmente pelo fato de eu ter apenas 17 anos.

A cidade de Linli, no calor do vero ao meio-dia, parecia um castelo de areia um pouco desgastado pelo vento da praia - vazia, irrelevante e podendo desmoronar a
qualquer momento. Cachorros vira-latas esfomeados, com as costelas  mostra e cicatrizes resultantes de tentativas mal-sucedidas de roubar comida, deitavam-se 
sombra das paredes sujas do mercado, buscando alvio para o calor do sol.

Um homem idoso, todo enrugado e usando chapu, suava muito, e o suor escorria pelos sulcos de seu rosto, como num sistema de irrigao. Por trs da banca onde estavam
expostas suas cebolas modorrentas, ele estreitou os olhos para mim. Disse que, quela hora, todos os gerentes dos bancos estavam tirando um cochilo com a cabea
apoiada na mesa. Quando acordassem, permaneceriam no local de trabalho apenas por mais algumas horinhas, jogando pquer para matar o tempo e enganar o calor.

Suado e com sede, encostei a bicicleta nos degraus da entrada do banco, aguardando o fim da sesta. O universo inteiro parecia ter se aquietado, imvel, apenas respirando.
A sonolncia me fez bocejar. Tkei a camisa, pendurei-a no guidom da bicicleta e deixei-a secando ao sol. Depois, tirei os sapatos, que estavam com o cheiro da estrada
que eu tinha percorrido.

Repassei meu discurso vrias vezes. Meu maior obstculo seria convencer o gerente do banco que eu era o legtimo dono dos ttulos que guardava no meu ba. Os ttulos
haviam chegado ao prazo de vencimento, e eu pretendia resgatar todos. Mas era uma quantia vultosa. Mil ou dois mil iuanes no causariam nenhum problema ao banco,
mas um milho de iuanes?

Quando a pesada porta de madeira do banco se abriu, aprumei o corpo, mantendo as costas eretas. Minha camisa branca estava apenas um pouco mida de suor nas axilas.
Meus sapatos estavam bem amarrados, e eu tinha lavado o rosto no rio que corria ali perto. Fui recebido por um funcionrio

217

que bocejava e dava tragadas no seu cigarro enquanto cocava a bunda. Seu rosto estava marcado pelos veios irregulares da madeira spera da mesa por sobre a qual
estivera dormindo.

- O que quer? - grunhiu ele.

- Meu nome  Tan Long e vim tratar de negcios com o seu banco. Posso falar com o gerente, por favor?

O funcionrio suspendeu a cala, que escorregava o tempo todo de seu corpo magro, esfregou os olhos e disse:

- O gerente est muito ocupado e cuida apenas dos correntistas preferenciais. Qual  o assunto?

- Eu quero falar com ele. Voc no vai se arrepender de cham-lo para falar comigo.

- O gerente trata apenas com clientes que tenham investimentos que excedam a dez mil iuanes, nada menos do que isso.

Ele arqueou as sobrancelhas com desdm.

- Ento, meu senhor, ele vai ter mais de cem motivos para me atender. Por um pequeno instante, abri o meu ba, que estava lotado com os

ttulos que eu tinha guardado quando era menino, deixando o funcionrio dar uma rpida olhada no contedo.

- Por aqui, por favor.

Para minha surpresa, o gerente daquela agncia era uma mulher de uns quarenta anos, bonita e despachada. Para uma mulher conseguir aquela posio numa cultura dominada
pelos homens, ela tinha que ser pelo menos dez vezes mais inteligente que seu concorrente masculino.

- A que devo sua presena, meu rapaz? - perguntou ela, com todo o respeito, oferecendo-me um cigarro Sphinx com filtro, uma marca fumada por apenas alguns poucos
privilegiados na China.

- Voc fuma? (

- Claro que sim - menti.

- Um rapaz que fuma e entra aqui com uma mala cheia de mistrio..., Ela era poeta. ,

- Diga-me qual  a origem da mercadoria, qual  o valor dela, e o que posso fazer por voc.

Ela falava rpido tambm. Inclinou-se sobre sua ampla mesa, acendeu primeiro o meu cigarro e, em seguida, o seu. (

Despejei o contedo do ba em cima da mesa. , 218

- Vim aqui para resgatar ttulos do Fundo Patritico vencidos no valor de um milho de iuanes.

A mulher se levantou, jogou fora o cigarro e quase pulou por cima da mesa, vindo para cima de mim como se fosse me morder.

- Um milho? Trata-se de um investidor com uma viso de longo alcance... De onde  que voc tirou toda essa sua confiana?

- Herdei do meu av.

- Sei, sei... E como  que eu posso saber se voc obteve isso de uma maneira honesta, por assim dizer? - perguntou, folheando uma pilha de ttulos.

- A senhora no teria como saber - respondi honestamente. - E no preciso provar que sou titular deles. So ttulos negociveis, como est indicado no verso dos
certificados.

- Ah! As letrinhas midas...

- Eu li tudo o que est escrito e a senhora tambm deveria ler.

- Meu jovem, no foi isso o que eu quis dizer.

Ela deslizou para fora de sua cadeira e caminhou at a porta para fech-la. Seus quadris, firmes e redondos, rebolavam para a direita e para a esquerda, num balano
que fazia esquentar o sangue. Seus seios, um pouco cados, ainda davam sinais de uma sensualidade voluptuosa. Ela se virou lentamente, fechou as cortinas e, nesse
meio tempo, exibiu uma fatia do paraso ao mostrar, pela abertura do seu vestido tradicional, chi pau, um pedao de sua coxa de pele muito branca.

- O que  que a senhora est querendo dizer ento?

- Eu estou me referindo a eles.

Ela levantou um pedao da cortina, deixando-me ver a placa da delegacia de polcia.

- Voc no vai querer ir at l para provar que  o titular, vai?

Fiquei surpreso com a insinuao. Ela era uma mulher perigosa. Levantei-me, pronto para sair correndo do escritrio, mas ela bloqueou a porta, inclinando a cabea
e jogando o cabelo escuro para o lado.

- No entanto, se no h com o que se preocupar, ento um pedido de desculpas seria apropriado agora. O que achou que eu iria fazer, entreg-lo?

Ela riu.

Eu sabia o que ela estava querendo dizer, e devia ser o pior. Por que estava brincando comigo?

- A senhora no vai me enganar com isso. No h necessidade desta exigncia para resgatar o valor dos ttulos.

- Para proteger os interesses do banco, ns  que fazemos as leis aqui - disse ela. - E se os certificados tiverem sido roubados?

- No foram - respondi.

- Acredito. Alis, eu poderia at me responsabilizar por voc. Por um determinado preo.

Ela sorriu para mim.        <         > ,,

- E qual seria esse preo?

- Metade do que voc tem a.

- Metade? Nem daqui a um milho de anos.

- Pense na possibilidade de voc no conseguir nada por eles.

- A senhora est me ameaando de novo.

- No, estou apenas negociando. A comisso vai valer a pena, pois ela vem com outros servios includos - disse ela, tirando o casaco e revelando dois mamilos pontudos
sob a blusa de seda. - Relacionados ou no relacionados com a transao.

- Por um preo? E qual seria o preo?

- Voc aprende rpido.
Pensei um pouco, em silncio.                     '

- Dez mil iuanes para a senhora se eu sair daqui com um cheque do banco.

-- Vinte - retrucou ela. '

- Quinze. Tenho um longo caminho de volta para casa.

- Negcio fechado.

Ela estendeu a mo, mas fiquei impassvel. Mesmo assim, ela agarrou k minha mo e a apertou entre as suas.

- Lena Tsai. Por falar nisso, qual  mesmo o nome do seu av?

- Preencha o cheque primeiro.

Ela chamou o funcionrio e mandou que ele conferisse as pilhas compactas de ttulos.

Quando ele voltou  sala, Lena preencheu alegremente dois cheques, um de 15 mil iuanes, e outro de 985 mil.

- Voc acha que a minha comisso foi excessiva? - indagou ela.

- A renda de uma vida inteira de um professor conseguida em meia hora? A senhora  quem vai me dizer isso.- Voc no pensaria assim se tivesse que lidar com aqueles
nojentos l do outro lado da rua. Agora, seja um bom menino e me diga quem  o seu av. Estou morrendo de curiosidade.

- Hu Long.

- O ex-presidente do Banco da China?

Sa correndo porta afora e disparei chacoalhando na minha bicicleta, quase um milho de iuanes mais rico do que quando entrei. O vento havia mudado com a mar. Tive
que encarar outro vento de frente no caminho de volta para casa. A bicicleta finalmente no agentou mais o meu peso, e o pneu da frente murchou ao topar com uma
valeta escondida que eu no tinha percebido. Joguei-a no mar, deixando-a afundar nas guas do Pacfico. Continuei num passo apressado, assobiando durante o trajeto
inteiro. Fiz uma pequena parada na agncia dos correios da cidade, onde comprei um envelope de papel reforado, enfiei o cheque dentro e, em voz baixa, solicitei
ao funcionrio que o enviasse  minha casa no dia seguinte sem que o remetente fosse revelado. Por este servio sigiloso, botei uma nota de dez iuanes na mo do
funcionrio, que sorriu de orelha a orelha diante daquela gratificao equivalente ao seu salrio mensal.

Na mesa de jantar, minha famlia toda tinha uma expresso tristonha. A comida permanecia intocada. Era um peixe inteiro, uma cavala, cozida no vapor com pedaos
de gengibre e de alho salpicados em torno de seu corpo suculento. Havia sopa de almndegas de peixe fresco com arroz e uns temperos da regio.

Vov estava silencioso, dando baforadas no velho cachimbo que ele tinha feito com a madeira de uma rvore que cresce  beira-mar, debaixo d'gua, e da qual se faz
o melhor cachimbo para se fumar. Papai lia um documento amarfanhado e amarelado, escrito com tinta vermelha j meio desbotada, no qual havia um selo oficial. Mame
estava lambiscando o seu arroz, sentindo-se meio solitria no grupo silencioso.

- Algum problema? - perguntei.

- Onde esteve?

- Fui resolver um assunto para o sr. Koon.

- Talvez a gente precise sair desta casa em breve - disse vov com tristeza. - Hoje de manh cedo fui falar com o Gordo sobre a hipoteca da casa.

- E ento?

A JVIUJN

- Ele foi bastante gentil, conversou comigo e achou que era uma boa idia. Depois,  tarde, apareceu por aqui para me dizer que havia uma escritura guardada no arquivo
do Registro de Imveis do chefe do partido, que tinha efetivamente outorgado a posse desta casa em 1949 a um fazendeiro pobre quando o Exrcito Vermelho ocupou a
vila.

- Mas ela sempre foi propriedade da nossa famlia - retruquei. - E alm disso, a nova poltica de reformas restitui o imvel ao proprietrio original, tornando a
transferncia comunista sem valor e sem efeito.

- Mas o Gordo disse que ele, como chefe do partido desta cidade, no tinha comprovao deste documento de devoluo. Disse tambm que no havia nenhum precedente
em aplicar esta poltica, e que no faria isso por ns. No consigo entender por que ele agiu deste modo. Era como se tivesse algum ressentimento contra ns - disse
vov, meio perplexo.

Aquilo era obviamente uma vingana contra mim. Agora, a minha famlia teria que sofrer esta desapropriao inconcebvel.

- Talvez a gente precise de um bom advogado - disse mame.

- No, vou falar com o sr. Koon. Vou ver se ele pode fazer alguma coisa - interferi.

Depois do jantar, fui correndo  casa do sr. Koon. Koon morava num bangal de frente para o mar. Ele e seu filho vieram me receber na porta de casa.

- O que o traz aqui, Tan?

- Vim pagar ao senhor pela sua bicicleta. Ela caiu do penhasco e agora est nadando no mar. Tome.

Tirei do bolso uma nota dobrada de cem iuanes, que foi rejeitada com veemncia por Koon.

- Um dia, caminhando pela praia na mar baixa, encontrei aquela bicicleta. Ela veio do mar e voltou para ele. Deve ser l o lugar dela. Por favor, fique com o dinheiro
- disse ele.

- No, eu insisto. Eu a atirei do penhasco.

-  um lugar adequado para ela. Agora me diga por que voc est aqui quando deveria estar estudando? Sente-se.

Sentamos nos tamboretes que ficavam em torno da mesa redonda de pedra. Contei a ele toda a histria. Koon disse apenas:

- Vou cuidar disso para voc.

Uma pequena risada seguiu-se a esta declarao.
- Espere s para ver.

No dia seguinte, minha famlia acabrunhada recebeu duas notcias que os fez sorrir novamente. Chegou, pelo correio, um envelope com um cheque de 985 mil iuanes aos
cuidados do vov Long. A carta que o acompanhava dizia que quem o enviava era um scio oculto de uma financeira. Vov saiu danando pela casa como se estivesse embriagado.
A segunda notcia veio  tarde, quando o sr. Koon apareceu em nossa casa com um documento oficial do governo, carimbado com o selo vermelho do Partido Comunista.
O documento dizia, em poucas palavras, que os proprietrios originais de todos os imveis desapropriados e outorgados aos fazendeiros pobres tinham o direito a reav-los.
O prprio sr. Koon tinha assinado o documento. Ele tambm tinha lavrado uma escritura restituindo a antiga casa  famlia Long. Ningum na aldeia saberia que ele
havia redigido os documentos com uma data anterior e colocado sorrateiramente uma cpia dos mesmos no arquivo do escritrio do chefe do partido na noite passada,
 meia-noite. Depois disso, jogou no mar a chave sobressalente do escritrio que estava em seu poder. Ningum ficaria sabendo de nada.

NA BAA DE Lu CHING, AS MUDANAS no eram uma constante. A estagnao, sim. Durante milhares de anos, os habitantes da aldeia tinham cultuado o mesmo mar, a mesma
montanha e a mesma terra, na qual a vila estava situada. Ocasionalmente, quando as coisas mudavam, os habitantes da aldeia no conseguiam digerir isso direito. Era
como comer peixe estragado, o que causava uma revoluo nos intestinos. Foi o que aconteceu com a passagem daquele cargo quase sem importncia do sr. Koon para o
Gordo. O povo do vilarejo no gostou da mudana. E no foi porque o Gordo tinha comprado o poder com dinheiro sujo, mas porque ele no prestava os mesmos servios
que o sr. Koon oferecia sempre com um sorriso. Uma certido de casamento agora teria que esperar at que o Gordo estivesse de volta  cidade para assinar o documento.
As disputas conjugais ficavam sem soluo. As mulheres voltavam chorando para a casa de seus pais, deixando seus maridos rabugentos abandonados, sem saber o que
fazer. Disputas por propriedades, pequenos furtos... a lista crescia cada vez mais. Os aldees, incomodados, passavam por cima dele e iam diretamente ao centro administrativo
do municpio. Com o tempo, o chefe municipal do partido sentiu que alguma coisa no estava cheirando bem. Abriu-se um

223

inqurito oficial quando a mulher maltratada e espancada de um pescador jogou-se ao mar. Grandes enguias arrancaram a carne do seu corpo, que foi trazido de volta
 praia alguns dias mais tarde.

O pai da mulher que tinha morrido era um comerciante de porcos que tambm ganhava a vida castrando leites, coisa que ele ameaou fazer com os bagos nojentos do
Gordo. Se o Gordo houvesse investigado a queixa, ela talvez no tivesse sido espancada e tirado a prpria vida, envergonhada e desolada.

Rodeado pelas crianas da vila, o pai da moa ficou aguardando na frente da manso de telhado vermelho do Gordo, afiando o seu instrumento de trabalho, uma bela
faca curva que reluzia brilhantemente ao sol. De vez em quando, pegava uma folha de capim, jogava-a para o alto e a cortava em pleno ar. Ele era conhecido naquela
regio do litoral por saber executar seu servio de um jeito indolor. Mas qualquer um que o tivesse visto trabalhando, sabia que isso no passava de iluso. Era
como se os leites pudessem farejar o homem a quilmetros de distncia. Eles arrastavam as patas traseiras, escondiam-se, e tremiam na presena dele. Quando as cabeas
dos leites eram enfiadas dentro de um tubo de bambu para abafar seus berros, tinha-se a certeza de que aquilo devia doer muito.

O Gordo, apavorado com a aglomerao que tinha se formado diante de casa, ligou para a administrao do municpio, pedindo que enviassem uma milcia para controlar
o tumulto. Eles retiraram o furioso comerciante de porcos da propriedade do Gordo, mas o homem, transtornado pela perda da filha, voltou  noite, bradando:

- Ei, voc a. Desa aqui. No vai doer nada, seu porco obeso!

O assdio continuou por vrios dias, at que o sr. Koon conseguiu persuadir o homem a parar com aquilo e desistir.

Ningum sabia o que o sr. Koon tinha sussurrado ao p do ouvido do comerciante de porcos. Mas todo mundo podia adivinhar. Naquela cidade retrgrada, os homens comparavam
o tamanho de seus colhes em pblico, a cu aberto, e ruidosamente. Para ser mais preciso, eles os pesavam, mediam e deixavam que as pessoas os pegassem para testar
a sua solidez. Um testculo rijo era superior aos moles e escorregadios. Os grandes e rijos eram o sonho de todos. A maioria acreditava que os pequenos e rijos eram
melhores do que os grandes e macios, mas havia diferentes correntes de pensamento. Colhes grandes, rijos ou macios, eram muito importantes, 224

independentemente de qualquer outra coisa. Os homens muitas vezes entravam no mar, sentavam nos bancos de areia e deixavam seus bagos serem mordiscados pelos peixes
pequenos, acreditando que aquelas mordidinhas fariam com que eles aumentassem de tamanho.

Um homem que no tinha filhos era um homem incapaz de ter filhos. Portanto, deveria haver algum problema em seus testculos, mesmo que fossem grandes e rijos. Isso
era ainda pior do que no ter nenhum testculo. E, baseado nesta teoria, o homem dos porcos pode ter sido persuadido a desistir do seu intuito. Porque o Gordo obviamente
se desgraou ao ter um filho retardado e, na vila, ter um filho dbil mental era a mesma coisa que no ter filho nenhum. Com o auxlio do sr. Koon, o homem dos porcos
j devia ter chegado  concluso de que o Gordo j era mesmo um fracasso sem testculos e que no valia o esforo.

O castrador de porcos caiu no cho diante das paredes da casa do Gordo, enlouquecido. Enquanto ia sendo levado embora, ouviram-no murmurar:

- Ou a renncia ou os seus bagos!

Ainda assustado, o Gordo renunciou ao cargo no dia seguinte. Mas no era assim to simples. Aquilo demonstrava sua inteno de faltar com o seu compromisso para
com o partido, um comportamento no mnimo questionvel. E o Partido Comunista no queria perder aquele boi gordo capitalista, ou qualquer outro boi, especialmente
na poca em que as contribuies ao partido estavam diminuindo como a mar vazante. Como todos sabiam, nada no mundo comunista era simples e fcil. Uma renncia
assumida era considerada um ato de traio. Quem renunciava era enforcado e o corpo era deixado l, dependurado. Eram chamados de covardes e traidores. E, se pudessem
fazer essa pessoa sofrer de algum modo, eles o fariam.

O Gordo tinha escolhido a sada mais fcil, tomando a deciso de defender seus bagos inteis, ignorando os conselhos do chefe municipal do partido, que se sentiu
bastante humilhado e astutamente usou de suas prerrogativas. Em toda a sua carreira poltica, disse consigo mesmo, ningum havia abandonado o partido por causa de
um par de colhes. Ele deixou o caso pendente, sob a alegao do lento processo burocrtico de aceitao da renncia, e manteve o Gordo em seu cargo, esperando que
o ensandecido homem dos porcos se recuperasse logo e voltasse a empunhar a faca novamente em busca daquilo que mal dava para se enxergar por entre

aquelas duas pernas gordas. Neste meio tempo, o chefe municipal do partido emitiu uma ordem aos municpios vizinhos para que no fornecessem mais nenhum alvar ao
Gordo para realizar qualquer negcio que fosse.

Depois disso tudo, o Gordo raramente se aventurava do lado de fora da manso de telhado vermelho. Quando o fazia, era sempre ao meio-dia. As crianas zombavam dele,
berrando o nome do vendedor de porcos. O Gordo olhava ao redor nervosamente e corria. A pele de seu rosto perdeu o vio e seu andar, antes vigoroso e saltitante,
havia perdido um pouco da velocidade. Antes, ele fazia negcios no cais todos os dias, com a calculadora numa das mos - uma inveno em que ningum na vila confiava-e
um pequeno baco amarrado em torno de sua cintura grossa para apaziguar os nativos, que insistiam em conferir a preciso da calculadora. Agora, mandava a sua esposa
em seu lugar, e ela corria para cima e para baixo com as papeletas das ofertas e dos lances pelas cargas da pesca diria, trazida pelos navios que retornavam ao
porto.

DURANTE VRIOS DIAS NO FOI POSSVEL ver Sumi. Isso me deixou muito frustrado, e o Gordo, embora j estivesse bem abrandado, ainda no tinha se transformado num
homem arrependido. Havia at boatos de que ele tornara Sumi sua amante para produzir ele mesmo a sua prpria terceira gerao. A vila estava fervendo, mas ningum
levantava a tampa para deixar o vapor sair. Eu sabia que a novidade acabaria se dissipando e que todos acabariam falando disso como se fosse um acontecimento do
ano passado. Os habitantes da aldeia veriam Sumi grvida, uma parteira tiraria o fruto do seu ventre, e o beb choraria. Pelas costas, os aldees diriam que o beb
era filho do Gordo, apesar de ele apresent-lo como seu neto. Com o tempo, o boato acabaria se esvaindo. Sumi seria mantida como um acessrio fixo da casa e viveria
sendo alvo de olhos que se reviravam, de sussurros. Ganharia o honorvel ttulo de Segundo Quarto, em contraste com a primeira e legtima esposa, que seria chamada
de

Quarto Principal.

Entrei impetuosamente no escritrio do sr. Koon.

- No existe nenhuma lei que impea tal coisa de acontecer?

Koon sabia o que estava me deixando aborrecido. Ele balanou a cabea

raspada e disse:

- A lei no permite isso, mas a tradio sim. <>,,    /   . 226

- Mas essa  uma tradio abominvel! Vou ajudar Sumi com os estudos dela. Sei com toda a certeza que, com a nova poltica do governo, ela pode receber um auxlio
se conseguir boas notas no vestibular. E se o Gordo quiser arrast-la de volta para casa, o governo poder intervir e coloc-la dentro de um trem - disse. - Esta
 a nica sada para ela.

- Isso faz sentido. A nova poltica de modernizao do pas est realmente direcionada para descobrir jovens talentos. Pode ser que isso funcione. Mas ela perdeu
muitas aulas e no tem tempo de estudar para a prova.

- Se conseguirmos fazer com que o material chegue escondido s suas mos, a a escolha vai ser dela.

- Eu sei que ela vai gostar da idia. Ela  uma das meninas mais inteligentes que j conheci. O lugar dela  certamente fora daqui.

- Como eu poderia arrumar um jeito de falar com ela?

- Ela fica trancafiada l dentro o tempo inteiro, a no ser por uma hora por dia, ao pr do sol, quando vai colher legumes e verduras na horta que fica no quintal
do Gordo.

NAQUELE FINAL DE TARDE, FIQUEI ESCONDIDO atrs de um velho pinheiro, com uma pilha de livros amarrados por uma corda debaixo do brao. Na luz acinzentada, vi a silhueta
de uma moa se inclinando sobre os canteiros de bok choy e de alho-poro, com seu cheiro forte e penetrante. Era Sumi, com um cesto de bambu pendurado no brao, escolhendo
os melhores legumes e verduras e limpando a terra dos talos.

- Sumi? "

- Quem ?

- Sou eu, Tan.

Houve um momento de silncio antes que ela olhasse ao seu redor, sem se virar. Em seguida, veio apressadamente na minha direo.

- O que est fazendo aqui? - perguntou. Seus olhos grandes ficaram ainda maiores.

- Ouvi vrios boatos sobre voc.  verdade?

- No, so apenas boatos maldosos que o Gordo espalhou para sujar o meu nome.

- Sua nica maneira de escapar daqui  entrar na universidade - sussurrei. - Aqui esto os livros para voc estudar. , '

- Como  que voc sabe que essa  a nica sada? .'

227

- Voc tem alguma outra idia?

- Tenho. Estou escrevendo um livro sobre a minha vida no orfanato. Se puder me ajudar a encontrar um jeito de public-lo, ser o fim das minhas dores de cabea.

- Voc est escrevendo um livro?

- Estou. Desde o dia em que um rapaz morreu por minha causa. Prometi a mim mesma que essa histria seria contada.

- Que rapaz?

- Ah... isso  uma longa histria! Seus olhos estavam baixos.

- Quero lhe agradecer pelo belo poema. Ele tem uma jovialidade que

me comoveu.

- Voc fala como se fosse uma velhinha.

- Por dentro, eu me sinto como uma velha. Voc vai entender quando ler o meu livro. Da prxima vez que voc trouxer mais material de estudo para mim, vou lhe emprestar
o meu manuscrito. Est vendo aquela janela l em cima?

Ela apontou uma pequena abertura no sto da casa e eu fiz que sim com a cabea.

- Quando a lanterna estiver acesa  noite, voc vai saber que estou estudando com voc.

Eu sorri e apontei para a minha casa, encravada na montanha.

- Se voc vir uma luz acesa l, aquele  o meu quarto. Estarei lendo o seu livro.

- Agora a gente pode conversar at mesmo no escuro.

- Estou ansioso para ver sua luz acesa hoje  noite. .

- Eu tambm.

Meu peito arfava de excitao. A atrao que eu sentia por ela era ntida e palpvel. Eu queria poder toc-la, senti-la, sentar ao seu lado, ou alguma coisa assim.
Qualquer coisa que fosse.

Naquela noite, estudei com muito mais afinco. Mudei minha mesa de lugar para ficar de frente para a janela. A chama da minha vela danava com a brisa do mar. Fui
cedo para o quarto para poder captar o primeiro vislumbre de luz no quarto dela. O relgio bateu meia-noite, mas ela ainda no estava l. Fiquei impaciente, apaguei
minha vela e a reacendi. Sua janela se iluminou. Ela estava me observando. Soprei a vela novamente. 228

Ela tambm. Era ela. Quase que simultaneamente, ns dois reacendemos as nossas velas.

No vi a luz no seu quarto se apagar at o dia seguinte, quando a luminosidade prateada comeou a se irradiar no horizonte, do lado leste. Eu tinha pegado no sono,
mas ela no. Esfreguei os olhos, me perguntando o que estivera fazendo - escrevendo seu livro ou estudando? Ela tinha ficado acordada a noite inteira. Ah... minha
dama da noite!

CAPTULO 25

MEU QUERIDO,

Meu corao est doce como no acontecia desde aqueles dias depuro mel que passamos juntos, quando voc ainda estava vivo e vibrante.  o rapaz que veio da cidade,
que se fez de heri por vontade prpria, e que se lana ao perigo para salvar a pessoa horrvel que sou. Isso s pode ser coisa sua. Nada sem a fora motriz que
voc  poderia mover a terra ou abrir o mar como Jesus, o deus do mundo ocidental.

Voc deve estar detestando o fato de eu escrever sobre um outro rapaz que est disputando o meu corao. Se ainda estivesse por aqui, isso levaria, sem dvida, a
mais uma morte. Mas voc no est mais aqui. Perdo. J lhe pedi perdo, meu querido Shento?

A verdade  que tenho conseguido me manter intocada, sem ser conspurcada pelas mos de muitos animais cobertos de luxria, incluindo o Gordo Chen, enquanto consigo
levar a minha vida e tornar a vida possvel para o nosso filho, Ming- minha luz, meu esplendor. Fui marcada, fui ferida, fui espancada e cuspiram em mim. Mas ningum
poder fazer com que eu me rebaixe. Vivo  margem da vida, sobrevivendo vergonha de ter que buscar abrigo sob o teto do Gordo Chen, mas, ainda assim, consigo manter
a minha dignidade.  o
230

que me faz andar com a coluna ereta e a cabea erguida.  o que me permite olhar para mim mesma sem querer partir o espelho em pedaos e cortar minha prpria garganta.

Agora voc est morto, est acima desta vida. Que bom para voc! No precisa mais nem erguer um dedo. Tem uma eternidade de tempo. Posso lhe fazer uma pergunta?
 uma pergunta que pode parecer um pouco chocante, uma pergunta difcil de fazer.

Ser que algum dia vou poder amar novamente? Ser que voc me abenoaria se eu abrisse meu corao para outro amor?

Sumi,  Amando-o sempre

CAPTULO 26

QUANDO SUMI ME DEU SEU MANUSCRITO em troca de mais livros didticos, ela me disse:

- Se no gostar, apague a sua vela uma vez. Se achar que  bom, apaguea duas vezes. E se achar que  timo, apague-a uma terceira vez.

Naquela noite, antes de comear a ler o livro, obriguei-me a estudar por trs longas horas. Finalmente, peguei o manuscrito de Sumi, um amontoado de papis amarelados,
inteiramente escritos a lpis. Sua caligrafia chinesa me pareceu elegante e vigorosa. Sua autobiografia estava escrita em forma de dirio. Li um trecho: "Eu no
tinha conscincia da minha beleza at que os olhos dos homens me falaram dela". Uma menina de seis anos, assustada e perdida, foi abandonada num orfanato  beira-mar,
um buraco escuro cheio de baratas e crueldade.

Meus olhos percorreram as pginas com sofreguido. Quinze minutos depois, eu j tinha lido vinte pginas. Essa foi a cota de leitura que estipulei para cada noite.
Mas nada me impedia de adiantar o lote do dia seguinte.

Nunca tinha lido nada assim to fiel  vida, uma narrativa com tanta sinceridade e com uma expresso to ntima dos sentimentos! Todos os

outros livros, na grande tradio da literatura chinesa, eram floreados e pomposos, uma mera exibio da amplitude do conhecimento do escritor, do seu domnio da
lngua e do seu manuseio de estilos sofisticados. A autobiografia de Sumi tocou meu corao desde o incio, prendendo minha ateno at eu dispensar a disciplina
que me impus e ler o livro inteiro. Eu sabia que ela estava me observando, pois a luz em seu quarto permanecia acesa. s quatro da manh, quando finalmente fechei
o livro, dei um beijo na sua assinatura e o guardei. Apaguei a vela no apenas trs, mas dez vezes. Vi a luz da sua lanterna se apagar e imaginei o que essa moa
extraordinria estaria sentindo.

No NOSSO ENCONTRO SEGUINTE, NO JARDIM, Sumi estava extasiada, e eu, mais apaixonado do que nunca. Ruborizada, ela me perguntou o que eu havia gostado mais no manuscrito.
"Tudo", foi a minha resposta. Disse que ela poderia inaugurar um novo estilo na saturada literatura da China. Ela perguntou como seria isso. Seria contar a histria
do jeito como realmente aconteceu, respondi. Menos era mais, como disse Hemingway - o autor americano mais lido no mundo. Ela gostou muito desta comparao e ficou
pensando no que poderia fazer para conseguir public-lo.

- Existe uma maneira. Termine o livro e deixe a publicao por minha conta - disse eu, num tom firme e misterioso.

Ela sorriu.

- Minha mente me diz para no acreditar em voc, mas meu corao quer acreditar.

- Oua o seu corao. Quando o livro for publicado, vou querer uma coisa em troca. .  , u

- E o que seria?

- Um primeiro beijo. r<

- Gostei da palavra "primeiro".

O vestibular estava marcado para daqui a apenas trs meses, em meio ao calor brutal de Fujian em pleno vero. A cada dia, enquanto eu metia a cara nos livros, sentia
um n na garganta cada vez maior. Tinha que fazer seis provas no espao de trs dias e tirar notas altas, j que meu pai ficou em primeiro lugar quando fez o vestibular
para a Universidade de Beijing.

Todas as noites, a minha dama da noite estudava junto comigo at de manhzinha. Quando eu ficava cansado, apoiava-me no parapeito da janela

233

e contava as estrelas. Sumi era mais uma estrela no cu. Ela apagava sua lanterna para me avisar que estava l. Quando ela apagava a vela duas vezes, eu apagava
trs. Ela apagava cinco vezes, e eu, seis. s vezes, quando a noite estava muito silenciosa e o mar dormia calmamente, eu quase podia ouvir seus passos, fazendo
ranger o piso de madeira, enquanto sua sombra ia e voltava. Eu sabia que ela estava exercitando o vocabulrio de ingls. Isso renovava minhas energias e eu mergulhava
novamente nos meus estudos.

No esqueci a promessa que lhe fiz sobre o livro. Escrevi uma carta breve e sucinta para Lena, a gerente do banco que havia descontado uma porcentagem considervel
do meu depsito. Uma semana depois, recebi uma carta dela, endereada  minha escola - o que no era pouca coisa, levando-se em conta que o servio postal da China
mais extraviava correspondncia do que entregava. Li a carta e abri um sorriso. Viva o dinheiro, qualquer tipo de dinheiro! O livro ia sair.

No mesmo dia, vov recebeu uma carta da mesma gerente de banco.  mesa do jantar, ele nos mostrou a carta e disse alegremente:

- Parece que consegui fazer o meu primeiro emprstimo como diretorexecutivo do Banco Litorneo.

- Para quem? - perguntei.

- Para uma editora.

O velho sorriu orgulhosamente.

- Quem diria? Foi essa mulher do banco que me enviou o capital inicial para a minha financeira. Agora ela tambm est agenciando emprstimos para ns.

- O que o senhor acha do setor editorial? - perguntei.

-  um monoplio estatal. Mas pode ser um negcio com um grande potencial de expanso. A mdia pode ser o prximo grande negcio.

- O senhor  um velho muito sabido - comentei.

- Posso ser sabido, mas no sou to velho assim. Eu me sinto jovem, sendo o meu prprio patro.

O que vov no sabia  que eu havia fundado uma holding- Editora Mar Azul - para fazer um emprstimo e publicar o livro de Sumi. Tambm pedi a Lena que contratasse
um revisor aposentado para trabalhar no

livro.

Sumi me entregou o manuscrito completo num dia e, no dia seguinte, eu o enviei para Lena como correspondncia registrada. 234

O Banco Litorneo fez um segundo emprstimo para o meu pai no dia em que ele recebeu o alvar do governo do municpio. Era o capital inicial de que ele precisava
para arrendar toda a pennsula onde ficava o orfanato, segundo me disse Sumi. Papai ficou frustrado ao saber que o terreno tinha sido comprado h apenas uma semana
por um investidor annimo, que cuidava de seus negcios atravs da gerente do banco. De qualquer maneira, o arrendamento seria vlido por um prazo de 99 anos em
condies mais do que favorveis, em face do atual preo do mercado. E, melhor ainda, o proprietrio oculto pediu uma participao de cinqenta por cento em troca
do depsito imediato e do aluguel.

- Hum... ele sabe negociar - observei.

- Parece ser um homem gentil querendo me ajudar a iniciar o empreendimento - comentou papai - e um homem astuto com um olho no nosso potencial de crescimento.

QUANDO CHEGOU o DIA DA PROVA, fiz uma proposta ao sr. Koon.

- Se o senhor conseguir tirar Sumi de casa por trs dias para fazer os exames comigo no centro administrativo do municpio, prometo dar um novo banho de ouro na
esttua de Buda e oferecer  escola um belo conjunto de cestas de basquete.

Koon olhou para mim, sem acreditar no que estava ouvindo. Um banho de ouro no Buda sorridente custaria no mnimo uns mil iuanes. E as cestas de basquete, outros
mil. Nada to bom assim jamais havia acontecido quele templo e  escola. Ele aceitou prontamente o desafio, sem saber como conseguiria o que eu havia pedido. Naquela
noite, o monge Koon rezou solitrio no altar silencioso e teve uma idia, como se o prprio Buda sorridente a tivesse soprado para ele. No altar, havia uma dzia
de oferendas - uma galinha pintada, patos assados, porcos de massa e um polvo cozido no vapor. Koon pegou o polvo e o levou para casa. No dia seguinte, foi pessoalmente
 casa do Gordo levando fatias bem grandes do animal marinho.

- Vim aqui lhe entregar as preciosas sobras da oferenda - disse ele ao Gordo, que o recebeu na seleira da porta, srio. Acreditava-se que trazia boa sorte comer
as sobras das oferendas.

- A que devo esta honra?

- Vim agradecer suas generosas ofertas ao templo - disse Koon, com sinceridade. , ,

235

Desconfiado, o Gordo pegou o polvo e foi at a cozinha onde Sumi, com o menino no colo, preparava o jantar. Quando viu Koon, ela cortou um pedao de peito de pato
e o ofereceu ao professor. Depois de aceitar a carne, Koon enfiou outro pacote de carne de polvo no bolso do avental da moa. No precisou dizer nada - estava tudo
escrito no pacote.

Naquela noite, correu a notcia de que o Gordo estava com uma diarria incontrolvel. O monge foi informado, pois tinha retomado seu cargo de secretrio do partido.
Ele chamou uma ambulncia. A famlia inteira, incluindo Sumi, foi enviada ao hospital do municpio.

- E quem vai tomar conta do beb de Sumi? - perguntei.

- Quem mais seria?

- O senhor? ;< O sr. Koon fez que sim.

- Professor e bab. D o seu melhor para merecer isso.

Koon havia adicionado  carne do polvo uma boa dose de laxante e tambm de sedativos  base de ervas para que o Gordo dormisse por trs dias e trs noites. Embora
se acreditasse que Sumi tivesse comido da mesma carne, na verdade ela tinha comido apenas a parte boa que estava no outro pacote. No dia seguinte, ela tirou a roupa
azul do hospital e caminhou at o Colgio Central, no centro administrativo do municpio.

Fiquei entusiasmado com a engenhosidade de Koon, mas ao mesmo tempo preocupado, pois quando o Gordo acordasse, no deixaria Koon escapar desta to facilmente. Eu
no sabia que cartas Koon tinha guardadas debaixo de suas amplas mangas, mas estava certo de que Buda afastaria o que quer que pudesse nos acontecer de mal.

Sumi e eu ficamos de mos dadas pela primeira vez enquanto espervamos, nervosos, pela prova. Os jovens que moravam na sede do municpio estavam todos bem-vestidos;
a maioria tinha vindo de bicicleta e alguns at de carro. Mas aquilo no me intimidou.

- Lembre-se: vamos conseguir! - disse a Sumi.

- Estou muito assustada!

- No fique. Pense em mim e nas palavras "Universidade de Beijing". Foi o que Sumi fez durante trs exaustivos dias. Comparvamos as

respostas depois de cada prova e apenas sorramos. Quando os exames finalmente terminaram, Sumi me deu um beijinho no rosto e ficou vermelha; depois foi embora e
tornou a vestir a camisola do hospital. Fiquei ali parado
236

durante uns cinco minutos antes de montar na minha bicicleta e pedalar de volta para casa, assobiando, com o vento a meu favor.

QUELA ALTURA, A GERENTE DO BANCO tinha se tornado o meu alter ego e minha procuradora para assuntos comerciais. Lena, uma combinao estonteante de beleza madura
e sagacidade, era a representante ideal para mim. As frias de vero permitiram que eu fosse pedalando at a sede administrativa do municpio para conversar com
ela.

- Como vai o meu livro? - perguntei.

Lena acendeu dois cigarros ao mesmo tempo e me deu um.

- Receio que no muito bem. A Editora Mar Azul est decaindo. O fluxo de caixa secou, os funcionrios no tm sido pagos, e eles publicam livros de pssima qualidade,
que nem os monges leriam.

- Ento podem ter que encerrar as atividades?

Ela fez que sim com a cabea, mas seus olhos se iluminaram quando acrescentou:

- Mas vejo uma boa oportunidade de negcio a. Vamos compr-la.

- Mas  uma estatal. Eu teria que assumir todos os problemas, como aposentadoria e moradia dos aposentados.

- No se comprarmos apenas os equipamentos e os ttulos sobre os quais eles detm os direitos autorais.

- Aquisio de ativo. Genial. V em frente e feche o negcio. Eu lhe dou dez por cento de comisso pela transao.

Ela sorriu.

- Muito generoso de sua parte. Vou iniciar as negociaes com a Editora Mar Azul sobre a compra da firma. Como voc sabe, eles so meus clientes aqui do banco. Outra
coisa: o Banco Litorneo vai receber dez novos pedidos de emprstimo que encaminhei para ele. Quanto  ostreicultura do seu pai, recomendo que faamos um consrcio
com a Agncia de Importao e Exportao Agrcola da provncia de Fujian.

- No gosto muito de consrcios. Quero liberdade total.

- Esta  a nica maneira de exportar os produtos legalmente, j que a agncia provincial detm as cotas de exportao, e ns no.

Balancei a cabea, concordando.

- Mais uma coisa - acrescentei. - Ser que a autobiografia pode ficar pronta daqui a um ms?
- Considere isso como lquido e certo.

Trs dias depois, recebi uma carta de Lena informando-me que, pela quantia de cem mil iuanes, eu agora era dono da Editora Mar Azul, e poderia solicitar um emprstimo
no valor total da aquisio, na agncia do Banco Popular onde ela trabalhava, sem ter que pagar nada como entrada. Nem eu nem Lena sabamos que o que havamos adquirido
valeria ainda muito mais no futuro. Tnhamos em nosso estoque um alentado catlogo de edies antigas das obras do presidente Mo e ramos os detentores dos seus
direitos autorais; alm disso, tambm tnhamos os direitos de traduo de todos os lderes comunistas. Disse a mim mesmo que, dali para a frente, nunca compraria
mais nada com o meu prprio dinheiro. Lena havia me ensinado a primeira lio sobre capitalizao.

s vezes, eu ia de bicicleta at a cidade de Linli e ficava na biblioteca at o pr do sol, lendo todos os jornais que me caam nas mos. Depois de muita pesquisa,
resumi a China atual em duas palavras: anos dourados. Todas as empresas estatais estavam perdendo dinheiro. Todos os bancos estatais haviam recebido bastante autonomia
para efetuar emprstimos, e estes eram, em sua maioria, emprstimos de risco para a nova gerao de capitalistas, depois da inoperante Revoluo Cultural. Quase
todos os setores industriais necessitavam de uma injeo de capital e de eficincia. A economia estatal estava degringolando, e uma economia de mercado ainda incipiente
estava surgindo. No fim das contas, tudo se resumia a uma palavra que ecoava: oportunidade, oportunidade, oportunidade!

No dia seguinte, fiz outra viagem ao escritrio de Lena para lhe dizer que eu no queria mais operar como scio oculto. Em vez disso, rebatizaria a minha empresa
de Drago & Cia. e queria que Lena fosse a presidente da firma. Solicitei que ela pedisse demisso do banco e trabalhasse unicamente nesta nova funo.

- Mas voc no est entendendo direito a situao. O meu cargo atual neste banco estatal decadente  que me d poder e liberdade de ao - argumentou Lena.

- Voc est equivocada. Acabo de criar uma nova estirpe de executivos que no precisa contar unicamente com seus contatos na esfera comunista, mas sim com seu instinto
de sobrevivncia e seu tino comercial. Se voc acha que pertence a esta nova estirpe, ento aceite o cargo.

Sem mais hesitao, ela aceitou a minha oferta.
238

A Drago & Cia. foi fundada com um aperto de mo e um ativo de cerca de um milho de iuanes, o equivalente a cinqenta mil dlares.

O livro de Sumi seria o ttulo de estria da renascida Editora Mar Azul. O editor-chefe, professor Jin, tambm vtima da Revoluo Cultural, revisou ele mesmo o
fino volume. Quando se aproximou a data da publicao, ele telefonou para Lena para dizer que havia chorado muitas vezes ao ler o livro e que conseguiriam uma boa
vendagem. Mas receava que os canais tradicionais de distribuio no estivessem disponibilizados, porque a histria, que era de cortar o corao, expunha muitas
das mazelas da China comunista, e as autoridades a impediriam de chegar at as grandes livrarias.

Dei instrues a Lena para que ela contratasse caminhes, tratores, bicicletas e entregadores para fazer com que os livros chegassem s pequenas livrarias em toda
a provncia. Se isso funcionasse, eu faria a mesma coisa em mbito nacional.

O velho editor ento me perguntou se poderia ter autonomia para adquirir ttulos no mesmo estilo de literatura. Ele previu que haveria uma forte demanda de livros
mais reveladores sobre a Revoluo Cultural, obras que as editoras estatais no ousavam adquirir. Mas a Mar Azul poderia faz-lo. Entretanto, avisou-me que isto
acarretaria grandes riscos. Tudo que lhe disse foi que sem arriscar, no h como lucrar.

Os RESULTADOS DAS PROVAS SARAM em agosto e foram enviados ao escritrio do sr. Koon, que imediatamente acorreu  minha casa. Com sua perna defeituosa se arrastando
pela estrada, eu vi a poeira que se levantava anunciando a sua chegada antes que eu pudesse v-lo sacudindo o envelope na mo. Quando se aproximou da casa, quase
sem ar, pediu que eu me ajoelhasse na varanda. Tentei agarrar o envelope, mas o monge me deu um tapa e pediu que eu rezasse com ele antes de abri-lo para saber o
resultado.

- Que Buda nos ajude.

- Que Buda nos ajude.

- Por favor, abenoe este rapaz que pagou por um novo banho de ouro para que Vossa Santidade possa brilhar mais e tambm pela quadra de basquete. E abenoe a menina
Sumi, que precisa tanto da sua ajuda!

- Ande, ande, vamos abrir - insisti.

239

O monge me deu uma joelhada com a perna aleijada. Depois de uma longa ladainha de oraes ininteligveis, Koon abriu o primeiro envelope.

- Quatrocentos e cinqenta para o camarada Tan Long - anunciou ele e continuou a ler. - Tambm diz aqui que voc e outro estudante da provncia de Fujian esto empatados
no primeiro lugar. Parabns!

Fiquei abestalhado. O primeiro lugar em toda a provncia? Minha cabea esquentou e esfriou, minhas tmporas latejavam. Eu ia entrar para a Faculdade de Direito da
Universidade de Beijing! Mas quem  que tinha empatado comigo?

- Vamos ver como Sumi se saiu - acrescentou Koon. Desta vez fui eu que abri a carta.

- Ela tirou 450!

Soube, logo de cara, sem ter que ler o restante, que era Sumi que tinha empatado comigo. Sa pulando pela varanda de madeira que nem um sapo.

- Sumi conseguiu! Sumi conseguiu!

O monge gritou de alegria e pulou junto comigo, apesar da sua perna aleijada.

- Obrigado, professor. Nunca vou poder lhe agradecer o bastante -- disse eu, segurando-o pelos ombros.

- No, eu  que lhe agradeo por isso. Para mim, voc no sabe o que significa fazer dois alunos entrarem na Universidade de Beijing no mesmo ano. Devo ter superado
todos os professores desta provncia. Deve haver uma promoo a caminho para mim.

- Deixe-me entregar isto a ela - pedi. Ele me deu o envelope, sorrindo.

Naquela noite, reuni a famlia em torno da mesa de jantar e anunciei que a terceira gerao dos Long prosseguiria em sua trajetria, e que o meu destino era a Faculdade
de Direito da Universidade de Beijing.

- E por que no a Faculdade de Histria, como o seu pai? - perguntou vov, todo orgulhoso.

- Os advogados  que do os melhores polticos e homens de negcios - respondi. - Desculpe-me por isso, papai.

- Pelo contrrio, meu filho, estou muito orgulhoso de voc ter escolhido o curso de direito. Os tempos mudaram. O direito tem sua utilidade agora. No meu tempo,
a lei era o que quer que Mo dissesse.
240

- E agora  o que Heng Tu disser. Isso me d ainda mais motivos para optar pelo direito.

A famlia inteira riu. Mame abriu um licor Mo Tai de cem anos. Brindamos vrias vezes at ficarmos embriagados. Depois, ento, comeamos a chorar.

- Vou sentir tanta saudade de voc! - disse mame.

- Voc tem que tomar cuidado quando estiver de volta em Beijing!

- lembrou vov.

- Apenas seja voc mesmo. A Universidade de Beijing  o lugar certo para voc - acrescentou meu pai. - Apenas no lhes d motivo para prend-lo novamente. Voc no
pode se dar a esse luxo.

- Desde que samos de Beijing, esta  primeira vez em que estamos alegres de verdade - comentou minha me, enxugando uma lgrima no leno. - Estamos felizes at
o fundo da alma.

- Por favor, no chore - pedi.

Vi que meu pai apertava a mo da minha me.

LOGO CEDO, NO DIA SEGUINTE, FUI pedalando minha bicicleta at a sede do municpio. Em cima da mesa do meu novo escritrio - um prdio de paredes caiadas e telhas
vermelhas que Lena tinha comprado discretamente, do outro lado da rua, em frente ao banco -, estava o livro de Sumi. Corri at ele e segurei-o nas mos. Era lindo.
O volume era fino e a capa tinha um design muito elegante.

- Quantos exemplares tem a primeira tiragem? - perguntei.

- Cinqenta mil. Uma tiragem recorde para uma autora desconhecida

- Lena comentou.

- Mas ele vai decolar - acrescentei, folheando as pginas.

- Vamos comear a despach-los, como voc sugeriu,  meia-noite de hoje em bicicletas, caminhes, tratores, e at mesmo transportados  mo, em cestos - disse ela.
- Parabns pelo seu primeiro livro, sr. Editor.

Naquela mesma tarde, enfiei cuidadosamente o resultado da prova entre as pginas do livro de Sumi. Ao encontr-la colhendo legumes e verduras no jardim, escondi-me
atrs de um pinheiro e imitei o pio da narceja. Ela olhou em volta e veio direto na minha direo.

Segurei o livro escondido por trs de mim, com um enorme sorriso estampado no rosto.
- Ai, no fique me fazendo adivinhar! O que  que voc tem a escondido?

Ela tentou me pegar, mas me virei e corri para o outro extremo do jardim, onde os ramos baixos e frondosos dos salgueiros balanavam ao vento.

Parei de repente, fazendo com que Sumi me desse um encontro. Camos na grama macia. Ela estava por cima de mim, seu peito contra o meu, sua boca a dois centmetros
da minha. Roubei um beijo de seus lbios macios e ela no reclamou. Nossas lnguas se tocaram e se entrelaaram num embate doce e suave. Nossa respirao ficou ofegante
e nosso peito arfava num ritmo louco. Ela tremia e eu a abracei com mais fora.

Inebriados, nos acariciamos com a intensidade do calor de vero. As roupas leves que estvamos usando no ofereceram nenhum obstculo. Somente quando recuperamos
o flego foi que ela notou o pacote.

- Isso aqui  o meu livro? - indagou ela, rasgando o papel do embrulho. - Meu livro! No acredito! - Folheou as pginas muito respeitosamente e respirou fundo.

- E tem mais uma coisa. ''-

- O qu?
- O resultado do exame.

Puxei o papel de onde eu o havia escondido. Os olhos de Sumi se arregalaram ao ver sua nota.

- Puxa, Tan! E quanto voc tirou? ''

- Empatei com voc. Parabns! - * Fundimo-nos um no outro com mais um beijo.

- Universidade de Beijing, l vamos ns! - ainda consegui dizer, no

meio de tudo.

- Universidade de Beijing, l vamos ns! - murmurou Sumi por

entre beijos.

O amor era tanto que cegava, sufocava. Estvamos perdidos em outro forte abrao quando ouvi passos pesados se aproximando. Abri

os olhos.

- Seu filho de uma puta! - O Gordo estava de p por cima de ns, segurando uma lana com a ponta afiada. - Tire as suas mos da noiva do meu filho. Saia daqui antes
que eu fure o seu corao.

Levantamo-nos com grande esforo.
- No, seu animal! - vociferou Sumi. - Eu no sou a noiva do seu filho! E tambm nunca serei sua amante!

- Saia da frente - disse eu.

- Ele no pode mais fazer isso comigo! - exclamou Sumi. - Eu vou entrar na faculdade e no h nada que ele possa fazer contra isso.

- Sua putinha, voc no vai a lugar nenhum. Eu vou matar vocs dois - disse o Gordo, brandindo a lana contra ns. Com toda a sua raiva acumulada, Sumi lanou-se
em direo ao Gordo, empurrando-o e fazendo-o cair no cho. O Gordo afastou-a para o lado, levantou-se com dificuldade e ergueu a lana. Eu me atraquei com ele.
Ele caiu para trs, e sua cabea bateu com fora numa pedra. Seu corpo agora estava todo mole e flcido, estendido no cho. Sumi pisou no peito carnudo do homem
e pulou em cima dele. Eu nunca a tinha visto assim to enfurecida.

O Gordo no revidou. Ele se contorcia, revirava os olhos e sua boca espumava. Tinha falta de ar e apertava o peito. Sumi disse, com a voz trmula:

- Ele est morrendo. Saia correndo daqui agora! Voc  inocente. Eu assumo a responsabilidade.

- No, a responsabilidade  minha.

- No, voc no  responsvel por isso! - Sumi me puxou pela gola da camisa e me sacudiu. - Para uma pessoa que est indo para a Faculdade de Direito, voc deveria
saber que isso foi um ato de legtima defesa. Ele estava tentando me matar! Me estuprar! No tem lugar para voc aqui! Est me ouvindo? V embora, por favor!   ,
i

- Mas tenho que ajud-la. ,. ,

- J me ajudou o bastante. V embora agora, seu maluco!

Sa numa corrida desabalada em direo ao mar. Atrs de mim, podia ouvir Sumi gritando desesperadamente por socorro.

- O Gordo est tentando me matar! Socorro! O Gordo est tentando me estuprar!

Ouvindo os passos dos habitantes da aldeia, mergulhei no mar e nadei, costeando o litoral por algum tempo antes de voltar para casa.

Naquela mesma noite, o sr. Koon veio me trazer timas notcias.

- O Gordo morreu de ataque cardaco enquanto tentava estuprar Sumi no jardim. Agora, ela vai poder ir para a faculdade.

- Obrigado pela notcia.
- Agradea a Buda.  ele que tem a balana da justia - disse ele, olhando para o cu.

O NOSSO ULTIMO VERO NA BAA DE Lu CHINO foi repleto de poemas e de amor. As emoes subiam e baixavam como as mars no litoral. A temperatura em declnio e o outono,
com o solitrio mugido dos bfalos, fizeram com que nossos coraes se aproximassem ainda mais.

Mesmo assim, nunca descuidei dos meus negcios. Lena me informou que as vendas do livro estavam aumentando rapidamente nas cidades do litoral de Fujian. Uns vinte
mil exemplares j haviam sido arrebatados por leitores vidos. Em meados de agosto, Lena me relatou que estvamos recebendo pedidos de compra das livrarias estatais
em toda a regio. Essas lojas, sempre em dficit, tinham ouvido falar do sucesso do best-seller. Os funcionrios comunistas fizeram vista grossa, para tambm poderem
ter lucros. A nova poltica reformista permitia aos gerentes das lojas ganharem gratificaes se conseguissem boas vendagens.

- Incrvel - disse eu a Lena.

- Quer saber de uma outra coisa? - observou ela. - As pessoas que no tm dinheiro para comprar o livro fazem cpias a mo, copiando pgina por pgina.

- A mo?

- E em algumas escolas do ensino mdio, eles esto fundando clubes de leitura. Eles lem e choram pela pobre rf. Mas choram principalmente pelo namorado que morreu
por ela.

Calei-me com relao a isso. Decidi no deixar aquele pequeno inconveniente me incomodar. Afinal de contas, um homem morto era um homem morto. Depois de mortos,
os homens geralmente adquiriam uma reputao melhor, obtinham mais considerao e mais mritos do que mereciam, s porque j tinham morrido. Eu era, agora, o amor
da vida dela. O motivo pelo qual seu namorado tornou-se esse grande heri no foi sua coragem, mas sim a beleza dela. Sua raridade tornava todos os homens corajosos.
Ela era uma prola que fazia brilhar todos os que estavam ao seu redor.

NO FIQUEI SURPRESO QUANDO FOMOS aceitos na venervel Universidade de Beijing. Eu aprenderia as regras e os protocolos de bater o martelo e das togas escuras, enquanto
Sumi entrava no panteo dos literatos da China.

245

Quando chegou a hora de irmos embora para a faculdade, Sumi e eu levamos para o sr. Koon, em sua humilde morada, dois patos que grasnavam e cujas asas estavam atadas
com fitas vermelhas, um espesso mao de tabaco de folhas largas e duas garrafas de licor Mo Tai. O monge ficou muito emocionado.

- Vocs querem saber uma coisa? Eles esto me promovendo a chefe do Conselho de Educao do Municpio - disse ele, com orgulho. - Mas, sabem do que mais? A qualidade
de um professor se mede pelos seus alunos. Pensei nesta frase muitas vezes, desde que recebi a notcia.  a pura verdade! A pura verdade! Agradeo a vocs dois por
terem vindo para a nossa cidadezinha.

O monge desamarrou os patos que grasnavam e deixou-os voar encosta abaixo.

- Vo! Voem!

Emoldurado pela luz do pr do sol, ele parecia feito de ouro. Koon, que era devoto de Buda, havia de alguma maneira se tornado um Buda. Seu sorriso era o de um salvador
sem pecados e seus gestos eram cheios de amor. Ele compreendia, perdoava, aceitava, e aspirava a coisas mais elevadas, como as montanhas que estavam por trs dele.

- At a vista, professor.

Ns dois o cercamos e lhe demos um abrao bem apertado.

- At breve! - disse ele, carinhosamente. - Lembrem-se! Tan, voc  a montanha. E voc, Sumi,  o mar.

O monge deu uma garrafa de gua para Sumi e um saco de areia para mim.

- Levem isso com vocs, e quando chegarem a Beijing, despejem no solo. Deste modo, vocs vo prosperar.

- Ah, ia quase me esquecendo! Aqui esto cinco mil iuanes. Enfiei um pequeno envelope vermelho nas mos de Koon.

- Nossos negcios esto crescendo. Meus pais e meu av no vo mais poder ajud-lo. Eles querem que o senhor aceite este dinheiro para contratar trs novos professores
no ano que vem. E, a cada ano, o senhor vai receber a mesma quantia para que a escola permanea aberta para as crianas.

Koon me fez trs profundas reverncias.

- Sou muito grato a vocs, as crianas agradecem, e a Baa de Lu Ching tambm agradece a vocs.

l

A OSTREICULTURA DE PAPAI EMPREGAVA, em sua maioria, veteranos do Exrcito por um salrio mnimo, mas papai prometeu a eles uma parcela dos lucros quando o negcio
se tornasse rendoso. Ostras grandes eram mercadorias em alta no sudeste da sia, e as prolas eram cobiadas no mundo todo. Os temores de papai tinham se acabado.
Ele, que costumava planejar guerras e batalhas, achava que nunca conseguiria se encaixar neste pequeno vilarejo, por isso cuidou de cada detalhe do empreendimento
como se estivesse comandando uma ofensiva militar.

O banco de vov j havia feito, a esta altura, dez emprstimos. Ele comentou conosco, mais de uma vez, a sorte que estava tendo pelo fato da gerente do banco da
cidade, que se chamava Lena, estar encaminhando as oportunidades de negcios para ele. Ele previu ter lucro no primeiro trimestre do ano.

O sucesso deles me fazia feliz. Quanto mais, melhor, pois seja l o que fizessem, eu ganharia cinqenta por cento de sua boa colheita. Gostava do meu papel de scio
oculto. Podia dormir enquanto meu investimento inicial crescia. E isso era apenas uma pequena fatia do meu empreendimento. Havia ainda a minha prpria Drago & Cia.
Eu tinha grandes planos para ela, mas, por enquanto, Lena a administraria com suas mos hbeis, enquanto eu freqentasse a faculdade.
Dois dias antes da minha partida para Beijing, minha famlia de empresrios interrompeu todas as atividades em que estavam envolvidos. Vov levou-me para um passeio
no alto da montanha, com intuito de visitar a sepultura dos nossos antepassados. A colina era coberta por uma vegetao exuberante, esculpida na forma de uma poltrona
com vista para o cenrio perfeito do sereno Oceano Pacfico.

- Olhe s, meu neto. Isto  a perfeio, em termos defengshui. O oceano nos promete uma interminvel abundncia de boa sorte. O morro por trs de ns nos d apoio
com a solidez da terra. Isso  umfengshui para um imperador! O livro dos nossos antepassados profetizou que, na sexta gerao, haveria dois imperadores nascidos
no cl dos Long. Voc  a sexta gerao.

- Eu? '-   "   ' "'

- Sim, voc. "IS *   >'    

- Mas o senhor disse dois. E eu sou o nico filho.     "    <    ':''"'   

- Isto significa apenas que, se voc tivesse um irmo, ele reinaria.   46

- O senhor acredita nesta profecia?

- Est no destino da nossa famlia. Esta sepultura fica diante do amplo horizonte do mar. As montanhas atrs de ns so a nossa cadeira de balano e o mar, o nosso
peito. Quanto mais largo for o peito, melhor.

Analisei cuidadosamente as palavras do meu av.

Ele me abraou e eu o beijei na testa cheia de rugas. Tudo isso aconteceu em meio ao silncio das montanhas, diante do mar calmo.

Na vspera da nossa partida, minha famlia estava sentada na varanda iluminada pela lua, aproveitando a brisa suave do litoral. Ns bebemos e mame nos trouxe os
frutos do mar mais frescos que havia - caranguejos vermelho-fogo e ostras suculentas. Conversamos sobre a minha infncia, rindo e chorando at que a lua mergulhasse
por detrs dos pinheiros. Somente quando o primeiro galo cantou e a temperatura caiu  que ns, com muita relutncia, fomos nos deitar. Eu logo empreenderia uma
viagem de mais de 500 quilmetros e esta viagem, no corao de todos, era o retorno  cidade que nos havia rejeitado. Tudo que eu fizesse dali em diante nos afetaria
profundamente. A batalha precisava ser vencida, porm o nico a lutar era eu - a sexta gerao.

Fui dormir com este pensamento na cabea. Eu era o filho afortunado. Se no tivesse deixado Beijing, teria rido de tal superstio, mas agora, tendo vivido a vida
de um chins de verdade, provado o sal do mar, apalpado os torres do solo e sentido o perfume desta terra frtil, tinha aprendido a no rir dessas coisas. Eu era
a sexta gerao, a ponte para a continuidade. Agora, via o meu lugar na histria.

Algumas horas mais tarde, a Baa de Lu Ching estava em festa com o som dos tambores, dos gongos, dos fogos de artifcio, e o alegre som iei-iei-ia-ia de uma banda
tradicional composta por dez msicos. A vila inteira havia comparecido  nossa porta. As mulheres casadas, que no haviam perdido seus homens no mar, vestiam seus
vermelhos festivos. Os homens que no haviam sado para pescar naquele dia fumavam seus grossos cachimbos. As crianas corriam por toda a parte, perseguindo os ces
que, por sua vez, perseguiam os esquilos. Inmeros presentes - cestas de ovos, sacos de amendoim, galos balanando suas cristas vermelhas, patos grasnando desorientados,
sapos saltitantes de longas pernas amarrados uns aos outros pela boca - tudo isso estava disposto na nossa varanda.

247

- Acordem, seus preguiosos, ns estamos aqui para levar vocs para a cidade grande. - Era a voz do sr. Koon, o organizador da festividade. - O trator j est a
aguardando.

Eles me puseram na parte de trs de um trator todo sujo de lama, que era de longe o transporte mais sofisticado da vila. Enquanto estava sentado l, acenando para
a minha famlia e para os habitantes da aldeia, vi um outro cortejo comemorativo que vinha da manso do telhado vermelho. Era Sumi, sorrindo. Ela estava com uma
grande flor da montanha presa na cabea, um smbolo da vila. Seria eternamente a mais altaneira flor das montanhas.

Numa despedida com muito choro, ns, a primeira dupla de estudantes universitrios de toda a histria da vila, iniciamos nossa viagem na rua calada de pedras do
povoado. O trator seguia rugindo, bufando e engasgando, soltando baforadas de sua fumaa densa e assustando os pssaros, que voavam na direo do mar. A msica foi
aos poucos diminuindo de volume e o som da mar alta abafou as exclamaes, os gritos e os "Vivas!". Cutuquei Sumi com o cotovelo e apontei para o mar.

- Olhe bem para ele, pois em breve a gente no vai v-lo mais.

- Voc se engana, Tan! Eu cresci com o mar. Nunca vou me esquecer das ondas, das praias e dos seus mistrios, aonde quer que eu v - disse ela.

Quando o trator fez a ltima curva e a Baa de Lu Ching desapareceu de vista, Sumi segurou a mo de Ming e sussurrou:

- At logo, Oceano Pacfico! Peguei o menino nos braos e disse:

por que a gente no d a esse garoto um apelido cheio de promessas

e recordaes? - Tai Ping, o Pacfico.

Tai Ping. Gostei desse nome!  assim que vamos cham-lo, para que

ele sempre saiba que tambm tem uma relao com o mar.

 Shento

CAPTULO 27

1983

ILHA NMERO NOVE

QUATRO ANOS DEPOIS DA MINHA CHEGADA  Ilha Nmero Nove, o sargento La me chamou ao seu escritrio e disse:

- Seu treinamento aqui est terminado. No h mais nada que eu possa lhe ensinar. Hoje  noite, vamos mand-lo de volta ao continente para desempenhar uma nova funo.

Ajoelhei-me no cho diante dele.

- Sou imensamente grato ao senhor.

- Ser grato  uma coisa boa, mas ser til  ainda melhor. Voc vai embora daqui da ilha s sete horas.

Voei para Beijing naquela noite. A cidade brilhava, cheia de luzes. Enquanto o avio aterrissava, meu peito se apertava de emoo. Aquela era a cidade de Ding Long.
Agora, porm, no era mais. Agora era a minha cidade. A cidade da minha vingana, do meu renascimento.

Desci a rampa do avio e respirei, pela primeira vez, o ar seco desta cidade do norte na claridade dourada do outono. As luzes fortes iluminavam as folhas vermelhas
que cercavam a pista de pouso. Estiquei os braos e abracei simbolicamente o meu novo destino, e ento, num impulso e por capricho, tirei cuidadosamente uma folha
perfeita de um pltano prximo ao porto.
250

Coloquei-a entre as pginas do meu dirio, dentro da minha sacola. Algum dia, quando encontrasse Sumi novamente, eu lhe daria esta folha.

- Camarada Shento!

Um soldado me fez continncia. Retribu a saudao.

- Por favor, venha comigo.

Um jipe estava parado ali perto. Sentei-me no banco de trs. O soldado colocou uma venda sobre os meus olhos.

O carro me levou pelo que imaginei ser a parte central e mais pobre da capital. Absorvi os rudos - o ding-dingde mil campainhas de bicicleta, o barulho dos nibus,
os gritos em vrios sotaques que me faziam lembrar dos bazares das aldeias. O olfato - meu sentido mais apurado - me indicou que o mar estava distante e que as montanhas
tinham ficado para trs. Subimos lentamente uma ladeira e depois descemos, antes de chegarmos a um lugar calmo, onde s se ouvia o canto dos pssaros. Estava doido
de vontade de abrir os olhos e ver o mundo. Mas precisei esperar at ser conduzido a uma sala onde um soldado me tirou a venda dos olhos. Fui cumprimentado por um
oficial de meia-idade, cujo corpo parecia uma azeitona, que me sorriu gentilmente.

- Bem-vindo, soldado. Sou o general Wu. ,.t

- Foi o senhor que salvou minha vida naquele barco?  Senti uma onda de gratido e me ajoelhei humildemente diante dele.

Ele me fez levantar do cho. ,

- Fique de p, soldado. No vamos falar do seu passado, falemos apenas do seu futuro. Seu caminho para a salvao e a glria est na sua disposio em servir ao
seu futuro benfeitor com absoluta lealdade.

- No vou decepcion-lo, general.

- Espero que no. Voc vem com as melhores recomendaes do sargento La, em quem temos total confiana. Voc tem alguma idia do motivo de estar aqui?

- No, general.

- Est aqui para proteger o presidente. Est pronto para esta responsabilidade?

Senti arrepios que me subiram pela espinha. No podia acreditar no que estava ouvindo. O presidente! O homem que havia destrudo o poder do cl dos Long! Prestei
continncia.

- Sim, general!     .

251

O CORONEL PAI DA GuARNiO MILITAR da cidade de Beijing era um monge vegetariano. Eu no sabia direito como me comportar diante dele. Deveria reverenci-lo com um
kowtow ou bater continncia? O coronel acordava todos os dias s cinco da manh e ia dormir s nove da noite. Entoava cnticos, meditava e fazia suas refeies vegetarianas
sozinho, no quarto, com o cheiro de incenso evolando-se pela janela afora. O coronel dizia que era um celibatrio, no um monge, pois esta no era uma denominao
bem vista na estrutura do poder comunista. Ele me lembrava um eunuco da corte de uma dinastia de outrora.

O coronel era um homem srio, e seus olhos eram mais misteriosos e perspicazes do que os das outras pessoas. Quando olhava para mim, eu me sentia como se fosse a
nica pessoa existente no mundo. Sua compleio esguia me fazia pensar nos famintos ces montanheses de pernas compridas que eu encontrava nos atalhos das montanhas,
ao relento, com as barrigas fundas, as orelhas erguidas e os olhos alertas, sempre atentos s presas e, mais ainda, aos predadores.

O coronel era o melhor e o pior dos instrutores. Cuspia em quem era inferior e louvava os superiores. Ele observava silenciosamente os novos recrutas - os corpos
musculosos e a inteligncia efervescente. ramos a elite do pas, escolhidos dentre milhes de uma estirpe inferior. Um grupo seleto desses recrutas serviria de
cavalos puro-sangue com quem ele poderia contar para oferecer total segurana ao seu deus, o presidente.

Na terceira noite, 15 recrutas do grupo inicial de cem foram devolvidos como mercadoria avariada para o local de onde vieram, depois que o coronel fez uma inspeo
no alojamento e encontrou seus sapatos espalhados e misturados debaixo das camas. Sua lgica era a seguinte: os minutos a mais que levariam para encontrar os sapatos
poderiam ser fatais para o presidente.

Nas semanas seguintes, ns, os novos recrutas, fomos testados como ratos de laboratrio - exames de sangue, testes de capacidade pulmonar e de resistncia, aptido
para a leitura e domnio de dialetos variados. Tudo o que podia ser testado e avaliado estava includo na sua rea de interesse. Num dado momento, o monge apertava
seus olhos frios e fitava um determinado homem. No instante seguinte, aquele soldado estava eliminado. O coronel dizia que sua viso interior lhe enviava sinais
sobre seus objetivos.

Na vspera do nosso terceiro ms naquele quartel, o coronel abriu uma garrafa de Mao-Tai, um licor refinado, e o aspergiu na cabea de todos.
252

- Vocs tm a minha bno agora. Hoje  noite, quero que saiam e se divirtam. Vocs conseguiram vencer todos os obstculos. Meus parabns. Agora saiam e se divirtam.
Cada um de vocs vai encontrar,  guisa de gratificao, uma carteira cheia de dinheiro debaixo dos seus travesseiros.

Os 51 homens remanescentes pularam e soltaram exclamaes de comemorao, depois correram aos alojamentos. Contei o dinheiro que estava cuidadosamente dobrado dentro
da minha nova carteira de couro. Mil iuanes. As notas tinham cheiro de novas. O sol estava se pondo e o cu a oeste estava tingido de cores que combinavam com a
excitao da noite. Tnhamos vivido como monges durante os ltimos meses. Trabalho rduo, tenso e estresse preencheram nossos dias, que se iniciavam ao raiar do
sol e terminavam quando o coronel determinasse, o que geralmente era por volta da meia-noite. Naquela noite, a diverso nos aguardava.

Um veterano da Guarnio Militar se ofereceu para nos levar ao local mais badalado da cidade - o Clube Flor Silvestre. Conduziu os soldados para dentro de um nibus
e buzinou para que eu me juntasse a eles.

- Vamos! - gritou ele, me chamando, enquanto os outros soldados assobiavam e soltavam gritos de alegria.

Fiquei para trs no quartel, acenando-lhes com a mo. No me sentia nem um pouco solitrio. J tinha ficado sozinho por bastante tempo. Decidi escrever uma carta
para Sumi. Este seria provavelmente o nico tempo livre que eu teria at minha prxima misso. Alguns outros homens tambm tinham optado por no sair. Perguntei-me
se tambm teriam alguma namorada preenchendo seus pensamentos.

Sentei-me  mesa e escrevi uma carta breve, mas incisiva, endereada  Comuna onde se localizava a escola-orfanato. Pelo que sabia, Sumi devia achar que eu estava
morto. Eu precisava entrar em contato com ela o quanto antes. No conseguia suportar a idia de que ela lamentasse a minha ausncia pelo resto da vida ou, pior ainda,
que outra pessoa pudesse roubar o seu corao. Onde ela estaria agora? Passei o resto da noite sonhando com o dia em que nos encontraramos novamente. Como desejei
que esse dia chegasse logo!

Pouco antes do amanhecer, o grupo que saiu em busca de diverso voltou se arrastando ao quartel - estavam bbados, falavam alto e cheiravam a perfume. Um rapaz baixinho
estava to bbado e to desorientado que caiu de cara no cho, depois de mijar nas calas. Outro me beijou no rosto e me acordou, dizendo:

253

- Belezinha, vem aqui com o papai, vem!

Empurrei-o para longe de mim. > 

- J est tarde.

- Voc perdeu uma tima noite, Shento. As meninas sabiam cantar e danar e, quer saber, tinham uns peitos to maravilhosos que quase no voltei para o quartel -
declarou um outro, tambm embriagado e falando em voz alta.

Cobri a cabea e voltei a dormir. Duas horas depois, o toque do clarim nos despertou. O coronel apareceu na porta do alojamento com uma lista na mo.

- Quem ouvir seu nome ser chamado, por favor, retire-se do alojamento.

Eu e outros nove fomos chamados.

- Quanto aos outros, podem comear a fazer as malas para voltar

para casa.

A confuso se acalmou quando o coronel prosseguiu.

- Aqueles cujos nomes no foram chamados foram reprovados no ltimo teste de fora de vontade. Rapazes, vocs fracassaram vergonhosamente diante de uma pequena tentao.

Olhei para o cu e disse baixinho para mim mesmo:

- Minha querida Sumi, voc foi uma bno para mim.

Naquela manh, fui chamado ao escritrio espartano do coronel. O que o monge tinha para me dizer transformaria a minha vida para sempre.

- Voc vai acompanhar o presidente  praia de Beidaihe, onde ele vai ficar uma semana de frias.

- Vou cuidar da segurana pessoal do presidente? - perguntei, extasiado.

- Esta manifestao infantil no deve se repetir. - O coronel franziu a testa. - De agora em diante, como agente de segurana, voc ter de viver de acordo com o
nosso lema. E qual  o nosso lema?

- Morrer pelo presidente sem nenhum momento de hesitao!

O TREM PARTICULAR DO PRESIDENTE RENO Tu saiu da cidade em disparada, e eu fazia parte de sua comitiva. Sorri quando ele me dirigiu um aceno casual ao ser escoltado
at seu vago. Numa cerimnia inesperada, o coronel me levou  cabine presidencial e me apresentou ao grande homem.
254

- Shento  seu novo soldado, meu presidente - disse o coronel Pai, fazendo uma reverncia.

- Seja bem-vindo, meu rapaz. De onde voc vem? Inclinei bastante a cabea, quase tocando os joelhos.

- Venho de Jiushan, meu caro presidente.

- Eu lhe agradeo por vir cuidar da minha segurana pessoal - disse o presidente Heng Tu. - Voc  um rapaz  moda antiga.

Ele sorriu.

- Acredito nos valores antigos e protegerei o senhor com a minha prpria vida. Sinto-me honrado por isso.

O presidente assentiu, e o coronel Pai me levou para fora da cabine. Estava com a cabea to quente pela empolgao de conhecer Heng Tu pessoalmente que, na pia
do banheiro, tive que jogar um punhado de gua fria no rosto para me refrescar.

O trem viajou por plancies de campos verdejantes. Surgiram ento as montanhas do norte e o trem resfolegou, seguindo seu caminho atravs de vrios tneis, movendo-se
lentamente montanha acima. A equipe almoou enquanto todo o gabinete do presidente, que tambm estava a bordo, reuniu-se no vago central.

Uma montanha imensa apareceu no horizonte. O trem passou por um declive e desapareceu dentro de outro tnel. O comboio se arrastou silvando e finalmente parou. As
luzes se apagaram. A escurido e um calor sufocante envolveram o trem expresso, e o cheiro desagradvel que subiu dos trilhos invadiu minhas narinas. O instinto
me disse para fazer alguma coisa. Quebrei a janela da minha cabine e pulei no cho escuro e pedregoso. Tirei uma pequena lanterna do bolso, mas no a acendi. Corri
o mais silenciosamente que pude, contando os vages at chegar ao do presidente. Era o terceiro depois do meu, eu lembrava bem. Na escurido, ca uma vez, arranhando
o joelho. Levantei-me e corri novamente. Quando alcancei o terceiro carro, estilhacei a janela e atravessei a vidraa cheia de pontas e cacos de vidro. Numa das
mos, eu segurava minha pistola. Na outra, a lanterna, que usei apenas uma vez para iluminar o rosto assustado do presidente. Agarrei o baixinho, coloquei-o no ombro
e escapei pela porta. Alguns tiros foram disparados enquanto corramos pelos trilhos, dentro do tnel escuro.

- O senhor est bem? - perguntei a ele.

- Estou. Voc  o novo rapaz que est na equipe?      " , ,,, ,

255

- Sou.

- Obrigado - disse Heng Tu, com dignidade, apesar da posio embaraosa em que estava.

Corri ladeira abaixo seguindo os trilhos, com o presidente chacoalhando no ombro. Ouvimos mais tiros atrs de ns. Foi ento que as luzes do trem se acenderam.

Pus o presidente no cho e fiz uma barreira com meu prprio corpo, enquanto ouvamos passos que vinham em nossa direo. Era o coronel Pai.

- O senhor est bem, presidente? - perguntou o coronel, apreensivo.

- Estou bem. Nem um arranho. Este rapaz me salvou.

- Sr. presidente, temos que retornar ao trem - disse o coronel.

- No, no podemos voltar para l! - objetei. "'

- Obedea s minhas ordens! - disse o coronel Pai rispidamente.

- Por favor, eu lhe peo... - disse eu, com meus ps firmemente cravados no cho.

No instante seguinte, ouviu-se uma forte exploso e uma bola de fogo veio rolando da cauda do trem em nossa direo. Botei o presidente no ombro novamente, virei-me
e corri na direo oposta. Se eu no sasse de l rapidamente, uma segunda bomba poderia explodir e estaramos mortos e soterrados sob os escombros. O teto do tnel
rachou e grandes pedaos de pedra e alvenaria caram sobre ns como uma chuva. O cho tremeu. O tnel estava ruindo. Corri ainda mais velozmente. O presidente gritava,
apavorado.

- Vamos conseguir escapar - disse eu, ofegante. - Vou lev-lo para um local seguro.

Aps uma corrida exaustiva e infindvel, vi uma luz no fim do tnel. Quando alcancei a boca, fiz ainda um esforo adicional, subindo um morro at um ponto onde pudesse
ter uma boa viso da rea. Deixei Heng Tu escondido atrs de uma rocha e corri os olhos pelo local. Vi um rastro de poeira que se levantava numa estrada na montanha.
Dois carros disparavam ladeira abaixo, escapando do local do atentado.

O ataque tinha sido arquitetado pelos correligionrios do general da Reserva Ding Long, segundo me disseram mais tarde. Nove soldados ficaram soterrados sob os escombros,
dois ministros foram mortos a tiros e seus corpos foram encontrados carbonizados. O presidente teria sido o terceiro a morrer se eu no o tivesse levado para um
local seguro. 256

- Como voc previu o ataque? - perguntou o coronel Pai.

- Fui criado nas montanhas - respondi.

Sem nenhuma cerimnia especial, fui promovido ao posto de coronel, e o presidente Heng Tu me condecorou com uma medalha de ouro por meu ato de herosmo.

- Meu filho, de agora em diante, quero que voc fique no comando da minha segurana pessoal. Voc aceita?

- Claro que sim, sr. presidente. Inclinei-me e fiz uma mesura demorada.

- Ser uma honra para mim.

Quando disseram a Heng Tu que eu precisava de alguns fios de cabelo branco antes que meu nome pudesse ser cogitado para comandar a segurana da presidncia, sua
resposta foi seca e direta:

- Logo vo aparecer. No se preocupem.


Sumi

CAPTULO 28

QUERIDO,

Estou iniciando um novo captulo na minha vida.

Voc sabe para onde estou indo. Sei que sabe. Voc anda ocupado, brincando de Buda, me dando a fora necessria para extrair o ltimo suspiro daquele homem abominvel.
Voc no sente orgulho de mim, por eu no ter tentado fugir ou deixar que outra pessoa me defendesse?

Agora, todo o horror se acabou. Sou uma mulher independente. No s em esprito, mas tambm na conduo da minha prpria vida. Alm de cursar a faculdade, pagando
eu mesma meus estudos, tambm poderei pagar uma bab, Nai-Ma, para cuidar do nosso filho, que estou levando comigo. O dinheiro - sinto vergonha de mencionar essa
palavra to vulgar - veio da publicao da minha autobiografia. Tambm vai servir para pagar o aluguel de um pequeno apartamento fora do campus da universidade.
Minha prpria casa! Isso  um sonho realizado e sei que voc sabe dar valor a isso.

Verdade seja dita, o vazio da sua presena  parcialmente preenchido pela presena do seu filho. Eleja est crescido agora e vai ser muito feliz na cidade grande.
258

D-nos a sua beno, acompanhe-nos, e esteja sempre conosco, aonde quer que formos.
Sumi

CAPTULO 29

1980

BEIJING    '

>,"

A UNIVERSIDADE DE BEIJING FICAVA NA zona oeste da capital. Sua arquitetura era muito semelhante  da Cidade Proibida, com telhados dourados, telhas vermelhas e lees
de pedra guardando a entrada esculpida. Havia algo de secreto naquele visual antigo - distante da realidade, ainda sonhando com seu passado glorioso.

Imaginei Confcio, antigamente, sentado numa esteira de bambu, cercado por discpulos, ponderando sobre questes filosficas de sua poca enquanto preparava o ch,
sem noo dos dias e dos sculos que j haviam decorrido. Naquela poca, pagava-se pelos estudos com fatias de carne de porco seca e o objetivo dos discpulos era
viver a vida como sbios itinerantes, difundindo as verdades de seu mestre. A filosofia daquele tempo ainda estava viva no campus: harmonia entre todos e obedincia
a nossos lderes. Sem uma filosofia to eficiente assim, eu no poderia imaginar como dez pares de ps fedidos poderiam coexistir  noite em um dormitrio de vinte
e poucos metros quadrados e como, durante o dia, o mesmo grupo conseguia se aglomerar, como sardinhas em lata, nas salas de aula, ouvindo professores venerveis
e desdentados declamando os mesmos slogans que um dia haviam gritado nas ruas - a verdade comunista.
260

- No agento mais essas interminveis palestras de apologia das virtudes do comunismo - declarou Sumi um dia, no muito depois da nossa chegada, andando comigo
pelas margens do lago Weiming. - Eu deveria estar estudando filosofia e literatura, alm dos clssicos chineses e estrangeiros. Em vez disso, tudo o que eu fao
 ler material de propaganda poltica na biblioteca.

- J ouviu falar no Clube da rvore Venenosa? - perguntei. -  um clube secreto cujos membros trocam livros proibidos.

-  mesmo? Vamos entrar para esse clube ento.

- Voc tem que contribuir com um ou dois exemplares antes de poder participar da troca secreta de livros.

- Voc sabe que eu tenho um livro - disse Sumi, sorrindo.

-  isso mesmo, A rf.

Naquela noite, eu a levei para uma colina onde havia um bosque, na parte de trs do campus. A lua redonda enviava seus raios por entre a densa folhagem, e uma brisa
refrescante fazia as folhas danarem como borboletas. Numa clareira, havia algumas dezenas de jovens sentados, ouvindo um msico que tocava uma cano antiga na
flauta de bambu, traduzindo muito bem a atmosfera criada pela lua e pelo ritmo do vento.

Sumi e eu nos sentamos do lado de fora da roda. Havia canecas de cerveja na grama. Surpreendi-me ao ver o quanto os rapazes e as moas bebiam. Secretamente, levavam
cerveja para dentro de seus dormitrios, roubandoas na cantina - haveria uma punio grave se fossem pegos - e muitas vezes danavam bbados em cima das mesas. Bebiam
nos aniversrios e nos feriados, e boa parte deles tomava cerveja em qualquer dia que fosse.

A msica parou. As pessoas batiam com as canecas umas nas outras, brindando ruidosamente. Comearam ento a se misturar e a conversar.

Um rapaz alto veio at ns e nos cumprimentou.

- Vocs so novos por aqui? Bebam alguma coisa. Logo em seguida vamos ter a leitura de algumas passagens de Anna Karenina.

- Queremos participar. Essa  Sumi, primeiro ano do curso de letras. Eu me chamo Tan Long, e estou no primeiro ano de direito.

- Meu nome  Fei-Fei, estudo filosofia e estou no ltimo ano. Sou o presidente do Clube da rvore Venenosa.  um prazer conhecer vocs dois.

Ele estendeu a mo. Sumi e eu estendemos as nossas mos ao mesmo tempo. Fei-Fei apertou a de Sumi primeiro, segurando-a por tempo demais.
261

- Ela  bonita - disse ele, sorrindo, e depois apertou a minha mo. - E voc  um rapaz bonito tambm - um casal perfeito. Mas os dois esto perdoados por sua perfeio
- acrescentou. - Qual  o livro que voc trouxe?  -     - t

- A rf. |      < ,, -E voc?                                         ,     '    ,

- A rf, tambm.

- Que incrvel! O mesmo livro, na mesma noite, trazido pelo mesmo casal. Camaradas, vocs no poderiam ser mais casados do que isso! Mas, sinceramente, nunca ouvi
falar desse livro antes.

Fei-Fei deu outro grande gole na cerveja.

- Fiquei curioso. Por que o mesmo livro?

- Eu sou a autora.

- E eu sou o editor.

- Ora, ora. Agora sim!

- Sumi entregou o livro para Fei-Fei, que o folheou displicentemente.

- Vejamos... Editora Mar Azul. J ouvi falar dela. Agora, Sumi, voc poderia fazer a gentileza de ler um trecho do seu livro para ns? Mas apenas as primeiras cinco
pginas, por favor.

- No posso ler um captulo inteiro?

- No, lembre-se de que voc est competindo com autores do calibre de Tolstoi, Nabokov e Dumas.

Fei-Fei subiu em um engradado de cerveja vazio, no meio do grupo de gente embriagada.

- Amigos! - anunciou, em voz alta. - Companheiros amantes dos livros! Hoje tenho aqui uma pessoa que acabei de conhecer e que ser minha futura amiga, Sumi Wo, a
autora do livro A rf, o qual eu ainda no tive o privilgio de ler. Quero dar a ela dez minutos do nosso tempo para que seja ouvida. Certo?

- Mas e Anna Karemnat - algum perguntou.

- Tolstoi no est aqui, mas Sumi est - alegou Fei-Fei.

- Mas ela no  nenhum Tolstoi!

- Ela no  boa o bastante nem para ser a criada de quarto dele! - ber-

rou um outro.

- Rapaz, eu no apostaria a sua cerveja nisso, pois a nossa Sumi  uma beldade e tanto. At mesmo o nosso barbudo Tolstoi gostaria dela.
262
263

- Vamos l, vamos fazer com que isso seja o mais rpido e indolor possvel.

- , vamos logo com isso. Voc fala demais, Fei-Fei.

- E voc bebe demais - retrucou Fei-Fei. - Da prxima vez, voc mesmo  que vai ter que pagar pela sua cerveja.

Balancei a cabea, temendo pelo futuro dos literatos da China. Fei-Fei fez uma reverncia, retirando-se de cena e Sumi colocou-se em destaque no centro do palco.
A luz do luar recaa perfeitamente sobre seu rosto, e a platia majoritariamente masculina ficou em silncio - uma calmaria temporria que logo foi interrompida
por gracejos e assobios.

- Que curso voc est fazendo? Voc pode se sentar ao meu lado quando quiser na aula de qumica - disse um rapaz.

- Eu tenho uma histria para voc escrever. Venha tomar cerveja comigo amanh no prdio nmero cinco.

- Cale a boca, seu bbado imprestvel - berrou Fei-Fei, jogando uma caneca vazia em cima dele.

Apesar de ser a primeira vez que ela lia em voz alta diante do pblico, Sumi estava calma. Comeou com uma voz suave.

Eu no tinha conscincia da minha beleza at que os olhos dos homens me disseram. No tinha nem pai nem me para pentear o meu cabelo, nem para me cantar canes
de ninar, nem para me dizer para olhar minha prpria imagem no riacho da montanha. A beleza no era importante, viver  que era importante. Pois eu, aos cinco anos
de idade, tive que viver sozinha num orfanato localizado numa peniisula solitria, que se estendia obstinadamente em direo ao Oceano Pacfico. Quando cheguei,
penduraram uma tigela de metal enferrujado no meu pescoo e me deram uma colher de pau, grossa demais para os meus lbios e grande demais para a minha boca. Se eu
as perdesse, teria que comer com as mos, disse-me o diretor.

Minha camisa era um tropo velho e duas vezes, o meu tamanho. Tinha pertencido a uma mulher que se jogou no rio e cujas roupas ningum na vila queria, nem mesmo as
cinzas, depois de queimadas. Meus sapatos eram um par de sandlias de madeira, feitas com duas tbuas de pinheiro e dois pedaos de pano fixados com um prego. Meu
cabelo estava cortado rente at a raiz, mas nem isso resolvia o problema daspulgas e dos piolhos. O pus escorria da minha cabea cheia de bolhas.

Um dia, o diretor, um homem gordo, me deu um tapa por eu ter roubado dois pedaos de legumes em conserva. No chorei. Ele me perguntou por que no havia lgrimas
nos meus olhos. Eu disse que todas as minhas lgrimas j tinham secado. Mas a verdade era que as lgrimas no traziam comida...

O pblico estava em silncio. Cinco pginas se passaram, depois dez. Quando o primeiro captulo chegou ao fim, Sumi parou e enxugou as lgrimas na manga. Aplausos
gentis e amveis, iniciados por Fei-Fei, foram aumentando lentamente at o pblico se levantar e aplaudir de p.

- Porra! Que vida desgraada! Isso  fico? - perguntou um deles.

- No, essa menina sou eu, e essa  a minha vida. Quero apresentar a vocs o homem que teve a coragem de publicar essa autobiografia - Tan Long. Por falar nisso,
ele tambm  o meu namorado.

- E a, sortudo, levante-se para o pessoal poder v-lo! - exclamou Fei-Fei.

Levantei-me e peguei na mo de Sumi.

- Onde podemos comprar este livro? - indagou Fei-Fei.

-  mesmo! Onde? - perguntou outra pessoa.

- Voc pode encomend-lo - disse eu. - No momento voc o encontra apenas nas livrarias da provncia de Fujian.

- E o que vocs tm l, um segmento editorial alternativo?

Fazemos o que achamos que pode fazer diferena na vida - respondi.

Outras pessoas se aproximaram de Sumi, todas querendo pegar emprestada a cpia que ela tinha em mos e perguntando onde ficava o seu dormitrio, apesar de ela ter
comentado sobre nosso namoro. Uma estrela estava nascendo bem diante dos meus olhos. O mundo dela era o l de fora, o mundo de todos que a amavam e que gostavam
do que ela escrevia. Fiquei observando Sumi com admirao e respeito. Ela ficou vermelha diante daquela grande manifestao de ateno, mas, mesmo assim, me procurava
no meio do grupo e me acenava, sorrindo. Ela parecia dizer:

- Amo voc. Voc  a nica pessoa que importa para mim.

Depois das ltimas pessoas se dispersarem, Sumi ficou parada na minha frente. Seus olhos eram dois lagos reluzentes de amor. Suas bochechas estavam coradas de desejo,
e seu olhar transmitia um carinho duradouro.
264

Juntos, corremos para dentro do bosque iluminado pela lua prateada e nos abraamos. A lua era nossa testemunha e as rvores silenciosas nos observavam.

No DIA SEGUINTE, O DESENGONADO E magricela Fei-Fei me parou a caminho do caf da manh.

- Conheo alguns dos jovens escritores mais talentosos deste pas - disse ele -, mas eles no conseguem encontrar quem os publique.

- Que tipo de literatura?

- De todos os tipos. Poesia, prosa, contos, ensaios, romances...

- Estou aberto a novas idias. A cerveja fica por minha conta quando quiser falar sobre livros.

- Negcio fechado - disse ele.

Fei-Fei no s tinha faro para descobrir um bom livro como tambm era o autor de sete dos tais livros que no conseguiam encontrar editora. Ele era um daqueles estudantes
mais velhos que tinha sido enviado ao interior do pas durante a Revoluo Cultural e pagou seus pecados trabalhando exaustivamente. Agora estava cheio de coisas
a dizer. O currculo universitrio era apenas uma brincadeira para ele. Seu pai era o editor de um grande jornal e sua me era bailarina. Ele poderia ter qualquer
emprego que quisesse. O governo lhe devia isso. Mas nenhum emprego sob o domnio comunista parecia se ajustar a ele. Sua amargura se manifestava com eloqncia em
todos os seus escritos. O mais impressionante deles intitulava-se Sob o sol escaldante, um relato emocionante sobre a vida difcil no norte da China durante a Revoluo
Cultural, que narrava, com detalhes, como os funcionrios do governo estupravam suas colegas de turma, sodomizavam seus amigos e roubavam seu dinheiro, suas namoradas,
seus corpos, sua juventude - seus sonhos, enfim. No era de se admirar que Fei-Fei interpretasse o papel de um homem que tinha passado por tudo e que odiava tudo.

Enviei os textos de Fei-Fei para Lena e pedi que ela os publicasse assim que fosse possvel. Pouco depois de receber crticas entusiasmadas do revisor da Mar Azul,
fui me encontrar com Fei-Fei, levando-lhe um adiantamento de mil iuanes, e lhe ofereci um emprego de caador de talentos e editor para a sucursal da Editora Mar
Azul no norte da China.

- Editor-chefe da Mar Azul no norte da China? - perguntou Fei-Fei dando um sorriso maroto. - Nossa, com essa, barrei meu pai.

265

- E logo, logo, vai super-lo novamente com o dinheiro que vai ganhar. Eu sabia direitinho em que ponto tocar.

O Clube da rvore Venenosa floresceu como uma rvore na primavera, tendo Sumi como seu membro especial. Uma onda de clubes semelhantes brotou, como cogumelos selvagens
depois da chuva, em centenas de estabelecimentos escolares de Beijing. Nas segundas  noite, Sumi fazia leituras na Faculdade Tcnica Aeroespacial. s teras, as
leituras ocorriam na Faculdade de Medicina de Beijing e s quartas, na Escola de Arte. s quintas e sextas, ela estudava comigo. Aos sbados  tarde, levvamos Tai
Ping ao Palcio de Vero e alugvamos um barquinho a remo para passear no lago Qunming. O menino estava crescendo como um potrinho. J estava com alguns centmetros
a mais e usava um casaco acolchoado de algodo. Tinha olhos e nariz grandes. Muitas vezes, os passantes curiosos reparavam como pai e filho eram parecidos. Um dia,
quando Tai Ping se lanou em direo aos meus braos, chamando-me de "baba, baba', senti uma onda de calor se espalhar pelo meu corpo. O menino era to inocente
e confiava tanto em mim! Fiquei curioso para saber quem o teria incentivado a me chamar daquele modo.

-Achei que seria bom que ele chamasse voc de baba-disse Nai-Ma, com jeito de av. - Voc  melhor para ele do que um pai de verdade.

LENTAMENTE, A RF SE TORNOU UM BEST-SELLER nacional, apesar de no haver nenhuma lista oficial de campees de vendagem. Fiquei sabendo disso quando Nai-Ma comentou:

- Sei de outra pessoa que tambm se chama Sumi Wo.  a autora do livro que a minha neta est lendo, A rf. A boba da menina copiou o livro a mo.

Corri at a agncia dos correios mais prxima, peguei uma nota de cem iuanes e pedi ao funcionrio que enviasse um telegrama para Lena com as seguintes palavras:

Se ainda no o fez, por favor, mande reimprimir imediatamente mais

cem mil cpias de A rf para serem distribudas na regio norte da China

por nossos canais de distribuio habituais. Tan

Cinco dias depois, fui  estao ferroviria de Beijing para supervisionar pessoalmente a chegada do primeiro lote. 266

Naquela noite, no bar do Hotel Beijing, Sumi e eu celebramos a segunda impresso, ou melhor, a remessa de seus livros a um novo territrio, conseguindo chegar ao
destino em segurana e sem nenhuma interveno ou impedimento burocrtico indesejados. Foi a primeira vez que tomamos vinho espumante e concordamos que no seria
nenhum sacrifcio nos acostumarmos com aquilo.


Shento

CAPTULO 30

Eu TINHA GRANDE RESPEITO PELA peculiaridade e pela importncia da minha misso como segurana do presidente, que era quase uma vocao sagrada, muito alm do alarido
do mundo empoeirado e em contnua transformao que ficava do outro lado dos muros vermelhos de Zhong Nai Hai. Estava atento a cada detalhe dessa misso, todos os
dias do ano, todos os segundos do dia do presidente. Nada me escapava. Inspecionava cada ministro e conselheiro que entrava ou saa pelo porto. Alguns reclamavam
que eu tinha levado a palavra "segurana" um pouco longe demais. Mas sabia que, depois que o perigo entrasse pelos portes, poderia ser tarde demais.

- Tem certeza de que no est exagerando? - perguntou-me, um dia, o presidente Heng Tu, enquanto caminhava pelos jardins.

- O assassino mais perigoso  aquele que  seu amigo.

- Voc desconfia demais de todo mundo.

- E o senhor desconfia muito pouco, presidente.

Eu revia o filme sobre o assassinato de Kennedy uma vez por ms para lembrar a mim mesmo que estava vivendo  beira de um precipcio. Bastava um pequeno deslize
e o presidente poderia morrer. Cada vez
268

que eu assistia ao filme, sentia arrepios descendo pela espinha. Jurei para mini mesmo que isso nunca aconteceria enquanto eu fosse o encarregado daquela funo.

Criei uma rotina diria, provando as trs refeies do presidente antes que ele as ingerisse. Periodicamente, efetuava sindicncias sobre a vida pessoal e pregressa
de cada membro da equipe de funcionrios, mesmo que alguns estivessem l h anos. Em pouco tempo, fiquei conhecendo tudo detalhadamente. Sabia tudo sobre todos os
amigos da equipe de funcionrios, e mesmo sobre seus parentes mais distantes. Nome, idade, ocupao, residncia, relacionamentos - eu sabia de tudo. Certa vez, um
auxiliar de jardineiro me informou que sairia mais cedo para o aniversrio de sua sogra, e eu disse:

- A no ser que voc tenha se casado novamente, sua sogra atual, dentista, nasceu h 55 anos e duas semanas.

O rapaz ficou sem fala.

- Mas no precisa cancelar o encontro com a sua amante, aquela sua amiga de 27 anos que  garonete.

- No quero mais ir ao encontro, senhor.

- Mas deveria, porque est demitido.

Considerei uma sorte estar a apenas alguns centmetros do presidente quando ele sofreu seu primeiro enfarte. Fiquei ao seu lado durante os trs dias em que esteve
no CTI, recusando-me a dormir um segundo que fosse. Ele estava com a aparncia envelhecida e muito abatida e parecia ser ainda mais baixo do que j era. i

Quando finalmente despertou, eu lhe disse:

- Eu lhe darei o meu corao, se o senhor precisar. Heng Tu sorriu e afagou meu ombro.

- Acho que no vai ser necessrio. Pelo menos, ainda no.

Depois disso, colaborei com o mdico pessoal do presidente para garantir o cumprimento da rgida dieta do velho senhor. E isso dava muito trabalho. O presidente
era um trapaceiro. Certa vez, surpreendi-o  meia-noite na cozinha, ajudando o cozinheiro a fritar galinha kungpao, seu prato favorito, muito gorduroso, tpico de
Sichuan, sua terra natal, onde todos gostam muito de comida apimentada.

- Presidente, infelizmente no posso fazer o meu trabalho se o senhor no fizer a sua parte - disse eu. ,.

269

Deixe disso, meu filho. J sou um homem idoso. No tenho vontade

de fazer dieta.

- O senhor quer que eu siga as suas ordens?

- Mas  claro que sim.

- Bem, ento, a ordem que o senhor me deu foi a de cuidar da sua segurana.

Peguei a frigideira e despejei o contedo na lixeira.

- Isso  o que eu chamo de obedecer s suas ordens - observei.

- Mas o que fez com o meu frango delicioso? - exclamou o presidente.

- Seu corao no vai agentar esse generoso punhado de sal que o seu cozinheiro acabou de adicionar. E a gordura que encharcava o seu frango ia entupir as suas
veias como tufos de cabelo numa pia de banheiro.

- Mas estou com fome. Essa comida sem gosto que vocs tm me dado est me matando!

- Nada disso! Quem est matando o senhor  essa comida a. Exijo que volte para o seu quarto. Vou levar um pouco de comida saudvel para o senhor. Obrigado.

Heng Tu saiu arrastando os ps como uma criana, enquanto eu dava uma bronca no cozinheiro.

- Voc vai matar o nosso presidente com essa comida, sabia disso?

O presidente fez um desvio, entrou na despensa e estava prestes a pegar um punhado de amendoins quando ouviu a minha voz novamente.

- Isso tambm no  bom, sr. Tu. Eu disse que a comida j estava vindo.

Daquele dia em diante, Heng Tu conseguiu manter uma vida saudvel. O pas estava em desenvolvimento com a sua poltica de Portas Abertas, e a economia crescia num
ritmo de dois dgitos. Mais empregos foram criados nas empresas privadas e houve cortes nos empregos pblicos. O povo vivia melhor. O mundo via o nosso pas-dinossauro
dar a volta por cima e sair da lama em que esteve atolado por muitas dcadas, durante o governo Mo. Heng Tu foi quem sacudiu o sistema e merecia todo o crdito
por isso.

Em 1984, o presidente Reagan convidou Heng Tu para uma visita oficial. Foi quando viajei aos Estados Unidos pela primeira vez. Tinha enviado uma solicitao  CIA
e ao FBI para que uma equipe de agentes chineses pudesse inspecionar a rota da visita de Heng Tu alguns meses antes da270

viagem. Meu pedido foi grosseiramente negado por um presunoso funcionrio do Ministrio da Fazenda. Ele me explicou que, quando estadistas estrangeiros punham os
ps em solo americano, estavam sob a proteo da CIA. Os agentes de segurana chineses no eram nada mais do que um adendo desnecessrio ao servio de segurana
americano, que tinha grande conhecimento e experincia no assunto.

No gostei da idia de ficar em segundo plano. Ento, peguei um avio e fui para Washington e tambm para Dallas, como Adido Militar da Embaixada da China. Fui grosseiramente
interceptado no Aeroporto Kennedy, em Nova York, pelo funcionrio da Alfndega, que me disse para seguir uma estreita faixa vermelha pintada no cho at o escritrio
do Servio de Imigrao e Naturalizao.

- Por qu? - perguntei, com o auxlio de um intrprete.

O funcionrio do Servio de Imigrao, sr. Smith, no deu a menor ateno ao viajante que falava chins. Revistou minha bagagem, que era muito simples, inclinou
a cabea para o lado, tentando verificar a semelhana entre a foto do passaporte e o meu rosto. Franziu a testa, mastigando chiclete e fazendo bolas.

- Qual  o problema? - perguntei.

- Um momento! Isso aqui  a Alfndega. O senhor tem que ter pacincia.

Virou-se ento para o intrprete.

- Diga a ele para calar a boca ou eu o mando de volta para o lugar de onde veio.

S depois de uma longa e demorada conversa por telefone com a Embaixada da China em Washington, eles me deixaram passar pela Alfndega. Odiei minha experincia no
aeroporto. As pessoas eram grosseiras e maleducadas; o aeroporto estava superlotado e era sujo.

Minha estada em Washington no foi nem um pouco melhor. No banheiro de um restaurante chins, fui confundido com um garom. Um homem branco e bem-vestido me deu
dois dlares e me pediu uma toalha para enxugar as mos. Quando percebeu que eu no entendia o que ele estava dizendo, puxou as duas notas de volta.

- O servio daqui  pssimo - reclamou, ao sair do banheiro.

De fato, o servio era pssimo, pensei com os meus botes, no vo de volta para a China.

271

Uma semana depois, quando o presidente Heng Tu aterrissou na Base Area Andrews, em Washington, me coloquei nervosamente atrs dele. O presidente Reagan fez um discurso
de boas-vindas mas, assim que Heng Tu iniciou seu discurso de chegada, os manifestantes que estavam atrs do cordo de isolamento da polcia iniciaram um protesto:

- Abaixo Heng Tu!

- Abaixo Reagan, amigo dos comunas!

- Abaixo o comunismo!

- Libertem a China! Libertem o Tibet!

Critiquei a CIA por permitir que isso acontecesse. A resposta ridcula do diretor foi:

- Nossa Constituio permite protestos de acordo com a lei. Desde que os manifestantes se comportem, no h nada que se possa fazer com relao a isso. Isto se chama
liberdade de expresso, sabia?

- Mas estavam ofendendo o lder supremo da China.

- E estavam ofendendo Reagan tambm.

- Do que adianta ser presidente se o seu prprio povo pode falar com ele deste modo?

- E de que adiantaria ser presidente se o seu prprio povo no pode falar com ele deste modo? - retrucou o diretor da CIA.

A prxima escala do presidente Heng Tu era Dallas. No consegui dormir naquela noite. A simples meno a esse nome fazia meu estmago revirar, e as imagens do filme
do assassinato de Kennedy vinham imediatamente  minha cabea. Eu quase sentia o gosto do sangue na boca.

O dia da visita de Heng Tu era um dia fresco de incio de inverno. O sol brilhava e as ruas estavam cobertas de flores, exatamente como no dia em que JFK foi assassinado
com uma bala na cabea. Do mesmo modo, o presidente tambm vinha num cortejo de automveis para um encontro com o governador. Eu havia organizado um crculo de proteo
adicional, espalhando vrios agentes chineses ao longo do percurso. Quase tive um ataque cardaco quando um manifestante jogou uma banana, que eu pensei que fosse
uma granada de mo. Ao ver que meus homens no conseguiram agarrar a pessoa que jogou a banana, passei um sermo nos agentes posicionados naquele ponto at que eles
irromperam em lgrimas e soluos.

Poderamos ter voltado para casa sem o nosso presidente.  isso que

vocs querem? - esbravejei.
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- Mas foi apenas uma banana.

Dei um tapa no rosto do soldado e fui embora intempestivamente.

O resto da viagem correu sem problemas. Meu rosto saiu numa foto, bem atrs do presidente Heng Tu, que acenava para Reagan. A foto apareceu na capa da revista Time,
que elegeu o presidente Heng Tu como o Homem do Ano.

MEU NERVOSISMO COM RELAO  viagem aos Estados Unidos mal tinha passado quando o presidente me fez outro pedido impossvel. Quando se aproximava o seu qinquagsimo
stimo aniversrio, Heng Tu foi tomado por um desejo sentimental de visitar sua terra natal, a provncia de Sichuan, prxima ao Tibet.

-- As folhas cadas devem retornar s suas razes - me confidenciou o presidente. - Quanto mais velho fico, mais prximo de casa me sinto.

- O seu desejo  a nossa misso, sr. presidente. Bati continncia.

- timo. Nesta viagem, quero que voc fique um pouco afastado da minha comitiva e se misture com a multido, com o povo da provncia. Preste ateno ao que dizem.
Descubra o que esto pensando e o que esto comentando e me informe sobre isso diretamente. Quero saber a verdade que vai refletir a realidade.

- Mas o senhor est cercado de conselheiros e ministros.

-  exatamente este o motivo pelo qual estou lhe pedindo isso. Eles nunca me dizem a verdade.

No primeiro dia da viagem, o presidente quebrou todas as regras que eu havia elaborado para ele. Mandou o chofer parar onde ele queria e andou desprotegido por entre
a multido que o aclamava, apertando a mo dos habitantes do povoado, que conheciam sua famlia h muitas geraes. Estava feliz e sorria, com lgrimas nos olhos.
As pessoas se aproximavam dele e lhe desejavam felicidades. s vezes, o homenzinho se perdia completamente no meio da aglomerao.

No terceiro dia, sugeri que a visita do presidente  sepultura dos seus antepassados fosse cancelada.

- Por qu? - indagou ele.

- Porque no  seguro.

- Preciso prestar uma homenagem ao meu pai, e ao pai do meu pai. Deixe-me fazer isso. Se consegui sobreviver quela viagem aos Es-
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tados Unidos, vou me sair bem aqui. Estou cercado pelo meu prprio povo.

- Sr. presidente, tenho agentes secretos indicando que h problemas - disse eu, mostrando uma folha de papel.

- Que tipo de problemas?

- Ameaas de morte.

- Pois vou provar a voc que no passam de ameaas. ;

- Por favor, presidente, o senhor estar se arriscando seriamente.

- Tenho que visitar as sepulturas.

- J que  to importante assim, que tal mudarmos o horrio da visita?

- No, o nascer do sol  o horrio tradicional para visitar os mortos. Quando o sol se pe, eles retornam  escurido. No posso mudar isso.   <

Fiquei preocupado por um momento, mas depois cedi.

- Se  assim to importante, vou me encarregar pessoalmente da visita para fazer com que tudo ocorra na mais perfeita segurana para o senhor.

O cemitrio era impressionante. Apesar de eu saber pouco sobre feng shui, conseguia sentir a beleza do local ao ver o sol nascente pegando fogo no horizonte perfeito.
Uma montanha verdejante ficava atrs da sepultura, fornecendo um escudo s costas dos visitantes. A sepultura ficava de frente para o leste, captando o fluxo do
bom feng- vento. O local ficava acima de um grande lago cheio at  borda com gua resplandecente, fornecendo o elemento shui - gua, indicando perptua abundncia.
Quando o sol irrompeu ao leste, atravs da nvoa matinal, formou-se um cenrio de pura magia.

A ameaa tinha sido enviada por escrito dois dias antes. Nada de especfico, mas era preocupante o suficiente. Meus homens tinham vasculhado e esquadrinhado cada
centmetro do terreno em tomo das sepulturas, que estava tomado pelas flores silvestres e arbustos espinhosos, e encontraram apenas os habituais e previsveis sapos
e cobras de jardim.

Uma multido aguardava o visitante, mas o povo foi mantido a uma distncia de sessenta metros da sepultura onde o presidente iria se ajoelhar diante de seus antepassados.
Quando ele chegou, falou com as pessoas e acenou para a multido. De repente, ouviram-se gritos entre o povo que lhe desejava felicidade. Meus homens pularam no
meio da multido em pnico enquanto mantive minha posio, prximo a Heng Tu. Fui informado de
274
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que um dos habitantes da aldeia estava tendo uma convulso e sofria muito, pois havia mordido a lngua e estava sangrando.

- No estou acreditando nisso. Fiquem todos atentos! Sob nenhum pretexto, repito, em nenhuma circunstncia abandonem suas posies! - bradei no meu walkie-talkie.

- Precisamos de um mdico. Podemos pedir ao mdico do presidente para vir socorr-lo? - perguntou um dos agentes. i

- De jeito nenhum.

- E por que no? - indagou Heng Tu.

- Isto  uma ordem! - disse eu com firmeza. - Tragam a limusine! Vamos interromper a operao.

- Socorra-o! - exigiu Heng Tu. - Shento, ajude-o! Este  o meu povo.

- Temos que retornar ao seu carro imediatamente.

- No, ainda no me ajoelhei. E temos que ajudar este homem que est passando mal.

- No podemos fazer isso. Temos que abandonar o local imediatamente.

O cemitrio estava um caos. Meus homens ficaram perturbados com o alvoroo. Heng Tu no estava recebendo cobertura. O medo tomou conta de mim enquanto meus olhos
vasculhavam toda a rea  direita e  esquerda.

O presidente escapou  minha vigilncia, puxou seu mdico e correu at o homem doente.

- No! - gritei, arrastando Heng Tu de volta, enquanto dava ordens a um outro agente:

- Soldado, ajude-me! Tire o presidente daqui!

Ao levarmos rapidamente o velho que esperneava para longe da multido, ouviu-se uma forte exploso atrs de ns. As pessoas gritavam. Empurrei o presidente para
dentro do carro e dei ordens ao motorista para que descesse a toda velocidade pela acidentada estrada de terra. Xinguei em voz baixa enquanto cobria Heng Tu com
meu corpo, temendo que o susto pudesse provocar outro enfarte. Pelo walkie-talkie, fui informado de que tinha perdido dez dos meus melhores homens. O homem que supostamente
estava passando mal era, na verdade, um homem-bomba que explodiu em pedaos.

Comuniquei ao presidente: "'

- Mais uma misso cumprida.

- Meu filho, eu deveria sempre dar ouvidos a voc - disse Heng Tu, segurando no meu ombro.

Disfarado de trabalhador itinerante, retornei mais tarde e misturei-me aos lavradores pobres que haviam migrado para as cidades. O que descobri me afetou profundamente.
Famlias que desejavam ter filhos homens abandonavam ou vendiam as filhas mulheres para a prostituio, e os lavradores mal tinham o suficiente para comer. O milagre
capitalista recaa apenas sobre algumas poucas pessoas. Mendigos e rfos se espalhavam por toda a regio das montanhas. O mais perturbador eram as centenas de milhares
de veteranos do Exrcito que vagavam por todos os vilarejos e povoados, invadindo as cidades que ficavam congestionadas, depois de terem sido dispensados de sua
funo por causa da drstica reduo de contingente. Como no tinham nenhuma outra qualificao, estavam perdidos e indignados. Bebiam, jogavam, estimulavam a prostituio
e estavam prontos para uma rebelio. O homem-bomba era um deles, um pequeno detalhe que escondi do presidente ainda convalescente.

Meu relatrio sobre o povo da cidade de Chengdu logo chegou  mesa de Heng Tu. O velho revolucionrio, que vinha de uma famlia pobre de lavradores e tinha sempre
visto a si mesmo como o lder do povo, chorou amargamente. Suas lgrimas borraram as palavras.

- Meu filho, obrigado por ter me contado a verdade. Alguma coisa vai ser feita com relao a isso. Agora, voc precisa desempenhar uma outra funo. Vai ficar no
comando de uma operao de reorganizao do Exrcito. Vejo que  solidrio com eles. Quero que fiquem felizes, porque sem eles no sou nada, e a repblica pode desmoronar.

- Mas quem vai cuidar da sua segurana?

- Outra pessoa pode desempenhar esta funo. Voc tem que fazer alguma coisa maior do que isso, um trabalho mais abrangente, meu filho.

- Mas eu no confiaria a sua vida a mais ningum a no ser a mim

mesmo.

- Ningum teria a coragem de discutir comigo, a no ser voc, e gosto disso.  exatamente por isso que estou querendo que execute o trabalho mais importante que
algum poderia fazer por mim. Voc  como se fosse a minha represa. Eu preciso de voc para conter a inundao.
276

Ele fez uma pausa.

- Quero ouvir todos os detalhes do que descobrir, as solues que tiver para me apontar e a lgica que existe por trs delas.

- Entendo perfeitamente, sr. presidente.

- Seu novo cargo ser o de assistente especial do comandante-emchefe, que sou eu.

SOB A GIDE DO PRESIDENTE QUE ESTAVA envelhecendo, viajei sozinho a recantos longnquos do vasto pas, fazendo inspees de surpresa aos comandantes regionais dos
oito distritos militares. Uniformizado, passava uma imagem importante e cheia de dignidade, apesar da minha pouca idade. As mulheres se sentiam seguras com a minha
presena e os homens pareciam estimulados com meu ar de dignidade. Mas isso no me poupava de ser tratado com frieza e at mesmo com grosseria em algumas das cidades
que visitei.

Minha primeira parada foi no quartel-general do Comando Sudeste de Qunming, na provncia de Yunan. Meu corao cantava enquanto o avio sobrevoava as grandes montanhas.
Todas as minhas recordaes da infncia retornaram como uma inundao. Eu estava certo de ter visto o penhasco do qual minha me tinha se lanado para a morte. As
flores selvagens e amarelas que brotavam no calor do vero eram as lgrimas e os risos da minha infncia, minhas nicas lembranas dela. A vila j no existia mais
e a terra tinha voltado ao seu estado selvagem original. Um dia, voltaria para fazer o que se esperava de mim como um filho que ama seus pais - construir um mausolu,
queimar cdulas de dinheiro e acender varetas de incenso para acordar os espritos do meu baba e da minha mama. Assim eles saberiam que consegui sobreviver e prosperar.
Algum dia, quando eu tivesse alcanado a autoridade e a glria.

Nas ruas de Qunming, parei muitas vezes para olhar as crianas. Elas sorriram para mim, algumas sem dentes, outras com os narizes escorrendo. Eu podia ver a minha
prpria sombra voando como uma borboleta no jardim da minha memria.

O comandante regional, o general Tsai, era um homem corpulento com olhos que desapareciam no seu rosto a cada vez que sorria. Era um tipo racista que se referia
aos tibetanos como brbaros, mesmo na presena do solitrio subcomandante tibetano, Hu-Lan, um homem baixinho, atar-
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racado e de pele escura, que na verdade tinha pouco poder e ainda menos firmeza de carter.

- Ns temos o controle total da situao - vangloriou-se o comandante durante o jantar. - No ano passado, tivemos que prender cerca de

cem monges.

Ele riu, mastigando seu rosbife com molho de hortel.

- No se esquea dos dez que tivemos que executar, comandante - acrescentou Hu-Lan.

- O senhor executou dez monges no ano passado? Por qu? - indaguei.

- Rebelio religiosa. Eles organizaram greves e protestos para incitar os sentimentos do povo local - respondeu o comandante. Ao sentir que eu havia ficado aborrecido,
ele desviou o assunto, discorrendo sobre o que meio milho de soldados baseados naquela regio estavam fazendo, alm de espancar os nativos.

- Estamos fazendo dinheiro - disse ele. -  por isso que temos o que temos. Olhe s para estes vinhos e estas peles.  o resultado dos nossos negcios. Estamos at
pensando em montar uma agncia de turismo do Exrcito para atrair alpinistas do mundo inteiro. O Tibet est em alta no momento. Imagine s os helicpteros, que agora
esto ociosos, sendo utilizados para transportar os alpinistas at os acampamentos. Que qualidade e segurana esses montanhistas brancos teriam, sob a chancela altamente
confivel do Exrcito do Povo! Ns no precisaramos nem mesmo fazer publicidade.

- Dominaramos o mercado e derrubaramos as agncias tursticas da China - acrescentou Hu-Lan, referindo-se ao monoplio estatal.

Adoraria dar uma bela lio naqueles dois presunosos, mas estava no territrio deles. Era como se estivessem no seu feudo. O imperador estava longe e eles faziam
o que queriam.

 noite, uma mulher da equipe de funcionrios do hotel do Exrcito bateu  minha porta, com uma garrafa de bebida na mo. Ela exibia suas longas pernas, levantando
a barra de sua saia curta. Fiz com que ela se sentasse na cama e indaguei se fazia isso com todos os que vinham para esse hotel-estncia do Exrcito.

Ela sorriu, enroscando-se toda e disse:

- Voc faz perguntas demais. A maioria deles apenas me come e depois cai no sono. 278

- Obrigado pela informao. Seu trabalho desta noite j terminou

- disse eu, dispensando seus servios.

A moa foi embora, sem entender muito bem.

No dia seguinte, o comandante regional piscou o olho para mim.

- O que o senhor achou do sabor local? Ela vem de uma famlia de cavaleiros tibetanos. Sabe cavalgar direitinho, no  mesmo?

Eu sorri.

- Venha aqui, comandante. Deixe-me ajeitar seu colarinho.

- O que h de errado com ele?

O homem atarracado se inclinou e arranquei as insgnias douradas de seu uniforme.

- O senhor  uma desgraa para o nosso Exrcito e para o nosso povo!

- vociferei. - Sugiro que pea demisso. O senhor j atingiu a idade para passar para a reserva.

- Ainda no sou velho o bastante para isso.

- Mas j est podre o suficiente.

Quanto a Hu-Lan, o subcomandante tibetano, sugeri que fosse rebaixado a cabo e designado para proteger e vigiar o lendrio templo onde o Dalai Lama um dia residiu.

O Comando do Nordeste no era nada melhor. A fronteira com a Sibria tinha se tornado a terra dos contrabandistas. O comandante regional me recebeu em seu escritrio
muito bem mobiliado, com as paredes cobertas de cabeas de animais.

- As tropas russas da fronteira so um bando de bbados miserveis

- informou ele. - Aposto que consigo comprar milhes de hectares da Sibria deles com caixas da cerveja que o nosso Exrcito produz aqui.

- Mas ainda so nossos inimigos. No temos uma relao diplomtica formal com eles.

- Agora temos. O comrcio entre chineses e russos  to intenso que eu transformei nosso Exrcito em coletores de tarifas alfandegrias.

- O senhor no deveria relaxar a sua vigilncia. A segurana da nossa fronteira e a defesa nacional podem estar em risco.

- Os russos no querem mais lutar. Tudo o que querem  ganhar dinheiro e mais dinheiro. Todos os dias, centenas deles pegam o trem e atravessam para o nosso lado
para comprar jeans e relgios baratos.  um grande negcio.
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O comandante me levou em sua Mercedes para uma visita pela fronteira, que tinha se desenvolvido como um bazar em expanso, com milhares de comerciantes falando chins
ou russo, ou uma mistura dos dois. Caminhes, carros e mulas transportavam jeans, guarda-chuvas e sacolas cheias de relgios que saam do territrio chins e atravessavam
na direo norte da fronteira, voltando para o sul com jias e peles da Rssia. A fronteira no existia mais.

No dia seguinte, vesti-me  paisana e voltei para uma segunda inspeo. Fui parado apenas brevemente por um guarda chins, que me permitiu atravessar a fronteira
depois de lhe pagar cem iuanes - o preo exigido em voz alta e clara pelo soldado que empunhava um fuzil.

 tarde, quando retornei do territrio russo, depois de perambular o dia todo pelo mercado da fronteira que parecia um bazar, a mesma quantia me foi exigida por
um outro guarda. Mas, desta vez, ele me ofereceu alguma coisa tambm.

- Quer trepar com umas meninas brancas? - perguntou o guarda. Ele fedia a cerveja azeda e estava precisando fazer a barba.

- Claro - respondi.

- Quinhentos iuanes em dinheiro vivo.

- E onde  que a gente faz o lance?

- Onde mais poderia ser?

O soldado me levou atravs do porto, para a parte dos fundos de um gabinete do Exrcito. L, na penumbra, com msica russa tocando ao fundo, havia uma dzia de
moas russas, que se levantaram quando eu cheguei e me cumprimentaram com voz macia, falando um chins muito rudimentar, enquanto me acariciavam o corpo todo.

- Todos os chinas gostam muito de mim. Eu tenho seios grandes, saDe? - disse uma delas, alta e avantajada, falando chins com um sotaque

carregado.

- Tenho certeza que sim.

- E voc, bonito? Estou pronta para uma boa trepada, seu chins safado. Gosta de mulher de boca suja?

- No, obrigado. Acabei de escovar os dentes.

- Voc  engraado. Que servio procura para comprar? Ela soltou uma baforada de fumaa na minha cara.

- Estilo militar - respondi, lendo uma lista de preos pregada na parede.
280

- A gente tem isso. Msseis nucleares.

A garota agarrou as minhas ndegas e se esfregou em mim.

- Quanto custa?

- Cem, como disse o homem do Exrcito. Mas isso s para ele. Eu trepo para viver.

- Eu tenho que pagar mais?

- Cem para mssil nuclear simples. Duzentos, para permisso para entrar pela porta traseira.

- Seu chins  bom.

- Trepei bastante para pegar o jeito.

- Voc trabalha para eles?

- No, eles  que trabalham para mim.

Ela lanou um olhar ao guarda parado perto da porta.

- Voc conhece o comandante?

- Se conheo? Que piada  essa?  nosso maior protetor. Esse  o negcio dele.

Paguei a ela duzentos iuanes e voltei ao meu quarto de hotel para redigir meu relatrio. Ao voltar ao escritrio e entregar uma cpia ao chefe do Comando Nordeste,
avisei a ele que um longo perodo na priso o aguardava.

- Nunca me ameace no meu territrio - reagiu o general. Ele cuspiu na minha direo enquanto eu saa de sua sala impetuosamente.

A viagem no foi inteiramente infrutfera. Fiquei impressionado com o Comando Noroeste, prximo ao deserto de Gobi, o ponto central de pesquisa e desenvolvimento
nuclear da China. Os cientistas militares naquele isolamento rido e rodeado de areia pareciam entrincheirados numa longa e esquecida Guerra Fria. Exultaram de entusiasmo
ao conhecerem o enviado especial do presidente. Um jovem cientista chamado dr. Yi-Yi me conduziu numa visita aos silos subterrneos.

- Qual  o nosso poderio em termos de armas nucleares? - indaguei.

- Somos poderosos o suficiente, senhor. Sem entrar em grandes detalhes que poderiam entedi-lo, bastaria apenas apertarmos alguns botes e todas as grandes cidades
do mundo explodiriam em um segundo - disse ele, demonstrando grande prazer nisso.

Fiquei feliz por no ter que rebaixar ningum.

281

Na ltima etapa da minha viagem de inspeo, estive em Fujian, onde ficava o meu orfanato - o Comando Sudeste. Senti-me insultado pelo fato de o comandante regional
nem sequer se dignar a vir me receber. Ele est ocupado demais, informou-me sua secretria. No vi razo em insistir para que ela marcasse uma reunio. Visitei a
Frota do Pacfico, que deveria estar protegendo o mar do Leste da China contra Taiwan. A frota, que um dia havia sido a nica e ltima defesa chinesa contra os falces
da Guerra Fria, estava agora ociosa e solitria no estreito de Taiwan. Muitos navios estavam enferrujados e desgastados, e os marinheiros reclamavam por terem sido
excludos do comrcio frentico que crescia no continente, apesar de alguns terem encontrado meios de fazer seus prprios negcios - interceptando barcos com contrabando
entre Fujian e a ilha de Taiwan. O que mais me incomodou foi quando flagrei um grupo de jovens oficiais da Marinha aglomerados dentro de uma cabine srdida, assistindo
a um vdeo pornogrfico num navio que tinha o nome do grande lder, "presidente Mo".

- Vocs gostam desse filme? - perguntei, sentando-me no cho com eles, depois de afastar algumas latas vazias de cerveja e pontas de cigarro.

- Se gostamos? A gente vive disso - respondeu um deles, sem se virar para mim.

- O que voc diria ao presidente Mo se ele estivesse vivo e visitando

esse navio- Junte-se  orgia!

A cabine inteira irrompeu em gargalhadas.

Enojado, perguntei mais uma vez pelo comandante regional, que novamente mandou sua secretria dizer que ele no estava.

- Onde  que ele est agora? - quis saber.

- Est ocupado com alguma emergncia militar - disse a secretria, levantando os olhos.

- No existe emergncia nenhuma.

-  um assunto confidencial. " , Descobri, no meu quarto de hotel, enquanto assistia ao noticirio local,

que o comandante regional estava cortando a fita inaugural numa cerimnia de abertura de um empreendimento do Exrcito em parceria com uma companhia de Taiwan, especializada
em imitaes de sapatos italianos.

- Fazendo sapatos em parceria com o inimigo. Esta  uma emergncia

e tanto. . ,  .
282

Escrevi meu ltimo comentrio sobre o comandante regional, recomendando que ele fosse rebaixado e destitudo de seu posto e funes.

QUANDO RETORNEI, o PRESIDENTE me perguntou:

-Agora que voc recomendou destituir metade dos meus comandantes, qual  o seu prximo passo?

- Reorganizar e unificar as trs Foras Armadas. Do jeito que est agora, os comandantes regionais so os senhores da guerra. Eles tm autonomia demais e nenhuma
responsabilidade. A mo esquerda no sabe o que a mo direita est fazendo. Em tempo de guerra, desabaramos como um castelo de areia. Precisamos de um Exrcito
menor e melhor.

Heng Tu balanou a cabea, concordando.

- Sei como torn-lo menor, mas como torn-lo melhor, meu jovem coronel?

- Precisamos adquirir os melhores avies de combate da Amrica e tambm atualizar e modernizar as nossas frotas. Mas nossa maior fora  nosso poderio nuclear, sr.
presidente - disse eu com empolgao. - Temos um arsenal de primeira linha para lutar contra qualquer superpotncia.

- At mesmo contra os americanos?

- Sim, e tambm contra os japoneses e os russos.

O presidente Heng Tu exibia um sorriso de prazer em seu rosto, que desapareceu com sua prxima pergunta.

- E o que faremos com os milhes de soldados que voc quer que sejam dispensados?

- A minha proposta  legalizar estas indstrias relacionadas ao Exrcito que tm surgido, e at mesmo iniciar novos empreendimentos comerciais, permitindo que os
veteranos comprem aes da companhia e participem como acionistas. Quando as aes forem negociadas nas bolsas de valores, eles vo ganhar muito dinheiro e tero
um meio de vida. Deste modo no vo se transformar num exrcito ocioso, pondo o seu poder em risco.

- E como pretende fazer isso?

- Fornea a eles permisses especiais e linhas de crdito generosas do Banco da China. Quero que eles se lembrem de ns. E vo se lembrar.

- Ento, esta foi uma viagem bastante proveitosa.

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No o bastante. Eu havia procurado, em vo, por Sumi. O orfanato h muito havia sido destrudo, assim me disseram, e os arquivos se perderam. Ningum sabia para
onde os rfos tinham ido. E ningum se importava com isso, tampouco.

EM UM MS, MEU PLANO RECM-FORMULADO para as trs Foras Armadas foi oficialmente apresentado ao presidente. Os oito distritos regionais seriam reduzidos a um.

- Isso me parece uma boa idia - comentou Heng Tu. - No entanto, minha mesa est coberta de reclamaes sobre voc, vindas de todos os comandantes regionais. Passaram
por cima de voc e vieram reclamar diretamente comigo.

- J esperava por isso. Mas, assim que forem destitudos de seus cargos, ficaro impotentes. O que eles poderiam fazer?

- H muita coisa que ainda podem fazer, meu rapaz. Esto entrincheirados em seus cargos h muito tempo. Estas cartas, na sutil terminologia militar, no so nada
menos que um preldio para uma revolta. O chefe regional do Comando Nordeste chamou voc de salafrrio. O chefe regional do Comando Sudeste o chamou de idiota. Os
outros lhe deram o ttulo de "o dedo bichado de um p ruim que precisa ser cortado".

- Mas isso  um elogio.

- O chefe regional do Cornando Noroeste diz que, se voc ousar voltar l, vai mandar arrancar seus olhos e estourar seus tmpanos, para que no seja mais capaz de
ver e ouvir.

- Mas os pesquisadores nucleares pareceram apreciar a minha visita.

- Eles tm duas caras. - O velho presidente deu de ombros. - Todos eles tm.

- O que o senhor acha dessas reclamaes? - perguntei.

- Quando insultam o meu p, esto insultando a mim.

- Temos que agir rpido antes que percamos o nosso poder com os militares.

- Meu filho, voc tem o instinto de um general. Vou convocar todos os comandantes regionais para uma reunio daqui a duas semanas e farei com que aceitem o que vier
para eles.

Na manh do dia 26 de dezembro de 1986, uma neve rala se depositou como uma camada de poeira no cho gelado. Alguns flocos permaneceram
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na minha gola de pele. O frio que penetrava nos ossos me fez ficar alerta. E eu tinha que estar alerta, pois, naquele dia, os oito comandantes regionais militares
estariam l para uma reunio especial, do tipo que acontecera apenas duas vezes na histria da China. Uma vez, quando os russos se alinharam na fronteira do Norte,
e a outra, quando o Vietn invadiu o Camboja.

Cada um desses tits da China, com seus exrcitos, poderia fundar um imprio sozinho. Muitas coisas poderiam resultar de uma reunio explosiva como esta. Um golpe
de Estado era um palpite fcil. Eles poderiam enviar tanques para Beijing. Ou poderiam dividir a China em duas - o reino do Norte e o imprio do Sul, separados pelo
rio-me, o Yang Ts. Isso j havia acontecido no passado. A opo mais moderada era manter a situao atual.

Eu no fazia idia de qual seria o discurso do presidente para se dirigir a esses homens de armas corruptos. Ele havia me dito apenas para ficar de sobreaviso. Mas
senti que tinha de fazer alguma coisa. Meus homens assumiram o controle do aeroporto aonde todos os comandantes chegariam. Em cada um dos avies que os transportavam,
plantei um espio para monitorar seus passos. Suas limusines estavam conectadas a aparelhos de escuta ultrasensveis, graas  KGB - ou seria a CIA? Qualquer coisa
que dissessem seria usada como prova contra eles, caso fossem denunciados.

Uma bandeira vermelha adornava o salo de conferncias. Na parede, pendia o retrato do eternamente benevolente presidente Mo, com seu sorriso de Mona Lisa. O presidente
Heng Tu abandonou a cadeira de rodas que muitas vezes usava e preferiu entrar mancando, porm com a coluna ereta. Relutantemente, os oito comandantes que o aguardavam
levantaram-se e aplaudiram a entrada daquele homem que era como um pai zangado que no queriam encarar.

A primeira entrevista de Heng Tu, realizada num aposento solene da Cidade Proibida, foi com o chefe regional do Comando Sudeste, o homem que cortou a fita na cerimnia
de abertura. O general Fu-Ren era um sujeito baixinho que no parava de cruzar nervosamente suas pernas rolias. Aos olhos do presidente, seu anel de brilhantes
faiscava ostensivamente. Fu-Ren tentava, sem sucesso, afrouxar a gola alta do palet repetidas vezes, pois seu pescoo carnudo transbordava por cima dela, mesmo
desabotoada.

- Veja bem, Fu-Ren. Se fica muito tempo sem vestir o uniforme, ele acaba no cabendo mais em voc - comentou o presidente.

Prefiro o terno e a gravata dos ocidentais, que podemos afrouxar

para respirar melhor, a esse maldito fecho.

Ele franziu a testa, mostrando estar aborrecido com a gola da farda, que geralmente dava ao militar uma postura ereta e orgulhosa.

- Meu filho, quando estvamos na Grande Marcha, voc era um menininho que eu carregava nas costas.

- Isso j  coisa do passado, sr. presidente. Precisamos seguir com a pauta da reunio. - Fu-Ren levantou os ombros gordos. - O senhor tem algum assunto para ser
discutido?

- Tenho. Conte-me o que voc tem feito com o seu exrcito e seus preciosos recursos. Esta  a sua oportunidade.

- Tenho supervisionado os mares do Sul e do Leste da China com muita ateno.

- Mais uma vez, meu soldado, confiei a voc o nosso porto de entrada ao Sul, voltado para Taiwan, Hong Kong e Macau. Voc deveria ser mais honesto comigo.  hora
de abrir o jogo. Tenho pilhas de relatrios sobre sua conduta imprpria.

- Diga a esse idiota do seu coronel - qual  mesmo o nome dele? - que nos deixe em paz. Somos soldados, e os soldados tm maneiras de viver e de ganhar suas merecidas
recompensas.

- Roubando e ficando com a sua parte?

- Presidente, em quem o senhor prefere confiar? Em seus soldados, que mantm este pas em segurana enquanto o senhor dorme aqui em meio a todo o conforto, ou em
seu jovem coronel?

- S dou ouvidos  verdade.

Pois estou lhe dizendo a verdade. Est tudo correndo muito bem.

Chegue mais perto, Fu-Ren. Tem uma sujeirinha no seu peito. Deixe-me tir-la para voc.

- Onde?

O presidente agarrou a farda do baixinho e deu um peteleco na fivela de metal da gola, que se fechou com um estalo. O rosto do gordo ficou vermelho. No estou conseguindo
respirar - disse ele, quase sem ar.

- timo!

Abra a fivela! - exclamou ele, tentando desesperadamente rasgar a

gola da farda. - Socorro, socorro!

O presidente saiu da sala mancando e sem olhar para trs.
- Ajude a si mesmo. Saia daqui antes que eu mande expuls-lo. Voc  uma desgraa para o nosso pas!

Fu-Ren espumava. Levou um minuto at que conseguisse rasgar a gola da farda.

Assisti a tudo pela minha cmera oculta de circuito fechado.

- Parabns, presidente - comentei, baixinho.

Ele se dirigiu mancando para uma outra sala de conferncias. Desta vez era o chefe regional do Comando Noroeste. Seu apelido era Dono da Bomba.

- Voc faz alguma idia - perguntou o presidente Heng Tu - de quantos msseis nucleares sumiram?

- Nenhum deles sumiu.

O Dono da Bomba se fez de surpreso.

- Tenho uma lista aqui nas minhas mos. Eu exijo nada menos do que honestidade total e absoluta de sua parte agora, neste momento, ou ento poder ser tarde demais.

- Presidente, por que o senhor est sendo to duro comigo? Afinal de contas, sou eu que supervisiono a diviso mais vulnervel das nossas Foras Armadas. Se no
fosse por ns, serviramos de caf da manh para os Estados Unidos e de almoo para os japoneses.

- Talvez possa me contar sobre o lucro que conseguiu com o misterioso desaparecimento de mais de cinqenta msseis nucleares.

- Isso  mentira! Foi esse seu assistente que inventou isso!

- Ele foi enviado por mim.

- Ele andou xeretando sem a nossa permisso.      s

- Se no fosse por ele, eu nunca teria descoberto a verdade sobre vocs.

- Presidente, parece que o senhor j tomou uma deciso e prefere acreditar nele e no em ns - disse o Dono da Bomba, bruscamente.

- "Ns"? - indagou Heng Tu, em tom de desafio.

O comandante regional olhou para baixo, evitando os olhos do presidente. .

- Eu quis dizer "eu".

- Pois  verdade - confirmou o presidente.

- E o que o senhor pretende fazer com relao a isso?

- Muitas coisas. Mas, antes de mais nada, percebi que voc est com uns plos saindo do nariz.
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O Dono da Bomba franziu a testa.

- Espere a, deixa eu dar um jeito nisso para voc.

O presidente arrancou as estrelas da gola da farda e depois cuspiu no

seu rosto.

O comandante se encolheu.

- O senhor cuspiu em mim.

- Meu filho, voc mereceu isso. Seu pai teria concordado comigo. Mancando, Heng Tu saiu daquela sala e iniciou outra reunio. Ao

meio-dia, j havia falado com todos eles. Estava enfurecido e indignado ao reuni-los todos novamente no salo do quartel-general do Comando Central. quela altura,
os comandantes regionais pareciam um bando de ratos afogados. Alguns estavam aturdidos e estupefatos. Outros mantinham a cabea baixa. Alguns outros tinham um ar
preocupado. Havia uma sensao geral de que tinham fracassado. Estavam todos aguardando que o presidente lhes anunciasse o destino que teriam. Finalmente, o velho
abriu a boca.

- Eu tenho um plano completo de reorganizao das nossas Foras Armadas. O autor deste plano  o amigo de vocs, Shento, algum que tenho o orgulho de apresentar
agora para explicar o nosso futuro com maiores detalhes.

Fiz uma reverncia muito de leve e bati continncia para todos. Passei uma hora explicando a lgica e a necessidade das mudanas. As palavras de despedida de Heng
Tu a todos eles foram: -Agora voltem para casa e estudem esses planos. Dentro de seis meses, escolheremos um lder entre vocs para conduzir este Exrcito ao sculo
XXI. A obedincia a este novo plano vai determinar o seu futuro. Quero lhes dar uma outra chance. At os cavalos merecem uma segunda oportunidade.

 CAPTULO 31

TAI PING ME PERGUNTOU: "Por que estradas se bifurcam e rios se dividem?" "Por que passarinhos saem dos ninhos para fazer suas prprias casas?" "Por que baba Tan
s vem nos visitar?" "Mama, por que voc dorme sozinha?"


Sumi

 CAPTULO 32

DA DENTRO DO SILNCIO PROFUNDO de Zhong Nan Hai, a residncia presidencial, era como cavalgar seis garanhes ao mesmo tempo. Cada cavalo exigia minha total concentrao,
mas oferecer a qualquer um deles minha dedicao exclusiva apenas me faria cair nesta corrida intensa e cheia de poeira. Eu sabia que precisava dominar todos eles
se quisesse chegar ao final e vencer.

Todos os dias, acordava antes do nascer do sol e estudava os relatrios dos trinta ministrios do governo. Ao alvorecer, os acontecimentos do dia anterior estavam
resumidos e encadernados sobre o tampo de mogno da minha mesa.

De todos, eu tinha uma fraqueza pelo mais volumoso, que era o do Ministrio da Fazenda. Seus relatrios traziam boas notcias - crescimento de dois dgitos do PNB,
o florescimento da Zona Econmica Especial de Shenzhen. O aumento vertiginoso das cifras de exportao de Fujian revelava a criao de um nmero recorde de empresas
privadas. Firmas estrangeiras procurando oportunidades de negcios faziam pedidos formais para realizarem milhares de joint ventures. A lista era to longa quanto
o rio Yang Ts. Ela iluminava meu rosto, mesmo nos dias frios do inverno de Beijing.
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Em seguida, eu revia os despachos dirios do Ministrio das Relaes Exteriores. Todos os pases, inclusive alguns que anteriormente eram hostis, agora sorriam para
a China. O gelo da Guerra Fria tinha se derretido. Propunham-se novos tratados e havia sugestes de novas relaes diplomticas. Gostei particularmente do relatrio
sobre Taiwan - que fazia parte do territrio chins antes de os nacionalistas terem fugido do pas em 1949 - no qual havia um pedido formal ao Ministrio para que
cessssemos o bombardeio dirio  sua ilha dos portes dourados.

- Diga a eles para investirem no nosso futuro aqui - comuniquei ao ministro das Relaes Exteriores. - A ento interromperemos os bombardeios.

O Ministrio da Agricultura informou que quatrocentos mil hectares de terras cultivveis haviam sido convertidos em projetos habitacionais. Em todo o pas, rvores
antigas estavam sendo derrubadas para acompanhar o ritmo desenfreado das construes. O ministro da Agricultura elogiou este fenmeno como um ato herico, mas o
ministro do Meio Ambiente declarou que isso era um desastre.

- Estamos perdendo nossa proteo ambiental mais rapidamente do que nunca, e isso no tem preo. Por favor, promulguem leis para deter esta atividade desenfreada
- disse ele.

Meu nico comentrio com relao a esta situao foi que os homens precisavam de abrigo para morar, e as rvores cresceriam novamente.

O arquivo do ministro da Segurana Pblica sempre me deixava sbrio com sua dose de fria realidade. Eu tinha uma averso renitente a qualquer pessoa que usasse aquele
uniforme, pois isso me lembrava do meu passado obscuro e secreto na priso e, com ele, minha experincia de proximidade da morte, um verdadeiro pesadelo para mim.
Mas eu precisava encarar estes relatrios, porque eles revelavam as rachaduras naquela represa chamada China, e se tais rachaduras no fossem consertadas, poderiam
causar a inundao do caos. Todos os dias, havia a costumeira lista de atos ilegais e pecados morais sem os quais os seres humanos no conseguiam viver desde o tempo
do homem de Pequim: prostituio, jogatina, bebida, espancamento de mulheres, assassinatos, seqestros, drogas vindas do Laos e o contrabando no Tringulo Dourado.
Nada de novo e nada de to ruim, a no ser uma nota em especial, intitulada "Dissidentes e seu Relatrio Antigovernamental". Mais de 350 clubes pr-democrticos
haviam se

formado pelo pas. Mil revistas antigovernistas estavam sendo publicadas. Nos ltimos tempos, havia surgido um bom nmero de lderes influentes que protestavam.
Dentre eles, alguns escritores dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Eu tinha uma soluo simples para todos aqueles campees da liberdade e da democracia: mand-los
para a regio de Xinjiang, varrida pelos ventos, onde poderiam falar de democracia aos lobos do deserto e de liberdade s montanhas altas e cobertas de neve.

QUANDO REDIGI o PRIMEIRO RASCUNHO do meu novo plano militar, ocultei um pequeno detalhe do presidente. Na minha viagem pelo pas fazendo rondas de inspeo, tinha
compilado uma lista de jovens oficiais do Exrcito, baseados em postos remotos, que pareciam genuinamente ambiciosos e no estavam nem um pouco contentes em ver
seus quartis descambarem para a atividade do comrcio popular. Esses jovens oficiais tinham um elo em comum: no fundo, eram soldados de corao.

Em reunies clandestinas, compartilhei com eles a minha idia de revitalizar o nosso Exrcito e orgulhosamente governar o mundo. No disse nada sobre recompensas.
Estava subentendido. Mencionar isso seria apenas instalar a impureza em sua busca pela glria.

Chamei minha organizao secreta de Clube dos jovens generais, um ttulo que todos os membros tinham a ambio de conseguir, mas que no tinham tido a sorte de alcanar
at aquele momento. Eu telefonava todas as semanas para cada membro do clube, em absoluto sigilo. Se fossem descobertos me passando informaes sobre seus prprios
comandantes distritais, acabariam com uma bala na cabea ou uma faca na garganta.

Meus telefonemas geralmente comeavam com o capito Ta-Ta, do distrito tibetano. Ele era um tibetano de ossatura larga e que conhecia as trilhas perigosas do Himalaia.
Veio conversar comigo depois que mandei embora a prostituta em Qunming. Por esse nico ato, Ta-Ta ficou sabendo que eu era um verdadeiro soldado. Nossos telefonemas
geralmente tinham incio com uma troca informal de gentilezas, e logo os assuntos mais srios comeavam a fazer parte da conversa.

Nesta ocasio em particular, eu queria saber da reao de seu comandante depois do encontro com o presidente.

O comandante pegou um avio para algum lugar no interior do pas

- disse Ta-Ta.
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- Descubra qual  o destino do vo e me ligue. Como est o clima a?

- Tenso.

Imediatamente, liguei para meu amigo Don Tong, da regio litornea de Fujian. Ele era um sargento baixinho e parrudo, subalterno a Fu-Ren, o comandante distrital
mais corrupto de todos. Conheci Don Tong sentado ao sol, polindo sua pistola com orgulho enquanto todos os seus companheiros disputavam a imagem de uma mulher vestida
apenas com um boto de rosa no umbigo. Fui at ele e lhe dei um tapinha no ombro.

- Estou aqui para lutar contra os japoneses, os americanos e os russos. Meus companheiros querem apenas brigar pela pornografia que vem de Hong-Kong. Isso me d
nojo - comentou ele com muita franqueza.

- Esse  o esprito da coisa. Um dia voc vai lutar contra os seus inimigos - disse eu, e o recrutei na mesma hora.

Hoje, fui direto ao ponto.

- Onde est o seu chefe?

Don Tong era o ordenana designado para passear com os ces dele e ir buscar seu filho na escola. Ele conhecia em detalhes a rotina diria do seu superior.

- Hoje cedo, pegou um avio junto com seu primeiro secretrio - respondeu Don Ton. - Ningum sabe para onde ele foi. Tera-feira  geralmente o dia em que ele vai
pescar, e  noite costuma freqentar boates vestido  paisana e bebe saque japons.

- Quer dizer que o pobre homem quebrou a rotina,  isso?

- , e isso  bastante incomum. Ele deixou uma ordem para que a gente permanea onde est.

- Descubra para onde o seu chefe foi.

- Est certo.

Quando liguei para o distrito Norte, Hai To, um capito do grupamento militar da fronteira, me relatou:

- O comandante foi levado s pressas para o hospital.

- Foi mesmo? Qual  o problema?

- Ningum sabe.

- A mulher dele est em casa?

- Est.

-  estranho ela no estar ao lado do marido. Descubra em que hospital ele est e ligue para mim.

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Alguma coisa estava acontecendo bem debaixo do meu nariz. Dois comandantes quebraram sua rotina diria de uma vida de corrupo e de luxo. Algo no cheirava bem.
Minhas suspeitas fizeram com que eu me apressasse a completar a quarta ligao para o sargento tcnico, o nerd do distrito Noroeste, dr.
- A segurana dos silos nucleares foi reforada - disse o ph.D. em fsica nuclear. - Mas o nosso comandante est aqui. Seu avio est parado na pista.

- Como voc sabe?

- Quando a areia do deserto vem parar nas nossas tigelas de arroz, todo mundo sabe que o comandante est indo para algum lugar.

- Ento, quer dizer que hoje no tem areia nas tigelas?

- Tem sim. Muita areia. Outros avies, semelhantes ao usado por nosso comandante, esto chegando.

- Quantos?

- Sete.

No precisei fazer o restante das ligaes. Agora eu sabia. Minhas suspeitas se confirmaram

 CAPTULO 33

1984

BEIJING

No VERO DE 1984, SUMI E EU NOS formamos com louvor. Fui considerado o Formando do Ano na cerimnia de formatura lotada. Qualquer cargo no funcionalismo pblico
estava  minha disposio - assessor jurdico no Supremo Tribunal, cargos na Promotoria de Justia, ou no Exrcito - mas optei por trabalhar para mim mesmo. Sumi,
no tendo recebido nenhuma oferta de emprego devido ao conhecimento e  desaprovao da universidade com relao a seus textos, decidiu dedicar-se a escrever, assim
como dirigir uma organizao de caridade chamada Fundao da rvore Venenosa, que ela havia criado para ajudar os pobres e os desamparados.

Minha primeira atitude como empresrio independente foi fazer de Beijing a sede da Drago & Cia. Eu previa que, em breve, estaria fazendo negcios com empresas internacionais
como a IBM, a Coca-Cola e a GE, e ento, fazia sentido instalar-me na capital. Outro fator a ser levado em considerao era que, historicamente, qualquer dinastia
que escolhia Beijing como sede durava invariavelmente mais do que as que no o faziam. Drago & Cia. era o embrio de uma dinastia, e optei sabiamente por no repetir
o erro daqueles que apenas liam a histria, mas nunca assimilavam as suas lies.
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Na poca de sua formatura, trs anos antes, Fei-Fei, meu editor-chefe da Mar Azul para o norte da China, havia instalado uma grfica na regio, em vez de depender
da que ficava no sul, em Fujian. Alm disso, j havia publicado cinqenta ttulos.

- Todos os livros so campees de vendas - dizia ele, orgulhoso. - No paguei adiantamentos para reduzir os riscos e compro apenas os ttulos que as pessoas querem
ler, mas que o governo no aprova.

- Voc precisa cortar esse seu cabelo comprido.

- Sr. Long - disse num tom formal. - Isso  parte do meu charme. Meu cabelo diz: eu sou Fei-Fei, o editor de esprito livre. O dia em que eu no tiver mais o cabelo
comprido, pode me demitir.

- Muito bem ento, o cabelo fica. Mas o seu esprito livre me incomoda um pouco.

- Voc se refere s minhas namoradas? Concordei com a cabea.

- No consigo evitar. E nenhuma delas  para casar.

- E tambm voc bebe demais.

- Voc quer que eu seja um monge? Isso faz parte da minha natureza. Os escritores se identificam comigo porque ajo como se tudo fosse aceitvel. Quando eles se sentem
assim, abrem o corao para mim. E alguns, at mais do que isso.

- Voc est falando das jovens escritoras.

- Antes eu do que voc, chefe. Cuide de controlar e engordar o seu lucro final, que eu cuido das outras coisas.

- Os tempos esto mudando. O governo logo vai comear a pegar no nosso p se a gente continuar publicando o que publicamos. No deixe que sua vida pessoal piore
a sua situao quando os problemas chegarem.  com isso que estou preocupado.

- Chefe, chefe, chefe! A Editora Mar Azul vai continuar sendo de primeira linha. Quando o vento soprar na direo contrria, vou saber agir de acordo. Lembre-se,
sobrevivi  Revoluo Cultural. Isso deve significar alguma coisa.

Lena informou que a operao na regio Sul estava crescendo como um salgueiro. A participao de cinqenta por cento da Drago & Cia. no Banco Litorneo j havia
triplicado o seu investimento. O valor total dos emprstimos do Banco Litorneo havia alcanado a marca dos cem

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milhes de iuanes. Vov Long insistia em uma percentagem para cada negcio que ele financiava. Minha boa participao de 25 por cento nas mais de cem empresas s
quais ele havia feito emprstimos poderia, por si s, tornar-se em um modesto imprio. Vov Long, um leal aluno da Casa N.M. Rothschild & Sons de Londres, tinha
agora o banco que ele sempre tinha sonhado em abrir.

Lena tambm escreveu dizendo que ela havia contratado os melhores formandos da Faculdade de Economia da Universidade de Xiamen para auxili-la. E ficou feliz em
informar que nossa participao de cinqenta por cento na empresa de papai havia tido um retorno fenomenal de mais de vinte milhes de iuanes.

A firma de papai, orgulhosamente intitulada Veteranos & Cia., havia formado uma parceria com uma indstria qumica de Taiwan para produzir tecidos e materiais de
construo para atender ao boom da construo civil no Sul do pas. Meu investimento de cinqenta por cento era o suficiente para votar a favor ou vetar qualquer
empreendimento, mas at aquela altura, papai no havia me dado nenhum motivo para exercer esse direito. Alis, ele merecia o prmio de administrador do ano por sua
enorme expanso empresarial e, mais importante, por sua contribuio a todos os veteranos que haviam sido dispensados do Exrcito.

Todos esses acontecimentos foram mais bem descritos na carta de mame.

Querido filho,

Sentimos sua falta, como sempre. Vov est mais ocupado ao que nunca brincando de financiador para os necessitados e os empreendedores. O pessoal daqui o chama de
"baco de Prata".

Seu pai tem agora mais de cinco mil funcionrios trabalhando para ele. J que todos os seus funcionrios so veteranos, eles o chamam muito merecidamente  de "general",
e ele gosta disso. Os negcios do seu pai e os do seu av esto prosperando tanto que decidimos convidar voc a participar deles. Ambos concordaram em lhe oferecer
uma participao minoritria de 25 por cento de suas respectivas quotas (como voc sabe, eles tm scios ocultos que detm cinqenta por cento da sociedade).  medida
que for progredindo, que  o esperado, voc se tornar um scio igualitrio. Achamos que esta oferta deve lhe dar mais do que o suficiente para constituir uma famlia.
300

O futuro da China est no Sul. O povo, a terra e o nosso acesso aos pases do Sudeste asitico me convencem de que voc ter sucesso aqui e no no Norte, onde ainda
reina a burocracia. Sabemos que tem grandes ambies e aspiraes ainda maiores. Meu conselho  que, se precisa comear a trabalhar em algum lugar, ento, por que
no aqui? Alm do mais, aqui  o seu lar. Que lugar melhor para comear do que junto da famlia?

Ficaremos muito contentes de t-lo de volta para participar desta sorte e fartura inesperadas queBuda trouxe para o nosso lar.

Espero que pense com carinho sobre nosso convite.

Com amor, mame, papai e vov

"J sou scio de vocs", disse a mim mesmo.

O que me incomodava eram as indiretas freqentes de mame sobre constituir famlia. Ela ignorava o fato de que eu estava com Sumi. Nunca mencionou o nome de Sumi
ou perguntou sobre ela, e menos ainda sobre seu filho, Tai Ping.

- Ah, essa moa rebelde que j tem um passado e um filho ilegtimo! - podia ouvi-la dizendo.

Eu no queria torturar mame antes da hora. Sumi e eu tnhamos combinado de nos casarmos dentro de dois anos. Meu plano era reaproximar as duas mulheres mais importantes
da minha vida lentamente, ao longo do tempo. Eu estava certo de que, dando-se tempo ao tempo e mostrando-se as verdadeiras razes do sentimento, elas acabariam gostando
uma da outra, se no por si mesmas, pelo menos por mim.

Nos FRENTICOS ANOS OITENTA, BEIJING ERA uma cidade efervescente, repleta de novos ricos, velhos especuladores, novos aventureiros e sonhadores que achavam que o
dinheiro cairia facilmente no cho da rvore do capitalismo. S se falava em dinheiro. O apelo sexual do capitalismo lubrificava as lnguas de todo mundo. J que
o comunismo ainda era o poder dominante, era necessrio comer pelas beiradas. Havia uma sensao de mistrio e de aventura, e a atrao extra de provar do fruto
proibido que era o dinheiro. Caadores de fortunas formavam seus prprios crculos sociais secretos, e seus clubes clandestinos redefiniam a estrutura da sociedade.

301

Misturei-me a esses novos empreendedores com gosto, e eles vinham at mim, pois eu tinha meu prprio poder - uma vultosa fortuna de origem desconhecida. Mais importante
ainda, eu tinha o raro pedigree sangue-azul, que fazia de mim um sujeito confivel porque eles eram, afinal de contas, em sua maioria, da mesma classe social. Meu
sobrenome, Long, ainda fazia ecoar o poder do passado assustador da China. A recente decadncia da minha famlia apenas me fazia parecer ainda mais herico. Eu era
o Conde de Monte Cristo deles - Q retornado. Falava com um toque do sotaque do Sul, o sotaque do homem de Hong-Kong. Se a ocasio exigisse, eu podia, sem esforo,
passar a falar ingls com o sotaque que um americano descreveria como uma mistura de um leve cockney e a prosdia do sotaque chins do Sul.

Foi meu ingls que me levou a conhecer um sujeito magro e alto chamado Howard Ginger, do New York Times, e um homem de rosto avermelhado e bigode, natural da Virgnia,
chamado Mike Blake, que eu considerava um companheiro de copo.

Howard dirigia seu escritrio de um funcionrio s, dentro dos altos muros do Friendship Hotel, levando a vida de um James Bond militante pela liberdade, de um estrangeiro
indesejado e perturbador da ordem. Em suma, era considerado inimigo do pas pelo mero fato de relatar a verdade. Ele era o diabo estrangeiro, perpetuamente seguido
pelos agentes secretos da China, que tentavam impedi-lo de entrar em contato com os habitantes locais em busca de notcias constrangedoras sobre os mecanismos internos
do governo.

Um dia, encontramo-nos no sofisticado bar do Hotel Beijing, um lugar para ver e ser visto.

- Fico cavando os podres do comunismo e por isso tenho mais proteo do que o presidente Reagan - disse ele, rindo de sua situao delicada e dando goles em seu
martni. - Um dia, eu estava no aeroporto de Xangai. O banheiro masculino estava cheio, ento decidi entrar no feminino. Voc devia ver as caras daqueles agentes
quando sa e os encontrei bloqueando uma longa fila de mulheres irritadas, que queriam mat-los. Esses caras esto em todos os lugares aonde vou. Voc no devia
ser visto comigo muitas vezes. - Tomou um gole do seu drinque.

- Tenho minha proteo, no se preocupe - disse eu, referindome aos meus FDCs (filhos dos chefes), amigos cujos pais tinham grande poder.
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- Algum dia desses, nem mesmo seus amigos FDCs vo poder salv-lo. - Howard era um homem em estado de eterna preocupao.

- O que quer dizer com isso?

- O presidente Heng Tu foi eleito Homem do Ano pela revista Time. Logo, ele vai se tornar seu prprio inimigo, porque o povo vai esperar mais e ele, relutantemente,
ter que dar mais. Mas h um limite para o que ele pode dar antes de se sentir ameaado. Acho que atingiu esse limite agora.

- O que devemos fazer? - perguntei.

- Pedir mais.

- Mas voc mesmo disse que isso apenas desencadearia um contratempo trgico.

- Se no pedir, nunca vai ter.

- Uma batalha sem fim.

-Tan - disse Howard dando um tapinha no meu ombro -, com todas as suas habilidades, voc poderia ser um timo paladino da liberdade.

- No quero nenhum envolvimento com poltica - retruquei.

-  o seu destino. Est no seu sangue. No h como escapar.

Dito isso, ele correu ao encontro de seus amigos jornalistas americanos.

As conversas com Howard sempre me faziam pensar mais a fundo e ver mais longe. E, invariavelmente, elas cutucavam aquela velha ferida enterrada profundamente na
raiz da minha masculinidade. Apesar de terem se passado anos desde o meu torturado e injusto aprisionamento, a raiva ainda ardia na minha alma. Eu temia que, um
dia, aquela chama se expandisse numa bola de fogo, uma tempestade que apagaria todo o dio que foi semeado e todas as lgrimas choradas. Mas, por enquanto, dizia
comigo mesmo, era ao comrcio que deveria dedicar a minha vida. Eu seria um Morgan chins, um Rockefeller asitico. E essa banalidade do comrcio no seria em vo.
Era a base de um arsenal moderno, um meio para atingir um ideal nobre. Acumularia todas as moedas - dlares, iuanes, ienes, marcos, pesos, liras e libras. Um dia,
todas elas seriam convertidas numa fora inevitvel para fazer ruir gente como Heng Tu e outros tiranos semelhantes ainda por vir. A democracia chegaria, conclu,
no atravs dos canos das armas, mas dos cofres silenciosos dos grandes bancos.

Depois de um ms de ausncia, Howard afinal apareceu no Friendship Hotel vestindo uma cala caqui e um chapu de feltro, fumando um cha-

ruto. Ele me deu uma cpia do Times daquele dia. Nele, havia um relatrio perturbador sobre uma grande comoo militar que estava vindo ao nosso encontro.

- Isso no foi publicado no jornal chins! - exclamei.

-  por isso que me pagam to bem.

Howard inclinou seu velho chapu com um sorriso malicioso.

- Mas mesmo meus FDCs no ouviram falar sobre isso.

- Porque alguns desses FDCs esto na prpria lista dos que vo ser postos para fora.

- Onde voc descobriu esse furo de reportagem?

- Dirigindo pelas estradas e seguindo um coronel muito misterioso chamado Shento.

- Shento? - No era esse o nome do primeiro amor de Sumi? Eu franzi a testa, afastando rapidamente o pensamento indesejado.

- Ele ser o assunto do meu prximo artigo. Fique de olho. Agora me pague um drinque.

Fiz um sinal ao barman, pedindo um martni duplo.

Encontrei com meu outro amigo americano, Mike Blake, no bar do Friendship Hotel, naquela mesma tarde. Mike geralmente ficava no banco alto prximo  entrada, em
cima do qual o homem da Virginia, para meu grande divertimento, parecia passar todas as horas em que estava acordado.

- O que um investidor ocupado como voc faz num bar o dia inteiro?

- perguntei a Mike, ao cumpriment-lo.

- Poupando o aluguel exorbitante de um escritrio - respondeu Blake, misturando seu drinque com gelo. - Alm do mais, quem quer ficar sentado num escritrio? Resolvo
mais coisas com um drinque do que com cem telefonemas. - Ele acenou  garonete, pedindo outra bebida forte.

- O que tem feito ultimamente? - perguntou ele.

- Como homem de negcios que voc tambm , se precisa me fazer esta pergunta,  porque j est atrasado.

- Ande, ande logo! - insistiu Mike. - Conte-me tudo.

- Tenho recebido muitas propostas de negcios, mas nada me atraiu. Preciso de algo grande. Algo que se equipare ao legado do meu pai e dos meus avs. Algo que seja
resistente e que dure. Algo que faa meu corao vibrar."
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- Tenho o negcio ideal para voc - disse Mike, pegando no meu ombro. - Uma idia de fazer palpitar o corao. Roupa feminina.

- Conte-me. - Por mais que no compartilhasse dos gostos de Mike na vida, suas idias para negcios eram sempre modernas, quando no absolutamente revolucionrias.
Havia um jeito americano e espertamente cheio de recursos que eu considerava irresistvel em Blake.

Ele se inclinou para frente, como se fosse contar um segredo.

- Desde que cheguei aqui, tenho notado que todas essas chinesas - baixinhas, altas, sulistas, nortistas - so lindas, mas todas carecem de uma coisa, um elemento
crucial que as faria inigualveis.

- E o que ?

- Dez entre dez mulheres chinesas com quem eu estive usam calcinhas largas de cores sem graa e sutis malfeitos e speros, com armaes antiquadas e enferrujadas.

- Shhh. No fale alto assim - disse eu, envergonhado, olhando discretamente ao redor do longo balco de carvalho, repleto de fregueses locais e estrangeiros.

- Veja, por exemplo, aquela moa bonita no final do balco. - Blake apontou com o queixo para uma moa esbelta, sentada entre um homem de negcios japons e um homem
de bigode louro de quem eu me lembrava vagamente como o diretor de um grande banco alemo. - Sua bunda seria muito mais atraente se ela estivesse vestindo a lingerie
sedosa e sem costuras que ns fabricamos no Ocidente. O pior momento vem na hora H, quando a mulher se revela ao seu amante. Se tem uma
coisa que acaba com o clima, so esses cueces comunistas. Eles funcionam como um maldito cinto de castidade para afugentar os homens.

- Isso no serviu para afugentar voc, no  mesmo?

- No, mas sou um genuno Don Juan, com um corao verdadeiramente romntico e olhos que enxergam atravs da Grande Muralha da lingerie chinesa e percebem a beleza
interior.

Apenas balancei a cabea.

- Qualquer homem aqui pode confirmar isso. Ento, eis a minha idia. Decidi ser o imperador da roupa ntima para todas as mulheres dessa terra. Imagine meio bilho
de mulheres vestindo lingerie sexy! - Seus olhos faiscavam. - Pense em todas elas implorando por aquele toque acetinado. Pense em todos os homens. Sou um enviado
de Deus!

- E uma maldio para todos os maridos - completei. - Como  que eles vo ter dinheiro para isso?

para Um visionrio, voc  excepcionalmente mope. Todos conhecemos Hangzhou, a linda cidade no Sul, a terra da seda e do cetim. Eles podem fabricar essas peas,
rapidamente e por um bom preo. Tudo que precisamos fazer  arrumar as modelagens mais sexy possveis. Poderamos conseguir as licenas dos maiores estilistas do
mundo.

- Voc quer dizer pagar para usar seus nomes e modelos, mas produzindo as peas localmente?

- Isso economizaria no apenas os custos de mo-de-obra e materiais, mas traria o glamoure a moda diretamente aos nossos consumidores. O que me diz? Ser que Drago
& Cia. e Virgnia Incorporated poderiam se dar as mos nesse empreendimento? Voc cuida da fabricao, e eu das licenas, dos modelos e do marketing.

- No  bem isso que estou procurando.

- Mas  alguma coisa, no ? - disse Mike. Levantei os ombros e falei:

- No ouvi voc mencionar a palavra que comea com "C".

- Ah, o capital. Como  que pude esquecer? - Mike deu um gole na sua bebida. - Isso, voc, meu drago predileto, ter que levantar, antes que essa idia possa dar
frutos.

-  um negcio arriscado, sem contar que  absolutamente anticonfucionista, contrrio aos princpios da decncia e s virtudes da modstia.

- Virtudes, princpios... que bobagem  esta? Ser que Confcio no acredita em conforto, elegncia e beleza? Qual  a essncia de Confcio, no fim das contas?

- Harmonia.

- Isso mesmo. Harmonia dentro do corao de uma mulher, dentro de um quarto de dormir, que vai gerar harmonia dentro do Estado. Ah, meu jovem sr. Long, voc ser
glorificado por este esforo revolucionrio. Seus imperadores antigos vo sorrir dentro das tumbas pelo seu movimento em prol da beleza.

- Deixe-me pensar no caso.

- No demore muito. O dinheiro no espera por ningum. Esta  a nica coisa em que se deve pensar agora na China. Os polticos vm e vo - Mo Ts-tung, Liu Shao-ch'i
e Heng Tu. Todos vo desaparecer,
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e sero ainda mais odiados depois da morte. Mas as fortunas permanecem. Quando for a Nova York, tem que visitar o Rockefeller Center, no corao de Manhattan. 
o meu lugar favorito, o smbolo do capitalismo e de um legado que vai durar para sempre. No se perca pelo caminho da poltica.  suicdio.

No DIA SEGUINTE, MIKE ENCONTROU-SE comigo no meu escritrio, que ficava em um prdio de trs andares com paredes de pedra  sombra do monumental Hotel Beijing.

- J viu algo to lindo assim antes? - Mike espalhou fotos de peas variadas de lingerie de seda, vestidas por modelos louras de olhos azuis, por cima da comprida
mesa de laa. Olhei-as rapidamente antes de me virar para olhar para a praa Tiananmen.

- Pensou sobre a minha idia de ontem  noite? - perguntou Mike.

- Pensei.

- E ento?

- Mal pude parar de pensar nisso - respondi, ainda fitando a praa. - Consegui dormir apenas trs horas...  um projeto to raro e to genial!

- Eu lhe disse...

- Vai ser grande e alto, estendendo-se a leste daqui.

- Ainda estamos falando de lingerie? - perguntou Mike, meio perplexo.

- No, estou falando da sua outra idia.

- Que outra idia? t

- O Rockefeller Center. Estou pensando em construir um, eu mesmo.

- Um Rockefeller Center em Beijing? - Mike cocou a cabea.

- O Dragon Center, um monumento a todos os grandes ideais. - Semicerrei os olhos, vendo o futuro erguer-se diante deles. Rodei em minha cadeira giratria e fitei
Mike com intensidade. - Diga-me que isso pode ser feito, meu amigo americano. Vamos construir este Dragon Center juntos. Deixe essa idia de lingerie de lado e venha
trabalhar comigo. Preciso de voc. Afinal, foi voc quem plantou essa semente em mim. Voc tem a loucura que admiro, a viso intrpida de um americano. Por favor,
meu amigo!

- Isso no ser problema, mas voc sabe que estou duro.

- No diga mais nada. Essa quantia pode convenc-lo a se juntar a mim? - Empurrei um pedao de papel diante dos olhos dele.

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- Esta quantia me far sentir muito bem, de fato - disse Mike, sorrindo. - Onde pretende constru-lo?

Ontem  noite, depois da nossa conversa, foi como se um relmpago

tivesse me atingido. Fui  Livraria Si Dang e encontrei este livro. - Mostrei a ele um grosso livro de fotografias intitulado Nova York arquitetnica e o abri exatamente
nas pginas do Rockefeller Center. -  uma inspirao olhar para o prdio principal, o rinque de patinao e os prdios menores cercando-os, formando um grupo de
gigantes arquitetnicos que protegem o centro de Manhattan. Que majestoso! E escolhi este local aqui.

Botei o livro de fotografias de lado, desenrolei um mapa de Beijing e fiz um crculo em torno de duas quadras da cidade, bordejando a praa Tiananmen no lado leste,
onde havia propriedades decadentes, que antigamente eram manses espaosas feitas de tijolos pertencentes aos prncipes da Manchria, agora divididas e ocupadas
por cortios.

- Quero comprar toda essa rea - disse eu.

- Isso so quarenta mil metros quadrados de propriedade de primeira, bem no centro da capital! O que pretende fazer com isso?

- Primeiramente, haver a sede do Dragon Center. Pegaremos todo o andar superior do prdio mais alto de todos. Darei ao meu amigo Howard Ginger um bom espao logo
abaixo de mim. Deste modo, terei os olhos e ouvidos no New York Times, a distncia de apenas un lance de elevador. Ento, temos as companhias americanas de primeira
linha, que disputaro um endereo maravilhoso como esse - GE, GM, Coca-Cola, Ford, Exxon e IBM, sem contar muitas outras.

- Voc est louco.

- E tem mais. Vou construir um belssimo hotel, talvez alguns hotis, bem dentro do centro. Teremos shoppingcenters com lojas sofisticadas para a sua lingerie, e
talvez salas de cinema com os mais recentes lanamentos de Hollywood. Tambm quero separar um espao bem grande para as crianas correrem - reas de recreao, jardins,
lagos artificiais com passeios de barco. Durante a poca de festas, vou contratar grandes cantores de pera para apresentar aquelas canes de Natal.

- Ns as chamamos de cnticos.

- Cnticos natalinos. E adoro aqueles palhaos grandalhes com narizes vermelhos e sapatos enormes. Eu os vi uma vez numa revista estrangeira. Vamos ter isso tambm.
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- E no se esquea de fazer muitos banheiros pblicos para os visitantes tambm - disse Mike secamente. - Beijing sofre de uma sria carncia de banheiros pblicos.

- Isso tambm. Ainda no terminei. *:

- No me diga!

- Grandes e suculentas churrascarias com caubis e cowgirls chineses servindo as pessoas com laos enroscados, como num rodeio. Diverso boa e saudvel. Pubs e bares.
Cerveja alem, usque escocs, vinho da Califrnia. Posso ver o centro subindo, cada vez mais alto, alcanando o cu como o drago que lhe d o nome.

- Isso tudo soa muito majestoso, mas onde est a grana? - perguntou ele.

-  claro! Eu tenho a grana.

- Quero dizer muita grana.

- Eu tenho muita grana. >

- Nem tanta assim - disse Mike. - Voc precisa de emprstimos.

- A viso gera visionrios. Este  o melhor dos tempos e o pior dos tempos. Tudo  possvel.

- Esquea Dickens. -*?- Mike esfregou o polegar e o indicador. - Dinheiro.

- Deixe os emprstimos por minha conta.

Eu tinha uma averso confessa pela maioria dos FDCs. Abominava suas atitudes banais diante da vida e suas vises estreitas do mundo. Andava cautelosamente em torno
deles, tratando-os como o que realmente eram: os males necessrios da nossa era, os olhos e ouvidos dentro do santurio do nosso regime sigiloso. Mas nem todos os
FDCs eram grosseiros. Era preciso ter um olhar mais cuidadoso. Havia de fato algumas pedras preciosas a serem descobertas, ainda que decididamente poucas. David
Li era um deles, o gerente-geral da filial do Banco da China em Beijing.

Li, um homem corpulento de rosto quadrado, era filho do ministro da Segurana Pblica. Como era de hbito e estava na moda, ele havia assumido um nome ingls, David,
depois de se formar em economia em Princeton e em direito na Universidade de Beijing. Seu cargo atual era o resultado de um sistema de troca de favores existente,
no to secretamente, entre a velha gerao de revolucionrios, exigindo que seus herdeiros fossem colocados em cargos-chave para que quando esses filhos herdassem
as posies de

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poder, parecesse que a ascenso era merecida. David conseguiu seu cargo atual porque seu pai havia arrumado uma posio para o filho do ministro da Fazenda. O nepotismo
comunista era bem abrangente.

Depois de terminar a conversa com Mike Blake, peguei o telefone e disquei o nmero de Li.

- Bom dia, David - disse eu.

-  uma honra receber um telefonema seu, sr. Long - respondeu David.

- Voc se lembra de ter mencionado h algum tempo que gostaria de fazer negcios comigo?

- Sim, e alis eu ia ligar para o senhor para conversarmos sobre o financiamento de sua empresa de roupa ntima feminina, que Mike Blake mencionou de passagem.

- Estou impressionado. Voc est mais uma vez  frente dos acontecimentos.

- Nasci para ser banqueiro e vou morrer banqueiro.

- No  um mau caminho a se trilhar. Falando sobre vida e morte,  inevitvel pensar na imortalidade. Tenho uma oportunidade para que os nossos nomes entrem para
a histria de modo monumental.

- Sou todo ouvidos, como sempre.

- Voc j ouviu falar no Rockefeller Center?

- Sim, meus colegas da filial de Nova York falam dele com orgulho. Eu patinei no gelo l, uma vez.

- Ento suponho que saiba quem foram os Rockefeller.

- Certamente que sim! Eles foram os reis do petrleo do planeta.

- Mas voc j teria ouvido falar neles, se no fosse pela existncia daquele centro que atrai milhes de turistas todo ano?

- No, no teria - confessou ele prontamente.

- E o Rockefeller Center no  apenas uma homenagem ao nome da

famlia.

- Prossiga, por favor, sr. Long.

- O centro cobra os aluguis mais altos do mundo por metro quadrado - disse eu, citando uma frase de Nova York arquitetnica. - E eles sero os donos para sempre.
Todos os futuros Rockefellers vivero da renda dos aluguis, que s aumentar a cada ano.

- Ento quer construir um Rockefeller Center aqui? -   .
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-  isso mesmo, mas quero que seja ainda melhor. Vai se chamar...

- Deixe-me adivinhar... Dragon Center.

- Sr. Li, ns pensamos do mesmo modo.

Contei a David meu plano em detalhes. O outro lado do telefone permanecia em silncio, exceto por eventuais exclamaes entusiasmadas.

- Tudo o que lhe disse deve permanecer entre ns - solicitei.

- Como banqueiro, tenho meus princpios e minha tica. Estou preparado para levar muitos dos segredos dos meus clientes para o tmulo, sr. Long.

- Hah! Voc vai precisar de um tmulo bem grande.

- Se no for pelos segredos que me foram confiados, pelo menos pelos sonhos que habitam a minha alma.

- Os homens s podem ser medidos pelo tamanho dos seus sonhos.

- Isso  verdade, sr. Long. Desejo, com cada clula do meu corpo, ser o financiador do seu Dragon Center. Mas, com uma condio. Quero ter uma pequena placa de bronze
afixada na entrada do local, citando o Banco da China como o financiador, e eu, pessoalmente, como o gestor da transao.

- Concedido. Voc ter uma grande placa com seu nome em ouro, e um busto de bronze na entrada.

O outro lado da linha ficou em silncio.

- O que foi, David?

- Estou comovido com sua generosidade.

Naquela noite, retornei ao nosso novo lar, uma espaosa casa num condomnio na zona sul de Beijing. Encontrei Tai Ping j adormecido depois de um longo dia na escola
e Sumi escrevendo em sua mesa, esperando que eu voltasse, para que pudssemos jantar juntos. Ela havia preparado quatro pratos, todos de frutos do mar: camares
fritos, carpa no vapor, lula salteada, e escargotsdo mar cozidos. O mar era sua especialidade, e ela fazia maravilhas com toques generosos de molho de soja e fatias
simples de gengibre fresco.

- Sinto-me como um recm-casado - disse eu, sentando-me  nossa mesa de jantar no estilo da dinastia Ch'ing.

- Eu tambm - comentou ela, servindo-me uma tigela de arroz fumegante. - Voc deveria ter vindo para casa mais cedo.

- Eu estava ocupado. Muito ocupado. Lembra-se de quando sa apressado para ir  livraria na noite passada?

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- Lembro.

Ela encheu meu prato de comida. Entre bocados famintos e o manejar agitado dos pauzinhos, contei a ela sobre os meus planos para o Dragon Center.

- E o que vai acontecer com as pessoas que moram l agora e com as firmas que ocupam aqueles prdios antigos?

No me surpreendi. A pergunta fazia parte do seu esprito humanitrio.

- Vou construir os mais lindos conjuntos habitacionais para eles, Sumi, logo depois dos subrbios de Beijing - respondi. - nibus diretos vo lev-los e traze-los
para a cidade, para que no tenham mais que vir pedalando em suas bicicletas.

- Mas eles no tm como pagar pelas casas.

- Voc j ouviu falar em escambo?

- Uma ma por uma laranja?

- Exato. Eles tero novas casas, novas escolas, e novos shoppings, e eu poderei adquirir suas velhas casas na cidade. Eles vo fazer trocas comigo. Vou at oferecer
empregos a eles no Dragon Center, depois que estiver funcionando. Eles sero a minha prioridade.

- Ento voc realmente est pensando nas pessoas.

- O dinheiro no  tudo. Mas ainda vou ganhar bastante dinheiro criando essas cidades-satlites. Logo serei dono de metade da cidade.

Sumi suspirou.

- Qual  o problema? - perguntei.

- Receio que voc esteja caindo no buraco capitalista, onde s se pensa em dinheiro e no h nenhuma conscincia.

-Mas voc no ouviu o resto. Para as empresas cujos prdios sero demolidos, vou oferecer espaos dentro do centro. Se elas no puderem pagar, vou ajudar a recoloc-las
nos subrbios, onde ser o futuro. Haver uma imensa livraria ao nvel da rua, e seus livros sero exibidos na vitrine da loja.

- Isso  timo. Mas no precisa me paparicar. Apenas, por favor, no traia o povo.

- Nunca. - Tomei sua mo. - Escute, amanh tentarei chegar em casa mais cedo antes que Tai Ping adormea.

Sumi abriu um sorriso pequeno, mas contente.

HOWARD GlNGER CAIU NA GARGALHADA quando mencionei a idia do Dragon Center no dia seguinte, tomando um drinque no bar do Friendship Hotel.
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- Voc enlouqueceu.

- Por qu? - perguntei.

- Dinheiro. Isso vai custar bilhes.

- Ns vamos arrum-lo. J tenho um grande banco na ala de mira.

-  bom mesmo. Voc vai precisar de muito dinheiro.

- O que preciso, meu amigo,  de uma reportagem especial sobre o projeto.

- Voc est me pedindo que faa concesses na minha integridade jornalstica para que voc consiga publicidade internacional gratuita? - perguntou Howard, brincando.

-  isso mesmo, e voc no vai se arrepender.

- E o que eu ganho com isso?

- Um espao comercial. Voc vai poder escolher. Afinal, voc representa uma das melhores agncias de notcias do mundo.

- E vamos ter que pagar aluguel?

- Estou chocado com a falta de cerimnia da sua ganncia jornalstica. Este  um projeto colossal para indicar a chegada do capitalismo da China. Isso j no  um
furo de reportagem suficiente para voc?

- Claro que . E prometo uma reportagem de primeira pgina, na parte superior, acima da dobra, quando chegar a hora. Ser uma honra, sr. Rockefeller. - Ele afrouxou
a gravata e remexeu seu drinque. - Tive um longo dia hoje, tentando arrancar mais notcias sobre os cortes militares da boca daquele ministro da Propaganda, que
 uma mmia.

- E como foi?

- Quase mandaram me prender - disse ele, calmamente.

- E por qual motivo?

- Por escrever aquele relatrio sobre a reorganizao militar ainda no-divulgada. Disseram que eu havia infringido aquele absurdo cdigo penal por divulgar segredos
militares, e ao mesmo tempo negavam tudo que eu havia escrito.

- Eu detestaria perder um amigo como voc.  melhor tomar cuidado.

- Voc tambm - disse Howard. - Lembre-se, quanto maior o sonho, maiores os perigos.

PARA SUMI, ESCREVER ERA UMA ROSA com espinhos. Seus fs, que a adoravam - as ptalas -, a inundavam com milhares de cartas de admirao

e perguntas sobre seu prximo livro. Os crticos cruis do governo - os espinhos - chamavam-na de "Prostituta Adolescente", dizendo que sua vida era uma trajetria
de pecados, e seu livro era uma mixrdia de pouco peso literrio e ainda menos valor moral.

O governo me odeia, mas o povo me ama - lamentou ela, num dia

melanclico de outono, jogando fora a resenha literria do ms escrita por um crtico comunista muito duro. - Sou a carne perfeita para o sanduche.

- Eu me pergunto qual dos dois sentimentos voc valoriza mais, o amor ou o dio.

- Ambos so o maior elogio literrio para qualquer escritor desta terra.

- E tambm os fatores mais poderosos que impulsionam seu livro acima do recorde dos cinco milhes.

Eu tinha acabado de receber de Lena esses nmeros.

-  mesmo? - Sumi no conseguia deixar de se empolgar com a enormidade daquele nmero. Para ela, um milho era a soma de todas as estrelas do cu. Imagine cinco
milhes...

- Voc sabe que no escrevo pelo dinheiro - disse ela, com firmeza.

- Voc certamente no escreve por dinheiro, mas o dinheiro vem porque voc escreve.

- Dinheiro e dinheiro. Voc , como sempre, um homem de negcios.

- Preciso ser, pois milhes dos seus leitores esto aguardando pelos seus livros. Sem minha participao, eles nunca teriam lido suas palavras. E, por falar em dinheiro,
acabei de receber uma fatura no paga de uma distribuidora de alimentos, declarando que voc se esqueceu de pagar por um carregamento de comida que encomendou. Eles
tomaram a liberdade de envi-la ao seu editor.

Pesquei uma folha dobrada de dentro da minha maleta.

- Ah ? Deixe-me ver. - Sumi olhou rapidamente a fatura e enfiou-a no bolso. - Isso  coisa minha.

- As suas coisas so minhas coisas tambm. Voc pode me dizer o que  que est acontecendo?

- Estou sem dinheiro - disse ela, com tristeza.

- Sem dinheiro? Mas e o pagamento de todos aqueles direitos autorais?
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- Eu tenho gasto todo o dinheiro ajudando um orfanato perto de Tianjin. O inverno est chegando e aquelas crianas tm pouca roupa para vestir. Quando mando dinheiro
para roupas, acaba a comida... Tem sempre alguma coisa faltando.

- O que aconteceu com o auxlio do governo?

- No tem auxlio nenhum. A cidade de Tianjin h muito tempo quer se livrar do orfanato. Se fizerem isso, para onde  que vo as crianas?

Ficamos os dois em silncio, lembrando-nos do tratamento brutal que ela tinha recebido na casa de Fu Chen.

- Ento voc tem mandado seus cheques dos direitos autorais para eles? - perguntei calmamente.

Sumi balanou a cabea, demonstrando um sentimento de culpa.

- Quantas crianas h no orfanato?

- Exatamente trezentas, depois de terem morrido trs de pneumonia.

- Mas, querida, voc devia ter me contado isso. Eu teria ajudado. O que mais voc tem escondido de mim?

Olhei bem dentro de seus olhos lmpidos. Ela abaixou seus longos clios.

- Isso aqui.

Sumi caminhou at a sua escrivaninha e tirou uma grossa pilha de papel de dentro de uma gaveta.

- Minha querida Sumi! - folheei as pginas. - Seu prximo livro?

-  sobre o orfanato de Tianjin. Tem crueldade, romance e, desta vez, tem tambm corrupo do governo, e das grandes - disse ela, com orgulho.

- Eu gosto desse tema. Alis, adoro. Isso vende. Proponho comprar os direitos para o mundo todo.

- Eu inclu nomes de altos funcionrios do governo - disse ela seriamente.

- Voc cita nomes? Sentei-me no sof.

- Voc est tirando o corpo fora?

- No, mas para quem voc est apontando o dedo, exatamente?

- So muitos nomes e  uma lista muito longa-disse ela, sentando-se ao meu lado. - Tenho provas de seus atos ilegais e, se tiver sorte, metade - ou mais - do governo
de Tianjin vai para a cadeia. Est com medo?

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- No. S quero estar preparado. Beijei seu rosto de pele macia.

- Para mostrar minha admirao pelo seu ato herico, propcttho aumentar seu adiantamento.

- Aceito sua oferta, se meu texto for publicado como est escrito. Ela roou seus lbios nos meus.

- Uma escritora de best-sellers muito voluntariosa. Ningum  bom o suficiente para revisar o seu texto?

- No, no  isso.

Ela segurou meu rosto com as mos e disse sinceramente:

- Eu s me importo com a autenticidade da voz das crianas. Elas no tm estudo. Elas falam de um certo jeito, com certos sotaques e uma sintaxe que  s delas,
coisas que um revisor instrudo consideraria impublicveis. Mas insisto em que a linguagem seja publicada como  falada. As palavras grosseiras e as frases mal construdas
vo dar o tom da verdade.

- Est feito, se voc aceitar a minha condio.

- Que ...?

- Caso seja necessrio, voc deve aceitar a proteo que eu oferecer - disse eu num tom circunspecto.

- Vocs, homens, s pensam em coisas frias e srias, no  mesmo? Sumi acariciou meus cabelos com ternura.

-  verdade. Mas isso no quer dizer que a gente tenha corao de pedra.

Beijei seu pescoo, sentindo seu cheiro.

- Venha para a cama, meu amor - disse ela suavemente. - Tai Ping saiu com Nai-Ma para fazer compras.

Ela riu com alegria quando a levantei no ar num gesto teatral e a carreguei para dentro do nosso quarto.

A CONCLUSO DE SEU SEGUNDO LIVRO DEMOROU mais do que Sumi tinha previsto. Ela viajou muitas vezes ao orfanato para fazer pesquisas e conversar com as crianas. Tai
Ping e eu ficamos bem. Nai-Ma, que morava conosco, cuidava do menino, e eu estava ocupado com os detalhes do Dragon Center. Mas, quando a dona da casa no est presente,
parece que falta alguma coisa. Ns, os dois homens da casa, fizemos o melhor que pudemos para preencher os vazios. Divertimo-nos juntos - passeando no parque que
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ficava prximo, jogando futebol no playground, lendo uni para o outro nossos livros infantis prediletos, e cantando as canes de ninar que nos induziam aos nossos
sonhos - enquanto espervamos pela volta de Sumi, que traria exuberncia  nossa casa novamente.

Certo dia, no orfanato, Sumi recebeu a visita do sr. Ta-Ti, um homem de culos, presidente da Associao de Escritores de Tianjin. Ela ficou surpresa quando o velho
lhe disse que ela precisava ser membro da associao para poder escrever l ou para escrever sobre Tianjin.

- Mas sou escritora, e sou livre para escrever sobre qualquer coisa e em qualquer lugar.

- Isso no est de acordo com as nossas normas. Sabemos quem voc . Seu estilo literrio e o tipo de texto que voc escreve no a qualificam como escritora. Alm
do mais, voc s escreveu um livro, enquanto a maioria de ns j tem uma obra considervel.

- Mas as pessoas gostam do meu trabalho.

Sumi no disse que as pessoas detestavam os romances que os autores da associao escreviam por encomenda.

-  claro que as pessoas desejam ler sobre essas perverses. Na pgina
100, voc descreveu nitidamente o seu prprio corpo de um modo asqueroso, que apela apenas aos desejos lascivos dos homens.

- Isso quer dizer que o senhor leu, ento. Muito obrigada.

- Sim, e detestei cada palavra do livro. No a consideramos bem-vinda em Tianjin com seu estilo vulgar. E muito menos queremos que voc escreva sobre a nossa bela
cidade. Se no sair de Tianjin dentro de um ms, a polcia vai prend-la.

O homem cuspiu um escarro amarelo no cho e saiu intempestivamente.

Naquela noite, ligou para mim e chorou, relatando-me o ocorrido. Implorei que voltasse, mas ela disse que os insultos e as ameaas s fortaleceram sua convico
de ficar e revisar o livro at chegar  forma final.

EM TRS MESES, A DRAGO & CIA. J HAVIA secretamente adquirido dois teros do terreno necessrio para o projeto dos meus sonhos. A aquisio foi inicialmente vista
com desconfiana por muitos proprietrios das velhas casas de tijolos cinza, conhecidas como si heyuan, com quatro quartos e um quintal na frente. Mas elas foram
vendidas tendo em vista a vida paradisaca

317

que eu estava construindo para eles no subrbio - apartamentos com gua corrente, banheiros particulares que no fediam, foges que se acendiam com o riscar de um
fsforo, e jardins floridos para se apreciar, ao acordar, em todas as manhs ensolaradas.

Para o conjunto habitacional, escolhi um vilarejo pitoresco aninhado nas montanhas escarpadas do Oeste. Os terrenos l eram baratos. Os habitantes da aldeia puseram
seus bacos mentais para funcionar e calcularam os ganhos e os gastos. O milho era bom e o arroz era precioso, mas nada era melhor do que o dinheiro vivo escondido
debaixo de um travesseiro quente. Era a localizao perfeita para minha futura vila, uma das muitas que estavam por vir. Um shopping aqui e um cinema ali, uma escola
at o ensino mdio completo e, quando muitas vilas-satlites estivessem construdas e orbitando dentro do meu universo imaginado, talvez uma universidade, com todos
os diplomas acadmicos necessrios e desnecessrios.

- Tan, tudo parece um pouco estranho e arrumado demais - disse Sumi ao telefone alguns dias antes do Ano Novo. Ela estava ilhada em seu pequeno quarto de hotel em
Tianjin, a centenas de quilmetros de distncia.

- A pobreza, os crimes e o dio sempre vo existir.

- Meu amor, voc j est h bastante tempo lidando com esses rfos. Quero voc de volta aqui para a vspera do Ano Novo.

- No posso. Quero organizar uma festa de Ano Novo para as crianas

- disse ela, num lamento. - S mais alguns dias e serei sua para sempre.

"Sua para sempre. Por que no agora?", pensei comigo mesmo.

 CAPTULO 34

1985

FUJIAN

AQUELE TINHA SIDO UM BOM ANO para o pai de Tan. Muito bom mesmo, pensou Ding Long, revendo seu balano anual. Os livros estavam abertos e em ordem sobre a mesa de
mogno de sua casa, que ficava de frente para o mar Amoy. Os lucros tinham aumentado e o nmero de funcionrios, duplicado. Ding Long acendeu um charuto, o nico
do dia, por determinao de sua esposa, e inalou fundo. Estava prestes a pegar sua taa de vinho, que estava pela metade, quando ouviu um barulho vindo do aposento
ao lado. Sem fazer rudo, Ding Long sacou seu velho revlver da gaveta de cima, caminhou silenciosamente at a porta, e abriu-a lentamente. Um homem estava sentado
numa poltrona, e sua silhueta estava contornada pela luz do luar que entrava pela janela.

- Por que a escurido? - perguntou Ding Long.

Quero evitar olhos indesejveis - disse o homem, levantando-se. A

luz do luar denunciou sua estatura alta e seus ombros largos.

- Qual  o assunto? - perguntou Ding Long.

No pretendo lhe fazer nenhum mal, general. Por favor, feche a

porta. '   o1 '

O intruso permaneceu imvel.
320

Ding Long entrou cautelosamente no quarto, com o revlver ainda apontado para o estranho.

- Fui enviado pelo seu velho amigo, general Fu-Ren, comandante de Fujian. Ele solicita sua presena nesta reunio.

O homem entregou-lhe um pedao de papel.

- O senhor tem que comparecer. Trata-se de um assunto de grande importncia. Por favor, leia as informaes detalhadas.

O homem saiu pela janela.

Ding Long acendeu uma luz. "Campo de Pouso Lan Xin s nove da noite", dizia o bilhete. "Destino: Lanzhou. Queime este papel depois de l-lo."

O bilhete provocou calafrios em Ding Long. Alguma coisa estava acontecendo na rea militar. Sabia que havia descontentamento com o presidente entre os comandantes.
Mas por que este pedido? O que isto tinha a ver com ele?

LAN XIN ERA UMA PISTA DE POUSO camuflada, escondida dentro de uma cadeia de montanhas e construda durante os piores anos da Revoluo Cultural, para se opor a quaisquer
ataques dos Nacionalistas da Repblica de Taiwan, que ficava a apenas um curto vo de distncia. O lugar cheirava  Guerra Fria. Ding Long bateu continncia para
o piloto, que fez o mesmo, como bom soldado.

- Bem-vindo de volta  corporao, comandante - disse o velho piloto.

- J nos vimos antes?

- Dezembro de 1969. Cidade de Ho Chi Minh.

- Voc deve ser o rapaz que me trouxe de volta pelo territrio inimigo quando eu estava ferido.

- Sim, sou eu, e tenho orgulho disso.

 - Ento isto quer dizer que estou em boas mos.  - O tempo de vo ser de duas horas.

- Veja se pode reduzir isso  metade.

O piloto o fez. Quando chegaram, dois guardas escoltaram Ding Long ao subsolo, para dentro de um silo nuclear profundamente enterrado no solo. Numa sala de conferncias
toda branca, estavam sentados os oito comandantes militares em torno de uma mesa redonda.

321

- A que devo esta honra, generais? - indagou Ding Long, cumprimentando os homens e batendo continncia. Eles responderam com entusiasmo.

Os oito homens estavam vestidos com o uniforme completo e tinham expresses solenes no rosto. Ding Long lembrava-se deles mais jovens e mais esbeltos.

- O nosso Exrcito chegou a um estado calamitoso, velho comandante. Precisamos do seu sbio conselho - disse Fu-Ren.

- Agora sou comerciante, e no algum com quem vocs deveriam buscar aconselhamento militar. A no ser que haja algo que desejem me vender, estou indo embora.

Seu olhar correu rapidamente pelos rostos dos comandantes.

- Por favor, fique e nos oua. Queremos reintegr-lo como nosso comandante - disse o comandante de Lanzhou.

Houve um silncio constrangedor.

- Vocs esto todos loucos? - disse Ding Long, com um ar severo. - Esto falando de um golpe de Estado!

- O senhor foi prejudicado por Heng Tu.

-  melhor pararem com isso - exclamou Ding Long. - Estou indo embora. Se Heng Tu ficar sabendo disso, mandar nos enforcar.

-  por isso que precisamos acabar com ele antes que nos derrube, como fez com o senhor - disse Fu-Ren.

O rosto de Ding Long se contraiu. Mas ele respirou fundo, acalmou-se, e se dirigiu para a porta. Apertou o boto. A porta no se abriu.

- Deixem-me sair.

- Ou o senhor sai daqui como nosso amigo ou morre como nosso inimigo - disse Fu-Ren.

- Isso  uma armadilha - retrucou Ding Long.

- No, estamos aqui para nos vingarmos do seu inimigo - disse FuRen. - O que Heng Tu fez a seu filho  imperdovel.

- Meu filho cometeu um crime. Eu tive que renunciar.

- Tenho evidncias que provam o contrrio. Tragam o homem aqui agora.

Um rapaz de rosto macilento entrou na sala. Ele parecia doente e pouco  vontade, transferindo o peso do corpo de um p para o outro. Usava sandlias. A luz o fazia
ficar ainda mais plido. , , ,
322

- Este  o sr. Lo, fotgrafo oficial da polcia de Beijing.

O homem fez uma reverncia e, cuidadosamente, colocou uma foto nas mos de Ding Long.

- J vi esta foto - disse Ding Long, furioso, jogando-a longe como se fosse veneno. Ele nunca esqueceria aquela foto lgubre, a nica prova que incriminava seu filho.

O homem apanhou a foto no cho e novamente passou-a s mos de Ding Long. - Eu a ampliei. Por favor, olhe mais de perto e veja se esse  mesmo o seu filho.

Ding Long fitou o fotgrafo, e ento examinou, com relutncia, a foto ampliada. O rapaz na foto vestia o mesmo suter amarelo que seu filho Tan estava usando naquele
dia fatdico. Mas esta foto maior e mais ntida exibia claramente o que no tinha sido mostrado na foto original. O rapaz da foto tinha o queixo mais quadrado, a
pele mais escura e um ar mais conturbado. Ding Long prendeu a respirao. Meu filho foi falsamente incriminado.

- Quem  ele? Quem  esse assassino?

O fotgrafo tremia. Seu rosto tornou-se mais plido. Gaguejando, confessou:

- Um... um jovem cadete da unidade Jian Do, da Ilha Nmero Nove.

- Qual  o nome dele? - perguntou Ding Long.

- Shento. * Ding Long ficou petrificado  meno daquele nome.

- Quem lhe pediu que tirasse essa foto? *

- O homem l de cima.

Ding Long lanou-se contra o fotgrafo, sendo detido pelo comandante de Fujian.

- O fotgrafo  apenas uma vtima. Ele no  nosso real inimigo - disse Fu-Ren. - Por que o senhor no se junta a ns e luta contra o nosso verdadeiro inimigo? Lembre-se,
Heng Tu teria matado seu filho, caso o senhor no tivesse renunciado, desistindo da sua carreira gloriosa Por um crime que o rapaz no cometeu. Est vendo? Foi tudo
uma consPirao srdida contra o senhor, meu querido comandante. Como  que
0 senhor pode ficar assistindo a isso sem fazer nada, deixando esse tirano respirar por mais um segundo que seja? Leve isto em considerao, por favor, general.
       "-,   ,    ,-

323

Ding Long cuspiu no fotgrafo assustado e foi embora. Desta vez ,1 ca se abriu, antes mesmo que ele pudesse apertar o boto na parede.

Sentou-se ereto em sua poltrona durante todo o vo de volta. Um bom soldado aceitava a derrota, mas nunca o engodo. Ao chegar em casa, acordou sua esposa. Sentado
na cama, contou-lhe calmamente a terrvel verdade daquela noite infeliz de muitos anos atrs.

A sra. Long ficou em silncio.

- Eu tambm tenho uma confisso a fazer - disse ela em voz baixa. - H alguns anos, sua secretria me entregou uma carta estranha, endereada a voc, vinda de um
rfo chamado Shento, de Fujian. Ele declarava que era seu filho. Eu escrevi de volta, rejeitando-o... Sinto muito. Ele era uma ameaa ao nosso futuro...

Ela se aproximou do marido, que a abraou com fora.

Quando ela finalmente adormeceu, Ding Long foi  sua escrivaninha, retirou suas insgnias de cinco estrelas, smbolo de sua autoridade militar, apertou-as contra
seu corao e fez uma ligao para os companheiros que aguardavam sua confirmao em Lanzhou.

Shento

CAPTULO 35

Os CULOS DE FUNDO DE GARRAFA DO dr. Yi-Yi faziam seus olhos, que no paravam quietos, parecerem menores, como os de quem estivesse eternamente despertando, mas
nunca despertasse efetivamente, acrescentando um ar de inocncia ao cientista de trinta e poucos anos. Com seu hbito de falar sozinho e fazer amizade com as rvores,
que cumprimentava todas as manhs a caminho do seu escritrio, o dr. Yi-Yi era considerado um membro estranho, mas devotado, daquele campo frtil, repleto de ogivas
nucleares. Ele surpreendeu a todos ao assinar uma solicitao pedindo para tornar-se membro do Partido Comunista, quando as afiliaes haviam se reduzido a um punhado
insignificante de gente. Ainda mais surpreendente foi sua chorosa cerimnia e o voto de doar todo o seu salrio ao partido. Ningum se deu conta de que sua devoo
fervorosa a uma coisa do passado indicava um problema mental do tamanho do desfiladeiro de um no. Ele jurava que, um dia, uma de suas bombas explodiria os russos,
que haviam tomado as terras do seu av, na regio Nordeste do pas. Ele destruiria as ilhas do Japo, cujos soldados violaram sua av no Estupro de Nanking; e incomodaria
os americanos, que encheram de balas a cabea de seu pai na Guerra da Coria, fazendo de Yi-Yi um rfo. . ,
326

Ele certamente no ficou satisfeito quando seu comandante decidiu abrir a base nuclear como plataforma de lanamento de foguetes para os mesmos pases que estupraram,
roubaram e destruram a sua famlia. Permaneceu em seu escritrio durante dias, sem comer, sem dormir, delirando sobre a genuna guerra nuclear total. Mas seus sonhos
terminaram quando ele leu um relatrio informando que a China fazia parte do Tratado de NoProliferao Nuclear, um acordo assinado por muitos pases, porm sem
a pretenso de ser aplicado por nenhum deles. Vomitou at as tripas e ficou com a garganta arranhada, sentindo muita dor e odiando tudo. Sua maldita lcera se agravou,
causando uma grave hemorragia interna. Seus companheiros chamaram uma ambulncia e sua alma turbulenta se acalmou durante

uma temporada tranqila num sanatrio  beira-mar, onde ele passou os dias olhando, melancolicamente, para o oceano.

Quando nos encontramos, durante a visita de inspeo, ele viu que falvamos a mesma lngua, e que nossos coraes batiam no mesmo ritmo. Meus planos clandestinos
encaixavam-se perfeitamente  existncia sorrateira de Yi-Yi. Em seu relatrio semanal, ele listava todos os oficiais no-confiveis que aceitavam trabalhos por
fora e os cientistas negligentes que ficavam sentados, jogando pquer no silncio do depsito nuclear subterrneo.

Quando liguei, perguntando sobre a localizao do seu comandante, YiYi prometeu que iria at o fundo das coisas, e foi. Desceu at os silos, atravs de uma passagem
secreta, e esgueirou-se por trs da cortina do centro de comando do depsito, onde imagens de todas as instalaes apareciam nos monitores. L, ele viu oito homens
reunidos em segredo. Mas o inesperado nono rosto que ele descreveu me apunhalou o corao. Meu maldito pai, finalmente o encontrei.

Adiei um pouco informar sobre esta reunio secreta ao presidente. Respirei fundo para me acalmar, e ento disquei o nmero do meu jovem general em Fujian e dei uma
ordem simples:

- Separe todos os arquivos que voc tem sobre Ding Long.

NA TARDE SEGUINTE, RECEBI O VOLUMOSO fac-smile da lista de crimes do ex-general. Meu corao se apertou enquanto eu dava uma olhada rpida no resumo. Marchei at
a ala presidencial e inclinei a cabea para os guardas, que me fizeram continncia.

- H mais algum na sala, coronel.
327

- Faa-o ir embora, se puder.

- Sim, coronel.

O guarda entrou no escritrio. Aps um momento, a porta se abriu e revelou o presidente em sua cadeira de rodas, um pouco perturbado pela intromisso.

-  melhor voc ter algo de muito importante para me dizer, meu filho - disse ele.

- Eu nunca teria perturbado sua reunio com o mestre de xadrez se no fosse por um motivo muito importante.

- E o que seria mais importante do que o meu jogo de xadrez? Pode me dizer, meu rapaz?

Empurrei a cadeira de rodas do velho para trs da sua pesada mesa que representava o poder - ela, um dia, pertencera ao Imperador Ch'ien-lung, da dinastia Ch'ing.

- Uma reunio secreta foi realizada no silo Nmero Oito, em Lanzhou, ontem  noite.

- Quem estava presente?

- Seus oito comandantes regionais.

- Reunindo-se s escondidas? E do que se tratava?

- Um encontro com o seu velho amigo, o general Ding Long. Um fotgrafo da polcia de Beijing estava l para mostrar a Ding Long uma certa foto antiga.

O presidente remexeu-se desconfortavelmente em sua cadeira de rodas.

- Algumas coisas custam a morrer.

- Algumas coisas nunca morrem.

Heng Tu agarrou as rodas de sua cadeira e girou-as para encarar a janela, que emoldurava o sol poente.

- Voc sempre me surpreende, meu filho. O que devemos fazer com relao a isso?

- Tenho uma rede de pessoas vigiando todo o cl Long. Ding Long tem se preparado para retornar desde o momento em que foi banido para Fujian. A famlia Long tem
estado ocupada construindo um imprio. O Banco Litorneo, encabeado pelo velho Long, tem um patrimnio total de dois milhes de iuanes.

- Onde ele conseguiu o dinheiro para comear esse negcio? O velho banqueiro deve ter roubado aqueles vinte milhes de dlares.
328

- Vamos examinar isso novamente, mas minhas fontes revelaram que o velho Long tem um scio oculto, que est sendo representado por uma exgerente do banco estatal
chamada Lena Tsai. H outras notcias perturbadoras. O Banco Litorneo financia todas as atividades de Ding Long. Ele comeou inicialmente com algumas fbricas,
mas agora entrou no ramo de projetos militares e de infra-estrutura, negociando com armas, comprando nossos velhos avies, e adquirindo usinas eltricas. Sua fortuna
total est estimada em cerca de cem milhes de iuanes. Todos os seus funcionrios so veteranos do Exrcito que ainda o chamam de "general". A CIA o considera um
possvel traficante de armas no Tringulo Dourado no mar do Sul da China. Pode ser que ele tenha adquirido msseis nucleares do nosso arsenal de Lanzhou.

- Jogue uma rede para pescar todos eles - ordenou Heng Tu. - Mas lembre-se, soldados furiosos so inimigos difceis.

MEUS JOVENS GENERAIS AGORA PASSAVAM de cinqenta. Eles penetravam horizontal e verticalmente em todos os nveis das foras armadas. As cidades importantes eram o
meu foco, mas nunca deixava surgirem sintomas de quaisquer males sem tomar precaues, mesmo nas menores cidades. Meus jovens generais eram como morcegos. Voavam
baixo, caavam a presa e depois batiam suas asas fantasmagricas, guinchando de volta  escurido.

A reunio conspiratria de todos os comandantes regionais no silo apenas intensificou as atividades de meus morcegos por todo o pas. Eu havia ordenado que todos
os comandantes fossem vigiados e grampeados com aparelhos de escuta e, se necessrio, eliminados. Mas esta seria uma ltima opo, em caso de extrema necessidade.

Eu sabia de todos os passos que cada um dos oito homens dava. Nenhum detalhe passava despercebido: o que comiam, com quem dormiam e,  claro, suas longas conversas
telefnicas.

No topo da lista da minha vigilncia estava Ding Long. Eu me informei sobre cada detalhe dos negcios dos Long: sua compra de um aeroporto militar, seu comrcio
de armas, seus lucros clandestinos e seus subornos. Quanto mais sabia sobre Ding Long, mais o odiava. Quanto mais o odiava, mais desejava saber. A obsesso levava-me
 loucura.

Faltando trs dias para terminar o proveitoso ano de 1988, tive uma reunio em meu escritrio com o tenente Bei, o jovem general de Beijing. Ele era um sujeito alto,
com um diploma da Universidade de Beijing, atual-
329

mente ocupando um cargo no distrito militar como oficial de propaganda, pois era um homem que tinha jeito com as palavras.

- O que causou o seu atraso? - perguntei.

Minhas desculpas, coronel. Mas h muitas coisas que esse jovem

Long est planejando.

-  mesmo? Continue.

- Ele obteve um diploma da Universidade de Beijing, onde me formei com louvor.

- Como o pai dele.

- Rejeitou todas as ofertas de ambicionados cargos governamentais assim que se formou, e agora  o presidente da Drago & Cia., uma holding que tambm tem sociedade
com o Banco Litorneo de Fujian, do qual seu av  dono, e  o scio oculto de seu pai em seus empreendimentos crescentes na indstria e no comrcio.

- Como descobriu tudo isso?

- Tive que desemaranhar um pouco os fios da meada, mas est tudo nos arquivos da Junta Comercial. Porm, o mais significativo de tudo  que Tan Long vai apresentar
em breve uma proposta para construir um complexo monumental no centro de Beijing.

- De que tamanho?

- Como uma montanha bloqueando o Sol. Os mais renomados arquitetos foram contatados e esto fazendo propostas para projet-lo, incluindo LM. Pei. Esta informao
veio de um reprter americano, Howard Ginger, amigo de Tan, e meu tambm.

- Voc tem algo de bom para usar contra ele?

- Certamente - respondeu ele inclinando bastante a cabea. - O jovem Long  dono da Editora Mar Azul.

- Est publicando livros?

- Est. Livros e revistas muito perturbadores. Lixo antigovernamental e literatura pornogrfica escrita por autores que esto na lista negra e que nossos editores
estatais jamais publicariam. Seu livro mais sensacionalista, A rf, lanou a editora e trouxe-lhes uma montanha de dinheiro. Foi escrito por uma moa chamada Sumi
Wo, que...

- Voc disse Sumi Wo? - exclamei, asperamente.

- Isso mesmo, Sumi Wo. O livro  uma autobiografia sobre sua vida como rf em Fujian. E fala-se em adapt-lo para um longa-metragem.
330
DA CHFN

Agarrei-me  minha cadeira, sentindo-me meio tonto.

- Aconteceu alguma coisa?

- Nada. Tem certeza de que o nome da autora  Sumi Wo?

- Tenho. Ela ficou famosa.

- E conseguiria encontr-la?

- Foi por isso que me atrasei. No momento, ela est em Tianjin, escrevendo seu segundo livro.

- Encontre-a. Imediatamente. Minhas palavras foram quase inaudveis.

Sumi

CAPTULO 36

1985

TIANJIN

O ANO Novo DEIXOU MEU CORAO oco. Um vento frio do norte, vindo do mar, varreu as ruas sujas e rachadas de Tianjin, tornando ainda maior o meu vazio, longe de Tan
e do meu filho, e esta sensao quase ameaava me engolir por inteiro. Vivi muitos desses feriados solitria e lamentei-os todos. Muitas vezes imaginava como seria
ter um pai ou talvez uma me muito boa, que viesse para casa todos os dias sorrindo, me abraando e perguntando por mim.

Naquela estada melanclica, no ltimo dia do ano, pensei na minha irm mais nova, Lili, que, segundo me disseram, foi doada e adotada por uma famlia rica em algum
lugar no Sul. Ela tinha olhos grandes e o nariz sempre escorrendo, dentes pequenos, lindas covinhas fundas e a cicatriz que eu, a irm mais velha, fiz atrs de sua
orelha direita, devido a uma briga por causa de algum brinquedo. Lili ainda devia ter aquela cicatriz. Onde estaria agora? Ser que ainda estava viva? A fome corria
solta, e uma simples infeco tirava muitas vidas jovens e frgeis. Era estranho que eu mesma tivesse sobrevivido. Desejava sinceramente que minha irm ainda estivesse
viva, onde quer que morasse. E que estivesse bem.

A memria de Lili trazia as imagens igualmente fragmentadas dos nossos jovens pais. Papai - alto, bonito, todo vaidoso, com um belo sorriso,
332

333

dentes grandes, cheirando ao mar de vero. Mame - pequenina, linda, com a fragrncia do incio da primavera. E ento, um dia, eles nunca mais voltaram. Desapareceram.
Desvanecidos na memria. Comeando em lugar nenhum, terminando em lugar nenhum, a ilha da memria, envolta no isolamento, em meu passado enevoado e distante.

Mesmo agora, tinha dificuldade em tocar naquele buraco escuro, cheio de medo e de tristeza. H muito aprendi a fechar os olhos da mente e a encarar a realidade -
a vida de um animal abandonado dentro da jaula de um orfanato. Aprendi a engolir todos os pesares, grandes ou pequenos. Inventei um processo de despejar quaisquer
sentimentos tristes em um ponto desconhecido no fundo da minha alma. Enterr-los e mat-los com franca determinao. Com isso, sentia-me melhor.

Sentada no salo onde seria realizada a festa de Ano Novo, fui cercada por crianas do orfanato de Tianjin, que estavam ocupadas dando os toques finais na decorao
da festa. Levantei o olhar do meu arranjo de lrios, girassis, rosas, e minhas flores prediletas: tulipas amarelas com toques de laranja. O relgio de pndulo aproximava-se
lentamente das quatro horas, enquanto o aroma sedutor da comida infiltrava-se pelas frestas das portas. A comida estaria pronta em breve. Sorri. Red Red, um menino
pequeno com cabelos longos e desgrenhados e dois dedos faltando, parou subitamente diante de mim.

- Moa, voc parece uma flor.

- Ah, Red Red, guarde os elogios carinhosos para aquela menina l, de vestido amarelo - disse eu, arrumando as tulipas.

- Estou com fome. Este cheiro est me matando - disse ele, inspirando fundo.

- Seja paciente. Faltam apenas uns poucos minutos antes de servirmos a comida. Por que no tenta adivinhar que cheiros so esses? - sugeri, com a inteno de distra-lo.

- Porco com gengibre, carne com coentro, siris com alho, gua-viva ao vinagrete. - Os olhos de Red Red estavam fechados, mas sua imaginao era viva. Ele fez uma
pausa para engolir em seco. - A rabada est ficando um pouquinho queimada, e tem peixe cozido no vapor. rv

Fiquei espantada. ,.       i

- Bom olfato.

- Isso vem dos anos de pedinte, cheirando as chamins dos ricos, e raspando os fundos das panelas dos pobres. A gente aprende a gostar mais

do cheiro do que da prpria comida. Muitas dessas coisas eu nunca comi, mas sei como seria o gosto na minha boca. Fechou os olhos novamente.

- Pare com isso. Voc logo vai comer.

Um sino tocou. Um cozinheiro rechonchudo, com uma fantasia colorida de palhao, escancarou a porta e anunciou:

- O jantar est pronto.

Ele saiu danando, tocando seu sino ao ritmo da valsa que vinha do salo. Seus grandes sapatos, que pareciam ps de pato, batiam no cho, enquanto os rfos o cercavam,
dando vivas, puxando seus suspensrios vermelhos e danando pela sala de jantar adentro junto com ele.

L dentro, havia uma mesa comprida com a comida que o nariz de Red Red logo reconheceu. Num prato gigantesco, havia uma enorme pilha de joelhos de porco bem cozidos.
As rabadas reluziam com filetes de leo. O cozinheiro as deixava queimar um pouco para concentrar o sabor dentro da crosta fina. Enquanto o leo escorria, o sabor
ficava mais acentuado. Uma carpa de um metro, recm-pescada, estava agora numa tigela, cozida no vapor. Seus olhos imveis repousavam numa cama de fatias de gengibre
e cebolinha picada. Sua cauda estendia-se alm do prato em formato de barco, ocasionalmente dando alguns solavancos, sinalizando seu fim prximo.

Enquanto o resto do grupo fazia fila para a comida, Red Red permaneceu num canto com os olhos fechados. Fui at l e o abracei, dando um beijo

estalado em sua testa.

- Pode abrir os olhos agora. Prometo que a comida vai ser ainda mais gostosa do que o cheiro dela.

Red Red abriu os olhos um pouco.

- Ser que estou no cu?

- Ainda no. H coisas melhores esperando por voc na vida.

- No me importaria se no houvesse.

Red Red foi correndo para a mesa onde a comida estava posta.

Aquela seria uma boa festa de Ano Novo, pensei comigo mesma, observando as crianas comerem com entusiasmo, seus gritos de alegria rodopiando no ar como um bando
de pssaros.

CAPTULO 37

ALUGUEI o LUXUOSO SALO DE RECEPES do Hotel Beijing e contratei a orquestra de cmara para tocar na sala decorada para o evento com renas, Papai Noel e imitao
de neve. Haveria um banquete no salo contguo. Champanhe francs foi contrabandeado de Hong-Kong, o salmo de Shandong nadava nos aqurios do hotel e os caranguejos
de Fujian rastejavam com suas patas grossas e suculentas. Havia tambm de zhou paji - tenras galinhas assadas, cada uma pesando no mais do que meio quilo.

O editor Fei-Fei, com um surpreendente talento de epicurista, orquestrou todo o evento. A lista de convidados, outra trabalhosa mas necessria atribuio de Fei-Fei,
parecia uma relao de "Quem  quem" em Beijing: homens de negcios, altos funcionrios, artistas, atores, escritores e alguns oficiais do Exrcito. Alguns eu conhecia,
outros no.

- Voc precisa conhec-los - insistiu Fei-Fei.

- Mas isso  ridculo. Alguns deles so como fogo e gua. No deviam estar juntos.

- Voc vai ficar maravilhado com o que dois drinques podem fazer com um homem - disse Fei-Fei. - Tambm convidamos funcionrios da

Secretaria de Planejamento Urbano. Eu no ficaria surpreso se o seu projeto do Dragon Center fosse aprovado aqui mesmo, hoje  noite.

- Faa figa e no beba demais. Vou precisar de voc pelo resto da noite.

- E quem  que vai buscar a futura noiva surpreendida em Tianjin? - perguntou ele.

- Voc.

- Eu? Tudo eu? Onde est o seu diretor-executivo, Mike Blake?

- Ajudando os arquitetos com os toques finais da apresentao do Dragon Center. Alm do mais, Sumi  sua escritora.

Ele cedeu.

- Tudo bem.

- Voc vai sair s cinco da tarde de helicptero. Ela vai ficar presa no hotel em Tianjin o dia inteiro, preparando uma festa para os rfos. O vo leva cinqenta
minutos. Esteja com ela aqui s oito. Isso dar tempo para ela ficar surpresa, se vestir e casar comigo por volta das nove.

- Parece timo, mas o que voc vai fazer com aquelas pobres crianas?

- Traga-as. Aluguei um avio cargueiro militar com este propsito. Eles so muito especiais para Sumi. Ela no vir sem eles.

- S voc para conseguir armar uma coisa dessas...

- Isso  um elogio, suponho.

- No, uma crtica. Convidar rfos para o seu casamento Ns nos abraamos e Fei-Fei agarrou meu brao.

- Cuide bem dela.  minha escritora predileta. Eu posso ascender e decair com ela.

- Eu tambm - disse eu.

Balanamos a cabea em sinal de mtua compreenso.

MINHA FAMLIA VEIO LOGO CEDO NO DIA do meu casamento. Eu os sentei na minha sala de estar e lhes prestei minhas homenagens, cumprindo o ritual de passagem de menino
para adulto. Pela ltima vez, como quando eu era garoto, mame lavou meu rosto com uma toalha, papai penteou meu cabelo e vov fez minha barba. Ento, preparei para
cada um deles uma xcara de ch e as servi com uma reverncia profunda. O menino estava crescido e eu agora estava pronto para ter a minha Prpria famlia.

Mame chorou, dizendo que nunca mais teria colocado os ps na cidade que nos rejeitou, se no fosse por esse meu dia especial. Ela evitou mencionar o nome de Sumi,
mas pareceu ter acatado minha deciso. Eu tinha certeza de que ela choraria de alegria quando Sumi e eu finalmente estivssemos casados. Papai iria sorrir e vov
desejaria em voz alta que gerssemos um bando de dragezinhos para correr em volta dele e puxar suas orelhas e sua barbicha. Como bisav, ele ficaria ainda mais
entusiasmado ao ensinar aos seus bisnetos o valor dos juros compostos e a importncia do ndice Dow Jones.

Tudo ficaria bem quando chegasse a noite. No meu caminho at o hotel, disse a palavra "esposa" cuidadosamente, como se provasse uma receita desconhecida. Balancei
a cabea, apreciando o sabor, e repeti a palavra, sorrindo. Esposa, ela , e marido, eu serei. Meu corao palpitou com uma imensa gratido enquanto eu entrava no
meu quarto de hotel para me preparar para a noite. Olhei o relgio. Quatro da tarde. Daqui a cinco horas, alcanaramos um outro marco na nossa vida.


Shento

CAPTULO 38

MEU RELGIO DE PULSO MARCAVA QUATRO horas. Franzi a testa quando vi a poeira que rodopiava enquanto o helicptero aterrissava no heliponto da Base Naval de Tianjin.
A gua do mar se agitou quando as hlices rodopiaram no ar. Um oficial da Marinha indicou nossa posio com sua bandeira sinalizadora e o helicptero pousou bem
no centro de um crculo pintado.

- Para o Hotel de Tianjin, oficial - ordenei ao motorista, aps saltar do helicptero e entrar no jipe que me esperava.

- Sim, coronel. O trajeto vai levar vinte minutos.

- Faa em dez.

- Sim, coronel. - O motorista acelei ou o veculo e saiu disparado do estacionamento, rumo s estradas pavimentadas da cidade.

Enquanto a cidade passava por mim voando, peguei o telefone celular do jipe.

- J estou em terra firme, agora. Quero ser informado sobre o que esta ocorrendo, por favor.

- Nossos homens esto em todos os andares do hotel. Todas as sadas esto bloqueadas. As crianas esto comendo e cantando.

- O que ela est fazendo?
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DA CHbN

A ligao ficou cheia de rudos.

- Al? No estou ouvindo.

- Coronel,  a ponte pela qual estamos passando - disse o motorista.

- Estou ouvindo novamente - disse a voz no telefone.

- O que ela est fazendo? - perguntei mais uma vez.

- O alvo est falando com um menino e servindo mais comida a ele. Por falar nisso,  uma cabea de peixe, coronel.

- Estarei a dentro de poucos minutos e iniciaremos a operao. No a deixe escapar.

- Claro que no, coronel.

- E cuide para que ela no corra nenhum perigo.

- De modo algum, coronel.

Fui levado  central de comando da operao, situada no segundo andar de um prdio de escritrios em frente ao hotel onde Sumi estava hospedada. Silenciosamente,
peguei o binculo do meu jovem general de Tianjin e respirei fundo. A vida parou naquele momento. Senti-me como um floco de nuvem, flutuando, sem razes, sonhando.
Minha cabea estava quente, minha mente, confusa. Meus olhos a procuravam avidamente. Ento eu a vi e prendi a respirao. A cascata dos seus cabelos, a face do
amor e da beleza, seu corpo, um pouco mais cheio agora, e aquele sorriso. O aroma de Fujian voltou a mim. Sua fragrncia no saa do meu pensamento. Sentime enlevado
por ela. Minha mente ficou vazia por um segundo. Continuei olhando, implorando silenciosamente que ela olhasse para mim.

Ela riu, serviu mais comida, acariciou as crianas e virou-se de costas para mim, continuando o que estava fazendo. De repente, parou, franziu a testa e olhou para
cima. Olhou em volta. Subitamente alerta, olhou diretamente para as lentes do meu binculo.

- Peguem-na agora - ordenei ao meu homem num murmrio sem muita firmeza.

CAPTULO 39

No SALO DE JANTAR, EM MEIO A ALGAZARRA geral, uma menininha correu para perto de mim e puxou o meu vestido. Agachei-me para encar-la e perguntei:

- O que foi, querida?

- Tem um homem procurando por voc - disse a menina. Faltavamlhe muitos dentes.

Olhei para cima e vi um homem alto, de cerca de 25 anos, se aproximando. Ele estava com uma expresso sria.

Limpei as mos numa toalha e fui falar com o homem.

- Em que posso ajud-lo?

- Sou o chefe do Corpo de Bombeiros da cidade. Recebemos um comunicado de que h um incndio no andar de baixo. Precisamos retirar todas as crianas do local, o
mais rpido possvel.

- O que devo fazer?

- No grite. Apenas siga-me. Meus homens cuidaro de evacuar o prdio ordenadamente.

- Mas preciso ficar aqui e ajudar.

- No, isso ir retardar a operao. Venha agora. 342

Uma dzia de bombeiros cercou o salo. As crianas ficaram surpresas ao v-los.

- Tem um incndio? - perguntou uma delas.

- Tem. Precisamos sair do prdio agora mesmo.

As crianas se transformaram num enxame de abelhas.

- Para onde est me levando? - perguntei.

- Para o outro lado da rua - disse o homem. A desconfiana comeou a surgir em mim.

- Est me prendendo?

- No, claro que no. L  mais seguro.

Fui levada para dentro de um prdio e, num escritrio vazio, me pediram que aguardasse. Pensei nos meus rfos, lembrando que sua primeira festa de Ano Novo estava
sendo interrompida por esse incndio, e suspirei.

Shento

CAPTULO 40

ARRUMEI MEU UNIFORME, PASSEI A MO no cabelo, pus o quepe na cabea. No sabia quais seriam as minhas primeiras palavras ou o que eu faria. Ela estava a apenas alguns
metros de distncia e s uma fina parede nos separava. Girei a maaneta e abri a porta, com a cabea erguida. Olhei diretamente para ela.

Sumi se levantou, a princpio assustada. Depois, inspirou fundo, ps uma das mos no brao da cadeira para se apoiar e, com a outra mo, cobriu a boca. Porm, um
pequeno grito escapou. Vi seu corpo oscilar como se fosse cair.

Corri at ela e a aninhei em meus braos. Ah, Sumi. Beijei-a sem pensar, loucamente, cegamente. Com a mesma paixo, ela me beijou tambm. No falamos nada. Tudo
o que precisava ser dito foi expresso pelo modo como nos colamos um ao outro.

- Mas como? - perguntou ela.

Descrente, Sumi estendeu o brao e tocou o meu rosto.

Entre lgrimas e risos, contei a ela sobre a minha fuga pelo mar, minha sentena de morte pendente na priso, a longa procura por ela e os registros perdidos do
Orfanato de Fujian. Em alguns momentos, eu conseguia
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ser coerente. Em outros, meu discurso era absolutamente sem lgica, uma louca torrente de palavras. Deixei algumas frases incompletas, perdido em pensamentos, mas
quando ela tentava participar do dilogo e me contar sua histria, eu a abraava e colava sua boca na minha, e prosseguia delirando com a histria da minha vida
e com a razo de eu estar ali. Quando acabei de dizer tudo, um peso antigo saiu do meu peito.

- Eu sabia que voc seria um grande homem algum dia. Eu sabia. Os olhos de Sumi brilhavam de admirao e amor.

- Voc no me contou nada ainda.

- Voc ainda no me deu oportunidade.

- Sinto muito, meu amor. Meus ouvidos so todos seus agora.

Ela pareceu derreter quando me ouviu dizer "meu amor". Sumi comeou sua histria em flashbacks; eram jorros, informes, como um poema, imagem sobre imagem, toda a
orquestra da sua vida desde aquela noite em que a vi pela ltima vez, petrificada  luz da lua. s vezes, seu relato assumia a complexidade de uma sinfonia. Outras
vezes, era uma melodia sussurrada. Ela encostou a cabea no meu peito, que arfava ao ritmo de seus soluos. Chorei lgrimas que no sabia que tinha. E houve risos
tambm.

- Ah, Shento - disse ela, sorrindo. - Tenho o melhor presente de todos.

Ela segurou minha mo. ^  >

- E o que ? - perguntei.    . *

- Tai Ping. Voc tem um filho. ; Minha respirao ficou suspensa. '                           *

- Tenho um filho?
- Concebido no amor daquela triste noite em que voc fugiu.      '.' ;

- Eu tenho um filho! - repeti, incrdulo. rji >

- Ns temos um filho. !

- Ns temos um filho. - Abracei-a com fora, beijei-a; meu corao era um emaranhado de gratido e possibilidades, 'i ,-<...>'*

- Est feliz? : .
- Ah, Sumi! - Foi s o que consegui dizer. - Muito feliz!

Sumi me beijou suavemente, como uma cano singela. Beijei-a tambm, com ardor e intensidade. Ela cedeu, em resposta ao meu mpeto. Rasguei seu vestido, arranhando
de leve e sem querer sua pele macia com minhas unhas speras, e ela se acendeu. Abaixei a cala e levantei a bainha de seu
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vestido. Ela tremia, desejando me ter dentro dela, e aquela paixo chegava a doer. Num ritual de amor, de olhos fechados, chupei os dedos da sua mo esquerda, um
por um, suavemente no incio, depois com avidez. Peguei sua mo direita para repetir aquela deliciosa tarefa, e repentinamente parei, quando algo chamou minha ateno.

- O que  isso? - perguntei, levantando a cabea. - Um anel de noivado? i      ,  {>"

Ela abriu os olhos, como se acordasse de um sonho.

- Est comprometida com outra pessoa?

Ela piscou os olhos, como se voltasse a si mesma, e fez que sim com a cabea.

- Quem  ele?

- Eu o conheci muito tempo depois de voc ter ido embora.        . ; Ela envolveu seus braos ao redor do meu corpo, abraando-me. Fiquei em silncio.

Sumi prosseguiu, calmamente:

- Eu esperei, esperei e esperei. Ento, um dia, veio o investigador da sua priso, depois o aviso da sua morte. Fiquei arrasada. Todos os dias, ficava parada na
beira do mar - eu e o nascer do sol. Queria acabar com a minha vida. Queria morrer com voc, e encontr-lo de novo no paraso...

Eu a segurei com mais fora.

- E onde est esse homem agora?

Minhas palavras no foram ouvidas. Sumi tinha os olhos enevoados e distantes, como se rememorasse os dias dolorosos de seu passado.

- ...mas eu no conseguia. Todos os dias, sentia a deusa do mar, Ma Zu, abrir seus braos e sorrir carinhosamente para mim. "Venha, minha menina", dizia ela. "Venha
para mim". A cada dia eu me sentia mais atrada. Num dia de tempestade, caminhei dentro d'gua at senti-la na altura da cintura... Havia uma sampana que balanava
na superfcie. Um velho pescador me pegou em sua rede. Decidi que no podia morrer. Ma Zu no queria que eu morresse. Ento, comecei a vomitar e a ter desejo de
comer legumes em conserva. Tinha desejo por qualquer coisa salgada. Um dia, roubei alguns pepinos em conserva mofados na cozinha da escola. O diretor, um baixinho,
me disse: "Est expulsa!" Puxa vida! Ser expulsa de um orfanato! Ser que as coisas poderiam ficar piores ainda do que j estavam?       , . ,,<,,
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Continuei abraado a ela, deixando-a falar, abrir-se, lembrar, chorar para que pudesse rir de novo. O passado havia se tornado uma parede negra, que bloqueava nossos
olhos e separava nossos coraes. Ela estava demolindo esta parede agora, tijolo por tijolo.

- E voc sabe por qu? - perguntou ela.

- Por que o qu?

- Por que fui expulsa? ' Balancei a cabea.

- Estava grvida... do seu filho. - Ela recuou e olhou nos meus olhos. - Seu lindo filho. Tudo o que ele ,  voc. O jeito como fala, como anda, o seu cheiro...
Que nome grandioso! Pacfico.

- Ele deve estar crescido agora.

- Tem sete anos - disse Sumi.

- No acredito que tenho um filho.

- Depois ento, meu noivo me salvou das garras de outro demnio e me ajudou a entrar na faculdade. Ele publicou a minha autobiografia e criou nosso filho...

- Entendo.

- No, voc no entende. Voc no pode entender a dor e o tormento. Dei  luz a Tai Ping na sarjeta de um hospital que me ps para fora. Eles cuspiram em mim. Quase
sangrei at a morte.

- Sumi... sinto muito.

- Ento, apareceu um homem, a nica luz no meu mundo de escurido... sua boa vontade, sua generosidade, arriscando a prpria vida... Voc no entende, e no sabe
como me senti ao v-lo. Foi como ver voc.

- Entendo.

- No, no entende. Muitas vezes, naqueles dias soturnos, desejei que tivssemos trocado de lugar, que eu tivesse levado aquelas balas na cabea, e que voc fosse
o sobrevivente, andando com o nosso filho pelas montanhas, subindo at os cumes com ele em seus ombros fortes para ver a luz do sol do amanh. Eu teria ficado feliz
e satisfeita sendo um fantasma silencioso, protegendo vocs, desejando-lhes uma vida feliz, esperando que voc encontrasse para Tai Ping uma me que cuidasse dele
e uma esposa honesta que o amasse como eu o amava. Ela poderia at ser melhor do que eu de muitas maneiras, e eu ficaria com cimes, mas no com raiva, pois estaria
morta, vivendo do outro lado da vida, e vocs todos pertenceriam  luz...
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Eu realmente entendo. Entendo sim. Sou grato a voc. Quero que me leve at esse homem generoso e ao meu filho, e quero agradecer a ele pelo que fez.

- E depois?

- Depois, quero voc e o meu filho de volta - respondi, falando baixo, mas num tom firme.

Seus olhos grandes examinaram os meus com muita ateno.

- Voc ainda me ama? -
 perguntei.

- Amo.

- Voc o ama?

- Amo.

- Tanto quanto me ama?

- Como eu queria que houvesse duas de mim! Uma para voc e uma para ele.

- O que est feito pode ser desfeito.

- O amor  inesquecvel, meu querido Shento. Respirei fundo.

- Voc foi minha primeiro, e ainda e. Preciso de voc. Voc tem que voltar para mim, seno minha vida no ter sentido.

- Ah, Shento. - Ela afagou meu cabelo consolando-me, como uma me. - Por favor, me d um pouco de tempo. Ainda estou em estado de choque por saber que voc est
vivo.

- O mundo  nosso mais uma vez. Voc e a escritora famosa que eu disse que seria.

- E voc est no Exrcito, comandando milhares de homens, como previ.

- Quero falar com o homem com quem voc est comprometida.

- Ele  um bom homem.

- Qual  o nome dele e onde ele mora? Posso me encontrar com ele amanh.

- Ele mora em Beijing e seu nome  Tan Long. Soltei-a e dei um passo para trs.

- Tan Long?

Foi como se tivessem enfiado uma faca nas minhas costelas.

- Ele  um homem de negcios muito bem-sucedido.

- O dono da Editora Mar Azul - disse eu, rispidamente.
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- Voc o conhece? Desviei o olhar.

- Qual  o problema, meu querido Shento? ,    Ela estendeu a mo e afagou o meu brao.

Fiz um esforo para entender. O rapaz rico e a moa pobre, o editor e sua escritora preferida. Duas mentes inteligentes, solitrias, procurando suas almas gmeas
em Fujian, onde o rapaz rico havia se refugiado. Ela era romntica, vulnervel, uma flor silvestre das montanhas; e ele, um rapaz da cidade, impressionado por sua
bela alma e sua fragrncia madura. Minha cabea latejava com pensamentos loucos e cenas de Sumi e Tan Long se abraando, sentados no penhasco daquela adorvel vila
de pescadores no fim do mundo, tendo grandes sonhos, apaixonando-se mais e mais at que ela se entregasse, vibrante, ao desejo dele.

- Shento, diga alguma coisa.

Sacudi a cabea para clarear a mente. Minha garganta estava seca. Uma pedra tinha cado no meu corao e a respirao se tornara difcil.

- Voc est bem? - perguntou Sumi.

Olhei-a com desconfiana e distanciamento. Um momento insuportavelmente longo interps-se entre ns. Levantei minha cala e abotoei meu uniforme, com o austero silncio
e a eficincia de um soldado alerta. Nem por um segundo tirei meus olhos dela. Afivelei o fecho do meu colarinho e coloquei meu quepe.

- No  gentil retribuir o meu amor com o silncio, Shento - disse Sumi levantando-se e abotoando seu vestido. - Por que est indo embora to de repente?

Segurei seu rosto com fora entre as minhas mos.

- O amor nos reuniu, mas o destino j nos separou.

- S peo que me d um pouco de tempo - disse ela, afastando-se.

- Nada pode curar uma dor to intensa, e o meu amor por voc apenas aprofunda esta ferida.

- Por qu, Shento? Voc disse que entendia. Ela comeou a chorar.

- Eu poderia entender se fosse qualquer outro homem, mas no Tan

Loil8- , > .

- O que quer dizer?

- O pai dele pode lhe dizer o motivo.

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- O pai dele?

- Sim, o maldito pai dele! Sou seu filho ilegtimo, e Tan Long  meu

meio-irmo!

Sumi pareceu transtornada com esta sbita revelao. Houve um momento de calma, e depois ela disse cruamente:

- Como pode ser isso?

-  o destino - repeti, calmamente. - Mas vou lutar contra ele.

- Lutar contra ele? Como? - perguntou ela, enxugando os olhos.

- Os Long no me deram nenhum espao para respirar nesse mundo. Eles mataram minha me e me mandaram para a morte naquele orfanato. E agora esse seu maldito filho
est tomando o que  meu.  hora de acertar as contas.

- O que voc vai fazer?

- Com relao a voc, nada. Mas com relao a eles, tudo o que puder. Sumi, nesse mundo s h espao para um filho do drago. Ou ele ou eu. A escolha  sua.

- A vidente estava certa - disse Sumi, resignadamente. - Meu destino no  ser feliz.

- Pois ela estava errada. Voc pode ser feliz de novo. Aquele mundo com que sonhamos est s comeando. Volte para mim. Vamos construir uma famlia. Deixe-me cuidar
de voc e do seu filho. Tenho mais poderes do que voc possa imaginar.

- Tenho certeza que sim. Voc demonstrou isso muito claramente hoje. Mas, para o nosso amor e pelo bem do nosso filho, deixe-me conversar sobre este assunto com
Tan.

Depois de uma dolorosa hesitao, concordei, com um movimento de cabea.

- Mas voc precisa prometer voltar para mim. Ela olhou bem para o meu rosto e prometeu:

- Vou voltar.

Uma resposta to simples. Fiquei comovido. Meus lbios tremiam, enquanto eu fazia um esforo para abrir um sorriso desolado, um sorriso triste, o melhor que consegui.
Meus olhos ardiam.

- Acredite em mim, por favor, Shento.

Ela enxugou minhas lgrimas com a manga do vestido. Fiz que sim com a cabea, obedientemente, lutando muito para no tom-la em meus braos novamente.
350

- Quando o sol nascer novamente, verei voc
 em Beijing - disse Sumi.

Quando ela foi embora, a noite se foi tambm e o calor de seu cheiro logo deu lugar ao frio. Tomei o helicptero de volta a Beijing, murmurando apenas uma palavra:

- Guerra.

- O que o senhor disse, coronel? - perguntou meu jovem general.

- Nada. Absolutamente nada.

CAPTULO 41

O CLIMA NO SALO DE RECEPES DO HOTEL de Beijing estava impregnado da expectativa e da excitao da noite. As pessoas abriram caminho at mim e me aplaudiram enquanto
eu rumava para o palanque. Esfreguei as mos, cumprimentando com a cabea e demonstrando reconhecimento  calorosa recepo. Metade dos homens mais poderosos da
cidade estava ali. A outra metade no importava. Como consegui ter tanta sorte? - me perguntava, ao pousar os olhos em minha famlia.

No meio do grupo, vov brindou em silncio com uma taa de alguma bebida espumante. Papai acenou com seu charuto apagado, um velho hbito dos tempos do Exrcito.
Com os olhos semicerrados, mame parecia distante, sorrindo para parte das pessoas que estava no local e dispensando um olhar condescendente  outra parte.

Com Lena  minha direita e meia dzia dos meus executivos  minha esquerda, fiz um aceno com a cabea ao maestro. A musica foi diminuindo de volume. Dei uma batidinha
no microfone. Algum brincou:

- Cante uma msica para nos, por favor.

- Tenho medo de afugentar vocs.
352

- Chegamos ao momento da surpresa nmero um da noite. Ao meu lado, como vocs devem estar morrendo de vontade de saber, est o honorvel I.M. Pei em pessoa.

A multido irrompeu em aplausos retumbantes. O sr. Pei deu um passo  frente e fez uma reverncia humilde.

- E ele est aqui por um motivo muito importante - continuei. - Senhoras e senhores, temos orgulho da nossa cultura milenar. Na melhor cidade do mundo, chamada Beijing,
temos a Grande Muralha, a Cidade Proibida e muitas outras maravilhas. Mas este  o passado de Beijing, um passado glorioso. Hoje  noite, estou aqui para revelar
a vocs o futuro desta cidade. Senhoras e senhores, apresento-lhes o Dragon Center.

Lena removeu um pano de cetim da mesa que estava  minha frente, revelando uma maquete detalhada do Dragon Center que reluzia com pequenas lmpadas brilhantes. Em
cima do prdio mais alto havia um drago todo em luzes azuis. Era elegante, sublime, de tirar o flego. A multido, animada, irrompeu em aplausos e aproximou-se
da mesa onde estava a maquete.

Fui at minha famlia.

- Mame, papai, vov. Este  o futuro dos Long. Agora vocs podem v-lo com seus prprios olhos.

- Meu filho, isso  inacreditvel.

Papai sorria, radiante.

- Meu neto, isso vai lhe custar caro.

- Vai ter lojas chiques e elegantes? - perguntou mame.

- As respostas so sim, sim e sim! - Abracei a minha famlia. - E, vov, no se preocupe. Neste exato momento, o dinheiro est fazendo fila na minha porta: J.P.
Morgan & Cia., de Nova York; Sumitomo Mitsui, de Tquio; Rothschild, de Londres; o Deutsche Bank, de Frankfurt; o Banco Hang Seng, de Hong-Kong, e a lista continua...
E, mame, todas as grifes do mundo (Paris, Nova York e Milo) tm se mostrado interessadas em inaugurar suas lojas aqui.

- J.P. Morgan & Cia. deveriam liderar o grupo investidor - disse vov.

- Por qu, vov?

- Outros bancos podem ter mais dinheiro, mas Morgan tem mais credibilidade.
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- H algumas coisas com as quais estou preocupada, meu filho - disse mame. - Voc j notou que o seu Dragon Center vai lanar uma sombra sobre um tero da praa
Tiananmen quando o sol estiver se pondo? E todos os prdios no seu Centro tm topos que terminam em agulhas. As sombras insultam a praa, e os topos pontiagudos
insultam o cu todo-poderoso. As supersties dos chineses tm uma razo de ser.

- Mame, isso  o futuro de Bejing. Todos os prdios se estendem para alcanar o cu. Eles simbolizam o esprito humano voando cada vez mais alto. Alm do mais,
eles contrastam maravilhosamente com os telhados dourados e curvos da Cidade Proibida.

- Consulte um monge especializado em feng shui antes de comear - sugeriu ela.

- Tenho absoluta confiana em LM. Pei.

- Foi ele que projetou aquele prdio do Banco da China em HongKong em forma de espiral? - perguntou ela.

- Foi, por qu? " ;

- Os tradicionalistas de Hong-Kong esto muito aborrecidos com isso, prevendo que um dia uma tragdia ir se abater sobre toda a ilha por causa daquele prdio desafiador.

- Mame, jogue fora as suas supersties. No v como as pessoas esto reagindo ao glamour e  glria do projeto?

- Eles no sabem nada sobre agulhas e sombras.

- Obrigado pelos seus conselhos, mame, mas este drago vai voar, custe o que custar.

- Meu filho, no estou querendo desestimular voc,  s uma precauo. Sou a nica no meio de toda essa gente que tem coragem suficiente para lhe dizer a verdade.
Seu pai e seu av j caram aos seus ps. Eles no falam mais com bom senso. Eu falo.

Abracei minha me novamente e afastei-me com relutncia para cumprimentar a multido que festejava. As palavras de congratulao borbuIhavam como o champanhe que
estava sendo servido. O prefeito atravessou a multido para apertar a minha mo.

- A cidade vai dar todo o apoio a voc para que este projeto se realize. Beijing precisa de algo assim - disse ele.

Reprteres de jornais e revistas do mundo inteiro vieram me entrevistar.
354

 Qual  a mensagem que o senhor est dando ao mundo com este projeto? - perguntou algum da Newsweek.

- A mensagem  simplesmente que o gigante doente da sia est novamente de p e j decolou.

O reprter anotou rapidamente as minhas palavras.

- Quanto tempo o senhor acha que a China vai levar para conseguir ocupar a posio que o Japo detm e tornar-se o pas lder da sia e, por que no, do mundo?

- Mas j no somos?

Uma salva de palmas seguiu-se  minha resposta.

Olhei meu relgio novamente. O tempo estava se esgotando. Onde estavam Fei-Fei e Sumi? Ser que ele estava bebendo? Eu tinha dito a Fei-Fei que s comeasse a beber
seu primeiro gim-tnica depois que voltasse de Tianjin. Eram cinco para as oito. Fei-Fei j deveria estar de volta ao hotel a esta hora. O que estaria causando o
atraso?

Olhei ao redor. Fei-Fei no estava l. Disse a mim mesmo para ter pacincia. Aquela apreenso pr-casamento estava me atingindo mais do que eu imaginava.

Eram oito da noite. O gerente do hotel, vestindo um smoking, veio at perto de mim discretamente e sussurrou:

- Onde est ela?

-  exatamente o que estou me perguntando.

- Vou deixar tudo pronto e em compasso de espera at ela chegar.

- Boa idia.

s 8hl5, um Fei-Fei desalinhado e despenteado finalmente apareceu. Meus olhos se acenderam ao v-lo. Puxei aquele homem magro e desajeitado de lado:

- Onde est a minha noiva?

- Precisamos conversar - disse ele.

- Voc precisa de um drinque?

- Sim, e voc tambm, um bem forte. - Fei-Fei arrastou-me por uma porta at uma sala vazia. - No conseguimos encontrar Sumi.

- Deixe disso! Eu o conheo! O editor-chefe e sua escritora predileta fazendo uma brincadeira com o dono da editora.

- Estou falando srio. Sumi desapareceu! - berrou Fei-Fei, sacudindo meus ombros com energia. -  verdade. Procuramos por todo o hotel.
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Comunicaram que havia um incndio, as crianas foram retiradas do local, e a ento ela sumiu. Seu quarto estava intacto. Tudo que ela tem est l: seu manuscrito,
suas roupas, tudo. Uma das crianas disse que ela saiu de l com um bombeiro. Contatamos os bombeiros. Eles disseram que nenhum incndio foi comunicado, e tampouco
mandaram algum ao hotel hoje  tarde. Alis, todos os bombeiros estavam bebendo, jogando e celebrando o Ano Novo no posto do Corpo de Bombeiros. . " ,

- E a polcia?

- Eles no sabiam de nada sobre o assunto. >, -       \ .

- Deve ter sido uma priso sigilosa - disse eu.

- No. Se fosse esse o caso, eles deixariam o pblico saber depois da priso ter sido efetuada. Eu os ameacei, e o chefe de polcia disse que eu estava cometendo
um engano. Eles no haviam detido ningum. Ento, eu os acusei de seguir Sumi enquanto ela estava em Tianjin, coletando dados sobre os podres da corrupo na cidade.
Eles disseram que eu estava certo, mas que a investigao havia sido interrompida durante as festas de fim de ano. Apenas um homem devia segui-la, mas foi dispensado
da tarefa por uma ordem superior.

- Uma ordem superior? - Meu corao se apertou. - E o misterioso bombeiro? Vou para a minha sute agora. Encontre o David Li. Ele  filho do ministro da Segurana
Pblica. Traga-o at aqui.

- Sim, Tan.

Subi  minha sute e tirei o palet do smoking. Pouco depois, quando David Li chegou, peguei a mo do banqueiro e implorei:

- Preciso da sua ajuda.

- Mais um outro emprstimo bilionrio? - perguntou ele, brincando.

- Quem me dera se fosse isso! - Passei-lhe o telefone. - Ligue para o seu pai e descubra para mim quem seqestrou Sumi Wo em Tianjin, hoje  tarde. >, A

O sorriso desapareceu do rosto de David. , . u-/

- S me d um minuto.

Corri ao banheiro e joguei um pouco de gua no rosto.

- Sr. Long - disse David, depois de 15 minutos ao telefone.

- Tan, por favor.

- Sr. Long, as notcias no so boas. As ordens vieram da Guarnio Militar.  tudo o que sabemos.
"356
- Da Guarnio?
 Os homens do presidente, para ser mais especfico.
- H algum nome ou motivo? Qualquer coisa? > '
- A Guarnio no precisa de motivo. Eles so a KGB da China.
- Tem que haver um nome. David, meus acordos de emprstimos com voc dependem do que voc conseguir fazer por mim hoje  noite. Use todo o tempo que precisar e descubra.
- Mas eu tentei.
- Esta no  a resposta certa.
- Sr. Long...
- Por favor, David. Direi  sua esposa que voc est no telefone com um banqueiro estrangeiro discutindo uns emprstimos importantes.
David Li, o banqueiro, filho do homem mais temido deste pas, provourne que todas as portas podem ser abertas por um preo. Vinte minutos depois, encontrou-me no
salo l embaixo.
- Shento - disse ele.
- Topo da montanha?
-  o nome de um jovem coronel.
- Ele tem sobrenome?
- Nada que eu pudesse descobrir. Fiz tudo o que era possvel por voc.
- Obrigado. Como sabe, eu sempre recompenso em dobro o que me foi dado.
- Fico feliz por ter sido til, sr. Long.
- Por favor, me chame de Tan daqui por diante, porque somos amigos.
- Tan. - O banqueiro afrouxou a gravata e sorriu. - Amigos. Gostei disso.
Quando reuni minha famlia na sute e dei a notcia do desaparecimento de Sumi, vov serviu-se de outro drinque. Mame disse:
- Eu avisei. Essa moa traz confuso. Papai baixou a cabea. Ele fitava o cho.
- Quem  esse Shento? Voc j ouviu falar dele antes? - perguntei a meu pai.
Houve um longo silncio, e ento ele respondeu: - Ele  seu meio-irmo. E seu pior inimigo.

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- Meu meio-irmo! - exclamei, incrdulo.
H muito tempo, conheci uma moa em Balan. Ela se matou quando
a criana nasceu. Aquela criana era Shento. - A voz de papai estava triste e sombria. - Ele cr que eu o abandonei, mas na verdade eu achava que ele tinha morrido
quando a vila foi queimada. Ele caiu nas mos do nosso inimigo, Heng Tu, que o usou para incriminar voc pelo crime que voc no cometeu. Foi Shento que matou a
sua professora, Miss Yu.
Passaram-se alguns segundos at que eu conseguisse falar novamente.
- Por que voc no me disse isso antes? Agora meu meio-irmo seqestrou minha noiva.
Tomei trs doses de conhaque e sa intempestivamente do salo. Precisava fazer alguma coisa. Disse a Fei-Fei que cancelasse o helicptero, telefonei para que meus
homens continuassem a busca em Tianjin e mandei um motorista apanhar Tai Ping. Voltei para a festa, fingindo que nada tinha acontecido, dando tapinhas nas costas
de uns e outros aqui e ali, conversando com meus convidados e at brindando com eles, ficando cada vez mais bbado.
Ento, puxei Fei-Fei de lado e sussurrei alguma coisa no seu ouvido.
- Tem certeza de que quer seguir por esse caminho? - perguntou ele.
- Voc tem alguma outra idia?
- Ento  guerra.
- De fato. Que comece, ento. ,   , Bebi outro drinque, enquanto Fei-Fei saa apressadamente.
Fei-Fei distribua um informativo para todos os jornalistas, nacionais e estrangeiros, no final da fila de convidados que se despediam do elegante e educado anfitrio
e saam do salo de recepes.

Shento

CAPTULO 42

PASSEI A NOITE SEM DORMIR, SENTINDO a falta de Sumi. Quando a manh chegou, fui acordado pelo meu secretrio pessoal que me trazia uma pilha de jornais.
- Coronel - disse ele, com ansiedade. - Por favor, leia as manchetes traduzidas.
Sentei-me na cama e li o primeiro jornal da pilha. A primeira pgina do New York Times alardeava: "Lder democrata seqestrada pelo governo chins". Rapidamente
folheei o resto da matria. "... Sumi Wo, a autora do livro campeo de vendas, A rf, foi dada como desaparecida na noite da vspera do Ano Novo. Fontes indicam
que ela foi detida ilegalmente pela conhecida Guarnio Militar em uma operao secreta na cidade de Tianjin, liderada por um jovem coronel de nome Shento." Havia
uma foto dela, a mesma foto da capa do seu livro. O britnico Financial Times previu que a China rumava para outra crise e Sumi era apenas uma arraia mida para
assustar os peixes maiores.
Atirei todos os jornais no cho, vesti-me apressadamente e fui ao meu escritrio, onde meu jovem general de Beijing, tenente Bei, estava me aguardando.
360
- Quem voc acha que deixou vazar a informao do nosso envolvimento no caso? - perguntei.
- Ainda estou verificando isso.
- Deve ter vindo de Tan Long. Passe-me a lista dos convidados que compareceram  recepo dele ontem  noite. Voc tem essa lista, no ?
- Tenho, coronel. - O tenente procurou rapidamente entre suas anotaes. - Aqui est. Trezentos dos seus amigos mais prximos, com seus ttulos e filiaes polticas.
- Por que no escolhe um nome? Esta  a sua rea. Devolvi a lista sem olhar.
- Sim, coronel. - Ele correu seus olhos pela lista e fez uma pausa. - O possvel vazamento da informao deve ter vindo de David Li, o filho do ministro da Segurana
Pblica. Ningum mais poderia ter sabido disso. David  o gerente do Banco da China e Tan  seu cliente. Eles so muito prximos.
-  hora de cortarmos alguns dos dedos dos ps e das mos que trabalham para esse garoto Long. Faa uma lista de todos os scios e amigos de Tan.
- Sim, coronel.
- Vamos acabar com eles um por um, at que ele se sinta sozinho no mundo. E no se esquea de telefonar para nossos amigos de Fujian. Uma grande parte de seu Imprio
do Drago est l - disse eu.
- Ah, s mais uma coisa - disse o tenente Bei. - O gerente geral do Hotel Beijing me informou que Tan Long apresentou, na recepo de ontem  noite, um projeto para
construir um Dragon Center monumental.  um projeto de um bilho de iuanes. Ouvi dizer que o pedido de aprovao da construo est sendo registrado nesse exato
momento.
- Dragon Center,  assim que o esto chamando? Muito auspicioso, de fato - disse eu, secamente. - Ordene  Secretaria de Planejamento Urbano que suspenda qualquer
deciso relacionada a este registro especfico, e que reescrevam seus regulamentos para proibir quaisquer sombras sobre a nossa amada praa.
- Providenciarei isso imediatamente, coronel - prometeu o tenente Bei, saindo do escritrio.
Meu prximo passo foi o controle de danos. Certifiquei-me de que meu uniforme estava em perfeito estado, dobrei os jornais cuidadosamente e entrei no escritrio
do presidente.

361
O velho estava sentado ao sol. A enfermeira me viu entrar e saiu silenciosamente.
- Feliz Ano Novo, sr. presidente - disse eu. Rapaz, voc pegou a moa, no foi?
O presidente no se virou.
Posso explicar tudo. A moa, Sumi Wo, j estava na minha lista de
observao h alguns meses. Ela  um perigo em potencial  nossa estabilidade. Seu primeiro livro vendeu cinco milhes de exemplares, sem contar as cpias que foram
feitas  mo. Nossas fontes mostram que seu segundo livro ser uma revelao dos mecanismos internos do governo de Tianjin, e ameaar a operao bem-ordenada do
governo da cidade. Ela  a portavoz de inmeras organizaes e revistas pr-democracia...
- Me parece uma boa moa. - O presidente me fez sinal para parar. Girou em sua cadeira de rodas, que se prendeu de encontro  mesa. Ajudei-o a virar-se at ficarmos
cara a cara. - Seja mais discreto da prxima vez. Todos os principais jornais no mundo esto protestando. Isso no  compatvel com a minha imagem de lder reformista.
Voc j fez melhor do que isso. Onde ela est agora?
- Foi liberada.
- Ento por que voc a prendeu, para incio de conversa?
- Porque quero descobrir quem est por trs dela.
- E quem so eles?
- Seu velho amigo do Imprio do Drago.
- Ding Long?
- Tan Long, seu filho. Ele  o editor do livro de Sumi Wo e de muitos outros ttulos proibidos, atravs de sua editora Mar Azul.
-Ele  ambicioso demais para ser alguma coisa que preste. Achei que tinha voltado para Fujian com o resto da famlia quando eles se aposentaram.
- O dragozinho conseguiu entrar na Faculdade de Direito da Universidade de Beijing, rejeitou todos os cargos estatais e abriu seu prprio negcio. Est propondo
construir um Dragon Center monumental, que ofuscar a nossa amada praa Tiananmen.
- Monumental? Ofuscar? - O velho franziu a testa. - Isso no pode ser boa coisa.
- O prdio lanar sombras sobre um tero da praa, na parte da tarde.
362
- Isso  uma ofensa direta contra mim.
- J bloqueei o projeto perante a prefeitura. Um novo regulamento est sendo redigido, neste exato momento, proibindo quaisquer sombras sobre a nossa praa. Ding
Long tambm esteve aqui na noite passada. Eu no ficarei surpreso se ele estiver por trs de toda esta confuso.
Heng Tu sentou-se ereto, com os olhos chispando de raiva. -- As ervas daninhas esto se espalhando. Devamos t-las arrancado pela raiz desde o incio.
- Nunca  tarde demais.
NAQUELA TARDE, NO MEU ESCRITRIO espartano, porm espaoso, eu estava rodeado pelo ministro da Propaganda, pelo ministro da Segurana Pblica, pelos comissrios
polticos do Comit Central Comunista e por uma dzia de jornalistas dos principais jornais do governo.
O veterano redator do Ministrio da Propaganda, bem versado na arte dos sofismas comunistas, leu em voz alta o texto que ele havia cuidadosamente redigido para ser
transmitido pela principal agncia de notcias, Xinhua, para divulgao em todos os jornais do governo do pas inteiro.
Por ordem do presidente, eu deveria dar a palavra final sobre cada linha a ser publicada. O protocolo da sutileza poltica da China foi ostensivamente exibido pelo
fato de eu estar no centro da sala, sentado numa grande cadeira por trs da escrivaninha, em vez dos dois ministros j idosos, que mal conseguiam manter os olhos
abertos, sentados no sof, no calor do sol poente. Eles estavam l porque eu precisava deles nesta batalha de palavras, uma medida que precedia outro expurgo poltico,
um acontecimento to comum quanto uma queimadura de sol no vero ou uma gripe no inverno.
O discurso estava salpicado de expresses batidas e cristalizadas como "elementos burgueses", "correntes anticomunistas", "anarquistas" e "estado catico de uma
democracia apodrecida". Era uma msica antiga com novos significados. Eu amava cada uma daquelas palavras. Os dois ministros cochilavam.
- O que o senhor acha, senhor ministro da Propaganda? - perguntei, cutucando-o.
O ministro da Propaganda acordou de repente, limpando a baba que escorria com a manga da camisa.
363
- Estou plenamente de acordo. Acho que o tom  bastante forte para dar um aviso ao resto do mundo sobre qualquer outro ataque  nossa liderana comunista.
- Sim, isso deve calar a boca de todos eles - disse o ministro da Propaganda, despertado pela declarao repentina do ministro da Segurana.
- Ento, est pronto para ser publicado, companheiros - disse eu. - Nosso presidente lhes agradece pelo trabalho bem-feito. Lembrem-se: editorial na primeira pgina,
exatamente com estas palavras.
- Sim, coronel. - Cada um dos jornalistas pegou sua cpia e saiu. Dei um tapinha do ombro do redator.
- Voc no perdeu o jeito. Agradecido, o homem fez uma reverncia.
- Sinto-me honrado em poder servi-lo.
Pedi ao ministro da Segurana Pblica que ficasse depois de todos terem sado.
- O que mais posso fazer pelo senhor, coronel?
- No por mim, mas pelo presidente - disse eu, sentando-me no brao do sof.
- O que mais posso fazer por nosso querido presidente? - emendou
ele.
- Aconselhe seu filho, o banqueiro, a ficar longe de Tan Long - disse
eu com seriedade.
- Meu filho? - perguntou o velho, alarmado.
- Foi seu filho que deu o telefonema que deflagrou toda esta confuso,
no foi?
- Lamento muito, coronel. - O ministro fez uma reverncia,
tremendo.
- So rapazes muito jovens e inocentes. Mas eles tm que aprender.
- Sim, sim, eles tm que aprender. Eu mesmo vou puni-lo por isso. Por favor, d-lhe uma chance.
- Farei isto, senhor ministro. Respeito o senhor e seu longo tempo de servio  revoluo. Seria uma pena ver seu filho prejudicado de uma forma ou de outra. Ele
tem um futuro brilhante pela frente.
- Por favor, permita-me reparar o erro, coronel.
O homem fez uma reverncia e saiu como se fugisse de um fantasma.

CAPTULO 43

O MAR ESTAVA TERRIVELMENTE AGITADO, como se estivesse bbado. Suas ondas iam e vinham e bradavam num discurso incoerente. Gaivotas voavam seguindo o fluxo do vento
tempestuoso. Algumas eram desviadas de seu rumo e caam nas ondas de bordas brancas que se elevavam, emitindo perturbadores grasnidos de aviso.
Meu corao cantava a triste cano do mar. Tudo ao meu redor combinava com a melancolia do meu estado de esprito. Desde que deixei Shento, fiquei vagando sem rumo
pela beira do mar, rodeada por uma escurido apenas interrompida por postes solitrios, cujas luzes fracas davam ainda mais profundidade  noite. Meu corao ansiava
pelo mar, como se ele me chamasse: Venha a mim, minha criana. Como desejava poder mergulhar dentro de seu ventre! Assim, todas as minhas dores se amenizariam.
Apaixonada por dois irmos! Eu amaldioava o meu prprio destino, as trs facas cravadas nele. Quem eu deveria escolher? Shento, com sua crueza da gente das montanhas
e sua sede desesperada? Ou Tan, com o corao amoroso que tranqilizava minha mente, sem deixar espao para a mgoa e a solido, fazendo com que eu no precisasse
de mais nada? Um morreria por mim. O outro no viveria sem mim.
366
Em algum lugar, nas profundezas da minha alma, uma pequena folha de remorso j havia crescido. Como pude fazer a promessa de voltar para Shento? Sim, eu sentia amor
por ele. Sim, ele estava vivo e era bonito. Sim, ele se tornara um homem com poder e com um futuro que s poderia ser medido pelo alcance da sua ambio. Mas como
poderia abandonar Tan, o amor da minha vida atual, meu apoio? Desejava que o tempo parasse e que eu deixasse de existir. Estava cansada, meus ps estavam frios,
e minhas costas doam. Meus olhos se embaaram fitando o mar montono que rugia.
Encostei-me num telefone pblico enferrujado e disquei o nmero que sabia de cor.

CAPTULO 44

SEGUREI SUMI EM MEUS BRAOS. Sentados no sof da nossa sala de estar, a luz do sol nos inundou. Seus olhos estavam fechados, e, de vez em quando, ela se contraa
enquanto dormia, sonhando. Graas a Buda, estava de volta aos meus braos, segura no meu mundo. Depois que ela me ligou da cabine telefnica  beira-mar, peguei
um avio at Tianjin para ir busc-la. Toda molhada e tremendo como um animal que levou uma surra, ela ficou em silncio durante todo o trajeto de volta a Beijing.
Eu lhe disse o que havia feito, e como havia alertado a imprensa sobre seu seqestro. Ela balanou a cabea levemente e caiu no sono.
Naquela manh, o primeiro dia do Ano Novo, recebi uma pilha de jornais contando a histria de Sumi: o New York Times, o Yomiuri Shimbun, de Tquio, o Financial Times,
de Londres, e alguns jornais franceses e alemes. A lista era longa. O poder desta nova arma era a mais velha espada da humanidade. Oua as suas palavras, os homens
sbios sempre diziam. As palavras podem matar. Eles estavam certos.
Por que no fundar eu mesmo mais jornais e revistas? Meus prprios veculos para informar as pessoas deste pas? Talvez at estaes de rdio e televiso. Poderia
instalar uma rede de televiso e torres de rdio bem no
368
topo do Dragon Center. Um encaixe perfeito. O cu seria o nico limite  minha viso. No, na verdade, o cu seria a minha extenso.
Apesar de tudo, eu estava empolgado com meus projetos para o novo ano. Queria compartilhar meus ltimos planos com Sumi, mas deixei-a descansar. Quando ela finalmente
abriu os olhos, suas primeiras palavras para mim foram:
- Voc me ama?
- Claro, Sumi! Sempre! Alis, ontem  noite eu havia planejado algo de muito especial para ns. Como voc no veio, um enorme bolo de casamento se derreteu e duzentas
pessoas festejaram num banquete sem a noiva.
- Bolo de casamento?
Mostrei-lhe a caixa de veludo com o anel e abri a tampa. Dentro, havia um brilhante reluzente.
- Eu ia lhe dar isso ontem  noite.
- Um anel de casamento?
- Sim, eu ia lhe fazer uma surpresa na noite passada - planejei um casamento completo para ns.
- Ah, meu querido! Meu querido Tan! - Ela se levantou e me beijou. - Sinto muito. Voc pode me perdoar?
- Num piscar de olhos. Se eu puder me casar com voc num outro dia.
Sumi desviou o olhar.
- Qual  o problema? Tudo vai ficar bem agora. Aquele tal de Shento no vai mais tocar em voc. Mostrei a ele que os meus escritores no devem ser presos ou torturados.
Alm disso, estou pensando em abrir um processo contratando os melhores advogados do pas para se dedicarem a este caso. Isso deflagraria...
- Pare, Tan. No  to simples assim.
- Mas  claro que . O governo deveria dar mais liberdade a todos ns. Ns precisamos, o povo exige, e vou defender isso com voc...
- Pare! Voc no sabe o verdadeiro motivo da minha deteno.
-  porque voc  como uma dor de dente para eles.
- Isso foi s uma fachada. - Ela pegou na minha mo. - Tenho uma coisa para lhe dizer.
- Eu tambm. Esse Shento, esse coronel da Guarnio, pode ser meu meio-irmo. D para acreditar?
369
Ele  seu meio-irmo - disse Sumi. - Ele me contou, mas no 
s. Lembra do rapaz que morreu por mim?
Lembro... seu nome era Shento tambm, no era? - Eu franzi a testa.
 o mesmo homem. Ele  o Shento que eu conhecia. Ele me descobriu
ontem em Tianjin.
Levantei-me e comecei a perambular pela sala.
Aquele rapaz, seu antigo namorado,  meu meio-irmo? Shento?
Mas ele foi executado, voc disse.
-Ele foi poupado no ltimo momento. Algum o salvou, sabe-se l quem. O destino nos pregou uma pea, meu querido Tan. No sei o que fazer.
- Este problema  nosso. Vamos resolver isso juntos. Sentei-me, abraando Sumi.
Ela sussurrou: >'
- Vou me mudar daqui.
- O qu? - Levantei-me de um pulo. - Voc vai voltar para ele?
- No. Vou para um lugar muito longe de vocs dois. Havia uma determinao delicada em sua voz.
- E quanto a ns?
- Vou amar voc para sempre.
- Voc o ama tambm?
Ela hesitou e ento disse suavemente: ,
- Sim, eu o amo.
- Como pode?
- Como posso no amar? - Ela balanou a cabea. - Se ele no tivesse sobrevivido, eu teria ficado muito feliz em ser sua mulher. Estou indo embora apenas para salvar
voc...
- Aquele monstro a ameaou com isso?
- Ele  capaz de cumprir sua ameaa.
- No cederei a ele e nem vou desistir de voc.
- Isto no  uma competio. Estou indo embora para que os dois possam continuar vivendo em paz.
- Voc no pode ir embora assim, sem mais nem menos - disse eu, frustrado.
- O dio da ltima gerao no deveria continuar - disse Sumi. - Vocs dois so grandes homens. Lutar um contra o outro seria um desperdcio. Tan, estou decidida.
370
Ela foi at a porta e pediu a Nai-Ma que preparasse Tai Ping para ir embora.
- No v o que arrisquei por voc? - Eu sacudi os jornais. - As pessoas em todo o mundo sabem da sua deteno. Shento ir tremer diante dessa condenao internacional
de um terrorismo equivalente aos atos da Gestapo.
Sumi pegou o Times e seu rosto empalideceu.
- Voc no devia ter feito isso.
- Ah, mas tem muito mais ainda. Voc sabia que foi ele que matou Miss Yu, crime pelo qual fui incriminado e que desencadeou a queda do cl dos Long? Ser que ele
gostaria de estar na primeira pgina amanh?
- Voc no pode fazer isso! Voc no pode iniciar uma guerra. Se no for por mim, que seja pelo bem de Tai Ping.
Virei-me para a janela e ouvi a porta se fechar atrs de mim, enquanto Sumi partia sem fazer rudo.

Shento

CAPTULO 45

Ao MEIO-DIA, NA MAJESTOSA ENTRADA da Guarnio Militar de Beijing, um jipe do Exrcito pegou Sumi e meu filho e os conduziu atravs de inmeros ptios, passando
por velhos pinheiros, lagos com peixes coloridos e colunas de jovens soldados marchando para l e para c, patrulhando a sede do governo. Eu estava nos degraus da
entrada do meu escritrio no palcio, de uniforme, pronto para conhecer meu filho.
A porta do jipe se abriu e a me ajudou o filho a sair. Tai Ping ergueu a cabea e olhou para mim.
- Quem  esse homem grande? - perguntou ele para sua me, em voz alta e clara.
- Seu pai - disse Sumi.
- Meu pai? Mas eu j tenho um pai... em casa.
- Tan Long ama muito voc. Mas esse  o seu verdadeiro pai. Eu me agachei e examinei meu filho.
- E quem  esse aqui? - perguntei.
O menino pareceu tomado de uma sbita timidez.
- Seu filho, Tai Ping - respondeu Sumi, orgulhosamente.
373
Meu filho me fitou por uni bom tempo, at que seu rosto redondo se abriu num sorriso meigo. Sorri para ele e o pus no colo, sentindo seu corao bater de encontro
ao meu corpo. Que momento especial! Um momento para ser saboreado! Quando ele comeou a se remexer, relutantemente o deixei sair e me levantei. Esfreguei minhas
mos nervosamente, no sabendo o que lhes mostrar primeiro. Levei-os para dentro.
- Este j foi o escritrio do primeiro-ministro da dinastia Ch'ing. Meu menino estava impressionado.
-  bonito.
Ao lado do meu escritrio havia uma sala onde estava, elegantemente exposta, uma coleo de espadas, lanas e adagas ornamentadas, usadas na dinastia Ch'ing.
- Voc sabia que o ltimo imperador era um menino como voc? - perguntei. - Naquela sala - prossegui, apontando para ela - esto as armas que ele usava. Voc gostaria
de v-las?
-  mesmo? Posso ver?
- Claro que pode.
Tai Ping saiu correndo sozinho, todo entusiasmado.
- Voc veio para ficar? - perguntei a Sumi.
- No, vim aqui dizer adeus.
- O qu? Mas e quanto  sua promessa? - indaguei.
- No posso pertencer a dois homens ao mesmo tempo - disse ela, com tristeza.
- Ento, vai voltar para ele?
- No, no vou voltar para ningum. Vou me afastar de vocs dois.
- Mas preciso de voc! Preciso amar voc.
- Estou perdida agora. Preciso de calma para encontrar a mim mesma e ao meu destino.
- Seu destino  comigo. No vou perd-la de novo, nunca.
- Isso  uma ameaa?
- No,  a minha vontade. Foi o que me manteve vivo todos esses anos sem voc.
Ela ficou quieta, evidentemente comovida com minhas palavras. Ento, disse:
- Deixe-me ir ou me perder para sempre.
- Como pode me negar a minha nica alegria?
Voc pode avaliar o meu pesar, a minha dor? Tem idia de como 
estar dividida entre dois amores? Tem? Meu corao se partiu em pedaos. Vocs, homens, jamais conseguiro compreender. Eu s quero morrer! Sua voz atravessou o
ptio.
Dois guardas entraram, apressados. Fiz sinal para que fossem embora e trouxe Sumi at o sof.
O pequeno Tai Ping entrou correndo.
- O que voc fez com a minha me? Deixe ela em paz! - Ele comeou a chorar e a bater em mim com seus pequenos punhos e s se acalmou quando Sumi o puxou para os
seus braos.
Sa da sala, sem saber o que fazer. Esperei do lado de fora, com medo de Sumi ter enlouquecido. S depois de um longo intervalo  que voltei, de mansinho, e perguntei:
- Voc vai voltar?
- No sei - disse ela, balanando a cabea.
- Se voc realmente precisa ir, por favor, fique comigo esta noite e o amanh ser todo seu - pedi.
- Prometa pr um fim nessa rixa com os Long. Fiz que sim com a cabea.
Jantamos em silncio e depois nos deitamos na cama como marido e mulher. Ela estava fria e de olhos fechados, enquanto eu maculava sua perfeio angelical com o
meu desejo abjeto. Quando no consegui mais suportar seu distanciamento, enterrei meu rosto no doce vale entre seus seios. Nunca antes conhecera tal desespero -
o fato de Sumi estar me ignorando era algo insuportvel. E ento, sua mo alcanou a minha cabea e comeou a afagar meus cabelos. Por fim, ela correspondeu ao meu
ardor, levando meu rosto ao dela, beijando-me suavemente no comeo, e depois ardentemente.
Quando a primeira luz do dia se anunciou sobre o telhado dourado e curvo do palcio, Sumi pegou Tai Ping e passou, andando nas pontas dos ps, por um guarda que
dormia. Foram embora na luz da aurora, projetando compridas sombras no ptio de tijolos. O nico resqucio de sua presena foi uma mensagem sem palavras que deixou
sobre minha escrivaninha: a marca de um leve beijo gravado a batom numa folha de papel de carta.

CAPTULO 46

2 de janeiro de 1986
BEIJING
A MANHA ESTAVA MIDA POR CAUSA da neve que caa. No se via o sol no cu. Quando acordei, o dia acinzentado serviu apenas para piorar o meu humor. Sentia falta de
Sumi, e isso era ainda mais intolervel num dia como esse. O vento uivava, fazendo voar o lixo escondido nas esquinas, e chorava como um fantasma agitando os fios
eltricos e as rvores sem folhas. Dias escuros e melanclicos como esse eram um convite para o mal. A infelicidade se abatia sobre os desgraados e a m sorte invadia
os lares. As pessoas riam menos e choravam mais. Os bbados escalavam a lua, e os loucos mergulhavam no mar. Este era o meu estado de esprito quando entrei no meu
escritrio naquele dia. Todos os meus gerentes estavam enflleirados na porta do escritrio. Seus rostos refletiam a cor do dia.
- Sentem-se, meus amigos. Qual  o problema? - perguntei. Fei-Fei olhou para Mike Blake, que olhou para Lena.
- O que foi? - insisti. <
- Leia isso, por favor, chefe. - Fei-Fei colocou o Peoples Daily sobre a minha mesa. - O People's Daily, o Guangming Daily, e todos os cerca de trinta jornais oficiais
deste pas trazem a mesma manchete estampada na primeira pgina.

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Sentei-me e li as primeiras linhas da reportagem:
CONDENADO FALSO RELATRIO ANTI-CHINS O recente relatrio acusando a Guarnio Militar da China de ter seqestrado a famosa escritora Sumi Wo foi uma farsa elaborada
por elementos anti-chineses que existem dentro e fora da China. Esta calnia
- que tem a inteno de macular a perfeita democracia socialista do pas, propulsora do nosso fenomenal crescimento econmico e de um alcance recorde dos direitos
humanos - ser investigada a fundo. Os maus elementos envolvidos sero levados  justia de modo que possamos proteger a integridade de nosso pas...
- Isso no me assusta - disse eu, tentando melhorar o clima.
- Chefe, fique na sua por um tempo - pediu Fei-Fei.
- Ficar na minha? Que tipo de retrica  essa? - perguntei. - Logo voc, o lder do segmento do pensamento liberal?
- Houve uma reunio de emergncia do gabinete e de toda a equipe de propaganda da provncia - prosseguiu ele.
- H um outro expurgo a caminho, e sempre comea assim - disse Lena, preocupada.
- E sempre termina com um bode expiatrio sendo abatido para assustar os peixes grandes. Temo que dessa vez ns sejamos o bode expiatrio
- disse Fei-Fei. - Ningum est seguro aqui - acrescentou ele, olhando para todos os presentes.
-Voc tem a opo de voltar para o seu comrcio de barcos na Virginia, Mike - sugeri a meu amigo americano. - E voc pode voltar  gerncia do seu banco em Fujian,
Lena. Mas eu vou ficar aqui. J fui expulso desta cidade onde nasci. Nada - disse, socando a mesa -, nada far com que eu me movimente um milmetro daqui desta vez.
- S queremos que voc tenha cuidado - disse Mike.
- Por que no tentam ser prestativos e teis em vez de serem cautelosos?
- perguntei rispidamente. - Tenho notcias piores do que essa. Sumi e eu... estamos nos separando... Quer dizer, temporariamente.
- O que aconteceu? - perguntou Lena.
- Algo que ningum aqui gostaria de saber - respondi, com resignao.
Lena veio at mim e me abraou. Mike balanou a cabea e disse:
- Desculpe, amigo. Vou lhe servir um drinque.
- Voc nunca achou que casar com ela fosse uma boa idia, no  mesmo? - perguntei a Mike.
Mike deu de ombros.
- Essa  a minha resposta de sempre quando se trata de casamento, mas nunca desejei que vocs se separassem.
- Vamos aos negcios. Sentem-se - ordenei.
- Os negcios podem esperar. Podemos voltar uma outra hora-disse Fei-Fei.
Mike e Lena assentiram.
- No, fiquem e ouam. Pensei em algo ontem. A Drago & Cia. deveria atuar em mais reas da mdia. Ns publicamos livros, mas quero que voc, Fei-Fei, lance uma
dezena de novas revistas: poltica, estilo de vida, moda, negcios, tudo. E jornais com todos os assuntos publicveis. Sempre dei muito valor ao lema simples que
o New York Times imprime no alto de sua primeira pgina todos os dias: "Todas as notcias que podem ser publicadas." Gosto disso. Tudo o que pode ser publicado.
- Mas essa no  a melhor hora - observou Fei-Fei.
- Pelo contrrio, esta e a melhor hora. O crescimento econmico gera mais liberdade de expresso. Nosso regime poltico sufocante vai matar a determinao das pessoas
e impedir o boom que j estamos vivendo aqui. Tradicionalmente, o governo controla a mdia e diz s pessoas, a um bilho de chineses, o que elas devem ouvir ou
ler. Temos que mudar isso. Depende de ns. Quero publicar e transmitir a verdade. As pessoas tm o direito de saber a verdade, como  garantido pela Constituio.
- Voc sabe muito bem que a Constituio de vocs  uma piada - disse Mike.
- Voc tem razo.  uma piada agora. Mas tambm quero mudar isso, para reforar a inviolabilidade do domnio da lei, e conter os absurdos dos nossos governantes
corruptos. As mudanas comeam conosco, no com eles. Queremos ter os nossos prprios canais de televiso, TV a cabo e estaes de rdio. E sabe por que gosto tanto
dessa idia?
- Por qu? - perguntou Mike.
- Porque enquanto estamos fazendo algo importante para esse pas, vamos ganhar dinheiro, muito dinheiro. A mdia ser a grande indstria do prximo sculo. Comida,
bebida e todas as necessidades bsicas j
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foram providas. Um bilho de pessoas no mundo tm fome de alimento para a alma. Elas querem ler, ver e ouvir coisas novas e significativas. Saia e encontre uma equipe
de editores e escritores com novas idias e estilos inovadores. Quero que as pessoas anseiem pelo nosso material impresso. Quero estabelecer uma marca, como o New
York Times, Forbes e The Economist. Quero que as pessoas tenham orgulho de ler nossos jornais e revistas e que se sintam enriquecidas e privilegiadas por ter acesso
ao nosso trabalho. Nunca nos abandonaro se conquistarmos seus coraes. Fei-Fei, quero que voc verifique as exigncias de concesso para abrir estaes de TV e
rdio por toda a China.
- Vou fazer isso, sr. Long. Mas a censura do governo ser o nosso maior obstculo.
- Sei que todos faremos o impossvel. O possvel j foi feito. Voc, Lena, por favor fale com David Li, o gerente do Banco da China, para ver se o dinheiro comunista
pode financiar mais alguns dos nossos empreendimentos capitalistas. Venda a idia, como voc sempre fez to bem.
- Vou verificar isto agora mesmo.
- E, Mike, j enviamos o pedido de licena para a construo do Dragon Center  prefeitura de Beijing?
- Foi entregue em mos no escritrio do diretor-geral da Secretaria de Planejamento Urbano ontem. Uma cpia foi enviada ao gabinete do prefeito. Espero receber a
licena dentro de uma semana. Ainda devem ter vivo na memria o gosto da boa comida, dos bons charutos e da boa bebida que voc serviu.
- Obrigado, Mike. Deixe todas as preocupaes com o governo para mim. Temos os melhores advogados ao nosso lado. Lutaremos at o fim. Feliz Ano Novo para todos!

Shento

CAPTULO 47

PELA PRIMEIRA VEZ NA MINHA LONGA carreira militar, dormi mais do que devia. Esfregando os olhos, pisquei  luz do sol que inundava o quarto sem ter sido convidada.
Sumi tinha ido embora. Ela foi minha, totalmente minha, mas apenas por uma noite. Pulei da cama e fui at a janela, esperando v-la pela ltima vez, mesmo sabendo
que nem sua sombra estaria mais l. Ela tinha ido para algum lugar muito alm dos altos muros imperiais que dividiam o meu mundo do dela. Beijei seu bilhete, tocando
o leve vestgio vermelho dos seus lbios com os meus, dobrei-o e guardei-o cuidadosamente. Em silncio, pensei no significado daquele bilhete. Era um beijo longo
que queria dizer tudo? Ou um beijo lacnico que queria terminar tudo? Era uma seduo para abrir o meu corao ou um cadeado para selar minha alma? Quanta ambigidade
havia naquele simples gesto!
Mas este mistrio no permaneceria encoberto por muito tempo. Meu desejo determinava que nada neste mundo passaria despercebido de minha vigilncia, e a existncia
de Sumi era de absoluto interesse para mim. Seu lixo seria vasculhado, suas ligaes seriam ouvidas, sua porta seria vigiada dia e noite. Qual seria o significado
do poder se ele no pudesse assumir
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uma forma concreta ou um formato slido? Para que valia o poder, se no        , fosse para servir a ns mesmos assim como serve aos outros e ao pas? /
Sabendo que Sumi, meu passarinho, estava presa na minha gaiola, voltei ao meu mundo, o mundo dos homens, da realidade.
- Qual a primeira ordem do dia? - perguntei a meu jovem secretrio.
- Dois investigadores esto aguardando - respondeu ele.
- Faa-os entrar.
Dois homens do Ministrio da Segurana Pblica entraram e se semtaram.
- O que tm para mim?
- Todos os reprteres estrangeiros envolvidos no caso foram convidados a abandonar seus postos imediatamente - informou o homem mais alto. i
- E...?
- Tambm recebemos cartas de protestos dos jornais onde eles trabalham, alegando que desrespeitamos a liberdade de imprensa.
- No h liberdade de imprensa aqui. Eles no sabiam?
- Uma reprter nos deu as informaes que procurvamos. A moa do Yomiuri Shimbun de Tquio nos entregou o comunicado transmitido por Fei-Fei Chen, o editor-chefe
da Editora Mar Azul, na noite em questo. Todos os jornais receberam uma cpia. Foi assim que a notcia se espalhou.
Ele me passou o papel dobrado.
- Ipsis litteris. Com as mesmas palavras - sorri.
- Com isso, podemos incriminar seriamente o instigador que est por trs deste relatrio
prejudicial. Fornecer informaes do governo para um cidado estrangeiro  crime de alta traio, passvel de pena de morte ou priso perptua sem condicional, entre
outras coisas. Ele tambm pode ser acusado de infringir o artigo 18 do Cdigo de Segurana Pblica-denegrir o orgulho e a reputao nacionais -, os artigos 19,20,21,22
e, se usarmos um pouco nossa imaginao, poderemos ir at o artigo 35.
- Em resumo, podemos faz-lo incorrer em todos os delitos.
- Sim, coronel.
- Vamos nos ater  alta traio. Gosto de coisas grandes. Voc  promotor? - perguntei ao rapaz desengonado.
- Sim, sou advogado formado. Quatro anos na Faculdade de Direito da Universidade de Beijing.
- No gostaria de cuidar desse caso e ficar famoso?
Ser uma honra. Mas sou um investigador que trabalha para o Ministrio da Segurana Pblica. O poder da promotoria recai sobre o Ministrio da Justia.
Mera formalidade. Sua transferncia ser efetivada imediatamente.
- Sim, coronel.
Ele se levantou e me bateu continncia.
- Voc parece ter a mesma idade de Tan Long. Voc por acaso o conhece dos seus tempos da Faculdade de Direito? ''
- Sim, coronel, eu o conheo.
- Mas no  amigo dele, presumo.
- No, absolutamente. Ele me roubou o ttulo de monitor da turma na escola primria.
- Foi mesmo? E qual  o seu nome, Investigador?
- Hito Ling.
- Hito, ns podemos ser amigos, sabe?
- Eu gostaria disso, coronel.
- timo. Quando poderia processar criminalmente Tan Long?
- Isso poder vir mais tarde, senhor. Eu sugeriria prender Fei-Fei Chen primeiro. Se ele soltar a informao, poder comprometer seu patro, Tan Long.
- A arte da guerra. A estratgia de induzir a cobra a sair de sua toca - disse eu.
-Precisamente, coronel. Se seus homens forem incriminados, Tan cometer mais erros em defesa deles. Ento poderemos mant-lo sob controle.
- Voc conhece bem o carter de Tan.
- Sim, ele considera a lealdade a maior de todas as qualidades. O incidente do Ano Novo  um exemplo perfeito. Far qualquer coisa pelos seus amigos. E esta ser
a sua runa.
-Enquanto voc faz isso, quero que seja aberto um inqurito sobre todo o cl dos Long na Secretaria da Receita, em Beijing e em Fujian, em busca de quaisquer indcios
de desvios ou irregularidades. Verifique com a Junta Comercial se h alguma infrao dos regulamentos e com o Banco Central se h algum desvio de verbas. Por ltimo,
mas no menos importante, mande a Guarda Nacional e a Alfndega investigarem possveis acusaes de contrabando contra o pai - ordenei.
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- Eu gostaria de supervisionar as investigaes que o senhor mencionou e amarr-las todas num saco s - disse Hito. - Estamos querendo enterrar trs geraes numa
s sepultura.
- Pois faa isso - assenti satisfeito. - A lei  poderosa.
- Se ela estiver do seu lado.
- Ela est sempre do meu lado, Hito.
Foi somente quando a noite chegou e tirei meu uniforme que permiti que Sumi voltasse ao meu mundo. Nada relativo a ela ou ao meu filho era trivial; qualquer detalhe
importava. Ela havia alugado secretamente um apartamento na zona oeste da cidade - rua Ximung 28, apartamento 4 - vizinho ao de um professor aposentado de cabelos
brancos. Sua rotina diria comeava com a tarefa de levar meu filho  escola, que ficava a algumas quadras do seu refgio; depois ela escrevia em sua mesa, de frente
para a janela do lado sul, e ento ia buscar Tai Ping e preparar a comida para os dois. Fazia poucas ligaes telefnicas e apenas uma ida at a agncia dos correios
- o envelope era aberto e colado novamente. No havia homens em sua vida.
Para preencher minhas noites solitrias, eu revia fotos dela tiradas clandestinamente: Sumi surpreendida por uma cesta de mas na porta do seu apartamento, outra
foto lendo uma saudao de um vizinho inexistente que lhe arrancou um genuno sorriso e ainda outra de grandes animais de pelcia que Tai Ping trazia da escola.
Eu adorava ouvir as fitas em que ele insistia que os havia recebido de seu professor, que o estava recompensando pelo seu esforo, e de Sumi ligando para este mesmo
professor que,  claro, em combinao comigo, confirmou tudo o que o menino lhe havia dito. Todas aquelas fotos tornaram-se minhas companheiras nos sonhos, dando-me
um motivo para viver e respirar, e pacincia para esperar mais um dia, mais uma semana, mais um ms.

CAPTULO 48

A VIDA PERDEU A GRAA DEPOIS QUE Sumi partiu. Seus abraos, seus beijos, seus sorrisos e suas lgrimas, o contedo da minha vida, no passavam de recordaes. Sentei-me
em meu escritrio, que dava para a rea empresarial de Beijing, tentando reviver a sensao que eu tivera antes, observando-a fazer as coisas mais simples. Lembrava
e relembrava o jeito como ela beijava o nariz de Tai Ping, o modo como mastigava o lpis e fitava o nada, procurando pela palavra perfeita. A maneira como escovava
seus cabelos escuros ao sol da manh, com as costas alvas voltadas para mim. O maravilhoso aroma escondido em seus lugares mais ntimos. Como eu a desejava!
Apesar de me sentir solitrio com minhas lembranas, respeitei o pedido de Sumi para que a deixasse resolver seus problemas sozinha. Era um pedido sincero e profundo.
Deixaria passar esse perodo desconcertante, esperando que cada dia fosse mais curto e cada noite mais calorosa. Como qualquer homem, no entanto, procurei prosseguir
com a minha vida. Era uma vida celebrada por risos e drinques. Era pura conquista, era uma caa, era o que se pescava na rede. Eu podia ganhar no jogo da vida, mas
tambm sabia que podia perder. Conhecia os riscos. Eles estavam nos meus clculos
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e eu estava preparado. Eu podia at mesmo fazer um brinde a uma perda,    / pois sabia que na prxima rodada poderia brindar a uma vitria.
A vida sem Sumi e Tai Ping no deixava de ser agitada, e at mesmo colorida, sob outros aspectos. Todos os dias de manh, eu abria pilhas de jornais nacionais para
ler matrias que me rotulavam como um elemento maligno, uma formidvel mente criminosa por trs do incidente do Ano Novo. Sem mencionar nomes, tornei-me a eminncia
parda de um movimento nacional subversivo contra o governo comunista. Era um absurdo atrs do outro. Era uma guerra contra os Long, e os rastros de Shento, o , manaco,
estavam por toda a parte.
Outras ms notcias tambm comearam a aparecer. Lena me informou que David Li tinha sido misteriosamente exonerado do seu cargo. O financiamento bancrio para as
novas revistas teria que ser avaliado por um novo executivo, que era claramente uma mera pea sem importncia na mquina do governo. Telefonei imediatamente para
a casa de Li.
- Foi aquele telefonema que dei na vspera do Ano Novo - disse David com tristeza.
- Foi culpa minha. Fui eu que impus isso a voc.
- No precisa dizer mais nada. Dei aquele telefonema como um amigo querendo ajudar outro amigo, e ponto final.
- Devo tudo a voc. Venha trabalhar comigo. Voc no vai se arrepender.
- Fico grato pela sua oferta, mas um velho amigo j me pediu para trabalhar com ele num empreendimento em Nova York, e aceitei o convite.
- Uma vida nova? Que maravilha! E quando voc vai viajar?
- Amanh.
- Ento eu preciso v-lo agora.
Mandei que minha secretria preparasse um cheque visado, peguei meu carro e fui at a casa de David, no centro de Bejing, a vinte minutos de distncia.
- Por favor, aceite esta pequena demonstrao da minha gratido - disse eu, entregando o cheque a David.
- Vinte mil dlares! - exclamou ele.
- Certamente voc j viu cheques maiores do que esse.
- No posso aceitar isso.
- Se voc rejeitar este presente, corre o risco de perder um amigo.
David apertou a minha mo.
- Ento, fico com ele.
- Algum dia, quando o sol nascer novamente, vamos tsaaltttf juntos outra vez.
-Antes de ir embora, preciso lhe dizer uma coisa. O seu Dragon Center nunca vai ser aprovado pela Prefeitura. Acho que voc sabe por qu.
- No ouvi falar nada sobre isso.
- E nem vai. O projeto foi engavetado de vez.
- Mas trabalhamos tanto nisso!
- Tan, voc  um homem que sabe das coisas. Ento, faa o que um homem sbio faria. Seja firme, mas no seja duro, seno eles vo faz-lo em pedaos.
Aquelas palavras novamente.
- E por que eu deveria fazer isso?
- A corrente est indo contra voc. Por favor. Abraamo-nos, um abrao de companheiros, e nos separamos.
Fui embora no meu conversvel, erguendo poeira atrs de mim. Queria ir direto  Secretaria de Planejamento Urbano para pedir uma explicao, mas dei meia-volta.
Uma raiva desenfreada s levaria a uma soluo ruim. Rumei de volta ao meu escritrio, planejando o prximo contra-ataque.
Duas viaturas, marcadas com o emblema facilmente identificvel da Polcia de Beijing, estavam estacionadas na frente do meu prdio, com os alarmes ressoando e as
luzes piscando. Uma dzia de policiais armados com rifles automticos formava duas colunas na entrada do prdio, examinando todos os que entravam e saam. Um grupo
grande de pessoas se juntou, apertando-se uns contra os outros, para assistir ao desenrolar do drama. Entreguei meu carro ao manobrista e acelerei o passo. Ao passar
pelo policial na porta, ele pediu minha identidade.
- Sou o presidente da Drago & Cia. Deixe-me passar - disse eu.
- timo, eles esto esperando pelo senhor - disse o homem. - Precisa vir comigo.
- Quem est esperando por mim? - O senhor vai ver.
O policial me deu um leve empurro. Olhei-o irritado. Entramos no elevador. Dois homens  paisana se juntaram a ns. Subimos, em silncio. No fiquei surpreso ao
ver ainda mais policiais cercando o meu escritrio.
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Meus funcionrios estavam amontoados num canto. Fei-Fei estava algemado, afundado numa cadeira.
- Por que esto prendendo ele? - perguntei, indignado.
- Quem  o senhor? - indagou o policial, com os olhos semicerrados.
- Meu nome  Tan Long, e sou o presidente desta firma. Sob que alegao esto prendendo Fei-Fei?
- Atividades antigovernistas. Alta traio.
- Vocs tm alguma prova disso?
- O senhor faz perguntas demais. V ao seu escritrio e responda ao homem que est  sua espera.
O policial me empurrou com fora. Quando revidei, outro policial bateu com a culatra de um rifle na minha cabea, fazendo um corte em minha tmpora direita.
- Tan, tome cuidado! - berrou Fei-Fei. Os outros funcionrios gritaram.
- Vou liberar voc logo, logo, Fei-Fei - gritei, cobrindo minha cabea com as mos. O sangue escorria pelo meu maxilar.
- No se preocupe, Tan. Vou ficar bem. Eu...
Fei-Fei foi empurrado para fora do escritrio pelos trs policiais que o haviam algemado. As algemas estavam to apertadas que suas mos ficaram azul-escuras.
- Fei-Fei, vou lutar contra esses caras da nossa "Gestapo" at o dia em que eu morrer! - vociferei.
- Por favor, tome conta do meu pai.
- Eu prometo, Fei-Fei.
Fui forado a entrar no meu escritrio e deparei com outro funcionrio do governo, exibindo um sorriso sarcstico em seu rosto comprido e fino.
- Que lugar estranho para nos reencontrarmos, sr. Long.
- Quem  voc? - perguntei ao homem, que estava sentado na minha poltrona.
- Suponho que a sorte realmente faz as pessoas esquecerem. Fui seu colega de turma duas vezes. Na escola primria, voc roubou minha posio de monitor da turma.
Na Faculdade de Direito, voc me venceu duas vezes no jri simulado.
- Ah... Hito! Saia do meu lugar. ; .- Que grosseria, sr. Long!
 S sou bem-educado com os meus amigos. A que devo ?a
Hito apanhou uma folha de papel. --  Isto  uma intimao. Ela lista mais de trinta casos de possvel sonegao de impostos, fraude e vrias outras acusaes. Mas
no estamos aqui para efetuar nenhuma priso. Precisamos ainda de mais alguns dados sobre o caso.
- Nenhuma priso? Que generoso de sua parte!
- Nenhuma priso neste momento, mas esteja certo de que, quando todos os fatos estiverem esclarecidos, o seu dia no tribunal vai chegar.
- Deixe-me ver se entendi. Voc j determinou que cometi sonegao de impostos sem nenhuma comprovao, e agora esto aqui para pescar coisas que possam substanciar
a acusao?
- Bem colocado.
- Sua lisura e seu senso de justia so admirveis, Hito. Admira-me que tenha perdido de mim duas vezes.
- Voc est com sorte. Em outros casos, prendemos e espancamos os homens, fazemos com que eles confessem, e ento os colocamos na cadeia.
- Por algum motivo no me sinto com tanta sorte. Esta investigao tem alguma coisa a ver com Shento?
- Recebo ordens de superiores. Eles me dizem "faa isso", e eu fao. Eles me dizem "faa aquilo", e eu fao. Neste caso, disseram-me para dar uma batida no escritrio
e deix-lo em paz. Estou fazendo exatamente o que me disseram.
- Nenhuma imaginao.
- No h espao para imaginao - disse Hito. - O escritrio ser temporariamente interditado.
- Isso  uma violao da Constituio. Vocs no podem me privar da minha propriedade - disse eu.
- E o que vai fazer com relao a isso?
- Vou levar este caso at o Supremo Tribunal para interromper esta Perseguio - respondi. - E vou dizer a verdade ao mundo todo.
Hito fez um aceno para os seus homens.
-- Tirem-no daqui e no o deixem levar nada.
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Com um rugido, peguei minha pesada escrivaninha de mogno e levantei-a. Hito ficou sentado, imvel, com um sorriso malicioso ainda estampado no rosto.
- Saia do meu escritrio ou vou mat-lo! - gritei.
Uma dzia de policiais pulou em cima de mim e arrastou-me para fora do escritrio. Dei chutes a torto e a direito e me debati.
- Ningum vai levar as minhas coisas! Ningum! - gritei, at ser jogado na rua.
- Voc tem sorte. Eu poderia ter atirado em voc por causa disso - disse um policial.
- V em frente, seu co nazista!
- A ordem que eu tenho  faz-lo sofrer.
Mais uma vez, a culatra do rifle veio voando de encontro ao meu rosto. A dor e a escurido me apagaram.
QUANDO ACORDEI, AO CAIR DA NOITE, estava num leito do Hospital Popular de Beijing, com uma dor lancinante na cabea e esparadrapos e ataduras em volta do meu crnio.
Lena estava sentada ao lado da minha cama, preocupada.
- Lena - murmurei, com a voz fraca. Ela cocou a testa.
- Estamos ferrados. Eles acabaram com a gente.
- No, no estamos.
- Congelaram nossas contas bancrias.
- Ns as conseguiremos de volta. f, Ela fez que sim com a cabea, olhou em volta e sussurrou:
- Na hora em que entraram no nosso escritrio, telefonei para o seu pai em Fujian para alert-lo.
Eu apertei sua mo.
- Com licena - disse uma enfermeira. - Tem algum aqui para ver o senhor.
Era Sumi, parada ao lado da porta, parecendo abatida e preocupada.
- Tan, eu vi a notcia no Canal Central da TV do governo - murmurou ela, aproximando-se da minha cama.
Lena deu-me adeus e pediu licena, cumprimentando Sumi com a cabea ao sair.
- Por que est aqui? - perguntei.
Sumi ajoelhou-se ao meu lado, encostando seu rosto no meu.
- Para ficar com voc.
Se soubesse que voc voltaria para mim por este motivo, teria me
machucado muito antes.
Ah, meu querido, como eu amo voc! - Beijamo-nos como sempre
fazamos mas, num dado momento, ela se afastou e disse: - Eu sei de quem  a culpa. E vou corrigir esse mal. Estou redigindo um artigo sobre abuso do poder pblico
desde que vi a notcia na TV.
- No, fique fora disso. A ambio poltica de Shento vai engolir voc.
- Este louco precisa ser detido. Ele prendeu Fei-Fei, interditou seu escritrio e espancou voc. O que vai acontecer agora? No posso deixar que ele faa isso comigo,
com voc, com o povo. No posso mais ficar sentada em silncio.
- Voc est arriscando a sua vida, Sumi.
- No vejo dessa forma. Voc, Fei-Fei e meus leitores, milhes deles, fizeram de mim o que sou hoje. Sou a voz deles. No posso ficar em silncio.
- Voc fala como Lu Xun - disse eu, referindo-me a um escritor da virada do sculo conhecido por sua luta contra a injustia social.
- "Cerrando minhas sobrancelhas, fitando friamente a condenao da elite" - disse Sumi, citando-o.
- "Abaixando a cabea, disposto a puxar o arado, como um boi, pelas pessoas comuns" - completei, suavemente.
- Ento voc me apoia? - perguntou ela.
- Estou ao seu lado, sempre. - Sentei-me, sentindo muita dor e apoiando-me no cotovelo. - Quero publicar seu artigo num livreto encadernado e distribu-lo por toda
a cidade, por todo o pas. V para casa e escreva. Nossas grficas no vo poder ficar abertas por muito tempo.
- Se eu for para casa hoje  noite, pode ser que nunca mais o veja. Vou ficar e escrever, aqui e agora, antes que seja tarde.
Sob a luz fraca da lmpada de 15 watts, Sumi apoiou-se em sua escrivaninha improvisada-um travesseiro em cima do parapeito da janela. Inclinou a cabea, esquecendo
o tempo e o espao, escrevendo com intensidade em seu caderno. Os pensamentos eram mais velozes do que suas mos. 390
apressou-se em pr no papel o que havia surgido em sua mente. Inclinava a cabea para o lado, ponderando sobre um pensamento fugidio e piscava os olhos agarrando
um sentimento que voava. Estremeceu, chorou, depois encheu o peito com uma respirao profunda e continuou a escrever. Entre seus dedos, com a caneta e o papel,
a poesia foi concebida e a magia nasceu.
- Esta  minha histria. Este  o meu relato - disse ela. Entregou-me as pginas e enterrou o rosto nos meus braos.

Shento

CAPTULO 49

FIQUEI EXTASIADO COM A CAPTURA DO DIA. Meus homens haviam trancado Fei-Fei na priso mais conhecida e repulsiva de Beijing, espancado Tan e lacrado o pequeno imprio
do meu meio-irmo. Meus auditores trabalharam bastante, esmiuando os arquivos das empresas, e meus jovens generais em Fujian, agindo sob minhas ordens, investigavam
duas outras firmas relacionadas: Veteranos & Cia. e Banco Litorneo. Nenhuma priso deveria ser feita l, ordenei. Um pouco de caridade. Um pouco de generosidade.
Um pouco de pacincia. Tudo isso levaria  minha sorte grande quando eu pegasse o maior peixe do lago - o diabo do meu pai.
Meu relatrio do meio-dia para o presidente foi simples e objetivo. Heng Tu balanou a cabea em aprovao, mas desta vez no terminou a leitura com a costumeira
"hora do cochilo". Em vez disso, deu-me um aviso: "Para acabar com a erva daninha, arranque-a pela raiz. No quero ver meus inimigos tomando a dianteira de novo
nesta vida." Disse isso e moveu sua cadeira de rodas at seu local predileto, para cochilar ao sol.
No escritrio, pedi  minha secretria, uma jovem de pele de porcelana, que me preparasse uma xcara de ch especial para comemorar. O sabor da bebida era sutil
e suave e lembrava um dia ameno de outono. Mas meu
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momento sereno foi interrompido por um telefonema. O que ouvi me fez atirar o jogo de porcelana antiga contra a parede, num rompante.
- Mande Hito Ling vir aqui imediatamente - foi tudo o que consegui dizer para minha secretria.
Hito materializou-se diante de mim em poucos instantes.
- Arrume um mandado de priso para Sumi Wo e prenda-a - ordenei.
- Sob qual alegao? - perguntou ele.
- Voc  o homem das leis. Faa uma lei que se aplique ao caso. Quero Sumi aqui antes que ela fuja. Nossa enfermeira no Hospital Popular de Beijing nos informou
que ela est l agora. Prepare seus homens. Vou com vocs.
- Sim, coronel.
- S mais uma pergunta: Onde  que a Editora Mar Azul manda imprimir seus livros?
- Na Grfica Western Mountain.
- Muito bem. Vamos l agora.

CAPTULO 50

QUANDO SA DO HOSPITAL POPULAR DE BEIJING, a noite havia cado e a escurido envolvia tudo. Flocos de neve acrescentavam um toque de cinza ao cu, e as ruas se agitavam
num movimento lento, com poas d'gua e gelo derretido, enquanto milhares de ps cansados arrastavam-se cegamente rumo aos seus destinos.
Abracei a mim mesma, cruzando os braos sobre o peito, com um cachecol vermelho em torno do pescoo, esvoaando ao vento. Sentia-me cansada, magoada e enraivecida.
O vento frio irritou meus olhos enquanto eu procurava pela placa do ponto de nibus com a luzinha que piscava. Encontrei-a sem dificuldade. Um grande grupo de pessoas
havia se formado em torno de um nibus eltrico listrado de vermelho e branco com um emaranhado de fios no topo, lutando para se espremer e entrar pelas portas estreitas.
Uma criana pequena ficou com os dedos presos na porta. O sorriso de uma velhinha indicava sua pequena vitria no fim de um longo dia
encontrar um lugar para se sentar. Um velhinho tentou subir, mas no alcanou o degrau, e caiu sentado na neve suja com as mos balanando no ar frio, enquanto a
multido corria atrs do prximo nibus lotado, que passou direto pelo ponto.
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Ajudei o velhinho a se erguer. Ele me olhou com um sorriso cheio de gratido.
- Eu quase consegui entrar - disse ele.
- Foi mesmo - concordei, ajudando-o a se levantar.
- Obrigado, meu anjo.
- De nada. O senhor parece estar com frio.
- Est mesmo bem frio - disse ele, com a barba congelada.
Meu corao amoleceu. Tirei meu cachecol vermelho e amarrei-o em torno do seu pescoo. Um jipe do exrcito acelerou pela avenida molhada espalhando gua e parou,
de repente, cantando os pneus  nossa frente. Assustada, olhei para cima, piscando com os faris que me cegavam. Um soldado de uniforme verde saltou da porta lateral
do jipe e correu na minha direo. Soltei o velhinho e corri o mais rpido que pude, mas o soldado me agarrou em poucos passos. Esperneei e gritei. As pessoas olhavam,
nervosas e silenciosas, com exceo do velhinho, que gritava:
- Solte-a! Solte-a!
O soldado me jogou rudemente no banco traseiro.
O velhinho continuou a berrar:
- Deixe-a em paz!
O jipe disparou na rua suja de lama e neve derretida, desaparecendo na noite. Eu xingava e gritava no banco traseiro.
- Deixem-me em paz!
- Acalme-se, Sumi - disse uma voz familiar, contendo-me em seus braos. Era Shento. Eu o repeli com uma fora que no sabia que tinha.
- O que voc quer de mim? - perguntei.
- O que foi que voc escreveu e entregou a Tan Long na enfermaria do hospital? - perguntou ele.
- Nada.
- Voc me traiu, no foi? - perguntou ele calmamente.
- Trair? - indaguei, levantando a voz. - Voc prendeu meu editor sem motivo, fechou o escritrio da editora sem razo e espancou Tan Long, um homem inocente, at
ele perder a conscincia. Voc abusa do seu poder por vingana pessoal. Est se tornando um monstro. Vou lutar contra voc at que o povo desperte. Vou lutar at
que voc no nos ameace mais.
- E quanto a ns?
- O Shento que amei j morreu. Estou de luto, no v? No medirei esforos para expor os seus atos at que o mundo saiba quem  voc de verdade.
- Esse dia nunca vai chegar, Sumi - disse ele, na maior tranqilidade.
Estou levando voc para um lugar calmo, onde no vai precisar mais ser
essa ensandecida defensora da liberdade e vai poder ser apenas uma mulher, minha mulher, para sempre.
Dei um tapa em seu rosto.

    CAPTULO 51

NA ESCURIDO E NO FRIO DA NOITE, a equipe de funcionrios da grfica Mar Azul entoava suas msicas prediletas, para lutar contra o cansao e a sonolncia causados
pelo turno dobrado, enquanto imprimiam cpias da condenao de Shento, recm-escrita por Sumi. Eles cantavam e fumavam. Suavam e riam. Os supervisores serviam ch
e distribuam lanches aos trabalhadores. Ningum parava para descansar por mais de cinco minutos. Havia um sentimento geral de excitao sob o teto da grfica.
Geralmente, os funcionrios eram um grupo de gente alegre, pois trabalhavam para um editor que lhes pagava um bom salrio e oferecia a segurana de um emprego vitalcio.
Estavam satisfeitos porque suavam e eram recompensados de acordo com suas habilidades, e mais satisfeitos ainda porque seu querido editor-chefe proporcionava assistncia
mdica e moradia para todos. Portanto, a notcia de sua priso os deixou aborrecidos. Eles xingaram o governo e se ofereceram como voluntrios para lrnprimir os
milhares de panfletos necessrios para lutar contra os poderes constitudos. Tinham uma crena simples: a de que, se trabalhassem muito e pusessem o material impresso
em circulao, Fei-Fei seria libertado e tudo ficaria bem. Retomaram, ento, sua paz de esprito, comprazendo-se399
inocentemente com canes que levantavam o moral, j que teriam uma longa noite pela frente.
No andar de baixo, onde ficavam a caldeira e outras mquinas movidas a leo, o velho vigia, sr. Mei, encarou meio de lado aquele homem estranho que estava de p
a sua frente.
"Mais um estranho perdido nesta parte da cidade", pensou ele. A grfica ficava na periferia dos subrbios de Beijing. Todas as noites, os caminhoneiros transportavam
legumes e verduras frescas do campo para a cidade. Comeavam cedo, quando as estrelas ainda brilhavam no cu, e voltavam para casa tarde, quando a lua j estava
alta. Muitos se perdiam por aqui, com o emaranhado de estradas recm-construdas complicando o trajeto. O velho vigia, que morava ali h trinta anos, sempre os ajudava
a encontrar o caminho. De vez em quando, os motoristas deixavam um cesto de mas ou laranjas em sinal de agradecimento. Dia e noite, ele era a nica alma acordada
num raio de 15 quilmetros. A luz que vinha de sua moradia, um pequeno cubculo ao lado da casa de mquinas, brilhava como um farol para todos os que estavam perdidos
na noite.
- Est perdido? - perguntou Mei ao estranho, um rapaz de jaqueta de couro marrom, com o cabelo cortado bem baixinho.
- No, velho camarada - respondeu o rapaz, olhando por cima dos ombros do vigia.
- O que posso fazer por voc ento?
- Quero que o senhor guarde isso para mim. - O jovem entregou-lhe um pacote compacto embrulhado em papel vermelho.
- O que  isso?
- Um presente do seu velho amigo - respondeu ele.
- E como ele se chama?
- No quis dizer.
- E voc vem me entregar isso no meio da madrugada? - O velho examinou o presente e sorriu. - Bem, tenho mesmo muitos amigos que ajudei, mas isto  uma surpresa.
Qual  o seu nome?
O rapaz hesitou.
- Isso no  importante. Seu amigo pediu que voc carregasse o presente bem junto ao peito e que s o abrisse em seu quarto.
- Vou fazer isso. - O velho guarda curvou-se para agradecer ao rapaz sorridente e estava se virando para ir embora, intrigado com o mistrio que
tinha nas mos, quando o jovem sacou uma arma. Puxou o gatilho trs vezes. As duas primeiras balas atingiram o velho com fora, atirando-o ao cho com o rosto para
baixo, por sobre o pacote. A terceira bala desencadeou a exploso de uma lata de gs envolta pelo embrulho vermelho. Uma bola de fogo espalhou-se pelas mquinas
a leo num nico movimento. O silncio do fogo que tomava conta de tudo causou mais exploses; depois, um incndio maior e mais quente transformou o poro num mar
de chamas.
O rapaz pulou no jipe da Guarnio Militar que o esperava e acelerou em direo  estrada, rumando para o oeste.
Rapidamente o fogo devorou as vigas de madeira que sustentavam o macio prdio de trs andares da grfica, e o teto cedeu. Os trabalhadores corriam desesperadamente,
buscando uma maneira de apagar o incndio, mas era impossvel. As chamas precipitaram-se para o andar de cima, cercando os leais empregados num inferno colossal.
Enquanto tentavam escapar pelas janelas e portas, eles ouviram um estrondo final. A exploso sacudiu a grfica como um trovo, arrancou todas as vigas e colunas,
tijolos e pedras, espalhando pedaos dos panfletos recm-impressos pela noite escura, e provocando uma chuva de chamas cadas do cu.

 Shento

CAPTULO 52

S DUAS DA MANH, NO SILENCIO DO meu escritrio, o relatrio do promotor Hito Ling foi sucinto: "Alvo eliminado."
- Nenhum caminho saiu da grfica?
- Nenhum.
- E o velho vigia?
- Explodiu em pedaos.
- Recolha os trs cartuchos de bala que foranj disparados,
- Isso ser difcil. Fitei-o silenciosamente.
- Sim, coronel - disse Hito.
- Outra coisa. Esta grfica tem seguro?
- No valor de vinte milhes de iuanes.
- E qual  a seguradora?
- A Companhia de Seguro Popular.
- Congelamos todos os bens do jovem drago. O que um homem desesperado faria para se manter? - perguntei.
- Queimar o prprio prdio e pegar o dinheiro do seguro. - Hito anotou rapidamente em seu caderno: sinistro fraudulento.
Concordei com a cabea.
- Trabalhar para o senhor foi a experincia mais inspiradora de toda a minha carreira jurdica - disse Hito.
- Ser tambm a mais recompensadora.
Visivelmente excitado pela declarao, Hito conseguiu proferir apenas um humilde "obrigado" e fazer uma reverncia profunda.
- Agora, v peg-lo.
- Sim, coronel.

CAPTULO 53

APS DOIS LONGOS DIAS NO HOSPITAL, tive que lutar para ser liberado. A enfermeira-chefe, uma senhora de ossos largos, amarrou-me ao leito, apertando a fivela sobre
meu peito.
- J servi ao seu pai e ao seu av. Ningum consegue fugir da minha ala, est me ouvindo, Long Jnior? - resmungou ela.
Depois que ela saiu, consegui desafivelar as correias e me esgueirei para fora do leito. Apanhei o jaleco de um mdico, que estava pendurado na parede, e desci as
escadas mal-iluminadas, pulando dois ou trs degraus de uma vez. Quando estava a apenas um lance da sada, ouvi passos descendo apressadamente pelo vo da escada.
Pulei por cima do corrimo, desci correndo e me lancei em direo  rua movimentada. L fora, fiz sinal para um txi, sem me dar conta de que ainda estava usando
o jaleco, quando o motorista perguntou educadamente:
- Para onde vamos, doutor?
- Willow Bay District, nmero 141, por favor.
O txi ultrapassou dois nibus que atrapalhavam nosso caminho e acelerou na direo oeste, rumo ao meu bairro. Trezentos metros atrs, vi dois jipes do Exrcito
se infiltrarem no trnsito.
LENA NO PARAVA DE CHORAR quando foi at minha casa.
- Qual  o problema? - perguntei.
- Algum incendiou a nossa grfica. O velho Mei, o vigia, e mais seis operrios morreram queimados.
- Vou at l agora mesmo - disse eu.
- No d. A rea est isolada.
- Nada vai me impedir, Lena.
-Vou com voc. - No caminho, Lena enumerou os nossos problemas enquanto eu dirigia, desviando-me do trfego. - Perdemos a primeira batalha legal para liberar Fei-Fei
sob fiana. Eles exigiram dois milhes de iuanes.
- E no podemos pagar dois milhes de iuanes? Lena abaixou a cabea.
- Eu bem que tentei, mas nenhum banco quis nos emprestar todo esse dinheiro.
- E os nossos depsitos?
- Todos congelados.
- Ento venda a minha casa - orientei.
- O pagamento da hipoteca da sua casa venceu ontem.
- Pensei que eu a tivesse comprado  vista.
- No, voc me pediu para exercitar nosso poder de emprstimo. '
- Ento estamos falidos? Geramos centenas de milhes de iuanes e agora estamos falidos. No h mais nada que possamos vender? l>'
- Nada.
- E o meu relgio, o seu carro, o meu carro? E onde est Mike?
- Est em priso domiciliar em seu quarto de hotel, aguardando para ser deportado.
- Por qu?
- Ele estava na Secretaria de Planejamento Urbano hoje de manh fazendo perguntas sobre a proposta do Dragon Center. O guarda o botou para fora. Ele foi para o bar
ao lado, ficou bbado, invadiu o lugar e comeou a quebrar tudo. A fiana foi paga pela embaixada.
- Lute para mant-lo aqui.
- Nosso advogado se recusou a faz-lo. Ele disse que, se o fizesse, poderia ser acusado de dar auxlio e ser cmplice de estrangeiros.
- Procure outro advogado.
405
- Ningum mais quer nos defender. Mike foi considerado persona non grata e ser deportado junto com o resto dos jornalistas estrangeiros que cobriram a sua festa
de Ano Novo.
- Por que simplesmente no me prendem?
- Bem, j comearam a fazer isso. Os negcios da sua famlia esto todos interditados a partir de hoje. O mesmo funcionrio do governo, aquele com cara de cavalo,
lhes fez uma visita, juntamente com um investigador da Inspetoria da Alfndega,  procura de possveis acusaes de contrabando contra o seu pai e irregularidades
bancrias contra o seu av.
Pisei no freio subitamente, por pouco no batendo num caminho que transportava legumes e verduras. Respirei fundo e me concentrei, antes de pisar no acelerador.
- Voc tem algo de bom para me contar? - perguntei.
- Nada. Desculpe-me por no poder ajudar. Passei o meu brao direito em seu ombro e a abracei.
- Enquanto estivermos respirando, estaremos bem.
Ela concordou em silncio, com as lgrimas borrando sua maquiagem.
Na grfica, o ar estava pesado pelo cheiro sufocante da morte - morte da madeira, morte da carne e do osso, morte do papel. A grfica estava arrasada, como se o
fantasma da guerra tivesse passado por ali, deixando um rastro de destruio.
A polcia havia cercado o local com uma faixa amarela, alertando que qualquer invasor seria preso. Um oficial empunhou o rifle e berrou:
- Pare onde est!
Eu podia v-lo e ouvi-lo, mas no me importei. Pisei no acelerador, passando por cima de uma pilha de escombros, ultrapassei a faixa e parei diante de um tronco
de rvore queimado.
- Vou atirar, se voc no abandonar o local do crime! - ameaou o policial.
- V em frente - disse eu. - Sou o dono desse lugar. Tenho todo o direito de estar aqui!
- Voc est infringindo a lei.
- E da? J no basta vocs terem queimado esse lugar, junto com sete vidas inocentes? - Fui at o policial e o empurrei. - No ? Fale, seu desgraado!
407
- Vou atirar em voc! - avisou ele, recuando.
- Atirar em mim? Claro, v em frente. Voc no faria pior do que aqueles assassinos que queimaram esse lugar.
O jovem oficial ergueu o fuzil. Duas balas atingiram o cho diante de mim, fazendo saltar terra e cinzas. Continuei me aproximando.
- Vamos para casa. Por favor, Tan. - implorou Lena, puxando-me desesperadamente.
- Voc  louco! O que quer? - perguntou o jovem soldado.
- Quero ver o velho morto. Devo isso a ele - disse eu, arfando. - Onde est ele?
- Ali - apontou o oficial. - Aquela pilha de ossos prxima  parede. V v-los e depois saia do local.
Chutei as cinzas enquanto caminhava na direo da parede. No cho, espalhados, uma pilha de ossos. Ajoelhei-me e a tristeza tomou conta de mim. Poderiam ser os ossos
de animais selvagens das montanhas que ficavam prximas dali. Recolhi alguns e examinei-os cuidadosamente.
- Voc pode olhar, mas no tire nada da - advertiu o policial. "Os ossinhos pequenos devem ser os dedos, e este outro, uma costela",
pensei. Peguei o crnio e montei os ossos com os dedos trmulos. Lena escondeu-se atrs de mim, sem coragem de olhar. ,
- Chega, Tan. Vamos para casa - implorou ela.
- Espere - disse eu. Toda a parte do meio do corpo do homem estava desaparecida. Encontrei um osso do quadril a um metro de distncia. No centro, havia um buraco
perfeitamente redondo que s poderia ter sido causado por uma bala. Olhei para trs. O guarda estava acendendo um cigarro, com a cabea virada para bloquear o vento.
Enfiei o osso dentro da camisa e ento, acenando silenciosamente para ele, fui embora.
Antes de entrar no carro, ajoelhei-me por um instante. Com a cabea abaixada e as mos unidas, murmurei uma orao simples, como um ltimo adeus ao meu velho e leal
vigia.
S quando retornamos  minha casa, eu disse a Lena:
- O vigia foi baleado primeiro. Ela ficou boquiaberta.
- Como  que voc sabe?
Mostrei o osso do quadril. <.(<
- Tem um buraco de bala nele. Esta  a prova.
Lena cobriu os olhos com as mos.
- Mantenha isso longe de mim!
- Voc vai lev-lo ao dr. Min.
O nosso autor? - perguntou Lena, segurando o osso cautelosamente.
- Ele  o melhor mdico legista de Beijing. Pea a ele para dar uma olhada nisso hoje  noite.
Lena fez que sim com a cabea.
- E quanto ao artigo de Sumi?
- Entre em contato com todas as outras grficas de Beijing e pecalhes que imprimam dezenas de milhares de cpias do artigo o mais rpido possvel, a qualquer custo.
- Voc ainda tem o original?
- Est bem aqui, na prpria caligrafia dela. Puxei do bolso uma folha de papel dobrada.
- Mas acho que ningum ousaria nos ajudar agora.
- Eles provavelmente nos ajudaro. Ns j os ajudamos antes. Os gerentes da Grfica Leste e da Grfica Beijing me conhecem. Ligue para eles. Diga-lhes que preciso
de sua ajuda agora.
No DIA SEGUINTE, LENA chegou cedo  minha casa.
- Ningum quer imprimir isso para ns.
- Mas eram todos nossos amigos!
- No so mais. O gerente da Grfica Leste me avisou que eu no falasse com mais ningum sobre esse artigo. H uma ordem da Guarnio Militar para que prendam qualquer
um que coopere com a Mar Azul.
- No me surpreende. Recebeu alguma notcia do dr. Min sobre o osso?
- Sim, aqui est.
Ela me entregou um envelope. O bilhete do mdico dizia simplesmente:
CONFIRMADA PENETRAO DE BALA. RESDUO DE PLVORA ENCONTRADO
NA SUPERFCIE DO OSSO.
Lu MlN, MEDICO-LEGISTA, FACULDADE DE MEDICINA DE BEIJING DEPARTAMENTO DE MEDICINA LEGAL
408
- Viu s? Ele confirmou tudo - disse eu, irritado. - Os homens de Shento fizeram isso.
- E o que vai fazer com isso?
- Vou tornar pblico este massacre e a causa deste incndio. Tenho
as provas.
- Tan, o mdico me implorou especialmente para que no revelasse o nome dele. No quer parar num campo de trabalho forado novamente.
- Entendo. Vou respeitar a vontade dele.
Dediquei o resto do dia a escrever meu editorial sobre a perseguio  Drago & Cia.,  Editora Mar Azul e  minha famlia, e sobre o incndio criminoso e o assassinato
dos meus funcionrios. O texto era simples e direto. Como queria que Sumi estivesse ali para me ajudar! Ela levava tanto jeito com as palavras, tinha uma facilidade
to grande para tocar o corao de seus leitores! Mas eu no sabia onde ela estava. J fazia dois dias que ela no me telefonava. Havia prometido voltar para mim,
mas onde ser que estava agora?
Fiquei confinado em casa, e notei, intrigado, um carro estacionado do outro lado da rua,  sombra de um salgueiro. Por que apenas um carro? Eu achava que Shento
mandaria pelo menos uma dzia deles para ficar sabendo, em detalhes, de cada movimento meu, cada respirao minha.
Quando a noite caiu, dei a Lena meu sobretudo e ela saiu dirigindo minha Mercedes vermelha. Quando o carro estacionado debaixo da rvore arrancou para segui-la,
sa de casa de fininho, vestindo o casaco verde de Lena, forrado de pele, com a gola levantada para bloquear o vento em meu rosto. Andei costeando o muro da cidade
lentamente, tentando imitar o andar de uma mulher. As ruas estavam desertas e o vento levantava a poeira. Entrei num nibus lotado e saltei no Boulevard Long An,
prximo ao edifcio onde ficava meu escritrio.
Enquanto mulheres e homens de negcios bem-vestidos passavam por mim, rindo em grupos, entrei furtivamente pela porta giratria do edifcio e subi pela escada at
o terceiro andar. O corredor estava deserto. Rasguei o lacre da polcia e abri a porta com a minha chave. Um cheiro desagradvel impregnava o escritrio. Ningum
havia desligado o aquecimento e o lugar estava quente como um forno. Diminu a temperatura e fui at a copiadora. O escritrio estava uma baguna, com papis espalhados
por todos os lados e a moblia revirada e destruda.
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Carreguei a copiadora com papel em branco e comecei a copiar meu editorial e o artigo de Sumi. Ficaria ali pelo tempo que fosse necessrio para fazer o mximo de
cpias possvel. Depois, ento, eu as espalharia por aquela cidade insana como flocos de neve caindo do cu.
COMO UM LADRO CARREGANDO UM OBJETO roubado, sa para o silencioso Boulevard Long An, com uma sacola grande no ombro. As luzes dos postes balanavam ao vento noturno
de maro e os fios eltricos uivavam como lobos solitrios nas montanhas. s quatro da madrugada, a cidade era uma selva abandonada. Todas as criaturas dormiam.
Um nibus dobrou uma esquina sem nenhuma pressa, como que indisposto a enfrentar um novo dia. Quando entrei, o motorista me perguntou com voz anasalada:
- Nai zhan xia die?. Onde  que voc vai saltar?
- Em qualquer lugar - respondi, acomodando-me num assento prximo  porta traseira.
Ele pegou uma garrafinha, tomou um grande gole e soltou um arroto.
- Sente-se aqui, seu bobo, e tome um gole.
Sentei mais perto e peguei a garrafa que ele me entregou. Era uma bebida barata, chamada Gao Liang. Tomei um gole e quase vomitei.
- Agora me diga o que tem a nessa sacola.
- Uns panfletos.
- Arr! Voc  um desses militantes pela liberdade que vivem  noite e se escondem durante o dia.
- Eu...
- No tenha medo. Vou parar em todos os pontos que voc precisar. O motorista serviu-se de outro gole imenso, que o fez engasgar e tossir
tanto que teve que encostar a cabea no volante por um momento para recuperar a respirao. O nibus avanou, desviando para a outra pista, e depois voltou  mo
correta.
- Est tudo bem com voc? - perguntei.
- Claro que est. Voc distribui os seus panfletos, eu dirijo meu nibus. - Ele pisou no acelerador e o nibus disparou.-Voc precisa deixar uma quantidade maior
por aqui - o motorista indicou um determinado ponto. - Os professores que moram nesta rea vo querer ler isso. - Numa outra parada, ele deu sua opinio, embriagado:
- Os mineiros de carvo daqui nunca lem nada. O seu negcio a vai virar papel higinico.    - ,
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Eu me inclinava para fora da janela, jogando um punhado de cada vez, enquanto o motorista percorria o Boulevard Long An, passando pelo parque do Lago, pelo Museu
do Povo, pela Cidade Proibida, pela rea comercial de Tong Dan, pelo bairro Si-Dan, pela praa Tiananmen e pelo bairro Hai-Dian.
-  uma pena voc no passar pelo Palcio de Vero - disse eu.
- Vou fazer uma viagem especial. No podemos perder todos aqueles turistas. Ah, e vou levar voc para a famosa estrada da Universidade, onde esto todos os universitrios
liberais e curiosos. Nossa ltima parada ser no Hospital Popular de Beijing.
- Isso vai cobrir a cidade inteira! - exclamei.
- Pelo preo de cinqenta fens.
- No sei como lhe agradecer.
- J me agradeceu com sua boa companhia. Um brinde! - props, sorvendo a ltima gota da garrafa. Disse o nome de cada faculdade ao parar. - Universidade de Pequim,
Faculdade de Medicina, Escola Politcnica, Faculdade de Letras, Faculdade de Agricultura, Faculdade de Geologia, Escola de Msica.
Corri para cima e para baixo no nibus, que havia se tornado meu caminho de entregas particular. Ao chegarmos ao Hospital Popular de Beijing, minha ltima parada,
as trs mil cpias haviam se reduzido a uma pequena pilha.
- Por favor, aceite isso - disse eu, passando uma nota de cem iuanes para o motorista.
- Assim voc me ofende, rapaz. Tire esse dinheiro da minha cara e me agradea apenas como um amigo.
- Amigos, ento. Meu nome ...
- No me diga nada. Fica combinado assim: eu nunca levei voc no meu nibus e voc nunca dividiu essa garrafa comigo. Continue lutando, filho.
O motorista levantou a mo em sinal de adeus. Saltei, e o nibus moveu-se em ziguezague, em direo  luz da aurora.
Cumprimentei aquele homem valente. A esquina estava silenciosa, com apenas alguns pacientes no porto do hospital.
- Voc est cumprimentando um nibus? Ficou maluco? - Um velhinho morador de rua levantou-se do banco e jogou uma pedra no nibus que partia. - Eles so a pior raa
que existe. Saia daqui, nibus 331! No Preciso de voc... - Ele caiu de cara no cho frio, e ficou imvel.
JL
Abaixei-me para ajud-lo a se levantar, mas ele reagiu aos berros:
- O que est fazendo aqui a esta hora da manh?
- Estou aqui para deixar alguns panfletos para vocs - respondi.
- Ah, me mostre. Estou doido para ler alguma coisa, qualquer coisa. - O velho esfregou suas mos sem luvas e ajeitou o cachecol vermelho-vivo, a nica coisa em seu
corpo que tinha uma cor reconhecvel.
O velho estudou o papel sofregamente, parou e piscou, lembrando-se de algo. Virou-se e puxou a barra do meu casaco.
- Eu j vi o rosto desse anjo. Eu conheo ela - disse ele, apontando para a foto de Sumi no panfleto.
- Ela  uma escritora famosa. No me surpreende que voc a tenha reconhecido.
- No, no, meu jovem, seja paciente. Vocs jovens esto sempre com pressa. Acalme-se e fale comigo. No sou portador de nenhuma bactria infecciosa que nem eles.
- Ele apontou para o hospital. - Ela estava tentando me ajudar a entrar no nibus. Dois homens grandes e fortes a agarraram e a empurraram para dentro de um carro.
Eu berrei e gritei, mas ningum mais se incomodou com isso.
- Tem certeza?
- Tem certeza? Tem certeza? Estou farto das pessoas repetirem isso para mim! Ningum acredita em mim. Estou velho, mas no estou morto. Foi ela que me deu esse cachecol.
O cachecol vermelho de Sumi! Olhei a etiqueta: Chanel. Meu presente para ela no nosso aniversrio de noivado.
- Acredita em mim agora?
- Acredito. Obrigado, vov. Eu tenho que ir agora. Fiz uma reverncia ao velho em sinal de agradecimento.
- Ei, espere, seu jovem impaciente! Pegue esse cachecol e entregue-'! ela quando encontr-la.
- Est frio. Fique com ele.
-No, aquela boa menina pode precisar dele. Alm do mais, estou
 acostumado com o frio. - O homem enfiou o cachecol nas minhas mos. Aceitei-o e ergui-o bem alto, berrando para a noite vazia:
-  guerra, Shento!  guerra!
O velho, intrigado, balanou a cabea.

 CAPTULO 54

No CAMPUS DA UNIVERSIDADE DE BEIJING, um jovem de vinte anos chamado Lang-Gai ficou perturbado com a notcia da priso de Sumi e de Fei-Fei. Eles haviam sido os
primeiros membros do Clube da rvore Venenosa, do qual Lan-Gai continuava no apenas sendo um membro fervoroso, mas tambm o presidente. Furioso e  beira de um
ataque de nervos, incapaz de permanecer deitado em sua cama quente, ele acordou cedo e, para espairecer, percorreu as trilhas geladas, numa corrida matinal em torno
do Lago Sem Nome. J estava correndo h meia hora e estava pronto para uma pausa quando pisou numa folha de papel molhada, uma das muitas que estavam espalhadas
pela beira do lago. Abaixando-se, recolheu o papel e examinou-o. O nome Tan Long chamou sua ateno imediatamente. Leu o papel com cuidado. Era um belo texto em
prosa. Era tambm um poderoso libelo acusatrio, complementado por provas concretas e descrito com argumentos muito claros. O relato deixou Lan-Gai indignado, e
o relatrio do legista sobre o osso perfurado por uma bala fez com que ele quisesse berrar o mais alto possvel e acordar todo o campus de mentes abertas e coraes
justos para a traio atroz Praticada pelo governo.
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415
Sumi, Fei-Fei e Tan Long eram seus dolos. Para ele, os trs eram grandiosos como gigantes. Agora, Fei-Fei havia sido preso e Tan estava sendo caado. Lan-Gai ficou
enojado por tamanho ultraje - alguma coisa tinha que ser feita.
Ele no tomou o caf da manh e nem compareceu s aulas matinais para poder tirar mais cpias do precioso panfleto e distribuir aos seus colegas. Ao meio-dia, quando
Lan-Gai estava em cima da mesa central do grande refeitrio fazendo um discurso, o sangue dos jovens fervia. Pela antiga universidade ouviram-se muitos gritos inflamados
e at alguns professores podiam ser vistos entre os alunos, escutando e aplaudindo. O almoo foi esquecido e os alunos, mesmo sem terem sido convidados, revezavam-se
subindo nas mesas para discursar. Rapidamente, organizaram um comit para a Libertao dos Ex-Alunos e nomearam Lan-Gai seu presidente. Ele props escrever e enviar
um comunicado aos clubes irmos do pas inteiro naquele mesmo dia.
- LIBERTEM FEI-FEI! BASTA DE TIRANIA! Democracia e eleies diretas! -bradaram os estudantes naquela noite, marchando diante da sede administrativa do campus, coberta
por rvores frondosas, sob os olhos vigilantes da polcia da universidade.
Burlando o regulamento do toque de recolher, Lan-Gai saiu pela janela de seu dormitrio, escalou o muro do campus e foi correndo at a agncia da companhia telefnica
para entrar em contato com todos os outros Clubes da rvore Venenosa existentes nas aproximadamente trinta provncias da China. Falando em voz baixa, disse aos seus
companheiros:
- Domingo ao meio-dia, vamos organizar uma homenagem em memria do velho vigia, sr. Mei, e de seus companheiros mortos. Vamos fazer uma manifestao nas runas da
grfica da Editora Mar Azul.
-- Vamos organizar um outro evento s margens do rio Xangai simultaneamente - respondeu o lder da Universidade Fudan em Xangai, uma das maiores do pas.
- Vamos realizar uma manifestao na beira da praia - prometeu o lder da Universidade Xiamen, em Fujian.
Mais tarde, naquela noite, Lan-Gai foi pedalando em sua bicicleta at uma reunio secreta,  qual compareceram os lderes estudantis de todas
as universidades da rea de Beijing. Agrupados na escurido e no glido ar noturno da cidade, eles discutiram os detalhes calorosamente.
O lder da Escola de Msica de Beijing, um pianista de cabelos compridos, prometeu que a banda de instrumentos de sopro da sua escola tocaria msica ao vivo. A Escola
de Arte decoraria as runas queimadas com coroas fnebres. A Universidade de Qinghua, uma escola tcnica, construiria efgies do presidente Heng Tu feitas com palha
e varas de bambu. Os estudantes da Faculdade de Medicina generosamente ofereceram-se para levar kits de emergncia e prover os servios de primeiros socorros que
fossem necessrios para tal evento. A Faculdade de Letras assumiu a responsabilidade de traduzir simultaneamente os discursos em todos os idio nas que fossem necessrios
para os possveis ouvintes. Os alunos da Faculdade de Telecomunicaes transmitiriam as mensagens atravs das ondas de rdio para todos os cantos do pas.
- Mas, acima de tudo, precisamos que as pessoas compaream a este evento. Quanto mais, melhor - disse Lan-Gai. - Prometo cinco mil estudantes da Universidade de
Beijing. E vocs?
- Prometo mil participantes - disse o lder de Qinghua.
- Consiga dez vezes isso - encorajou-o Lan-Gai.
- Vou tentar.
Outros levantaram as mos na penumbra.
- Cinco mil.
- Dois mil.
- Sete mil.
- Trs mil.
- Agradeo a todos pelo apoio - disse Lan-Gai. -'Agora precisamos decidir quem ser o orador principal desse evento.
- Eu queria que Sumi estivesse aqui - disse algum.
- Eu queria que Fei-Fei estivesse por aqui - disse outro.
- E Tan Long? - sugeriu algum.
- Como vamos encontr-lo? - perguntou uma moa.
- Se ele for realmente um batalhador, vai nos encontrar - respondeu um rapaz.
Tan seria um orador perfeito, pensou Lan-Gai. Seu editorial era to poderoso, e seu status de fugitivo da lei daria  homenagem um nvel emocional inigualvel. Adoraria
que Tan estivesse ali entre eles! Lan-Gai suspirou e concluiu a reunio anunciando:
416
Vamos ler o editorial de Tan Long e alguns trechos do livro de Sumi.
Cada um de vocs tambm deve preparar um discurso. Agora descansem. Vamos nos encontrar novamente no domingo.

CAPTULO 55

ENTERREI UM QUEPE MILITAR NA CABEA, tampando bem o rosto. O casaco verde de algodo acolchoado cobria as minhas costas. A gola, de pele de tigre, era alta o suficiente
para cobrir o meu rosto at a altura dos olhos. As pesadas botas militares completavam o traje. Vestido assim, andei pelas ruas enlameadas da zona oeste de Beijing.
Caminhava curvado, como se estivesse com frio. Tentava parecer pequeno, mas minha altura me traa.
Tinha comprado este uniforme verde de um veterano que tinha lutado na Coria e perdido uma perna no Vietn. E Shento no perdeu tempo em se lanar  minha perseguio.
Minha foto estava espalhada por toda a cidade: nas esquinas, nos quiosques e nas paredes dos banheiros pblicos.
Apressei-me por uma ruela estreita at uma estalagem, situada num ptio, onde se hospedavam feirantes do interior que vendiam legumes e verduras, comerciantes de
pele de tigre vindos das montanhas, vendedores de gengibre do norte e vendedores ambulantes de camaro que vinham do litoral.
Havia oito camas e uma mesa. Sem janela e sem banheiro. Os viajantes faziam sua bagagem de encosto de cabea, e usavam os travesseiros para pr os ps inchados para
o alto. Oito estranhos fumavam e contavam histrias de provncias distantes e casos de diversas regies.
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Permaneci com o uniforme verde, descansando meus ps, sabendo que todas as principais estradas e estaes estavam repletas de patrulhas policiais  minha procura.
O pequeno hotel ficava situado prximo  Universidade de Beijing, uma rea que eu havia atravessado centenas de vezes quando cursei a Faculdade de Direito.
Eu tinha ligado para Lena, pois precisava de dinheiro. Pedi o mximo de dinheiro vivo que ela conseguisse. Aguardei, sentado no quarto enfumaado e sem janelas,
sob a fraca lmpada de 15 watts, sem saber se era noite ou dia.
No meio da manh, Lena chegou  hospedaria com o rosto envolvido pelo cachecol, revelando apenas os olhos amendoados. Eu nunca a vira to nervosa. Puxei-a para o
corredor vazio.
Soprando ar quente nas mos geladas, ela sussurrou:
- A polcia e seus ces farejadores esto na sua casa. Caminhei durante as ltimas trs horas, procurando despistar quem estivesse me seguindo. H cartazes de ordem
de priso com a sua foto espalhados por toda a cidade.  melhor voc sair daqui por uns tempos.
- Eu vou. E voc precisa se cuidar, Lena.
- No tenho medo deles. Sou inocente, e voc tambm. Ah, um lder estudantil chamado Lan-Gai ligou, procurando por voc. Quer que voc fale num comcio que ser
realizado nas runas da grfica neste domingo, em homenagem ao velho vigia, o sr. Mei, e aos outros trabalhadores. Ele disse que outras faculdades de todo o pas
tambm vo realizar manifestaes e protestos contra o governo, exigindo a libertao de Fei-Fei.
- Que coragem! - exclamei. - Diga a ele que estarei l.
- Voc no deveria ir. A polcia tambm vai estar l.
- Sendo assim, precisaremos elaborar uma rota de fuga.
- Tan, no vale a pena arriscar a vida por isso.
- Vale sim! Este comcio pode ser o comeo de uma revoluo incontrolvel - disse eu. - Ajude-me mais uma vez. Diga a eles que estarei l.
Lena assentiu relutantemente.
- Aqui est o seu dinheiro, vinte mil iuanes.  tudo o que tenho. Agradeci e enfiei o dinheiro nos bolsos. Que amiga fiel ela era!
- Tambm trouxe esse Peoples Daily - disse Lena. - Voc deveria l-lo. - Ela me entregou o jornal, levantou a gola do casaco e desapareceu na ruela estreita. Os
flocos de neve caam em suas costas.
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Abri o jornal. A primeira pgina alardeava:
Os elementos antigovernistas Tan Longe Sumi Wo engendraram uma biografia falsa do nosso heri revolucionrio, coronel Shento. O jovem coronel ficou rfo aos trs
anos, entrou para o exrcito aos vinte, salvou a vida ao nosso grande lder e foi promovido por sua dedicao e lealdade ao partido e ao seu lder. O coronel Shento
nunca conheceu pessoalmente Sumi Wo, a escritora liberal que obteve fama com uma autobiografia inventada e claramente absurda. O ato de falsificao foi uma tentativa
flagrante de salvar seu noivo, Tan Long, da runa financeira e da falncia iminente. A ltima fraude de Tan Long  um incndio criminoso em sua prpria grfica,
causando a morte de sete de seus funcionrios, para pleitear o seguro de vinte milhes de iuanes da Companhia de Seguros do Povo. O Departamento de Justia j iniciou
uma investigao sobre este crime.
Por outro lado, Sumi Wo, que cooperou com seu noivo neste esquema para incriminar um heri nacional, foi presa recentemente sob a acusao de liberalismo burgus.
O criminoso-chefe neste caso de difamao ainda est  solta. Aconselhamos nosso povo a se manter alerta e auxiliar a polcia em Beijing e no resto da China na captura
de Tan Long, para impedir que estes atos subversivos se propaguem.
Amassei o jornal, fazendo uma bola e jogando-a no lixo. Outro hspede da estalagem, um fazendeiro nortista, rasgou um pedao do jornal para enrolar um grosso cigarro
de tabaco que crepitou ao ser aceso, e inalou sua fumaa ao som sibilante da tinta que queimava.
ERA UM DOMINGO SOMBRIO. O vento uivava, as nuvens estavam turvas, o cu escuro e a terra entorpecida e imvel - em todos os sentidos o clima adequado para uma homenagem
em memria dos sete funcionrios cujas vidas haviam se elevado ao cu num sopro de fumaa. Por volta do meiodia, o vento, coalhado de flocos de neve, sacudia as
rvores sem folhas. Os galhos se quebravam, os troncos uivavam, os tigres soluavam e os lobos congelavam de medo e tristeza.
Sem se saber muito bem como, a notcia da homenagem proibida havia se espalhado. As pessoas, como almas penadas, perambulavam tristes Pelo local, que ficava a 15
quilmetros a oeste de Beijing propriamente dita. Usavam faixas pretas no cabelo e haviam pregado pedaos de linha
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branca em seus casacos para demonstrar que os mortos no tinham sido esquecidos.
Por volta de meio-dia, milhares de estudantes haviam chegado a p, de nibus e de bicicleta - pedalando sozinhos, em dupla ou trio - cantando canes furiosas, berrando,
xingando e entoando slogans vingativos. Trabalhadores das fbricas sujas e enfumaadas do pas vieram em peso, alguns na traseira de caminhes, outros em p na dianteira
dos tratores. Seus uniformes eram brancos e azuis, ao mesmo tempo arrumados e sujos. Fumavam seus cigarros racionados e bebiam cerveja. Suas mos livres batucavam
em qualquer objeto possvel e seus ps batiam no cho. Tinham vindo porque os mortos eram seus irmos de uniforme azul. Em vida, estudantes e trabalhadores poderiam
ter cuspido uns nos outros, mas na morte eles se uniam. Os trabalhadores do comunismo, os proletrios do mundo, no possuam nada e por isso possuam tudo, Karl
Marx lhes havia dito. A velha e conhecida msica da Internacional lhes dizia isso. Lute por um amanh melhor at a ltima gota de sangue.
Fileiras de policiais misturavam-se ao mar de gente - vigiando, controlando, chutando e s vezes pisoteando, tentando conter o vazamento da represa que se tornava
inevitavelmente maior. Na dianteira de um caminho blindado, alto-falantes alardeavam: "Todas as manifestaes ilegais so proibidas. Os manifestantes sero presos."
- Quietos! - respondiam em unssono os trabalhadores.
-Voltem para casa, cidados! Esta manifestao  ilegal! A polcia de Beijing tomar uma atitude contra qualquer um que desobedea a esta ordem.
Quando um jovem soldado empurrou uma estudante de arte, ela gritou e vociferou.
- Se tocar nela novamente, vai comer terra! - disse o namorado cabeludo da moa, em tom de ameaa.
s badaladas do meio-dia, o esguio lder estudantil Lan-Gai subiu ao palco improvisado, feito com tbuas queimadas e troncos de rvores chamuscados. Usava uma tnica
branca e uma faixa negra em torno da cabea, a manifestao de luto reservada aos parentes prximos. Estava calmo, de cabea baixa e olhos fechados. Em silncio,
Lan-Gai pediu aos espritos daqueles mortos que descessem sobre ele, dando-lhe fora.
Um canto fnebre perturbador, composto por um aluno da Escola de Arte, fluiu como uma torrente de lgrimas. Os alto-falantes estavam escon-
didos atrs de pedras e debaixo de mesas, para que a polcia no pudesse deslig-los. Um grupo de alunos oradores, representando cada curso e cada universidade,
estava de mos dadas em torno de Lan-Gai, protegendo-o num crculo de cinco voltas, a nica proteo contra as armas dos policiais.
Lan-Gai fez um sinal para que a msica parasse e acenou para o mar de jovens  sua volta. Estavam sentados nas pedras geladas, de ccoras, carregando placas com
slogans. Intelectuais com expresses preocupadas misturavam-se a trabalhadores rudes, que formavam o crculo externo. Semicerrando os olhos, Lan-Gai comeou a falar.
- O cu lhes agradece e a terra se ajoelha diante de vocs. Ns, que estamos vivos, viemos aqui hoje lamentar a partida brutal e prematura dos que se foram. Meus
compatriotas, camaradas, estudantes, professores, pais, mes e tios! Vivemos numa tirania que h muito j deveria ter perecido. Uma tirania que criou uma camada
de limo que agora envenena o seu povo.
"Hoje, no estamos aqui apenas de luto pelos mortos, mas tambm para lutar pelos vivos. Este demnio chamado Shento  o mal responsvel por essas mortes, pelo expurgo
que est em andamento, pela runa financeira da Drago & Cia. e pelas prises de Fei-Fei Chen e Sumi Wo. No satisfeito com isso, tambm est  caa do inocente
Tan Long.
"Camaradas, compatriotas, hoje so apenas esses os mortos, mas amanh poder ser voc, voc e voc... depois, o pas inteiro.  hora de livrarmos nossa amada terra-me
daqueles que empurram a roda da histria no sentido contrrio, rumo  escurido, e no  luz do futuro."
A multido reagiu, berrando a plenos pulmes:
- Vida longa ao povo! t 
- Abaixo os governantes! >     ,
- Eleies diretas!
Uma segunda oradora, estudante de teatro, segurou uma cpia de A rf de Sumi. Com os olhos marejados, a moa leu um trecho do livro.
.. ento, as ondas de desespero quebravam aos meus ps enquanto eu andava pela praia fria. Meu corao era um abismo de desesperana e minha cabea era uma comprovao
magoada e ferida da implacvel e destruidora crueldade humana. Naquele momento de desespero, encontrei esperana no vasto mar frio. Eu ansiava por provar a lngua
amarga da morte. As conchas da praia seriam minha companhia, e os silenciosos gros de areia, meu travesseiro. Eu sentia uma fraqueza nos joelhos ao segurar nos
braosDA CHtN
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o beb do meu amor-os vestgios de sua beleza, o desaparecido brilho das estrelas. Senti-me consolada pelo fim da vida do meu filho, pois eu estava cansada. Ele
sugava meus seios jovens, que produziam apenas escassas gotas de doura. Mas ele sorria, como se soubesse que eu ficaria feliz morrendo, e no vivendo. Mame est
indo embora. Adeus, meu filho. Chorei minha despedida, mas o adeus perdeu o sentido, pois as palavras ditas logo seriam esquecidas. O vento me substituiria na memria
de meu filho. ...Mergulhei no mar. As ondas me ergueram e tudo se f oi.
Houve um momento de silncio.
- Vida longa a Sumi Wo, a escritora do povo! - gritou a leitora. A multido fez eco a seu brado. A moa irrompeu em lgrimas e precisou de ajuda para descer do palco.
Um tenor deu continuidade  manifestao com uma interpretao da conhecida Internacional em francs. Era o velho clich da febre revolucionria, mas a letra da
msica inflamou a multido: "Para no ter protestos vos, / Para sair deste antro estreito, / Faamos ns por nossas mos / Tudo o que a ns diz respeito!"
A multido cantou junto com ele, e o eco da marcha voou at a montanha que ficava a oeste, subindo em direo ao cu nublado. Naquele momento, os revolucionrios
estavam unidos, livres da represso dos ditadores e seu sangue fervia indiferente  baixa temperatura.
- Lutaremos pacificamente - disse Lan-Gai. - A no-violncia de Gandhi  o esprito da nossa luta. Nossas palavras so armas, e nossas vozes no sero silenciadas
at que a luz do sol da liberdade venha colorir nossa terra.
Houve um princpio de tumulto no local quando os jovens operrios se juntaram aos estudantes na Internacional. A polcia se dirigiu  multido:
- Voltem para casa agora ou os prenderemos!
Os policiais apitaram, marchando em fileiras cerradas, fuzis sobre os ombros com as baionetas armadas, mas o canto bramia como um trovo, encobrindo os alto-falantes
da polcia. Ouviram-se mais apitos e mais ordens foram dadas. Lan-Gai, impotente no palco, balanava os braos, tentando acalmar as pessoas, mas a multido o ignorou.
De um caminho, jogaram garrafas, e alguns policiais foram atingidos. Um peloto de policiais tirou os fuzis do ombro e os apontou para as pessoas. Os estudantes
berravam em apoio aos trabalhadores. Mais garrafas voaram pelos ares.
Minha hora tinha chegado. Passei espremido pela multido e subi no palanque. Abracei Lan-Gai, agradecendo-o e assumi o microfone.
Camaradas, meu nome  Tan Long. Vocs todos devem me conhecer
a esta altura dos acontecimentos. Afinal, h cartazes espalhados por todo o pas me apontando como fugitivo e pedindo a minha priso. Mas nada temo, muito menos
o nosso governo corrupto. Estou com vocs, meus companheiros e compatriotas.
A multido aplaudiu.
- Hoje, estou de luto por nossos camaradas mortos. E trago, para compartilhar com vocs, uma verdade desagradvel que tenho aqui em minhas mos - um osso do quadril
do meu querido velho vigia, o sr. Mei. Um famoso mdico-legista determinou que o buraco que vocs vem aqui  resultado da penetrao de uma bala. Creio que ele
tenha sido assassinado.
Uma onda de murmrios tomou conta da multido.
- E o assassino  ningum menos que o coronel Shento, da Guarnio! O mesmo Shento que ordenou a priso de Fei-Fei e Sumi. O mesmo coronel que mandou incendiar a
minha grfica para que a verdade nunca fosse revelada.
A multido gritou a uma s voz:
- Abaixo o demnio Shento! Ergui as mos, pedindo silncio.
- Meus amigos compatriotas, estou aqui para anunciar um novo partido poltico independente: o Partido Democrtico Chins. Seu objetivo  lutar implacavelmente pelos
ideais democrticos at que chegue o dia das eleies diretas e das garantias constitucionais! Somente assim, livraremos para sempre essa nao amaldioada dos fantasmas
reincidentes de Shento e de gente da sua laia!
- Tan Long! Tan Long! - gritavam todos bem alto.
Surgiram policiais vindos de todas as direes, enquanto os alto-falantes da polcia bradavam no volume mximo:
- O fugitivo Tan Long ter que descer imediatamente do palanque ou ento entraremos em ao! Quem quer que tente auxili-lo a escapar ser acusado de traio! O
criminoso Tan Long ter que se render agora!
Ignorei a advertncia.
- Desafio vocs a tomarem as ruas e a falarem com seus vizinhos! Voltem para suas escolas e faculdades e divulguem a mensagem do nosso futuro.
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Este pas nos pertence! A democracia  a nossa nica esperana. Filiem-se ao partido! Vou levar esta mensagem ao resto do pas! Vou acordar esta terra de gigantes
e vamos expurgar os males do passado. Acordem, meus compatriotas, o futuro  agora!
- Voc tem que sair agora - advertiu Lan-Gai. - No est vendo as armas apontadas em sua direo? A polcia est fechando o cerco. Por favor, corra agora!
As pessoas subiram ao palco, fizeram um crculo  minha volta e me puseram nos ombros, gritando: "Tan Long! Tan Long!"
As sirenes dos carros da polcia comearam a soar. Perto do palanque, policiais  paisana formaram um crculo ao nosso redor, que se fechava cada vez mais.
Pulei de cima dos ombros dos alunos e trabalhadores, agachei-me por entre a aglomerao e escapei pela parte de trs do palco, onde Lan-Gai
me esperava.
- At breve, Lan-Gai - murmurei.
- At breve, sr. Long. O senhor  o nosso lder agora. Estas pessoas o idolatram.
Lan-Gai tirou sua tnica branca de luto e envolveu-me com ela. Em meio ao caos, desapareci pelo bosque adentro, correndo at achar uma pequena trilha que levava
ao outro lado da montanha Xishan. Na encruzilhada da estrada, uma mulher com um cachecol amarelo esvoaando no vento frio estava sentada num carro, com o motor ligado.
- Lena - disse eu, ao entrar.
- Aperte o cinto de segurana. Vai ser uma viagem turbulenta montanha abaixo.
Lena pisou no acelerador e o carro saiu derrapando pela estrada coberta de gelo, dando solavancos nas curvas fechadas da montanha, dirigindo-se a uma estrada congestionada,
na direo de Tianjin. Parando em frente a uma pequena loja, Lena saiu do carro, abraou-me e beijou meu rosto.
- At breve, meu rapaz.
- At breve, Lena. O sol do vero vai brilhar em breve - prometi. Enquanto ela entrava em outro carro, pulei para o banco do motorista
e pisei no acelerador, disparando na direo leste, com o corao pesado diante do que me aguardava - uma vida de fuga e uma misso do tamanho do oceano.

Shento

CAPTULO 56

No DIA EM QUE ELES FORAM EMBORA, fiquei escondido nas sombras, por trs da janela que dava para o grande ptio, vendo Sumi abotoar o sobretudo de Tai Ping para a
longa viagem que tinham pela frente. Hoje, o conforto da priso domiciliar; amanh, as celas geladas de Xinjiang. O vento perseguia as folhas secas espalhadas pelo
ptio antigo, num lamento: Meu filho, meu filho.
Disse a mim mesmo, mais uma vez, que foi Sumi quem me traiu. E que trair o nosso passado eqivalia a anul-lo e a recusar o nosso futuro, causando a morte do velho
Shento e o nascimento de um outro, um lobo solitrio abandonado por todos e que no era amado por ningum. Minha vida agora era como a folha de pltano que um dia
eu havia apanhado e colocado entre as pginas do meu dirio, como um smbolo do meu amor por ela-seca, desfazendo-se. Um poema da dinastia Tang me veio  mente:
"Diante de uma rvore doente, uma floresta inteira reverdece na primavera. Diante de um navio afundado, mil barcos passam velejando por ele."
Um homem com menos determinao teria aceito a sorte da rvore doente ou do barco afundado, fechando-se em silncio, deixando o ciclo da estao virar e a mar do
oceano fluir, mas esse no era o meu carter.
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Eu tinha pensado em cortar a garganta de Sumi, que deixara escapar todos os nossos segredos proibidos, ou arrancar o corao de seu peito, examinando o contedo
sombrio e apodrecido que havia sido manchado pela traio. Mas, em meu caminho, erguiam-se dois pequenos obstculos. O primeiro veio numa noite de insnia, quando
estava afiando minha espada para matar Sumi. Eu passava a lmina pela pedra de amolar, e cada rangido apunhalava o meu prprio corao, como se estivesse me preparando
para tirar minha prpria vida, at que no pude mais continuar. At imaginei meu prprio sangue escorrendo no lugar da gua usada para molhar a pedra, e me dei conta
de que, independentemente de Sumi ter deixado de me amar, ela era parte da minha carne e do meu sangue. Num rompante de raiva, fiz um corte no meu antebrao. Fiquei
atordoado pela ausncia de dor naquele ato e por descobrir que a vida dela significava mais para mim do que a minha prpria. Em conseqncia disso, quebrei a espada
em pedaos, golpeando-a contra o antigo relgio de sol do palcio, e atirei-me ao cho de pedras, num choro sem lgrimas at o amanhecer, quando o sentinela me encontrou
e me levou de volta ao meu refgio.
Mas o dio e o amor continuaram a me torturar, e mais uma vez imaginei dar cabo da vida de Sumi, com ou sem dor para mim mesmo. No agentava v-la fitando-me com
desprezo nos olhos. Fiz trs balas de prata especiais para atirar nela mas, enquanto eu as polia, ouvi os gritos do meu filho, Tai Ping, o menino que era sangue
do meu sangue, com uma voz muito semelhante  minha quando eu era criana. Eram gritos de desesperana, gritos de um rfo. Olhei ao meu redor no ptio e no vi
ningum. No entanto, aqueles gritos fantasmagricos ensurdeciam meus ouvidos, impossveis de serem ignorados, por mais que eu tentasse abaf-los.
Durante dois dias, ocultei-me atrs da janela, observando a me e o filho. Eu via no o garoto, Tai Ping, mas a mim mesmo, o aldeo magricela de Balan, descalo,
vestido com linho rstico tecido em casa, documente sentado ao lado da me que nunca conheci, ouvindo os belos contos do livro que estava em suas mos. Chorei, molhando
meu uniforme engomado, tocado por uma misteriosa alegria de ser amado simbolicamente pela sombra da minha prpria me.
Pouco depois, acomodei-me na complacncia. Decidi exilar Sumi para a mais longnqua priso do extremo Noroeste da China e deixar Tai Ping
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aos seus cuidados com acomodaes adequadas para que o garoto fosse educado e criado de acordo com sua posio na vida. Fiz como os antigos imperadores que exilaram
suas concubinas infiis. Enviei Sumi para o silncio do Oeste, onde ela viveria eternamente arrependida, num deserto desprovido de alegria.
- Mame, no quero ir embora - disse Tai Ping, ao ouvir a notcia. Sumi abaixou-se e beijou-o na testa.
- Vai ficar tudo bem - prometeu ela.
- Para onde  que ns estamos indo?
- Para um lugar muito distante, onde voc vai ver as montanhas e os desertos do reino central.
Me e filho foram empurrados por um soldado para a parte de trs de uma van militar verde. Como se estivesse ciente dos meus olhos vigilantes, Sumi no olhou para
trs nem uma vez sequer. Estava serena e silenciosa, com a cabea erguida. Com Tai Ping no colo, ela inclinou-se sobre ele e sussurrou alguma coisa em seu ouvido.
A van comeou a se movimentar. Meu corao se acelerou. Estaria eu cometendo um erro de propores eternas? Estaria cometendo o mesmo pecado de meu pai?
O menino olhou para trs, procurando alguma coisa, com um pequeno sorriso marcado pelas covinhas. Fechei os olhos para bloquear aquela imagem insuportvel. Ento,
empurrei a pesada cortina para o lado, pressionando meu nariz contra a vidraa para ter uma ltima viso dos dois viajantes j em seu caminho. Sentindo-me fraco,
apoiei-me contra a parede escura. Apenas depois de alguns momentos, pude me recompor e voltar a ser quem eu era. Ajudado por uma das famosas citaes de Heng Tu
- "Para fazer a revoluo,  necessrio o sacrifcio" -, voltei ao sombrio corredor do poder. Hito Ling estava me aguardando.
- Foi errado de minha parte mand-los embora? - perguntei a ele.
- No, coronel. Durante a Revoluo Cultural, eu mesmo denunciei meu pai por ter dormido com uma das minhas colegas de turma. Ele foi preso, e fui promovido a primeiro
secretrio da Guarda Vermelha durante o ensino mdio.
- E teve orgulho de si mesmo?
- Tive - respondeu Hito, demonstrando alguma incerteza. Mudei de assunto.
- E por onde anda agora o nosso fugitivo, Tan Long?
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- Ele foi visto h dois dias, na provncia de Shandong, na Universidade de Nankai, uma outra universidade liberal. Depois, discursou no campus da Universidade de
Tianjin, onde conseguiu atrair trs mil membros do Clube da rvore Venenosa.
- Por que nossos homens no o capturaram?
- Ele escapou antes que chegssemos.
- O que aconteceu com a sua rede de busca nacional? Temos a polcia de todo o pas  sua disposio, e tudo que voc v  a sombra dele?
-  como procurar uma agulha no palheiro.
- Voc no percebeu qual  o padro de comportamento dele?
- Percebi, ele visita as universidades. Mas h milhares de universidades neste pas.
- Mande a polcia local patrulhar todas as principais universidades. E faa disso prioridade mxima.
- Imediatamente, coronel.
- E divulgue um pronunciamento pblico sobre a priso perptua de Sumi Wo e a execuo de Fei-Fei Chen imediatamente.
- Execuo?
- Sim, a ser realizada dentro de trs meses.
- Eu no estava ciente disso.
- Claro que no. A sentena acaba de ser proferida por mim.
- Mas o nosso processo criminal no exige que isso passe primeiramente pelo Supremo Tribunal de Justia Popular?
- O tribunal trabalha para o presidente.
- Vou redigir essa sentena imediatamente, para ser aprovada pelos juizes - disse Hito, anotando-a. - Uma pergunta, coronel. Por que esperar trs meses? Normalmente,
ns fazemos as execues imediatamente.
- Quero que o efeito permanea no pensamento das pessoas.

CAPTULO 57

Eu ESTAVA AGASALHADO COM ROUPAS grossas e pesadas, como um fazendeiro nortista castigado por um inverno difcil. Minha barba estava comprida e cocava; meu cabelo
tinha um aspecto oleoso de to sujo e meu rosto estava arranhado pelo vento que me cortava, dia e noite, naquela minha vida de fugitivo. Minha cintura havia afinado
e tive que fazer dois novos furos no cinto para manter as seis camadas de calas no lugar. Meu casaco carregava os cheiros das minhas moradias dirias: estaes
de trem, esquinas, celeiros abandonados, estbulos e chiqueiros.
Andava como um bbado, arrastando os ps pesados, dizia frases ininteligveis quando algum me dirigia a palavra e soltava bocejos com mau hlito. Eu fumava grossos
cigarros de tabaco, feitos de jornal rasgado e repassados de mo em mo entre grupos de outras almas sujas que no pertenciam a lugar nenhum.
Mas essa era a minha verso diurna, que eu tinha inventado para me esquivar dos olhos da polcia. Minha foto me precedia em qualquer lugar por onde eu passasse.
Certo de que qualquer um me reconheceria se eu estivesse sem disfarce, mantive-me na parte desprivilegiada da cidade, a parte que as crianas deviam evitar e onde
homens sombrios, famintos e estranhos,
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cheios de pecado e misria se reuniam, como o lixo que era soprado pelo vento nas sarjetas.
 noite, entrava furtivamente no banheiro de uma pousada ou de um restaurante. Normalmente, era barrado, e minha entrada s era permitida se eu prometesse sair imediatamente
aps usar o local. L dentro, abria a minha mala, limpava-me e vestia camisa e casaco limpos. Achava divertida a diferena no tratamento que me dispensavam na sada:
o gerente ficava se perguntando para onde teria ido aquele indigente.
Em Tianjin, visitei dez universidades, reuni-me com os lderes do Clube da rvore Venenosa e proferi discursos condenando os segredos obscuros de Shento e de seu
lder tirnico, Heng Tu. Espalhei as virtudes do meu novo partido poltico e convoquei a primeira eleio direta naquele vero, quando o qinquagsimo congresso
do partido se reuniria em Beijing para sua sesso de rotina de aprovao de documentos e requerimentos.
Em todas as universidades, eu era o segredo mais sussurrado. Aquelas mentes jovens eram como palha seca, esperando que eu botasse fogo nelas. Bastava uma fasca
e seus coraes j se inflamavam. Queriam conhecer o heri em fuga e aplaudiam a minha coragem por espalhar a mensagem da democracia e por condenar o governo opressor.
Os estudantes trabalhavam como meus sentinelas do lado de fora dos sales onde minha participao era esperada. Numa universidade, um aluno foi preso por conduzir
a polcia numa falsa perseguio para despist-los.
Ao fim de cada reunio, o nmero de membros do Partido Democrtico crescia. Eu saa das universidades me sentindo mais seguro da minha misso e do desejo de lutar.
Mas a estrada que tinha pela frente tornava-se mais traioeira a cada cidade que avanava em direo ao sul, seguindo a costa do Pacfico. Em Yanghzou, uma cidade
antiga, fui prevenido pelos lderes do clube de que a reunio era uma armadilha. Policiais e milicianos  paisana infestavam o campus. Para frustrar seus planos,
os membros do clube planejaram um passeio secreto de barco no crepsculo do pitoresco lago Tai, onde caranguejos de pernas longas e gordos camares rastejavam no
fundo lodoso e pessegueiros em flor balanavam na morna brisa primaveril. No passado, o lago havia escondido muitos revolucionrios em suas enseadas secretas e baas
sombrias. "Sou um revolucionrio", pensei.
Aos olhos daqueles jovens, eu havia me tornado o smbolo de algo maior do que eu mesmo. Esta crena foi confirmada por dois rapazes, que
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nadaram lado a lado com o barco e pediram para me seguir enquanto eu avanava na minha cruzada em direo ao sul.
- Voc  o nosso heri. Todos no pas querem ser como voc. Por favor, deixe-nos acompanh-lo - pediram eles.
- A estrada que tenho pela frente  perigosa. No posso garantir sua segurana.
- Queremos proteg-lo. Estamos dispostos a morrer por voc.
- Nosso partido vai precisar de vocs mais tarde - disse eu. - Suas vidas so preciosas. Vocs tm que dar valor a elas.
Quando os dois garotos se calaram, desapontados, ouvimos um ronco de motor se aproximar.
- Pule e nade at a margem! - disseram os rapazes. - A polcia est vindo a!
Quando mergulhei na gua morna, os dois me seguiram, nadando comigo at alcanarmos a beira do lago.
- Obrigado pela companhia - disse eu, tirando a camisa molhada e torcendo-a.
- Vou escrever isso no meu dirio - disse um deles.
- E eu, um dia, vou escrever um livro sobre esta aventura - disse o outro.
Sorri e desapareci no bosque.
Comprei minha passagem a bordo de um barco cargueiro que estava indo rumo ao sul, carregado com sacos de cimento. Enquanto viajava pela costa do Pacfico, pude perceber
a mudana de clima. O mar era mais azul, as rvores mais verdes, as flores mais coloridas e as pessoas mais bonitas. Em maio, quando cheguei a Xangai, meu cabelo
estava na altura dos ombros. Joguei fora meu ltimo suter e fiquei observando-o flutuar no canal que um dia conduziu os navios do imperador rumo ao sul. A lder
do enorme Clube da rvore Venenosa da Universidade de Xangai, uma garota de vinte anos, estava me esperando no pequeno porto com um sorriso tmido e sensual, segurando
um buqu de flores silvestres nas mos. Ela me perguntou se poderia ser a secretria da filial do Partido Democrtico em Xangai.
Seu nome era Li-Ping e tinha a rara habilidade de misturar poltica com arte e prazer. Suas escolhas para minhas aparies variavam de cafeterias, onde os estudantes
tomavam caf colombiano importado com creme e fumavam Marlboro, at boates barulhentas, onde garotas seminuas se en-
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roscavam em cantores tambm quase nus. Quando apareci com Li-Ping, no foram necessrias apresentaes. Aquela gente, o grupo mais descolado da nova cultura de Xangai,
parou e aplaudiu a minha mensagem. Muitas vezes, assim como um astro do rock, tive que sair pela porta dos fundos e ser empurrado para dentro de um carro, enquanto
minhas fs gritavam e se arranhavam, brigando para se aproximar de mim.
Para irritao das autoridades locais, aconteciam manifestaes aps as minhas visitas. Diretrios Regionais do Partido Democrtico surgiam em cada campus que eu
visitava. Lderes de cada pequeno diretrio municipal das cidades do litoral comearam a se comunicar entre si. Eles compunham canes e escreviam poesia louvando
o nascimento de uma revoluo secreta. Dezenas de lderes abandonaram suas faculdades no meio do semestre para ir a outras universidades que eu no tinha podido
visitar na rota da minha viagem. Eles se autodenominavam meus discpulos. Alguns eram presos e outros retornavam s suas casas, sob a superviso de seus pais.
Enquanto o sol de vero queimava, o pas ardia como uma terra em chamas - um incndio de almas, um incndio de coraes. Todos falavam de mim; eu era um fantasma
que vivia apenas nos lbios daqueles que me idolatravam. Alguns chegavam a dizer que eu no existia. Eu era uma miragem criada pela polcia como pretexto para apertar
o cerco sobre o povo. No entanto, minhas recentes gravaes de udio e as pessoas que me viam com seus prprios olhos provavam constantemente que eu realmente vivia
entre eles, e que a revoluo havia, de fato, criado razes.
Quando cheguei a Fujian, montado numa mula magra, e vi suas exuberantes montanhas em meio ao calor escaldante, juntei as mos e fiz uma pequena orao para este
inesquecvel captulo da minha vida. Ajoelhado junto a um riacho, molhei meu rosto com a mais fresca gua da montanha e bebi esse lquido lmpido e claro, degustando
o cu na terra, saciando uma sede infernal no paraso.

Shento

CAPTULO 58

CADA DIA QUE SE PASSAVA COM TAN LONG ainda  solta me atingia como uma flecha venenosa. Eu voava como um mosquito enlouquecido a cada rastro do cheiro do sangue
de Tan, apenas para descobrir que seu fantasma havia escapado mais uma vez. Cheguei a pegar um avio at Xinjiang em busca da minha caa, mas acabei me deparando,
como era de se esperar, com mais uma decepo.
Nesta viagem, parei no caminho para ver Sumi, que se recusou a falar comigo e ameaou se matar pela causa. Mas o pior de tudo foi o tapa na cara que recebi de meu
filho. Quando cheguei, Tai Ping estava perseguindo uma borboleta. Ele vivia no confinamento do ptio da priso.
Meu filho, me perdoe. Um dia voc ver quem realmente sou. Um dia lhe darei o mundo. Para mim, um ia era um prazo abstrato, em algum lugar do futuro. Quando assumisse
o poder absoluto, reaveria meu filho. Essa deciso justificava o fato de deixar Tai Ping naquele isolamento. Fiquei conformado ao ver que o garoto havia crescido
uns 15 centmetros e que aproveitava os presentes especiais que eu lhe mandava todos os meses - uma bicicleta, latas de doces, livros - pequenos luxos com os quais
eu nem poderia sonhar quando criana.
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No se passava um dia sem o relato de alguma desordem civil causada direta ou indiretamente por Tan Long. Havia greves operrias se espalhando pelo Sul e manifestaes
de protesto nas universidades do Noroeste. Na ltima contagem, o nmero
de inscritos no Partido Democrtico havia chegado  alarmante quantidade de meio milho de partidrios, sem contar com os outros trs mil pequenos partidos que surgiram
nos ltimos meses.
- Estamos diante de uma verdadeira dor de cabea - disse-me o presidente certo dia, com um suspiro. - Os comunistas derrubaram os nacionalistas, em 1949, exatamente
como est acontecendo agora.
- Mas temos armas, exrcitos e uma base militar - retruquei. - O povo no tem nada, s o fantasma de Tan.
- O que voc est fazendo com as armas? O que voc est fazendo com o Exrcito? Por que vocs no conseguiram pegar o homem, depois de seis meses?
- Tentamos tudo, senhor.
- Mande o Exrcito, a Marinha e a Fora Area. No me importa o que voc faa, mas faa alguma coisa rapidamente. Shento, meu filho, nunca recebi tantas reclamaes
dos velhos ministros. Eles querem a sua exonerao. Mas confio no seu trabalho e desejo que voc me substitua um dia. Voc tem de demonstrar sua convico e sua
fora. Preciso de um pouco de estabilidade neste momento.
- E vai ter, senhor.

Fei-Fei

CAPTULO 59

18 de junho de 1986
BEIJING
FEI-FEI, QUE AGORA ERA APENAS O FRGIL esqueleto de um homem, foi empurrado para dentro de uma van carcerria e, em seguida, transportado para um destino desconhecido,
prximo  montanha do Oeste. Quando a porta da van se abriu novamente, ele foi arrastado e jogado no cho. Um soldado leu a sentena:
- Fei-Fei Chen, por meio desta, a Suprema Corte de Justia Popular faz saber que voc foi condenado  pena de morte no dia de hoje, por acusaes antigovernistas.
- Mas nunca fui a julgamento.
- Esta  a sentena final. No  permitido recorrer.
- Quero viver! Confessarei qualquer coisa!
- A confisso no muda nada.
- Por favor, quero ver minha famlia e meus amigos mais uma vez. Tenho direito a alguns dias, pelo menos.
Corvos negros grasnaram prximo dali, escondidos nas frondosas rvores do local montanhoso escolhido para a execuo secreta. Mas os reprteres do governo, com seus
rostos de pedra, demonstravam pouca emoo. Estavam l apenas para testemunhar e captar aquele momento
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brutal, para que pudessem enviar rapidamente as fotos sanguinolentas aos jornais nacionais.
- Por favor, reprteres, faam alguma coisa! Sou inocente! - implorou Fei-Fei, de joelhos.
Um soldado chutou suas costas, e Fei-Fei caiu de cara no cho, com a poeira voando num sbito sopro em torno dele. Pisando com uma bota pesada nas costas de Fei-Fei,
o soldado puxou o gatilho duas vezes.
A cabea de Fei-Fei explodiu, seu crebro voou em todas as direes e seu corpo estremeceu e deu um solavanco, devido ao impacto. Ele morreu instantaneamente.
As cmeras fotogrficas dispararam, retratando o seu momento' final.

Sumi

CAPTULO 60

18 de junho de 1986
PRISO DE XINJIAND
Ao AMANHECER, A PORTA DA MINHA CELA foi aberta com um pontap e fui levada, enquanto Tai Ping chorava em seu beliche. Os guardas me transferiram apressadamente a
uma torre de tortura e me amarraram a uma mesa de metal. Um vigia andava de um lado para outro, com as mos para trs. Ento, ele se dirigiu a um gravador que estava
prximo.
- Diga que no conhecia Shento e que inventou esta histria toda
- ordenou ele.
- Minha lngua serve apenas para falar a verdade, nunca a mentira
- respondi com firmeza.
- Pela ltima vez!
- Est perdendo o seu tempo - disse eu, cuspindo nele.
- Se no confessar, nunca mais vai falar novamente - disse ele, limpando meu cuspe do rosto.
- No tenho nada a confessar! - Tentei cuspir de novo, mas minha boca estava seca.
- Cirurgio! - O oficial chamou um homem de jaleco e luvas. - Faa com que ela fique muda. Quero ver esta beleza perder sua lngua venenosa.
Perder minha lngua? O terror tomou conta de mim.
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- Saia de perto de mim! - berrei.
Uma seringa penetrou no meu brao inesperadamente.
Minha mente perdeu a clareza e minha viso se toldou. Quase inconsciente, vi o cirurgio estender a mo e abrir minha boca, puxando minha lngua para fora.
Tentei morder, mas no tive foras. Tentei gritar, mas no ouvi som algum. Depois, vi sua outra mo segurando um bisturi reluzente que descia rapidamente sobre mim.
No senti dor, apenas uma ligeira sensao na lngua, como se ela tivesse sido arranhada por um junco do mar. Minha garganta foi subitamente inundada pelo meu prprio
sangue, me fazendo dar golfadas e engasgar.
No senti mais nada depois disso.

CAPTULO 61

QUANDO AS FOTOS DA EXECUO DE FEI-FEI e da lngua cortada de Sumi foram publicadas em todos os principais jornais, o pas foi tomado pela tristeza, pelo desnimo
e pela raiva. A costa do Pacfico enevoou-se com nuvens espessas e escuras. Gotas de chuva caam incessantemente sobre as copas alvoroadas das rvores e as ondas
rugiam como tigres furiosos, ameaando engolir cidades e vilas do litoral. Crianas sussurravam em voz baixa, questionando a expresso triste no rosto de seus pais.
Bastava que lhes mostrassem as fotos da punio brutal.
- A gente pode perder a lngua porque falou a verdade? - indagavam as crianas, perplexas.
- E a cabea tambm. - Os pais j no sabiam mais o que era a verdade.
DEITADO NO CHO DE UMA PEQUENA PENSO em Fujian, chorei at minhas lgrimas secarem. Esses demnios! Tinha chegado a hora da revoluo.
Com minha caligrafia firme, redigi um ardoroso comunicado a todos os lderes dos diretrios do Partido Democrtico e a todos os partidos irmos formados durante
o ltimo ano. - Chegou a hora! - escrevi,
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convocando todos os patriotas desta terra a marchar nas ruas. O governo poderia derrubar um ou dois, mas quando milhes de pessoas marchassem, os governantes iriam
tremer. Pedi a todos que se reunissem na praa Tiananmen no domingo seguinte, onde eu lideraria uma greve de fome contra o governo, at que os governantes estivessem
dispostos a se sentar e negociar conosco.
Meu texto foi imediatamente copiado e jogado s multides nos mercados, nos refeitrios escolares, nas estaes de trem e nos pontos de nibus, em todas as cidades
e vilarejos. Minhas palavras eram de esperana e de fogo. O povo, entristecido pelas atrocidades, ousava proferir palavras de indignao. O medo foi descartado e
a coragem renasceu. Slogans antigovernistas foram ostensivamente colados pelas ruas e nos muros dos prdios do governo. Os estudantes abandonavam as salas de aula
e os professores os seguiam, em protesto.
As cidades, reluzindo no calor do vero, estavam cobertas de preto e branco em sinal de luto por Fei-Fei. A crueldade indescritvel da lngua amputada da autora
mais eloqente daquela gerao levou a multido enfurecida a um novo nvel de indignao. Eles queriam sangue. Queriam que os criminosos pagassem por isso. Queriam
a morte do coronel Shento.
Dois dias depois, ocorreram milhares de conflitos com a polcia. No terceiro dia, os guardas vagavam armados, olhando para qualquer aglomerao com desconfiana.
No quarto dia, no sbado, mais reforos foram trazidos de vrios comandos regionais e, com eles, veio o ataque da imprensa estrangeira. No domingo, gente vinda de
todas as partes da cidade lotou a antiga praa Tiananmen at o limite. As bandeiras das universidades e das fbricas esvoaavam na brisa suave. Por volta do meio-dia,
meio milho de pessoas estavam sentadas, gritando e cantando na praa.
Lan-Gai, o lder da Universidade de Beijing, subiu em uma mesa no centro da praa, com um microfone nas mos, entre dez mil dos seus prprios colegas. Todos vestiam
camisas brancas, com faixas pretas no brao direito e em torno da cabea. Lan-Gai conduzia uma cano atrs de outra.
No canto oeste da espaosa praa, estudantes da Faculdade de Artes montaram um palco juntando algumas mesas do refeitrio. Lderes estudantis faziam discursos inflamados,
que comeavam com uma crtica lgica ao governo e terminavam com gritos pedindo sangue e luta. No canto leste, a Universidade Ferro e Ao moldou uma estrutura em
ferro da Esttua da
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Liberdade coberta por uma bandeira vermelha, simbolizando as aspiraes da manifestao. Ao norte, a Faculdade de Agricultura construiu uma efgie de seis metros
do coronel Shento segurando um presidente Heng Tu em miniatura em seus braos. Durante o dia inteiro, eles entoaram as mesmas frases: Abaixo Shento! Abaixo Heng
Tu! Devolvam a lngua de Sumi! Lembrem-se de Fei-Fei Chen!
As canes e os gritos espalharam-se como ondas incessantes. Dezenas de milhares de cidados de Beijing pedalaram em suas bicicletas at  praa para testemunhar,
em silncio, aquela rara viso de desafio aos seus temidos lderes corruptos.
Um velho com uma gaiola pendurada no guidom da bicicleta gritava aos estudantes:
- Vo para casa e comam alguma coisa. Nunca vo vencer. Nada vai mudar s porque vocs vo passar fome por alguns dias.
Ningum deu ateno ao velho. Ele continuou a pedalar, para terminar seu passeio dirio.
Lang-Gai andou pela praa, visitando outros acampamentos e conversando com outros companheiros. Eles se deram apertos de mo com firmeza, como revolucionrios, e
abraaram-se com fora, como companheiros de batalha. Brindaram e beberam copos de gua como se fosse vinho. Cantavam velhas canes da Grande Marcha. Cada rosto
era um sol ardente, cada corao, um mar revolto. Milhares de bandeiras ondulavam na brisa suave da tarde.
A polcia estava do lado de fora da praa, alguns conversando com os alunos, outros bebendo gua com eles. Mas no eram os soldados que estavam ali de servio que
importavam, e sim aqueles que estavam maquinando as aes por trs deles.
Onde estaria o seu lder?
O estado de esprito estava comeando a ficar desanimado, mas foi ento que jovens operrios, vestindo uniformes azul e branco, chegaram  praa, dirigindo uma dzia
de caminhes grandes e barulhentos, carregando centenas de garrafas de gua e barris de ch. Eles serviram as bebidas, fazendo exclamaes em voz alta, abraando-se,
apertando as mos uns dos outros, bradando slogans de liberdade.
Um policial subiu em cima de um caminho do Exrcito, com um microfone nas mos, e anunciou:
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- Jovens, por favor, dispersem-se pacificamente! Voltem para suas escolas, casas e fbricas. O governo ouviu suas vozes. Vocs j se fizeram entender. Est na hora
desta manifestao antigovernista ilegal terminar. Vocs no sero responsabilizados pelos seus atos de hoje se seguirem as instrues agora!
A multido, temporariamente quieta, irrompeu em uma tempestade ensurdecedora de berros.
- Abaixo o assassino Shento!
- Devolvam a lngua de Sumi!
- Devolvam a vida de Fei-Fei!
Seus gritos abafaram o fraco zumbido do alto-falante.
Ao cair da noite, emergi da multido e subi no palco de mesas precrias com o retrato do presidente Mo ao fundo. Num movimento silencioso, trs grandes emissoras
americanas, mais a BBC, a CNN, a Tokyo NEWS, a Britain's Sky Cable e a United Germany TV, apontaram suas cmeras com lentes compridas na minha direo.
Grupos de alunos se precipitaram em minha direo e me levantaram para o alto com as mos.
- Silncio! Silncio! - bradou Lan-Gai atravs de um alto-falante. - Discurso, discurso!
As mos da multido me devolveram ao palco. Eu clamei:
- Meus queridos amigos, patriotas, companheiros da liberdade, estou aqui com vocs! Estou sem comer desde ontem e no comerei at que os demnios dessa terra sucumbam
a ns...
Os aplausos abafaram minhas palavras por um instante.
- ...queremos respostas! No piedade! Queremos o poder para o povo, no tirania. A vida de Fei-Fei precisa ser redimida, e a lngua de Sumi no pode ter sido cortada
em vo! No nos renderemos at que nossas perguntas sejam respondidas e nossas exigncias sejam satisfeitas!
Os gritos ecoaram na praa, a esperana foi resgatada e uma noite de regozijo se seguiu.
UM NOVO DIA RAIOU. DE MOS DADAS, jovens companheiros sentavam-se no cho fresco de pedra, cochilando em meio ao lixo do dia anterior. Sonhavam com a comida que
no haviam comido. Seus corpos estavam encolhidos e relutantes. Seus olhos estavam fundos devido  fome, que ocupava todos os
seus pensamentos. No eram uma gerao acostumada, como seus pais, a conviver com estmagos vazios. Sempre tiveram mais para comer e menos com que se preocupar.
Eram a gerao dos filhos nicos - senhores dos seus principados. E agora, estavam com fome. Tudo o que consumiam era gua e mais gua, para se manterem alertas
e vivos.
Escapei da captura na primeira noite, adotando as tticas de guerrilha de Mo: sempre me movimentando de um grupo para outro, falando com o lder de cada um deles,
espalhando palavras de encorajamento.
No comeo da manh seguinte, houve um conflito no lado norte da praa. Uma pequena multido da Faculdade de Diplomacia e Relaes Internacionais bloqueou os guardas
da Guarnio, que tentavam hastear a bandeira. Um soldado golpeou a cabea de um manifestante com um fuzil, fazendo-o sangrar abundantemente.
- H algum mdico por aqui? - berrou Lan-Gai pelo alto-falante. Quatro estudantes de Medicina correram at l e fizeram curativos no
aluno ferido, enquanto os grevistas faziam uma barricada para afastar os guardas. Pela primeira vez, desde seu estabelecimento em 1949, a bandeira vermelha da Repblica
Popular da China no foi hasteada na praa Tiananmen. Os estudantes aplaudiram e a guarda bateu em retirada.
No meio da manh, mdicos do Hospital do Povo chegaram com soros e seringas, um esquadro de ambulncias e uma equipe de enfermeiras eficientes. Apertei a mo do
mdico-chefe e agradeci a ele por sua considerao.
No comeo da tarde, chegaram mais caminhes trazendo operrios e funcionrios do governo.
- Estamos aqui para dizer aos alunos que ns os apoiamos - declarou o lder do sindicato dos metalrgicos. - Trouxemos muitos martelos e foices para os jovens contra-atacarem,
se os soldados ousarem tocar em vocs novamente.
s trs da tarde, gente de todos os cantos da cidade se misturou aos grevistas e manifestantes, conversando com eles, passando copos de gua e gritando alto por
socorro para aqueles que desmaiavam de calor. Ajudavam a carregar at as ambulncias os que estavam fracos demais para andar, e fizeram a multido abrir caminho
para deixar os veculos de emergncia sarem e os caminhes de gua entrarem. As mes e os pais de Beijing ajoelharam-se ao lado dos jovens, limpando o seu suor,
oferecendo lquidos, chorando, implorando aos corajosos jovens que desistissem e fossem para
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casa. Mas, de algum modo, o apoio e os conselhos causavam o efeito contrrio. Os manifestantes, apesar de fracos, balanavam a cabea negativamente e se recusavam
a sair dali.
s quatro horas, os alto-falantes do governo fizeram rudo.
- Chegou ao nosso conhecimento que existem maus elementos por trs de jovens estudantes inocentes, instigando a agitao civil. Aconselhamos novamente a todos os
estudantes que desistam da greve de fome e saiam da praa. Vocs esto todos sendo negativamente influenciados por contra-revolucionrios para que eles, os verdadeiros
inimigos do pas, possam alcanar seus objetivos ilegais. Jovens, seu futuro  brilhante e a estrada diante de vocs  longa. Ajam com cuidado. Estamos aqui para
ajud-los a sair de uma situao difcil. Voltem para casa. Caso contrrio, instituiremos o toque de recolher ao cair da noite. Se permanecerem aqui, estaro infringindo
a lei marcial.
- Precisamos construir barricadas. Diga isso a todos - comuniquei a Lan-Gai.
Subi no palco novamente e falei atravs do alto-falante.
- Podemos estar com fome, mas no temos medo. Permaneceremos aqui! Temos o direito de nos manifestar! A lei marcial no nos assusta.
A multido aplaudiu.
- Porm, estamos diante de um governo feudal to brutal quanto o dos nazistas - avisei aos jovens alunos. - Eles vo abrir fogo e atirar para matar.  inevitvel.
No tero compaixo. No querem ouvir a voz do povo. Optam por no nos ouvir. Esto se escondendo porque tm medo de ns. Estamos na luz e eles, na escurido. Quanto
mais resistirmos, mais amedrontados eles ficaro. Esto com seus dias contados no poder. Vo ter que enfrentar a morte como assassinos. Suas mos - manchadas pelo
sangue do povo - sero amputadas. Eles sero o lixo da Histria e ns, as jias do futuro. Companheiros, meus queridos companheiros de armas, sado a todos vocs!
Ao entardecer, apesar de faminto e cansado, vaguei pelo local servindo jarras de gua ou xcaras de ch quente aos mais jovens do que eu. Alguns recusaram at mesmo
isso, de maneira calmamente determinada. Outros estavam fracos, com os olhos vazios, os lbios ressecados, aceitando pequenos goles apenas para poderem permanecer
ali, naquela demonstrao de tora de vontade, no querendo ser levados da praa ao hospital.
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A noite caiu e a temperatura baixou. Uma brisa marinha soprou e abrandou o mau cheiro, que agora se erguia como um muro ao redor da praa. Para minha preocupao,
mais tropas blindadas carregando revlveres e fuzis marchavam para dentro da praa. Mais tanques desciam as ruas, deixando trilhas estriadas em seu caminho. Holofotes
potentes lanavam longos raios brancos, que penetravam na noite escura. Os jovens agarravam-se uns aos outros, cobrindo seus corpos fracos com cobertores sujos.
Mas os prprios soldados, vindos do interior do pas, tinham olhos brilhantes e esprito jovem. Alguns at dividiram a gua que tinham com os manifestantes.
No terceiro dia, um soldado chegou carregando uma bandeira branca, pedindo para falar com o lder.
Levantei-me e perguntei: ' '
- O que  que voc quer? 'l'
- O primeiro-ministro solicita representantes para as negociaes.
- Quantos?
- Dois.
Por uma maioria de votos com as mos levantadas, Lan-Gai e eu fomos os escolhidos.
A multido abriu caminho e fechou-se novamente atrs de ns.
A negociao foi uma farsa. Durante cinco minutos, o primeiro-ministro Tang me passou um sermo, at que eu me levantei para ir embora.
- Pare! Com quem voc acha que est falando? - exclamou o primeiro-ministro gordo.
Parei e respondi:
- No tenho certeza. O senhor  um cego e um surdo combinados em uma pessoa s. Seu nico defeito  no ser mudo.
- Voc est me ofendendo.
- E o senhor est ofendendo o nosso povo desde que assumiu o emprego do seu tio.
- Quais so as suas condies, ento? - exigiu o primeiro-ministro, com raiva.
- A renncia de Shento, o jovem coronel da Guarnio. O primeiro-ministro sorriu com escrnio.
- Isso o diverte? Vamos embora - disse Lan-Gai. O sorriso desapareceu de seu rosto.
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- Quais so as suas outras exigncias?
- Liberte Sumi Wo imediatamente - disse eu. - Pena capital para Shento por seus crimes e um planejamento imediato para eleies livres e diretas.
- O coronel Shento  um membro confivel da administrao de Heng Tu - esbravejou o primeiro-ministro. - Ele serviu ao nosso pas e  nossa revoluo.
- Ele  um fugitivo da lei com sangue nas mos - repliquei.
- Tenha cuidado, meu jovem. No deixe seus sentimentos pessoais afetarem seu julgamento. Voc est liderando estudantes inocentes nesta greve de fome buscando vingana
para os seus prprios ressentimentos? - perguntou o primeiro-ministro Tang, maliciosamente.
- Vamos embora, Lan-Gai - disse eu. - As pessoas l fora vo lutar at o fim.
- Parem. No podemos aceitar nenhuma das suas condies. V dizer ao seu pessoal que evacue a praa imediatamente. Do contrrio, sero todos presos.
Em silncio, samos do local.

Shento

CAPTULO 62

ASSISTI A NEGOCIAO COM OS LIDERES estudantis atravs de uma cmera de circuito fechado, junto com ministros importantes do gabinete. Estvamos reunidos numa sala
em formato de pavilho, no interior da Cidade Proibida. Era evidente a ausncia do presidente Heng Tu, cujo paradeiro era conhecido por apenas um homem: eu.
Sentado no lugar do presidente, eu me mexia desconfortavelmente, olhando meu meio-irmo na tela cheia de chuviscos, odiando cada slaba da conversa. Eu havia me
oposto veementemente a qualquer negociao, mas, mesmo assim, o primeiro-ministro havia solicitado o encontro com os lderes. E o que havia conseguido? Nada, exceto
mostrar sua fraqueza monumental. Eu estava enfurecido e no tinha nada a dizer. O que precisava ser dito j havia sido dito - eles ouviram tudo. As pessoas l fora
queriam me ver pelas costas. As pessoas que estavam ali dentro tambm. Levantei-me, declarando a suspenso da reunio, mas fui contrariado pelo chefe do Comit Central,
sr. Fong, que pigarreou e disse:
- O que devemos fazer?
- Nada - respondi, caminhando para a porta.
- Mas o povo est exigindo coisas.     ,  ,
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Parei na soleira da porta.
- Eles esto exigindo o caos. O senhor est sugerindo que instauremos o caos?
- Esta deciso no cabe ao senhor, jovem coronel. Achamos que o senhor no tem o direito de estar aqui-disse o secretrio de cabelos brancos do comit, num tom de
voz agressivo. - O senhor no  membro do rgo decisrio.
- Represento o presidente. Ele tem um lugar aqui?
- Exigimos a presena do nosso presidente! - Vocs exigem? - Eu ri.
- Sim, exigimos. Certo? - O velho olhou ao seu redor para o comit de trinta membros. Todos levantaram a mo em favor da proposta.
-- Tenho uma procurao que me concede todo o poder e a autoridade do presidente, como vocs bem sabem. - Tirei uma folha de papel da minha maleta de couro e sacudi-a
no ar.-Todos os desejos do nosso presidente esto escritos aqui. Ele  terminantemente contra qualquer acordo ou concesso.
- Devamos considerar as exigncias deles cuidadosamente antes de tomarmos qualquer atitude - insistiu outro ministro.
- Qualquer ato desafiador  considerado um ato de traio contra a presidncia - disse eu.
- Exigimos a sua renncia - disse abruptamente o ministro da Fazenda.
- Queremos o seu impeachment, coronel - exigiu outro.
- Por qu? Fao o que devo fazer pelo pas, nunca por mim mesmo. Querem se livrar de mim por isso? Lutei por todos vocs, para que pudessem sentar aqui e aproveitar
o poder que tm. - Olhei cada um deles com um olhar penetrante. - Relatarei os seus sentimentos ao presidente - disse eu, saindo intempestivamente. Em vez de me
dirigir ao quarto do presidente, fui ao meu prprio escritrio, enfurecido pela mudana da situao dentro do prprio governo. Porm, no estava surpreso. Eu sempre
fui um cisco nos olhos deles, e h muito tinha me preparado para o dia em que eles me trairiam. Calmamente, depois de me recompor, fui  sala do telgrafo e ordenei
que uma mensagem em cdigo fosse despachada a todos os meus jovens generais: "Chegou a hora. Ajam agora."
 MEIA-NOITE, EM FujlAN, O GENERAL da reserva Ding Long foi arrastado de sua cama e levado a um navio da Marinha, atracado prximo ao porto de Fuzhou. De olhos vendados,
com as mos amarradas nas costas, ele foi levado
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ao salo de jantar do navio, onde os oito comandantes regionais encontravam-se tambm sentados. Todos estavam manietados da mesma maneira, cada um com um jovem general
de p, s suas costas. Quando suas vendas foram retiradas, eles se entreolharam, perplexos e amedrontados.
Examinei a sala, onde estavam os homens mais perigosos do pas homens que controlavam armas e soldados. O destino desta nao poderia se erguer e se afundar com
eles. Aquele era o momento com o qual eu havia sonhado h muito, o momento da vingana, um momento para ser saboreado. Caminhei at o centro da sala.
O cabelo de Ding Long estava branco e havia rugas onde um dia houvera o brilho da juventude.
-Vocs todos parecem surpresos por eu ter agido antes que vocs agissem - declarei. - O seu golpe contra mim e o presidente Heng Tu fracassou oficialmente, mas isto
no quer dizer que vocs estaro isentos das conseqncias de sua tentativa lastimvel. - Virei-me para o general Ding Long e agarrei a lapela de sua farda. - O
senhor sabe quem sou eu, general?
Ding Long apertou os olhos, contemplando-me por um longo tempo, antes que uma luz de reconhecimento se acendesse.
- Shento?
- Sim, seu filho abandonado. O enjeitado do mundo.
- Filho... - Havia uma expresso de dor em seu rosto.
- Nem mesmo uma desculpa! - Como eu queria faz-lo em pedaos! Lembrei-me daquele tapa que eu tinha recebido de seu sogro h muitos anos atrs. Olho por olho. Dei
um tapa no rosto de Ding Long com tanta fora que o sangue escorreu pelo canto da sua boca. - Pendurem-no.
- Pelo pescoo? - perguntou meu jovem general.
- No, eu quero que ele sofra, no quero que morra logo. Pendure-o pelos polegares.
Uma corda foi jogada por cima de um cano e Ding Long foi puxado para cima, deixando escapar um grito de dor. Sorri e dirigi-me aos chefes militares. ,
- Tenho em mos um documento que deve ser assinado por todos vocs. Um soldado segurou o documento diante do primeiro comandante.
- O senhor no precisa saber do que se trata antes de assin-lo, comandante - zombei. - O senhor vai assin-lo porque assim o desejo. Este  o nico jeito de sair
daqui vivo.
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- Eu assino! - berrou o comandante de Fujian. - Mas minhas mos esto amarradas.
- Desamarre as mos dele - ordenei.
Fu-Ren respirou fundo, esfregou os punhos e assinou obedientemente. Em seguida, os comandantes de Jiangxi, de Nankin e de Lanzhou fizeram o mesmo. Quando todos j
haviam assinado, ordenei:
- Agora, mordam seus dedos mdios e esfreguem seu sangue ao lado das assinaturas, para autentic-las.
Os comandantes entreolharam-se, amedrontados.
- Recuso-me a fazer isso. Voc  um traidor do povo - protestou o comandante de Lanzhou.
Saquei do meu revlver e atirei em seu brao direito. O homem gritou enquanto seu sangue respingava.
Obedientemente, os outros chefes morderam o dedo e esfregaram o sangue ao lado de suas assinaturas.
Peguei o documento, uma preciosa prova acusatria, e perguntei:
- Sabem o que assinaram? Eles balanaram a cabea.
-  claro que no sabem. Isso  um acordo entre vocs para um golpe de Estado, articulado por ele.-Apontei para Ding Long, pendurado debilmente por seus polegares,
que sangravam. Seus ps mal tocavam o cho.
Houve gritos de protesto insistentes, vindos dos comandantes.
- Agora que vocs viveram mais do que o necessrio para o povo e para mim,  hora de dizer adeus. - Eu sorri. - Atirem em todos eles e joguem-nos ao mar.
- E quanto a Ding Long? - perguntou um jovem general.
- No atire nele. Poupe-o para os tubares.
- Meu filho, sempre o amei - murmurou Ding Long, enfraquecido pela dor.
- Claro que amou.  por isso que eu estou lhe dando uma chance de viver. Voc s precisa sobreviver ao mar, com o sangue de todos os seus companheiros rodopiando
ao seu redor. Eu sobrevivi a isso. Voc tambm deveria sobreviver. Voc  meu pai.
Ao sair para o convs, ouvi oito disparos, seguidos de um baque - Ding Long havia sido desamarrado e caiu no cho.
CAPTULO 63
QUANDO o RELGIO BATEU MEIA-NOITE, o exrcito de Shento abriu fogo sobre a multido. Primeiro aleatoriamente, depois em alvos especficos. Houve gritos de dor e
confuso. Os mortos estavam cados em poas de sangue. Os vivos choravam, tentando salvar os moribundos. O fardo da morte esmorecia os jovens coraes, que presenciavam
a concretizao de seus piores medos.
Abaixei-me atrs de uma mesa, enquanto uma saraivada de balas era cuspida na atmosfera noturna. As balas vinham de todo lado. Os jovens no sabiam onde se esconder,
enquanto eu berrava instrues para que fugissem.
Vindo da direo norte, ouvi o barulho dos tanques, de onde eram lanadas granadas, que explodiam no meio da multido. Gritei para os soldados e corri em sua direo,
mas eles continuaram atirando.
- Parem! - gritei. - No atirem nas pessoas! Podem me levar! Podem me levar!
As balas choviam como uma tempestade furiosa - sobre a minha cabea e meus ombros, rente s minhas orelhas. Mais pessoas caram mortas. Mais companheiros feridos.
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Pulei por cima de uma barricada, agarrei a arma de um soldado assustado e comecei a atirar. Fui abrindo caminho  bala, at alcanar o canto da praa. Joguei fora
a arma sem munio e me virei para olhar a praa fnebre, agora repleta de fantasmas. O sangue se empoava nos bueiros, as ambulncias uivavam, as sirenes da polcia
soavam, os tanques rugiam. As pessoas gritavam e choravam. Medo e morte. Corpos cheios de juventude abatidos pela fora das balas.
Abaixei-me perto de um muro, arfando. Um soldado se aproximou, apontando sua arma para mim. Esquivei-me e a bala atingiu outra pessoa. Corri at o rapaz ferido,
enquanto o soldado voltava a apontar a arma para mim. Pus o jovem estudante nos ombros e corri. O soldado investiu contra mim enquanto o estudante gemia, chamando
por sua me. Ele no devia ter mais do que 17 anos. - Shhh - sussurrei, ao encost-lo contra um muro de tijolos, esperando pelo soldado obstinado. Quando ele virou
a esquina, eu o ataquei, batendo com sua cabea contra o cho de pedras at que ele desmaiasse. Peguei sua arma, tirei seu uniforme e o chutei para o lado.
- Voc o matou! - disse o estudante ferido, alarmado.
- Para nos salvar.
- Voc  Tan Long, o nosso lder?
- Shhh.
- Para onde est me levando?
- Para o hospital.
- No, por favor, deixe-me aqui e corra o mais rpido possvel! Eles vo mat-lo!
Ignorando-o, vesti o uniforme verde e carreguei o estudante ferido at a ambulncia mais prxima. A viso era chocante. Havia centenas de jovens deitados no cho
ao redor do veculo. Apenas alguns mdicos se movimentavam em meio ao crescente nmero de pacientes. Alguns dos feridos haviam desmaiado, outros contorciam-se, em
estado de choque. Outros choravam e tentavam estancar o sangue com as prprias mos, ou com qualquer pedao de pano que encontrassem.
Como desejei ser mdico, um deus, ou Buda, para que minhas mos pudessem curar suas feridas! Mas no era nada disso. Eu era o motivo de todo aquele derramamento
de sangue. Quando me ajoelhei para auxiliar um ferido, outros dez estenderam as mos ensangentadas, pedindo ajuda.
Uma enfermeira passou e disse: ,
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- Obrigada. Voc  o primeiro soldado a ajudar.
Depois da esquina, as metralhadoras ainda atiravam, atingindo a multido. Os tanques moviam-se pesadamente; suas rodas dilaceravam tudo como dentes horrendos, mordendo
mais almas inocentes presas num beco sem sada, na corrida insana para escapar dos tiros. Manifestantes desarmados berravam, aterrorizados, mas os soldados no paravam.
Os alto-falantes continuavam a clamar:
- Saiam! Saiam! No cessaremos fogo at que todos tenham ido embora!
Havamos h muito nos rendido. Por que os soldados ainda estavam atirando? Helicpteros tambm haviam comeado a atirar nos que fugiam. Uma dzia deles pairava no
cu, cercando cada ngulo da praa. Era uma armadilha mortal.
Um grupo de soldados aproximou-se, acenando para mim.
- Vamos l, vamos terminar o servio! - berrou um deles, disparando sua semi-automtica em todas as direes.
- Vamos calar a boca desses pirralhos mimados de uma vez por todas!
- berrou um outro.
- Voc no levou nenhum ferido  ambulncia, levou, soldado? - perguntou um dos integrantes do grupo.
- Olhem s, est acariciando as mos deles. Que modelo de soldado! Ele ama as pessoas! - disse um outro, zombando.
Mantive-me em silncio. No instante em que abrisse a boca, seria desmascarado. Todos os soldados pareciam vir do sul e tinham um sotaque inconfundvel. O peloto
desgarrado me cercou, examinando-me minuciosamente.
A enfermeira se manifestou repentinamente.
- Vocs esto enganados. Este soldado estava perseguindo um homem grande e alto e parou simplesmente para perguntar a este estudante em que direo o homem havia
seguido.
- Bom soldado! - exclamou o oficial, dando um tapinha no meu ombro e prosseguindo com seus homens.
- Obrigado, enfermeira - disse eu.
- No, eu  que agradeo. - A enfermeira fez um V com os dedos.
- Continue lutando - sussurrou ela.
Fiz-lhe uma reverncia e desapareci na escurido.
454
r
AINDA VESTINDO o UNIFORME DO EXERCITO, sentei-me debilmente, encostado contra a parede de metal de um trem. O carregamento de passageiros silenciosos sentiu o movimento
do antigo cavalo de ferro. Dando um estalo, os alto-falantes do trem emitiram o srio pronunciamento que havia sido transmitido centenas de vezes atravs das rdios,
televises e jornais:
- Companheiros, povo da Repblica Popular da China, temos o prazer de informar que o incidente de quatro de junho da praa Tiananmen foi controlado com sucesso.
A maioria dos elementos antigovernistas foi eliminada. Estamos igualmente satisfeitos em informar que um grupo de lderes comunistas liderado pelo general Shento
deu fim a um golpe de Estado militar contra o nosso querido presidente Heng Tu, coincidindo com as atividades perniciosas da praa Tiananmen. Para recompensar seu
esforo e lealdade, nosso glorioso presidente nomeou o general Shento como o novo chefe militar de todas as trs foras armadas.
"O golpe, liderado pelo general da reserva Ding Long, em parceria com os outros oito comandantes regionais, foi erradicado por completo, mas os membros do incidente
da praa Tiananmen continuam atuando. Portanto, o Governo Central emitiu uma lei marcial temporria para que nossos soldados possam prender os lderes estudantis
que fugiram e ainda esto  solta."
- Pail - deixei escapar um pequeno grito, assustando meus colegas que cochilavam. Meu pai estava morto? As palavras sinistras do pronunciamento ecoaram na minha
cabea: "erradicado."
Dois dias haviam se passado desde que escalei o muro e consegui chegar  estao de trem, que estava abarrotada de pessoas fugindo do massacre. Aproximei-me do maquinista,
sem bilhete, com um fuzil nas mos. O capito me perguntou se eu tinha algum dinheiro. Fitei-o com um olhar srio.
- Est bem, ento, uma poltrona comum - disse o capito. - Todos os compartimentos com leito esto ocupados.
Quando subi a bordo, as pessoas me olharam como se eu fosse uma doena, uma praga, um assassino. Uma criana soltou um grito agudo ao me ver. O sangue, os tiros,
os corpos se empilhando como montanhas na praa, levados embora por caminhes de lixo - como poderia se esperar que uma criana gostasse do meu uniforme e do que
ele representava?
Quando a costa do Pacfico apareceu como uma pequena cobra  minha direita, soube que era a ltima parada: Fujian! Lembrei-me das palavras ditas
por meu av: "Voc sabe onde fica o seu lar". Eu sabia. As pessoas dali me ajudariam. Elas me esconderiam nas grandes montanhas ou no mar, onde nadavam as serpentes
marinhas. Mas no poderia recorrer  minha famlia. Havia mil armadilhas me esperando por l e meu aparecimento apenas os deixaria em mais apuros do que j estavam.
Em vez disso, liguei para o velho diretor da minha antiga escola, o sr. Koon.
Parecia que o tempo no havia passado para o sr. Koon. Encontramonos no cais de uma pequena aldeia de pescadores, Fu Ching.
- Sinto-me honrado por voc ter me telefonado - disse o monge.
- O senhor  o nico com o corao de Buda. Est tudo bem?
- No - lamentou o monge. - Seu pai ainda est desaparecido.
- Desde quando? - n    -\ ,.'
- H duas noites. > ,'.,,    "> <   % /
- O senhor acha que ele est morto? -i
- No! H uma frota inteira de pescadores procurando por ele. Vamos encontr-lo. No se preocupe, meu filho.
- E quanto  minha me e a meu av?
- Eles esto em priso domiciliar desde que o expurgo comeou.  igual  Revoluo Cultural com os Guardas Vermelhos, ou pior. Vocs, os Long, so o alvo de algum
muito poderoso. Mas estamos aqui para ajudar, toda a Baa de Lu Ching.
Fiz uma reverncia profunda.  '
- Nem sei como lhe agradecer.
- Ns, o povo,  que lhe agradecemos. Voc  nosso lder nacional, uma pessoa que luta pela liberdade. Oramos todos os dias por voc e por todas as almas que perderam
suas vidas. Como puderam fazer isso? - Ele suspirou, cansado. - Agora vamos sair daqui.
- Para onde? - perguntei. '    -
- Para os Estados Unidos.  . ,
- Estados Unidos?
- Tenho amigos em alto-mar.  impressionante o que um monge consegue fazer com oraes, hein? - Koon sorriu.
A ESCURIDO TOMOU CONTA DO MAR agitado de Fujian, quando me instalei na proa de um pequeno barco a vapor que balanava insistentemente por sobre as ondas, passando
por ilhas escuras. A cabea careca do monge era o
456
nico ponto brilhante entre o mar e o cu. Senti mil fios me conectando terra e ao povo que eu amava se desenrolando atrs de mim. No suportei olhar para trs.
- Para onde estamos indo? - perguntei.
- Para o estreito de Taiwan.
Havia luzes brilhando a distncia.
- Aquele  o nosso contato? - perguntei.
-- No, aquela  uma Unidade de Patrulha de Alto-Mar da Guarda Nacional. No se preocupe.
Koon puxou gentilmente o barco para perto do navio militar a vapor, que jogava muito. Um soldado, vestindo o uniforme vermelho da Guarda Nacional, apoiou-se no balastre
e gritou para baixo:
- Quem  esse a com voc?
- Um contrabandista novato - gritou o monge em resposta.
- Ento, o que vai ser?
- Hoje no so garotas. A lei marcial do pas complicou as coisas, como voc sabe. Mas tenho um bom conhaque francs e tambm isso. - O monge jogou um pequeno pacote
para o guarda, que o apanhou e abriu.
- Monge! Voc  o melhor.
Eles se separaram como dois barcos que nunca tivessem se encontrado.
- O que deu a ele?
-- Quinhentos dlares americanos.
- Onde  que o senhor arrumou isso?
- Eu me aventuro em situaes pecaminosas, que Buda me perdoe. - Ele uniu suas mos e rezou, soltando o leme por um instante.
- Vou lhe retribuir dez vezes mais - retruquei.
-  um presente do fundo do meu corao e tambm minha penitncia por coisas que eu no deveria ter feito e por palavras que no deveria ter dito.
Avistamos um outro barco. Desta vez, era o nosso contato. Uma luz piscou cinco vezes.
- Est tudo saindo conforme o planejado. Eles tm que esperar aqui. No podem atravessar a linha da fronteira martima - explicou Koon.
Quando nos aproximamos do barco de pesca, fui puxado para dentro por trs homens.
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- Volte quando o sol brilhar novamente - disse Koon, pondo-se de p no barco, que balanava.
- Vou voltar - prometi.
- Esta  a sua terra, a terra do seu pai, e do pai do seu pai... - Koon circulou em torno do barco de pesca mais uma vez em sinal de despedida, e ento zarpou para
longe, enquanto eu acenava para ele s cegas.
- Meu nome  Tan Long - disse aos homens.
- Ns sabemos. E somos soldados da noite. - Eles bateram continncia.
Respondi do mesmo modo.
- Soldados sem nome, levem-me para um pas livre.

CAPTULO 64

1986
NOVAYORK
NOVA YORK CHAMAVA POR MIM. O contorno dos prdios daquela cidade cheia de energia era a coisa mais bela que eu j tinha visto. O contraste dos prdios lanando-se
para o cu, tentando alcanar o infinito, me deixou tonto. Nova York! Nova York! A terra da beleza. A terra da abundncia. A terra da liberdade. No pude conter
as lgrimas de alegria ao pr os ps naquela cidade.
As pessoas - brancas, pardas, amarelas, negras - esbarravam umas nas outras, brigando por txis, vendendo cachorros-quentes e pretzels frios, ficando presas em portas
de nibus que no se fechavam direito. O Hotel Plaza, o Pierre logo na esquina, o Rockefeller Center a distncia, de frente para a fachada dourada do Saks da Quinta
Avenida. Que maravilha! Que sonho!
Andei pela Broadway, caminhando sem rumo pelo plano uniforme cortado em quadrilteros de longas ruas e largas avenidas. Na calada, um jovem violinista estava perdido
em sua prpria melodia. Um pintor cochilava ao sol da tarde enquanto a tinta pingava nos dedos dos seu ps, por entre as sandlias. Uma banda peruana tocava seu
lamento com o sabor estimulante da msica de suas montanhas. A vivacidade de Midtown. 460
tranqilidade de Greenwich Village - um descanso, uma pausa antes das ruas serpentearem at Wall Street, tomada por indivduos vestindo ternos e sufocada pelos charutos
dos homens de negcios. Subitamente, a cidade chegava ao fim e no se via mais a terra. E havia o porto, guardado pela angelical Esttua da Liberdade.
A primeira coisa que fiz foi olhar o XingDao Daily e alugar: um pequeno quarto numa sobreloja em Chinatown.
- De onde voc vem, com esse sotaque britnico to estranho? - perguntou-me a minha senhoria, cujo corpo tinha o formato de uma azeitona.
- Da China.
- Posso arranjar emprego para voc como lavador de pratos aqui no andar de baixo. Voc parece estar precisando de dinheiro, e a comida  de graa.
Tornei-me lavador de pratos no dia seguinte, num restaurante chamado Wei Bao. Havia montanhas de pratos para lavar, mas eu no estava contrariado com isso. Precisava
de dinheiro, como a senhora havia percebido, e precisava ser discreto enquanto esperava que meus contatos me encontrassem. Os agentes secretos chineses estavam espalhados
por toda a cidade. Mas Manhattan ainda era o melhor lugar para ser annimo. Era uma ilha ideal para descansar meus ps cansados, antes de prosseguir para a minha
prxima escala no horizonte distante.
- Voc precisa controlar isso - disse eu ao gerente uma noite, pouco depois de comear a trabalhar.
- Controlar o qu?
- O desperdcio. No est vendo? Estou jogando fora lagostas, galinhas pela metade, cabeas inteiras de peixe e arroz; alimentos preciosos. Sabe quantas crianas
passam fome no mundo?
O gerente revirou os olhos.
- Olha, aqui  a Amrica. As pessoas jogam as coisas fora. Elas no mandam consertar. No mandam ajeitar.  a mesma coisa com os casamentos: eles se divorciam. Eles
no aproveitam sobras, entendeu?
- Mas isso  errado!
- De que planeta voc veio? O que est fazendo aqui se est to preocupado com as crianas que tm fome no mundo?
- Todos ns deveramos nos preocupar.
461
- Ento, deixo essa preocupao para voc, est bem? A minha  com os clientes esperando na fila. V lavar os seus pratos.
- J lavei tudo.
- No tem mais nada o que fazer?
- Nada. Mas tenho observado voc. Voc faz questo de ser grosseiro com as pessoas que comem aqui, como se estivesse fazendo um favor a elas.
O gerente ficou em silncio, tentando encontrar as palavras certas para me dar uma bronca. No autntico estilo nova-iorquino, ele berrou em resposta:
- Quem diabos voc pensa que  para falar assim comigo? J foi gerente de alguma coisa antes?
- J, sim, senhor. Eu quase constru o Rockefeller Center da China.
- Ah ? E eu quase me casei com o Frank Sinatra!
Fiquei surpreso ao descobrir que havia mais de uma dzia de jornais diferentes na cidade. "Este  um pas livre", pensei. Eu lia o New York Times e o Wall Street
Journal. Isso me deixava com dinheiro suficiente para comprar o New York Post ou o Daily News. Optei pelo Post porque era mais barato e tinha manchetes mais interessantes.
Havia tanto para ler, e to pouco tempo!
O Times fez um bom trabalho relatando em detalhes a fuga dos meus companheiros lderes estudantis. Li que Lan-Gai havia sido baleado na perna e preso. Milhares de
estudantes e trabalhadores - gente sem rosto e sem nome - estavam mortos. Centenas de pessoas haviam sido presas e aguardavam execuo imediata. Havia ainda inmeros
outros amarrados, acorrentados, com as cabeas raspadas, jogados em campos de trabalho forado secretos e prises que ningum sabia que existiam.
Rezei por eles.
No dia seguinte, um homem branco e bem-apessoado veio ao restaurante e apresentou-se como um funcionrio da organizao Defensores dos Direitos Humanos.
- Meu nome  David Goldberg, e sou presidente da DDH. Seu contato em Taiwan me falou de voc. Bem-vindo aos Estados Unidos. - Ele olhou ao redor, vendo a cozinha
enfumaada e que cheirava mal, e sugeriu:
- Vamos sair daqui. ,
- Mas tenho que trabalhar.
462
- Nada disso! Voc tem um trabalho muito mais importante a fazer, acredite.
- Mas os pratos precisam ser lavados ou vo se acumular. Alm disso, preciso entregar essas sobras em alguns abrigos para os sem-teto aqui por perto.
- Sobras para os sem-teto... - Goldberg franziu o rosto.
- , elas esto timas. Eu provei.
- Eu sei, mas no acho que eles gostariam de saber que metade delas j foi comida. H uma diferena entre sobras parcialmente comidas e sobras intocadas.
- Mas  comida perfeitamente boa.
- Eu sei, mas aqui  a Amrica.
- Comida  comida, no importa onde voc esteja.
- Voc  um lutador, Tan. Vou lhe mostrar como ser til. Venha comigo.
Desisti de argumentar, lavei as mos e tirei o avental. Goldberg aproximou-se do gerente e sussurrou em seu ouvido.
- Mas quem  que vai lavar meus pratos hoje? - reclamou o gerente.
- Tome isso. - Goldberg sacou uma nota de cem dlares e entregou ao gerente, que a pegou e examinou contra a luz fluorescente.
- D-me isso. - Tomei a nota do gerente e a devolvi a Goldberg. - J que no me pagou, fique com todo o meu salrio, e obrigado pela ajuda.
Fomos embora.
Minha primeira parada com Goldberg foi na loja Macy's, onde ele comprou trs ternos para mim.
- Para qu?
- Superexposio na mdia. Vamos crucificar o seu governo.
Ele providenciou para que eu aparecesse no Today Show, na CNN, e em alguns noticirios locais. Disseram que eu possua um talento nato - que eu era carismtico,
eloqente - e que meu sotaque britnico tambm no incomodava ningum. Uma apresentadora comentou que, como ator, eu poderia facilmente fazer papis romnticos de
personagens asiticos em Hollywood.
A recepo mais calorosa foi a da comunidade sino-americana. Mecenas ricos ofereceram um jantar luxuoso em minha homenagem - lagostas ver-
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melhas, peixes vivos, camares que rastejavam, rs semi-abatidas, bebidas alcolicas e cerveja.
- Para que toda essa extravagncia? - perguntei  anfitri, uma chinesa da alta sociedade, cujo marido, um senhor de idade, era dono de vrios restaurantes de comida
para viagem na cidade e nos municpios vizinhos.
- Para celebrar a sua liberdade.
- Por que, ao invs disso, a senhora no pega todo esse dinheiro e pe num banco para os muitos companheiros a quem eu tenho que ajudar?
- No se preocupe com isso. A Amrica est cheia de dinheiro. O dinheiro vir. Voc  to bonito, convincente e herico que vai fazer os coraes se derreterem e
as bolsas se abrirem. Por que no escreve um livro? Isso vai lhe trazer algum dinheiro. Toda essa balbrdia vai acabar de uma hora para outra e logo ser esquecida
- as pessoas aqui na Amrica tm uma memria muito curta. Ento, deixe sua marca agora. Dlares! Para poder fazer isso, sugiro que se livre dos seus ternos comprados
prontos e encomende alguns sob medida. A apresentao  tudo. Eles querem ver um heri vestindo ternos feitos sob medida. Voc  a imagem do patriotismo, do amor
e da coragem e tem que pr isso numa boa embalagem.
- Mas no estou aqui em busca de amor ou de adulao. Estou aqui para angariar apoio para poder voltar  China, concorrer  presidncia e libertar meu pas da tirania.
- Muito bem colocado. Mas, mesmo assim, ainda precisa de ternos sob medida. Vou levar voc ao alfaiate do meu marido amanh.
Algumas semanas depois, usando meu novo terno sob medida, torneime o primeiro lder da democracia chinesa a discursar diante de todo o Congresso no Capitlio. Quando
subi ao pdio, diante dos verdadeiros representantes do povo, fui ovacionado de p.
Meu discurso foi breve, mas minha mensagem foi poderosa e eletrizante - a China havia voltado aos tempos de escurido e seu lder era uma ameaa  paz mundial.
Minhas fotos apareceram nos jornais do mundo inteiro e o que ocorreu foi efetivamente uma superexposio na mdia, conforme Goldberg havia previsto. Porm, era muito
burburinho e pouca ao. Comecei a me perguntar o que deveria fazer em seguida. Havia arrecadado algum dinheiro, mas no o suficiente para um programa substancial
de salvamento capaz de retirar meus amigos da China. Em pouco tempo, como a
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dama da alta sociedade de Chinatown havia me alertado, o interesse pelo assunto esfriou.
Pouco depois, fui abordado pela minha senhoria, que esticou suas mos gorduchas e perguntou:
- Onde est o meu aluguel do ms, seu defensor da democracia?
- Vou pagar em breve.
- Onde  que vai arrumar o dinheiro? Essas ruas no so pavimentadas com ouro, no importa o que tenham dito a voc.
- A senhora no vai ficar no prejuzo. Sempre posso ir lavar pratos no andar de baixo se no tiver o bastante.
- Voc tem trs dias de prazo, ou vou alugar o apartamento para outra pessoa.
No dia seguinte, dei uma caminhada solitria pela Canal Street e acabei perto de Wall Street. "O corao do capitalismo", pensei, "e eu sem um tosto furado". Balancei
a cabea. Mas, mesmo no meu estado, admirei as relquias do antigo capitalismo, alinhadas ao longo daquela rua estreita. A velha Trinity Church havia testemunhado
durante anos os altos e baixos do capitalismo. J.P. Morgan, o banqueiro de nariz batatudo e esburacado, tinha caminhado por essa mesma rua. Os Carnegie, os Vanderbilt,
os Rockefeller, os irmos Solomon, os irmos Lehman - e a lista continuava, cheia de nomes. Homens que viraram lenda e heris, viles e inimigos, contos de fadas.
Caminhei de volta para casa, com o sol s minhas costas e as sombras pesadas dos edifcios de escritrios sobre os meus ombros. Voltei ao meu quarteiro, sentindo-me
triste e sozinho numa terra estranha. Caminhei at a loja de bebidas que havia no quarteiro e gastei meus ltimos cinco dlares numa garrafa de Johnnie Walker.
No meu apartamento, tomei o usque, gole a gole, at esquecer onde estava e por qu. Atirei a garrafa no cho, fazendo com que o inquilino do andar de baixo cutucasse
a laje fina com um cabo de vassoura. Ento chorei, soluando como um bbado comum, mais triste ainda por causa do lcool que corria nas minhas veias. Todos os meus
amigos haviam se tornado fantasmas. Todas as suas vidas foram perdidas naquela noite trgica. Os sonhos de ontem haviam se tornado os pesadelos de hoje. Meus amigos
perdidos, minha pobre Sumi! As lgrimas me fizeram adormecer at minha respirao quase cessar, exceto pelo ligeiro arfar do meu corao que no parava de bater.
Fui acordado na manh seguinte por uma batida estrondosa que fez tremer a porta.
- No precisa bater to forte! -- resmunguei, indo abrir, trpego. Um homem sorridente de bigode entrou, vestindo um terno feito sob medida, sapatos de bico fino
e punhos com abotoaduras de bacos dourados.
- Sr. Long - disse o homem.
Perguntei-me por que um homem to arrumado estaria de p ali no meu msero apartamento, sorrindo. Mas eu no estava sonhando.
- O que posso fazer pelo senhor?
- Meu nome  Peter Davidson, da J.P. Morgan & Cia. O sr. Goldberg, da Defensores dos Direitos Humanos, me deu o seu endereo, se o senhor no se incomodar com a
minha intromisso. - Ele pigarreou e analisou o meu quarto miservel. - Seu av, um banqueiro venervel e altamente respeitado, nos seus anos de opulncia, depositou
uma certa quantia na nossa filial das Bermudas.
- Meu av? Voc o conhece?
- Fomos colegas de turma em Oxford. Ele escolheu a China comunista. Eu mergulhei no corao do capitalismo. Sou agora o diretor-executivo internacional da J.P. Morgan.
E estou aqui para lhe informar que seu av deseja repassar esta quantia para voc.         ,,
- E de quanto estamos falando?
- O depsito inicial foi de vinte milhes de dlares.
A notcia quase me fez pular da cama. A ressaca tinha oficialmente acabado.
- E quanto temos l agora?
- O seu av  um homem sbio. Ele nos aconselhou a investir tudo em aes e, como voc sabe, tivemos durante dez anos um mercado em expanso.
- A quantia?
- Ns temos...
- O dobro? - tentei adivinhar.
O homem revirou os olhos diante da minha impacincia.
- No.
- Um rendimento de vinte por cento?
- No.
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- Assim o senhor est me matando de ansiedade.
- Jogamos com alguns especuladores de Wall Street.
- Especuladores? Apostando num blend de fuses com risco e investimentos-ncora?
O bigode do sr. Davidson crispou-se de surpresa e satisfao diante do meu conhecimento.
- Quadruplicamos a quantia. A conta agora est na casa dos oitenta milhes de dlares. Mas, a pedido de seu av, s posso lhe entregar sessenta milhes, que so
os dividendos. Os vinte milhes do investimento inicial devero permanecer em garantia do banco, como uma reserva permanente.
Pulei e abracei o homem. Ento, pensei numa pergunta.
- Meu av algum dia lhe disse de onde veio o dinheiro do investimento inicial?
- Nunca fazemos perguntas desta natureza. Somos banqueiros.
- Entendo.
- Entretanto, vejo isso como uma compensao adequada para uma vida brilhante desperdiada por trs daquela cortina de bambu. Imagine se o seu av tivesse feito
a escolha que fiz. Ele poderia ter sido o magnata de um imprio bancrio em Hong-Kong ou Taiwan.
Depois que o homem se retirou, descendo as escadas que rangiam, soltei um grito animal que chocou alguns pedestres na rua.
- Estou rico! Estou podre de rico!
Quando me acalmei, sorri. Vov, seu velho safado! Voc realmente desviou aqueles milhes, como eles disseram. Voc realmente fez isso! Inclinei-me sobre a pequena
janela e berrei:
- Amo voc, vov! - esperando que o velho pudesse me ouvir do outro lado do Oceano Pacfico.
-Amo voc tambm! - respondeu um sem-teto embriagado, sentado na esquina.

Shento

CAPTULO 65

1998
BEIJING
 MEADOS DE NOVEMBRO, BEIJING repousava silenciosamente sob a primeira neve da estao. Heng Tu, com oitenta e muitos anos, respirava com dificuldade, semi-adormecido
em sua espreguiadeira, como um crocodilo na gua rasa. Seus olhos lacrimejavam a cada ataque de tosse e suas pernas estavam inchadas, apesar de estarem levantadas.
Sua vida, que agora consistia em urina quente, fraldas frias, muco amarelo e um leno para cuspir que cheirava mal, havia se reduzido a um tnel estreito com respiraes
difceis e tropeos vacilantes. Urinar sem a sensao de ardncia seria uma graa divina e conseguir chegar ao urinol, sua grande ambio.
Heng Tu, um dia, tinha amado a neve do mesmo modo que amou muitas coisas. Ele tivera, em sua juventude, um rompante literrio, escrevendo um pequeno poema humorstico
revolucionrio, em louvor aos flocos de textura algodoada. As trs primeiras linhas no mereciam citao, mas as ltimas, uma tentativa desajeitada de conseguir
uma rima, eram de partir o corao: "Neve que acende o meu corao  o verdadeiro inimigo de uma alma que no  de tio", j que o vermelho  a cor do comunismo.
Mas a idade havia apagado a sua juventude. Os sonhos caram por terra e a luxria havia sucumbido. Agora, o frio do inverno, soprando seu hlito
468
nas vidraas embaadas, fazia suas noites parecerem longas. Seu corpo idoso estava cheio de dores. A lua parecia uma rf solitria. As estaes, o ritmo da vida,
haviam se tornado degraus de incmodos que iam sempre aumentando - o fim do outono era bronquite garantida; o comeo do inverno, a certeza de uma longa pneumonia;
dezembro fazia doer os ossos; janeiro, fevereiro, maro e abril, um covil de ladres impiedosos.
O vero era seu adversrio, com todo o seu calor, barulho, chuvas bruscas e folhas de capim que pertenciam s flores, aos mosquitos, aos sapos e s cigarras que
cantavam - pequenas vidas e pequenos insetos. Tudo o que ele merecia era o silncio de uma noite fria, o isolamento do inverno gelado. Ele se via como um homem do
inverno, que minguava.
Em sua alma apagada, Heng Tu sentia o mundo girar ao seu redor, mas seus olhos, como uma fruta seca, pouco viam. Ouvia vozes voando e pairando, engrandecidas pelo
silncio que havia dentro dele, mas seus ouvidos cheios de cera no entendiam nada. Num bom dia, ele vivia o que restava da sua vida com humor, e provocava seus
mdicos - os melhores, diziam eles - implorando-lhes que fizessem a sua famosa contagem regressiva de vida.
- Quantos dias me restam? - murmurava Heng Tu.
- O senhor vai viver para sempre. "
- E quem  que quer isso?
- Ns queremos que o senhor queira isso.
Ento, ele comeava sua prpria contagem regressiva. Dez, nove, oito... Depois, perdia a conta e comeava de novo no dia seguinte. Durante todo o tempo em que esteve
 beira da morte, ele insistia para que eu preparasse o cmputo final de um homem - seu enterro.
-  cedo demais para isso - dizia eu gentilmente, sentando-me ao seu lado em seu aposento particular.
- Nunca  cedo demais para se preparar para a prpria morte. Quero uma cerimnia simples. Sou um revolucionrio, entende? - Ele fez uma pausa para respirar algumas
vezes, com dificuldade. - No um revolucionrio do tipo "jogue-me em qualquer vala", mas um revolucionrio simples e elegante.
A montanha Bei Bao, o local de enterro de muitos mrtires comunistas, seria uma opo natural. Mas Heng Tu achava que aquele era um antro para um bando de ladres
mortos, muitos dos quais, em um momento
ou outro, haviam feito da sua vida um inferno. Sua sepultura deveria ser cavada num campo sem ossos e transformada numa paisagem com um milharal, batatas se espalhando
pelo cho e vinhas crescendo. Mas eu no queria ouvir falar nisso. Sentava ao seu lado todos os dias para conversar e chorar. Heng Tu apreciava estas lgrimas, no
que achasse que eu precisava delas, mas ainda assim se sentia bem ao v-las. Enxugando as lgrimas do meu rosto, Heng Tu sentia-se amado, e isso fazia seu corao
arfar numa alegria suave. Ele se lembrava vagamente de um ditado que tinha lido em algum lugar, em alguma poca do passado: Ser amado, mesmo que por uma s pessoa,
 uma prova de que se viveu. Ele, antes, ria da banalizao da abundncia da vida. Um revolucionrio preferiria morrer a expor um pensamento to delicado. Mas agora,
um revolucionrio estava morrendo, e somente ento ele podia entender a sabedoria daquelas palavras. Que irnico alguns conhecimentos despertarem apenas perto da
morte, algumas verdades serem iluminadas s quando a vida comea a escurecer... Pensou em outro provrbio: Apenas na morte ele soube como deveria ter vivido. E sorriu
 verdade - a verdade da loucura da vida. Sempre tarde demais. E nunca o suficiente.
Junto com o amor que recebia de mim, ele sentia a angstia de ter que me deixar sozinho nesse mundo. Heng tambm morreria com um suspiro no corao, como o resto
dos mortais sofridos. Ele tambm deixaria um rastro de sua alma na terra, porque daria seu ltimo suspiro ainda me amando e, com isso, nunca cairia em completo esquecimento.
- Voc no vai herdar nada de bom de mim - disse ele baixinho um dia, durante minha visita diria.
- O senhor me deu tudo - retruquei sinceramente.
- Alis, ser menos do que nada.
- Meu pai no poderia ter me dado coisas melhores - disse eu.
-  mesmo?
Confirmei com a cabea. " - ,   
- O senhor me deu amor. ,  . i Choramos, consolando-nos um ao outro. > ,    ' 
- E por isso, meu garoto, meu legado a voc s pode ser uma coisa, uma coisa apenas: solido.
Houve um silncio longo e difcil. Ento, Heng Tu me ouviu dizer:
- Ningum me amou assim.
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- E ningum teve tanto carinho por mim. Qualquer poder que voc herde de mim vai apenas ampliar a sua solido. No  de surpreender que os antigos imperadores se
autodenominassem "O Solitrio".
- Nunca estarei sozinho com o senhor no meu corao - afirmei, caindo pesadamente de joelhos.
Dia e noite, dormindo ou acordado, Heng Tu rezava. - no para nenhum deus especfico, mas para aquele poder invisvel que animava o seu ser - pedindo uma iluminao
que destrancasse o cadeado de sua culpa e dissolvesse o meu sofrimento, assegurando-me uma vida terrena cheia de alegria sem ele.
Isso tudo veio em pequenos pedaos at que a tapearia de suas palavras finais ficou pronta na minha mente. Finalmente, no rigor do inverno, a mar da morte acelerou
seu passo. Heng Tu era aquele pssaro cheio de penas, perseguido pelas ondas, empurrado para a frente em direo ao seu destino. Subitamente, ele engasgou com um
pouco de muco coagulado com sangue alojado prximo ao seu pomo-de-ado, que pendia, frouxo. Seu rosto ficou vermelho, explodindo em gotas de suor, enquanto seu corpo
empalideceu, amortecido do pescoo para baixo.
A enfermeira Tang inclinou-se para fazer-lhe a respirao boca-a-boca, depois de sugar o muco para fora com seus pulmes potentes, tentando salv-lo da morte. Num
duelo ofegante, Heng Tu foi ressuscitado, mas apenas brevemente. Com a voz trmula, ele pediu:
- Por favor, escreva o seguinte.
- O qu, sr. presidente?
- Minhas ltimas palavras para Shento.
Todos os trs mdicos que o tratavam sacaram de suas canetas, esperando as solenes palavras do poder serem pronunciadas.
Lentamente, com a respirao difcil, Heng Tu falou, engasgado e ofegante.
- Shento... lembre-se... de... Sumi... As canetas escreveram rapidamente.
- ... que ... seu corao. As cabeas balanaram.
- Lembre-se de Balan... sua alma. - Novos acessos de tosse se sucederam. - Voc precisa saber... que no fui eu... quem... salvou voc... no...
Outra placa de muco. Heng Tu tremeu, com os olhos esbugalhados.
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- ... no...? - perguntou um mdico, suando.
- Sr. presidente, por favor, no morra! -... no... barco.
Os trs se entreolharam.
Heng Tu faleceu documente, como um beb que nunca abriu seus olhos para o mundo.
NA MINHA POSSE, DEZ MIL PESSOAS SE reuniram para marchar diante de mim na praa Tiananmen, carregando um enorme retrato meu e exclamando: Viva o presidente Shento!
Viva o Partido Comunistal Fogos de artifcio iluminaram o cu noturno, e canes ecoaram por toda a cidade. De p no meu palanque, observando as criaturas, que eram
como formigas, bradando seus slogans sem sentido, no senti nem um grama de alegria, nem um pedao de xtase sublime ou de sensao da alma que se eleva. Senti-me
sem pai, e toda aquela extravagncia era para mim apenas uma continuao do funeral de Heng Tu, a msica exultante como uma ode varrendo um interminvel espao vazio.
Naquela noite dourada de triunfo napolenico, s consegui pensar nas ltimas palavras de Heng Tu e na ironia de tudo. Heng Tu no tinha sido o meu salvador e eu
havia arriscado minha vida mais de uma vez por aquele homem. Mas no me arrependia disso. Meu amor por ele, ainda que deslocado, havia me redimido, e tal convico
havia frutificado, como estava to evidente diante dos meus olhos.
Olhando para a multido abaixo de mim, no alvoroo da praa Tiananmen, perguntei-me quem teria me salvado, e por que motivo. Quem tinha sido? Um homem piedoso ou
um homem bondoso, me permitindo continuar a viver para que eu pudesse me redimir? Ou seria um homem cruel, querendo apenas que eu saltasse de um barco do destino
que afundava, para outro, e continuasse meu sofrimento, sem pai, sem me, com o mundo persistindo em sua contemplao indiferente? A ltima alma de Balan, o menino
que estava destinado a morrer com sua primeira respirao. Quem havia me salvado?
Heng Tu sabia o tempo todo quem eu era e ainda assim tinha f e confiana em mim. O filho concebido no erro ou criado dignamente, o sangue do seu inimigo jurado
de morte. Ou talvez fosse esta a perversidade de Heng Tu, a maestria do homem mais frio e vingativo, que usa a faca472
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de um filho para matar o corao de un pai. Sangue por sangue, s que era o sangue dos Long o tempo todo. No final, foi o filho - eu, o filho ilegtimo abandonado
- que mandou apunhalar seu prprio pai e joglo ao mar, derramando o mesmo sangue que flua em mim, perseguindo meu prprio irmo.
Pus as mos nos bolsos do casaco. Eu quase podia ver o sangue invisvel escorrendo das minhas mos. Mas, mesmo assim, no sentia nenhum arrependimento.
Fiquei me perguntando sobre o homem poderoso que havia acreditado na histria premente do cordo, contada na popa daquele barco sacolejante da Marinha, onde eu seria
executado. Onde est voc? Por que fez isso? Por que no est aqui ao meu lado, exigindo o que  seu por direito, o prmio por ter salvado a vida de um guiren, um
homem nobre? Se viesse a mim agora, no precisaria pedir, eu lhe daria as estrelas e a lua da minha galxia, a delicadeza e a raridade do meu reino. Resgataria minha
dvida, tornando mais leve no o seu fardo, mas o meu.
Suspirei. Durante o resto da noite da posse, senti-me como um velho fraco, murchando, com pensamentos enrugados. Ah, esta herana maldita - um destino de solido!
Na minha mente, buscava coisas tangveis, palpveis. Meu nico suporte era meu passado distante. Os ecos da voz de Sumi no orfanato, falando alto, seus ps graciosos
e magros, sem sapatos, pulando por sobre a grama macia e o sereno da manh.
Ansiei por aqueles que no podiam retribuir o meu amor. Sumi estava ausente e Balan estava destruda pelo fogo. Mas amando-os - os inalcanveis - no silncio mortal
da minha mente, senti paz. Fechei os olhos, deixando a mente voar  minha terra natal, quelas montanhas escarpadas. Como desejava estar l! Mas eu estava inexoravelmente
cercado pelos meus jovens generais, todos com medalhas penduradas, significando postos que eram tudo para eles. Alm deles, crculos de agentes de segurana afastavam
os que vinham me cumprimentar e os oficiais menos graduados da corte. Vi apenas mscaras de rostos aduladores. No encontrei ali amigos, nem mesmo os que assim se
intitulavam.
Outra rodada de congratulaes me despertou. Era Hito, que ps uma taa de champanhe na minha mo, enquanto comentava que a melhor banda do meu Exrcito havia chegado
para tocar uma msica, especialmente composta para celebrar a minha ascenso  presidncia. ,H ,
A msica era potente e o ritmo era forte. Lembrou-me das montanhas e do mar. Acenei com a cabea e com as mos, como o presidente Mo fazia, e a multido presente
urrou, soltando exclamaes de gratido e gritos de excitao.
Fui embora cedo, com a minha equipe, para a consternao dos meus alegres jovens generais. Retornei  minha manso por trs dos muros vermelhos e fiquei deitado,
sem dormir, a noite inteira. Minha mente repassava imagens da minha infncia. Ento, todas as cores magnficas que preencheram aqueles anos se desvaneceram, tornando-se
um vazio. Neste vazio, fui despido de todo o meu poder e voltei a ser o enjeitado nu que eu era. Meu corao tinha fome e meus ps estavam frios. E o mundo exterior,
isolado completamente da minha manso presidencial, era uma estrada lamacenta e esburacada em Balan, durante a mais mida estao das mones, marcada por uma mirade
de cadveres apodrecidos. Centenas de soldados demonacos gritavam, perseguindo-me como uma presa enfraquecida que tentava usar as unhas para se agarrar num penhasco
escorregadio, at que ca e continuei caindo numa corrente de um mar turbulento.
Encontrei conforto naquela tristeza. Revivendo esta desolao, encontrei felicidade. Que estranho! Permaneci naquele estado mental contraditrio a noite toda, enquanto
pensava que a fadiga finalmente me dominaria e eu acabaria dormindo. Quando acordasse, no dia seguinte, o mundo estaria bem novamente. Mas estava enganado. Minha
mente transtornada deixou-me num estado de letargia por vrios dias, durante os quais me recusei a comer ou a falar com qualquer pessoa. As lembranas de minha infncia
me faziam tremer de frio, apesar de minha manso estar aquecida. Senti-me enjoado e vomitei vrias vezes. Isso preocupou os que estavam ao meu redor. Eles pensaram
que o presidente recm-empossado estava enlouquecendo.
Um dia, quando meu instinto de preservao se agitou, concordei, a contragosto, em ser examinado tanto por um mdico tradicional chins quanto por um mdico de jaleco
branco treinado na medicina ocidental. O primeiro tomou meu pulso, examinou minha lngua e ouviu o som oco, mas compacto, dos meus intestinos. O segundo extraiu
uma grande quantidade do meu sangue, tirou fotos de raio x do meu crnio e das minhas costelas, apalpou meus testculos e finalmente enfiou um dedo no meu nus sem
nem ao menos pedir licena, para a minha furiosa indignao.
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- Fisicamente, no h nenhum problema com o senhor - disse o mdico chins, que havia estudado a medicina ocidental. - Seu corao  forte e seus pulmes esto limpos.
Todos os seus outros rgos parecem estar normais e funcionando bem. Excluindo o imprevisvel, o senhor  capaz de viver at os cem anos. - O mdico experiente sabia
que era a minha cabea que estava doente, mas no ousava diz-lo porque a verdade e sua irm gmea, a honestidade, o haviam enviado mais de uma vez para a cadeia,
e ele no desejava reviver aquele pesadelo.
- Presidente, o senhor est to saudvel quanto Wu Soon - disse o mdico tradicionalista, referindo-se a uma lenda antiga sobre um homem que matou um tigre com as
prprias mos e depois entornou 18 canecas de uma bebida forte sem dar nem um arroto. - Sua vida ser to longa quanto o rio Yang-ts. - Ele deveria ter me avisado
que a doena estava na minha cabea, naquela mente que vagava pela escurido, uma mente que h muito havia perdido o prumo, mas no o fez. Tais palavras teriam causado
a perda da filiao comunista do mdico e o empurrariam para o fundo da hierarquia hospitalar.
A DEPRESSO ACENTUOU-SE, E NESSES momentos mais vulnerveis da minha vida Sumi tornou-se minha nica esperana. Eu ansiava por ela, desesperadamente. Cada dia era
uma tortura lenta, cada noite, uma queimadura branda. As semanas tornaram-se mais longas e os meses mais sombrios a cada dia em que ela no estava comigo.
Num certo dia de outono, sobrevoei o deserto de Gobi num jato at a priso de Xianjiang, onde Sumi estava detida, e a espiei por uma janela entrefechada e escura,
observando-a vagar pelo ptio esburacado.
Ela ainda era linda, com sua cintura fina e a poesia dos seus movimentos, enquanto caminhava pela alameda de pedrinhas. No gostei de ver o toque de prata que percorria
seus cabelos fartos. Aquilo me entristeceu. Maldita idade! Ela deveria ter a juventude eterna. Se no para si mesma, ao menos para mim. Mas os flocos de neve do
inverno haviam cado e tinham embranquecido seu cabelo. No pude me conter e ca em lgrimas. Como pude perd-la, a coisa mais preciosa deste mundo?
Queria abra-la com fora, por trs, acalm-la, fazer amor com ela, consol-la e devor-la, centmetro por centmetro, provando o seu amor e sua alma, a doura
da vida. Subitamente, Sumi pareceu ter sentido minha
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presena; virou-se para olhar em direo  escurido da janela e se enrijeceu. Fixou seu olhar em mim e lentamente recuou. No querendo deix-la escapar, saltei
dentro do ptio e corri at ela. Meus braos longos a envolveram e a ergueram. Ela socou a minha cabea, meus ombros e meu peito com seus punhos, mas no me importei
nem um pouco. Estava intoxicado pela fragrncia do seu corpo. Beijei seu rosto, seu pescoo, seu colo, gemendo sonhadoramente: , i,.-
- Ah, meu corao, minha alma, me perdoe...
O cano rijo da arma presa  minha cintura espetou as costelas de Sumi. Sem hesitao, ela pegou o punho frio da arma, tirou-a com um puxo, botou o dedo no gatilho
e apertou-o por trs vezes.
Meu rosto se contraiu em uma mscara de perplexidade, mas ainda no de dor. Minha boca emitiu gritos espasmdicos e entrecortados. Minhas mos se afrouxaram, meus
braos tombaram, e eu ca molemente aos ps de Sumi.
- Eu mereo isso... Perdoe-me...
O sangue escorreu copiosamente pela minha perna, mas no percebi nem me importei com isso.
- Pode... me perdoar agora? - perguntei com esforo, enquanto uma equipe de soldados da guarnio entrou correndo no ptio.
APESAR DE NO TEREM ME MATADO, os tiros fraturaram minha rtula direita, fazendo de mim um aleijado que mancava. Eu no poderia nem imaginar tiros vindos de outras
mos. Mas vindos dela, era um castigo que aceitava com felicidade.  medida que os dias se passavam e minha dor diminua, sentia-me mil vezes mais leve. Aquela massa
escura dentro de mim morreu com a dor. Fragmentos do precioso passado, a minha j esquecida juventude, pareciam ter voltado, alguns suaves, alguns amargos, mas todos
bons. Quando ficava sozinho, no silncio da noite, repassava o encontro antes dos tiros - cada pequeno detalhe. Isso fazia com que revivesse o meu desejo por Sumi,
e ele acendia um desejo ainda mais forte, que me levava a no pensar em mais nada, apenas em Sumi. Esses pensamentos me ocupavam de um modo total e completo. O cerco
no tinha brechas. No havia como escapar.
Meu apetite voltou e meu gosto pela vida renasceu. Mandava arrumar a mesa para dois na minha elegante sala de jantar, decorada com motivos de folhas da dinastia
Ming, e fingia ter animadas conversas com uma Sumi
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imaginria, sentada diante de mim. Com a luz baixa das velas e uma msica suave ao fundo, eu ria e bebia como se minha companheira imaginria estivesse compartilhando
aquela refeio comigo.
Em meu corao, agradecia a Sumi todos os dias pelo presente que era a sua vida e jurei fazer tudo que estivesse em meu poder para ganhar o seu perdo e, acima de
tudo, o seu amor.
O que deveria fazer? O que poderia fazer para corrigir tudo? Eu havia cometido tantos erros e forjado tanta fria! Meu corao ficou pesado com aquele pensamento.
Minha meta de salvao parecia estar alm de mim mesmo. Como desejava que o mundo fosse simples e inocente novamente!
No MEU ANIVERSRIO DE QUARENTA ANOS, tranquei-me no interior da minha espaosa manso de Zhong Nan Hai, para a completa perplexidade dos meus jovens generais mais
prximos, que queriam festejar essa ocasio memorvel. Queria ficar sozinho. Com um humor soturno, encontrei grande consolo num poema estrangeiro com o qual me deparei
acidentalmente em uma biblioteca, onde agora passava a maior parte do meu tempo. Ele fora escrito por algum poeta estrangeiro, sbio e desesperanoso, mas as palavras
pareciam sair da minha prpria cabea.
No importa que deuses existam
Nenhuma vida  para sempre
Os mortos nunca se levantam
E at o mais cansado dos rios
Ruma seguro para o mar
Dei um longo gole numa garrafa de bebida e sorri quela sabedoria. A morte  a chave dourada. Senti-me grato por todas as vidas serem rios que terminam no mar. Que
bela soluo! Quando o camelo ficasse cansado e o sol fosse mortal, sem osis  vista, a morte desceria para nos aliviar como um anjo. O ciclo perfeito da vida.
O melhor da vida  a morte, pois s ento os vivos encontravam o seu descanso.
Joguei a garrafa no cho com fora, pensando em usar as bordas denteadas em mim mesmo, mas o tapete fofo salvou a garrafa. Ri histericamente. Eu era o comandante
do Exrcito, da Marinha e da Fora Area e no conseguia encontrar uma arma adequada para a minha prpria morte. Ainda havia um resto de bebida na garrafa. Inclinei
a cabea e bebi at a ltima gota. Agora
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estava pronto para tentar de novo. Esforcei-me para erguer o brao direito para jogar a garrafa no cho, mas ele se recusou a seguir o meu desejo. A bebida era forte
demais. Tentei mais uma vez, mas a garrafa escorregou da minha mo e caiu com um baque surdo no tapete pela segunda vez.
Por mais forte que batesse com a garrafa, ela no se quebrava. Quanto mais tentava, mais tonto ficava, at que um estupor embriagado tomou conta de mim. Rendi-me
 escurido que me envolvia. A paz que tanto havia desejado permaneceria durante o tempo que durasse o efeito da bebida.
Quando acordei no dia seguinte, estava cercado de enfermeiras, mdicos e guardas. Hito estava inclinado acima de meu corpo deitado molemente
na cama.
- O que quer de mim? - perguntei, rispidamente. Hito sorriu.
- Estou aqui para lhe dar dois presentes de aniversrio.
- No preciso de presentes. Preciso da... morte. D-me a morte.
- Este presente pode prometer isso - disse Hito, entregando-me um pequeno pacote.
Joguei o pacote para longe e ele caiu no cho. O embrulho malfeito se abriu e um par de velhas sandlias infantis de madeira rolaram de dentro dele.
Sentei-me, fitando-as. - Minhas sandlias. - Eu as peguei cuidadosamente e apertei-as, trmulo, contra o peito, com as lgrimas rolando pelo rosto. - Onde voc as
encontrou? - perguntei com veemncia.
- Um velho louco as deu para mim.
- Onde est ele?
- Foi embora finalmente.
- Embora para onde? Diga-me!
- Ele se apresentou como um mdico de Balan e veio ao nosso porto, pedindo para v-lo, com um sotaque sulista quase ininteligvel. Ns o mandamos embora. Mas ele
continuou voltando. Trs dias depois, ainda estava l, recusando-se a comer e ameaando se matar se no dssemos esse presente a voc. Havia cortado trs dedos em
protesto. Ele s foi embora quando prometi lhe entregar isso.
- V encontr-lo! - ordenei.
- Ele foi embora. Disse que ia voltar para as montanhas.
- O que mais ele disse?
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- Ele me deu esse bilhete. S para voc ler.
Peguei o rolo de seda, escrito no dialeto de Balan. Atravs da cortina embaada das minhas lgrimas, li sofregamente.
Meu querido menino,
Buda me salvou do incndio da aldeia, por razes que desconheo. Quando acordei, voc havia ido embora e pensei por tanto tempo que voc estava morto, meu precioso
filho! Ah, esses anos de solido, esses anos de tristeza sem voc e sua mama/
Cortei fora trs dedos em sua homenagem, um para cada dcada em que senti a sua falta. Perdoe-me por ter esquecido de voc nos meus pensamentos. Mas voc esteve
sempre nas minhas oraes. Todas as dcadas de tristeza precisam terminar. E as dcadas de sangue precisam ser purificadas. Estou aqui para chamar voc de volta
 pureza da nossa terra, longe dos pecados deste mundo sujo e coberto de p. Estou aqui para salvar novamente o menino que, um dia, salvei do penhasco.
Tenho outra bno aguardando voc em nossa casa em Balan. Por favor, no me faa esperar mais. J estou velho. A morte est comigo todos os dias agora.
Seu baba, pela f         " e pela graa, na vida
e na morte.
Chorei amargamente, como uma criana. Fechei os olhos e rezei silenciosamente, pela primeira vez em muitos anos, para as invisveis montanhas altas de Balan. A paz
e o amor retornaram ao meu corao. Eu estava feliz e agradecido. Senti a esperana brotar em mim novamente. Fechei os olhos e deixei minha mente viajar como um
esprito etreo, atravessando o solo vermelho da plancie do Norte, passando pelos rios reluzentes e pairando sobre os cumes deslumbrantes. E l, na paisagem eternamente
sonhadora dos verdes vales do vero, vi o rosto do meu pai adotivo, suas rugas profundas como os veios das pedras das montanhas tecendo-se lentamente em um sorriso
de bondade, de amor - um sorriso de Buda. Meu baba abriu os braos e me abraou. Senti-me amado novamente.
Um pensamento poderoso me ocorreu e, rapidamente, peguei uma caneta na minha mesa, para que ele no voasse e se perdesse. Redigi uma
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carta que, apenas alguns minutos antes, nunca poderia imaginar ter escrito. Escrevi at minhas mos tremerem.
Querida Sumi,
Vou torn-la livre, livre para voar por sobre a terra novamente. E vou abandonar o atributo de poder que me condenou at agora  eterna escravido. O velho Shento
morreu. Um novo homem se ergue agora. Cheguei ao fundo do abismo. Vejo apenas a escurido, exceto por um ponto de luz, que  voc.
Perdoe-me por ter pecado. Conceda-me uma chance para que eu possa me redimir por todos os meus atos, erros e pecados, por mais incontveis que eles sejam. Estou
pronto para um novo comeo e ele s poder ser concedido por sua graa.
Junte-se a mim. Venha purificar-me no ar intacto de Balan, na gua pura da minha terra natal. Venha refazer Balan comigo, escavar as runas, reconstruir sobre o
que restou e o que permaneceu. Venha consertar minhas asas quebradas, iluminar minha alma obscurecida. Venha, para que eu possa retribuir o que no poderia ser retribudo
mesmo em muitas outras vidas vindouras.
Com a mo trmula, o seu desonrado
Beijei e selei o envelope. No dia seguinte, minhas palavras de amor iriam para longe, para a nica moa que amei. No dia seguinte, eu arriscaria tudo.

 CAPTULO 66

1998
NOVAYORK
VESTI-ME COM o MEU TERNO PREDILETO da Savile Row, sapatos de bico fino, gravata Hermes e um par de abotoaduras em formato de baco, um presente do banqueiro da J.P.
Morgan. Tudo isto era apenas o meu uniforme, o preo por estar fazendo negcios nos arranha-cus de Manhattan. E eu havia feito grandes negcios com o capital inicial
do meu av - navegao comercial, aes, construo civil, petrleo e mercado imobilirio. Eu era dono de alguns prdios em Wall Street, sendo que o meu favorito
era o nmero 40, um monstro clssico do capitalismo, solidamente situado entre outros gigantes na mesma rua. Mas, de modo geral, preferia mesmo Midtown, especialmente
Park Avenue. Foi l que escolhi situar meu quartel-general, cercado por outros elegantes membros da elite capitalista, escritrios modernos de advocacia e bancos
de investimento de primeira linha. Nunca me arrependi de ter pago o que paguei pelo prdio alto e negro, com cho de mrmore no hall de entrada e um majestoso terrao,
que me permitia chegar de helicptero. O heliponto era contornado por uma pista de corrida e tinha uma magnfica vista panormica da rea mais luxuosa de Manhattan.
Em apenas um ano, o valor do prdio j havia dobrado. O mercado imobilirio de Manhattan  mesmo uma loucura.  preciso viver aqui para entender a sua beleza.
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Havia um boom de construes acontecendo no Extremo Oriente, e o ramo da navegao comercial estava melhor do que nunca. As mercadorias tinham de ser embarcadas
em nossos centros produtores na sia, e as reservas de petrleo e gs que a minha companhia havia ajudado a perfurar e refinar na Sibria eram minas de ouro, que
demandavam uma frota maior de navios cargueiros de linhas regulares. A lista poderia continuar. Mas no eram apenas os negcios que ocupavam a minha mente.
No havia um dia em que eu no pensasse sobre o meu movimento, sobre a democracia na China e sobre aquele tirano do meu meio-irmo, Shento. Pela causa eu seria capaz
de morrer; contra ele, lutaria at a morte. Eu havia retirado centenas de dissidentes da China e enviado milhes de dlares em auxlio s pessoas que lutavam ativamente
contra o reinado de Shento. Outros tantos milhes estariam a caminho, assim que eu conseguisse que os bancos de Hong-Kong os convertessem em renminbi, a moeda da
China.
A melhor notcia, aquela pela qual eu tinha esperado, era que no apenas mame e vov estavam a salvo, mas que papai tinha sido resgatado por um pescador, estava
vivendo tranqilamente sob falsa identidade numa vila de pescadores e recebia os cuidados do sr. Koon.
Mas todas essas maravilhas da vida e presentes de Buda s aumentavam o meu pesar pela ausncia de Sumi. Muitas vezes, eu ficava solitrio no meu apartamento no quadragsimo
andar da Trump Tower, contemplando o mar de luzes que piscavam aos meus ps, sonhando e pensando nela.
Podia at ver o deserto de Gobi, vermelho e vazio, cercando Sumi, queimando e desgastando sua juventude e sua beleza. A luz tranqila da lua, a deusa do amor, alongava-se
do Atlntico ao Pacfico, levando-me alm dos oceanos, das plancies e dos vales at Sumi. Eu ria, conversava e sonhava com ela. Para escutar o eco dos seus pensamentos
e da sua alma, eu lia um trecho do seu livro e depois fechava os olhos, lembrando-me de como ela se deixava aninhar em meus braos.
Com o passar do tempo, Sumi deixou de existir no mundo das coisas concretas e passou a viver apenas em ecos de riachos, em sombras de crregos e nos vales de salgueiros
da minha alma. Eu temia pelo dia em que ela no mais existisse. Diariamente este pensamento me torturava e me castigava, um vazio crescente que sangrava no mago
do meu ser. s vezes, eu era consumido por uma culpa que me queimava. Por que consegui viver livremente, enquanto ela sofria uma existncia sombria numa masmorra?
E
eu no s estava livre, mas estava bem, bem o suficiente para estar na Park Avenue, na Trump Tower. Eu estava at bem demais.
Quando vou v-la de novo? Este pensamento inundava todos os meus dias, onde quer que eu estivesse - no escritrio luxuoso, na limusine, durante as exaltadas reunies
de negcios com os meus ambiciosos funcionrios e durante os relatrios promissores do sucesso fenomenal da minha companhia.
Quando?
Um dia recebi um telefonema de um velho amigo, David Goldberg, que me convidou para almoar. Ele geralmente me ligava por dois motivos, e um deles era dinheiro.
Eu havia passado de dissidente necessitado a algum capaz de oferecer ampla assistncia. Quando o telefonema era sobre dinheiro, Goldberg era simptico e paciente.
Mas hoje, estava ofegante e intenso demais para que a conversa fosse de natureza financeira. A ligao deveria ser por outro motivo - Sumi. Pedi  minha secretria
que adiasse todos os meus compromissos e fizesse uma reserva num restaurante japons prximo ao meu escritrio.
- Odeio esse restaurante - disse Goldberg, afrouxando a gravata ao chegar.
- Eu tambm.
- Por que ento estamos comendo aqui?
- Os preos daqui afugentam todo mundo, e assim podemos conversar  vontade.
- Bom, neste caso, saque, por favor - disse Goldberg.
- S se voc me deixar pagar.
- E eu alguma vez disse que no? - disse Goldberg examinando o menu. - E voc deveria me tratar muito bem, pelo que eu tenho para contar.
- Diga, ento - pedi, com impacincia.
Goldberg olhou  nossa volta o restaurante quase vazio e sussurrou:
Nosso agente duplo dentro da priso de Xinjiang me informou hoje
de manh que o demnio foi at l para ver Sumi.
- O que ele queria dela? - perguntei, com o peito arfando.
- Voc no vai gostar de ouvir isso.
- Outra rodada de saque, por favor - pedi ao garom.
- Amor.
- Amor? Mas o cara cortou a lngua dela fora!
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- Nosso homem informou que Shento pulou em cima dela, abraando-a e beijando-a at que ela atirou nele...
- Ela atirou nele? Ele est morto?
- No. Infelizmente, ele sobreviveu.
Engoli o saque e bati com o copo na mesa com tanta fora que at o sushiman parou o que estava fazendo e veio pedir desculpas pela demora no atendimento.
- S h uma coisa a ser feita - disse eu.
- E posso ajudar em algo?
- Descubra para mim a localizao especfica de Sumi. Quero saber a posio exata da priso no deserto. E consiga tambm a rotina do esquema de segurana da priso.
- No acho que isso seja uma boa idia... - observou Goldberg baixando os palitinhos.
- Outra coisa. Por favor, informe-a com antecedncia para que ela esteja preparada.
- Nisso no posso ajudar. Voc vai morrer tentando salv-la. Ela vai...
- Consiga-me o que preciso. Se eu morrer, deixarei um milho de dlares em seu nome no meu testamento.
- No sei o que dizer.
- No diga nada. S faa o que lhe pedi.
- Tan, no faa isso! - implorou Goldberg calmamente, enquanto eu me levantava para sair do restaurante.
O CU ESTAVA AZUL, DE UM AZUL esplendoroso. As montanhas eram ameaadoras e a terra, toda fragmentada e montanhosa, estendia-se nua e vulnervel, abaixo de mim.
Eu me senti pequeno e insignificante, espremido entre um cu gigantesco e uma terra colossal, no vo poeirento atravs daquele deserto dourado.
Tinha apenas uma coisa em mente - Sumi. Cada segundo que passava me levava para mais perto dela. Fiquei nervoso quando levantamos vo, prximo  fronteira do Afeganisto,
com a ajuda de Ali Mossabi, o amigo rabe de Goldberg e companheiro ativista dos direitos humanos. Mas quando o helicptero atravessou a rida fronteira da China,
me acalmei. Toda a minha energia nervosa se condensou numa urgncia em salvar Sumi. Passei e
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repassei mentalmente as imagens que teria ao v-la novamente - abraos, beijos, palavras de amor, verificando cada centmetro, cada clula sua para ter certeza de
que estava inteira, total e completamente ali. Uma sensao sublime me arrebatou. Alm de tudo, eu estava profundamente consciente do perigo e da loucura, como Goldberg
disse, que era me envolver numa misso secreta e perigosa como aquela.
O fato de estar cercado por ex-integrantes da Fora de Operaes Especiais da Marinha dos EUA era apenas um pequeno consolo, pois eu estava enfrentando um demnio
louco. Se a misso fosse descoberta, Shento utilizaria as armas mais poderosas e cruis para nos derrubar.
Dunas de areia sem-fim passavam por meu campo visual, e um le'to de rio seco surgiu, mas logo ficou para trs, abaixo de ns. Em alguns minutos mudaramos de aeronave.
Dali em diante, no haveria como voltar.
- A bandeira - disse o piloto, um veterano da guerra do Vietn, olhando adiante.
No horizonte, a bandeira era um ponto que ardia na monotonia da areia, aumentando  medida que nos aproximvamos. Alguns homens estavam acenando, de p, ao lado
de um helicptero pintado com uma bandeira vermelha, o emblema do Exrcito Vermelho da China.
- Obrigado, papai - sussurrei.
Ele havia me ajudado a articular esta operao, contatando homens do antigo exrcito a quem confiaria a sua vida. E estes homens estavam ali, prontos e dispostos
a me levar para onde estava o meu amor.
Nosso helicptero circulou em torno da bandeira vermelha e pousou, causando uma tempestade de areia. Durante alguns minutos, a poeira rodopiou, como se fosse um
castigo dos cus. Depois se acomodou.
Meus seis homens e eu, todos vestidos com o uniforme verde do Exrcito Vermelho chins, saltamos nos sulcos e fendas da areia. O toque do antigo deserto era macio
e agreste. Nenhum homem tinha estado aqui antes.
Apesar de o tempo ser vital, e cada segundo representar uma batida do corao, senti um desejo irrefrevel de beijar a terra. Aquela era a terra do meu pai, e do
pai do meu pai. Uma terra que desde sempre tinha morado nos meus sonhos. Nos diminutos gros de areia, podia sentir o amor dos meus pais e o gosto das suas lgrimas
e de sua angstia.
Ajoelhei-me e baixei a cabea, fazendo kowtow cinco vezes, para cada um dos meus entes queridos. Ento me levantei e percorri a distncia que faltava.- Est pronto,
sr. Long? - perguntou Gibson. Ele era o comandante da juipe. As hlices do helicptero do Exrcito Vemelho haviam comeado a se lovimentar novamente, levantando
outro redemoinho de vento e areia.
Pulei para dentro e, com um impulso, eu estava a bordo. Ao ver o he;ptero cheio de gente, fiquei boquiaberto.
- Papai? Mame? Vov?
Sentado no interior do helicptero, papai estava usando seu uniforme rde, com armas, uma granada e munio presas em seu corpo com corias. Vov segurava uma terrvel
Uzi nos braos. E mame, sempre vestida delicadamente, tinha envolvido a cabea com um xale de seda e segurava, nervosamente, um revlver prateado. Eles se aproximaram
de mim e me envolveram mum abrao apertado.
- Ah, meu querido filho! Voc est com uma aparncia tima! - eximou mame.
- Tan, meu rapaz, voc deixou crescer a barba - observou papai. Afastamo-nos um pouco para examinar um ao outro. Anos de separao
sapareceram como vapor no deserto quente. Mame continuou apertando minha mo. Papai apenas me olhou, sorrindo orgulhosamente. Vov foi o imeiro a quebrar o silncio:
- Ouvi falar que voc est muito bem.
- Obrigado, vov. No imaginava o quanto voc sabia prever o futuro. ;sejo apenas ter um tero da sua sabedoria.
- Isso  bastante questionvel, considerando o que viemos fazer aqui.
- Por que vocs todos vieram arriscar suas vidas? - perguntei. Houve um momento de silncio, enquanto o helicptero sobrevoava
mar de ondas de areia.
- Pensamos em pegar uma carona para fora da China junto com voc disse mame, pragmaticamente.
- E posso ajudar - disse papai.
- Eu tambm - completou vov. - Para que serve um velho como < afinal? Vamos dar um pontap na bunda deles.Assenti em silncio. Meus olhos lacrimejavam. Abracei
os trs muitas vezes como se fosse a primeira e a ltima vez.
Agora - disse papai -, estaremos l em questo de minutos. Meu >soal em terra protege a posio para a nossa retirada. Logo que a pegar-
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ns, vamos atravessar a fronteira para a Monglia Exterior. De l, tenho amigos que nos esperam para atravessar a Rssia.
- A Rssia? - perguntei. Papai fez que sim.
- Onde o dinheiro pode comprar qualquer coisa.
- De l, vou lhe mostrar o mundo - prometi.
- Preparar para a aterrissagem - anunciou o piloto. No horizonte, num turbilho, apareceu uma mancha escura. Eram construes espalhadas no deserto como uma cobra
enroscada. Uma bandeira vermelha ondulava levemente no mastro, e viam-se os guardas com fuzis automticos nos ombros.
Sentia o corao na boca, a cabea quente e palpitando com um grande fluxo de sangue. Um intenso sentimento de dio misturou-se com a suave emoo do amor. Minha
respirao estava entrecortada e minhas mos tremiam ligeiramente.
O barulho agitou o complexo carcerrio envolto na sonolncia. Alguns cachorros latiam sem que a gente os ouvisse, correndo em crculos debaixo da sombra da aeronave.
Houve uma confuso geral de guardas correndo e sacando as armas, prontamente, dos ombros.
- Ajam com rapidez, homens - berrou o capito Gibson.
- Sim, senhor - responderam seus homens.
- Nossa operao vai terminar em dois minutos - informou Gibson.
- Sim, senhor.
- Est pronto, sr. Long? - perguntou Gibson.
- Sim, capito. >
- Vamos lhe dar cobertura quando estiver entrando. Assim que Sumi estiver em nossas mos, deixe-a conosco. Voc deve voltar imediatamente ao nosso helicptero.
- E se no conseguirmos encontr-la? - perguntei.
- Abortaremos a operao em dois minutos, acontea o que acontecer. Ou estaremos arriscando a vida de todos, inclusive a da sua famlia.
Agora, o helicptero estava quase beijando o cho, sobrevoando o ptio de Sumi. Vi um homem baixinho levantando uma bandeira vermelha - o
nosso contato. /
- At daqui a pouco, mame, papai, vov.
- Vamos lhe dar cobertura - prometeu papai.
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- Tenho a sensao de que ela no vai estar l - disse mame, repentinamente.
- Mame, no  hora para isso.
- S queria que voc soubesse - disse ela.
Os guardas l embaixo estavam berrando e correndo desesperadamente. Papai gritou no alto-falante do helicptero:
- O Exrcito Vermelho de Xinjiang est efetuando uma manobra militar de surpresa. No h necessidade para alarme. Por favor, mantenham a calma.
Os guardas se acalmaram um pouco. A porta do helicptero se abriu e quatro dos homens pularam no ptio, com Gibson na dianteira.
Corri  janela 307, assinalada pelo contato. De l, vi um pedao da minscula cela de Sumi.
- Sumi! - gritei. Nenhuma resposta.
Corri at a cela. Estava vazia.
O contato gritou tambm, mas sua voz foi engolida pelo rugido do helicptero. Ele gesticulava violentamente.
- Onde est Sumi? - perguntei.
- Foi embora!
- Est morta?
- No, apenas foi embora.
- Para onde?
- No sei.
- Quer dizer que vim aqui para nada?
- Ela deixou isso para o senhor. - O contato me passou um pequeno bilhete dobrado. - Leia no helicptero. Agora v, antes que fiquem desconfiados e comecem a usar
as metralhadoras.
- Mas no posso...
- O senhor tem que ir embora agora.
- Por favor, o que mais voc pode me dizer sobre ela?
- Mais nada. Ela saiu de repente.
- Um minuto e dez segundos - berrou Gibson. - Estou vendo uma metralhadora  esquerda.
Eu estava perdido. No podia crer que aquele era o meu destino. Ajoelhei-me, socando o cho com os punhos. Gibson gritou novamente.
- Vamos embora, sr. Long. A misso est abortada.
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- No posso ir sem Sumi!
Pelas balas que atingiam o telhado, pude perceber que havia mais de uma metralhadora em ao. O som parecia com o de grossas gotas de chuva. Beijei as barras da
cela atravs das quais Sumi devia ter olhado todos os dias naqueles ltimos anos.
Enquanto me virava para ir embora da cela vazia, uma bala me atingiu na coxa direita. Fui derrubado no mesmo instante. O sangue manchou a minha cala. No senti
nenhuma dor. Pelo contrrio, fiquei orgulhoso por meu sangue ter sido derramado por ela. Sorri e me levantei, apoiando-me no capito Gibson, e deixei que ele me
carregasse. Vim por amor e sa com amor no corao.
O capito e dois dos seus homens jogaram-me no helicptero, e samos voando pelo amarelo sem-fim do deserto.
Passou-se muito tempo at que eu conseguisse pensar novamente. Eu mal pude perceber que minha me chorava e meu pai estava xingando. Vov apenas rezava silenciosamente.
Abri o punho, que ainda encerrava o bilhete de Sumi manchado de sangue. Com grande sofrimento, li as palavras da mulher que eu amaria para sempre e que mais uma
vez havia me escapado. Meu querido Tan,
Quando voc estiver lendo essa carta, j terei viajado para o sul, onde o nosso amor comeou. Na minha solido, muitas vezes recordei aqueles dias dourados da juventude.
Ah, como ansiava reviver aqueles tempos j passados! Um convite oportuno do sr. Koon para que eu seja diretora do Colgio da Baa Lu Ching tornou o meu desejo possvel.
A paz da Baa de Lu Ching combina com o silncio dentro de mim. Nunca me sentirei solitria novamente. Estarei cercada pelos sons e pela fria dos que so jovens
e vibrantes. A vida ser retomada atravs deles e prolongada deste modo.
Adeus, amor. Sumi
P.S.: Tai Ping est comigo. Ele me disse que ama voc. E deveria amlo mesmo.

 Shento

CAPTULO 67 '

1998
SE EU FOSSE PINTAR o RETRATO DA MINHA morte que se aproximava, teria pincelado minha tela em branco com o seguinte cenrio: uma montanha de Balan com seu cume entrevisto
na neblina, uma guia conquistando o vasto cu azul, o esprito imortal da jovem me que me deu  luz. As encostas das montanhas pontilhadas de flores exuberantes
crescendo em tufos, irrompendo do peso das pedras, e de dentro das fendas da terra. As primeiras luzes do sol nascente inundam a terra com um toque de placidez.
No ar, flutuam os ecos finos e suaves dos jovens pastores chamando seus rebanhos de ovelhas e iaques. Em meio a todas essas coisas pintadas, esto as sombras das
minhas pessoas amadas, aqueles rostos que freqentam os meus sonhos.
Mas a realidade  muitas vezes a anttese dos nossos sonhos.
Na subida do monte Balan, eu ia mancando, seguido apenas por minha prpria sombra. Ao meu encontro, vinha baba, o velho mdico que agora estava quase cego e completamente
surdo. Suas mos trmulas - com trs dedos faltando - tateavam o espao  sua frente, na expectativa, esperando.
- Shento. Shento, meu menino. - As lgrimas rolaram pelo rosto crispado do velho mdico. 
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Segui adiante pelo caminho poeirento e ajoelhei-me diante dele em silncio.
- Eu decepcionei voc, baba - disse eu.
- Voc no. O seu destino sim.
Baba segurou o meu rosto. Beijou minha testa, e depois pendurou um medalho de prata no meu pescoo.
-Meu medalho!-exclamei, surpreso. O fatdico presente de Ding Long, tirado de mim naquele maldito barco da Marinha. - De onde veio isso?
- Do homem que salvou sua vida.
- Quem?
- O mesmo homem que me confiou este envelope - disse baba, entregando-me um envelope fechado -, um homem de idade que se apresentou como sr. Long. Ele me procurou
depois de ler sobre a minha greve de fome do lado de fora do seu palcio em Beijing.
Rapidamente, eu o abri. Fiquei chocado ao ver um cheque visado com o absurdo valor de vinte milhes de dlares em meu nome. O banco credor era nada menos que o legendrio
J.P. Morgan & Cia. de Nova York, Estados Unidos da Amrica.
Havia um s homem que poderia ter feito as duas aes - o banqueiro. Meu rosto empalideceu e pegou fogo ao mesmo tempo. Minhas mos tremeram como se o cheque fosse
uma espada de fogo, golpeando a parte mais sensvel da minha alma.
- No. No pode ser.
- Meu filho, no chore pelo passado, mas sorria para abraar o seu futuro - disse baba tentando me reconfortar. - Esse medalho  um smbolo do seu passado. Este
dinheiro representa o seu futuro. Segundo o costume de Balan, na tradio de devoo e sangue, voc no fez nada para merecer nenhum dos dois. Mas eles so smbolos
de amor. A virtude est no doador, no ato de doar. O receptor no deve envergonh-lo com a recusa. Ambos os presentes devem permanecer com voc para sempre, ou a
virtude ficar maculada e o amor ser perdido.
- H mais algum esperando por mim? - perguntei, mal conseguindo me recompor.
- No - disse baba. - S eu e esta carta, enviada de Fujian. Abri-a avidamente. Meu corao ficou pesado, apesar das palavras de
amor que embaaram minha viso.
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Tranqiliza-me saber das suas intenes. Nunca  tarde demais para a salvao. Deus sorri para aqueles que acordam para ver a luz da virtude novamente. O amor nunca
deve ser esquecido. O dio ser apagado. Balan  o seu bero, onde tudo comeou. O esprito da terra vai aliment-lo, vai tratar dos seus ferimentos e de suas mgoas,
vai elev-lo e revigor-lo. No me procure. No h necessidade de me procurar. Estou onde repousa a paz e onde mora o silncio.
Sumi
S depois de um longo silncio olhei para cima, para a distncia... a distncia azul, muito azul do cu.
Esta terra de montanhas Terra de poeira amarela Terra de comeo Que no conhece fim.

EDITORA RESPONSVEL Izabel Aleixo
PRODUO EDITORIAL
Daniele Cajueiro
Janana Sentia
REVISO DE TRADUO
Manana Gouva
REVISO
Andra Portolomeos feria Serafim
PROJETO GRFICO E DIAGRAMAO Marcos Senna - Llum Design e Comunicao
Este livro foi impresso em So Paulo, em janeiro de 2008, pela Lis Grfica e Editora, para a Editora Nova Fronteira.
A fonte usada no miolo  Mmion, corpo 11,5/15. O papel do miolo  plen soft 70g/m2, e o da capa  carto 250g/m2.
Visite nosso site: www.novafronteira.com.br



Fim.
